Rio de Janeiro, 30 mai (EFE).- 'Juntos num só ritmo' é o lema oficial
da Copa do Mundo de 2014, divulgado nesta quarta-feira pela Fifa que,
segundo a entidade, representa o toque único que o Brasil trará ao
Mundial, que promete ser vibrante e cheio de emoção.
A
apresentação do slogan foi feita em reunião da entidade com o Comitê
Organizador Local (COL) e o Governo brasileiro. Também foi divulgado o
vídeo oficial da Copa, com imagens do país e jogadas de astros do
futebol mundial, como Neymar e Lionel Messi. O vídeo está disponível na
internet em 'http://www.youtube.com/fifatv'.
O slogan oficial foi
criado pela agência de comunicação brasileira Aktuell, que ganhou
concurso disputado por seis diferentes firmas, que apresentaram um total
de 26 propostas.
A frase servirá de guia para a criação dos temas
centrais que representarão outros eventos que a Fifa promoverá no
Brasil, como as cerimônias de abertura e encerramento do Copa do Mundo e
as festas de torcedores.
'O lema oficial é o resultado do esforço
empreendido pelo Brasil e o mundo do futebol visando a sintetizar em
mensagem o sabor único que dará país ao Mundial', afirmou o
secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke.
O ex-atacante Ronaldo,
membro do Comitê Organizador da Copa, lembrou que o futebol pode ser
sentido em todo o país. 'O futebol significa tudo para os brasileiros. É
por isso que tem tanto potencial de unir as pessoas e de ser uma força
benéfica', disse o atacante campeão do mundo em 2002. EFE
Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/juntos-num-so-ritmo-e-escolhido-o-lema-oficial-da-copa-do-mundo-de-2014
quarta-feira, 30 de maio de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
Ética para meu filho (Fernando Savater)
"Robinson
Crusoé passeia por uma das praias da ilha onde o confinaram uma
inoportuna tempestade seguida de naufrágio. Leva seu papagaio ao ombro e
protege-se do sol graças à sombrinha fabricada com folhas de palmeira,
que o faz sentir orgulho, com razão, de sua habilidade. Ele acha que, em
vista das circunstâncias, até que não se arranjou mal. Agora tem um
refúgio para se proteger contra as inclemências do tempo e os ataques
dos animais selvagens, sabe onde conseguir alimento e bebida, tem roupas
para se abrigar, que ele mesmo fez com elementos naturais da ilha, os
dóceis serviços de um pequeno rebanho de cabras, etc. Enfim, acha que
sabe arranjar-se para levar mais ou menos sua vida de náufrago
solitário. Robinson continua passeando, e está contente consigo mesmo,
que por um momento parece não sentir falta de nada. De repente, detém-se
com um sobressalto. Ali, na areia branca, desenha-se uma marca que vai
revolucionar toda a sua pacífica existência: a pegada humana.
De
quem será? Amigo ou inimigo? Talvez um inimigo que possa se tornar
amigo? Homem ou mulher? Como se entenderá com ele, ou ela? Como irá tratá-lo?
Robinson já estava acostumado a se fazer perguntas desde que chegou à
ilha e a resolver problemas do modo mais engenhoso possível: o que vou
comer? Onde vou me abrigar? Como posso proteger-me do sol? Mas agora a
situação não é a mesma, pois não se ttrata de acontecimentos naturais,
como a fome ou a chuva, nem de animais selvagens, mas com um outro ser
humano, ou seja, com outro Robinson ou com outros Robinsons e
Robinsonas. Diante dos elementos ou dos animais, Robinson pôde
comportar-se sem atender a nada além de sua necessidade de
sobrevivência, Tratava-se de ver se podia com eles ou se eles podiam com
ele, sem mais complicações. Mas diante de seres humanos a coisa já não é
tão simples. Ele deve sobreviver, sem dúvida, mas não de qualquer modo.
Se Robinson transformou-se num animal como os outros que perambulam
pela selva, por causa de sua solidão e sua desventura, sua única
preocupação será saber se o desconhecido dono da pegada é um inimigo a
ser eliminado ou uma presa a ser devorada. Mas se quer continuar sendo
homem... Então já não estará lidando com uma presa ou um simples
inimigo, mas com um rival ou um possível companheiro: de todo o modo,
com um semelhante.
Enquanto
está só, Robinson enfrenta questões técnicas, mecânicas, higiénicas,
inclusive científicas, se é que você me entende. A questão é salvar a
vida num meio hostil e desconhecido. Mas quando ele encontra a pegada de
Sexta-Feira na areia da praia começam seus problemas éticos. Já não se
trata apenas de sobreviver; como um animal selvagem ou uma alcachofra,
perdido na natureza; agora precisa começar a viver humanamente, ou seja, com outros ou contra outros homens, mas entre
homens. O que faz a vida ser “humana” é o transcorrer em companhia de
seres humanos, falando com eles, pactuando e mentindo, sendo respeitado
ou traído, amando, fazendo projetos e recordando o passado,
desafiando-se, organizando juntos as coisas comuns, jogando, trocando
símbolos... A ética não se ocupa em saber como se alimentar melhor, qual
a maneira mais recomendável de se proteger do frio ou o que fazer para
atravessar um rio sem se afogar, todas questões muito importantes, sem
dúvida, para a sobrevivência em determinadas circunstâncias; o que
interessa à ética, o que constitui sua especialidade, é
como viver bem a vida humana, a vida que transcorre entre seres humanos.
Se não soubermos como nos arranjar para sobreviver em meio de perigos
naturais, perderemos a vida, o que sem dúvida será um grande dano; mas,
se não tivermos nem idéia de ética, perderemos ou prejudicaremos o
humano de nossa vida, o que, francamente, também não tem graça nenhuma."
Fonte: Romanticos e conspiradores
sábado, 26 de maio de 2012
Julgamento de Sócrates é recriado em Atenas
Louisa Gouliamaki / AFP |
Quase 2.500 anos depois da condenação de Sócrates por ter desafiado as leis da pólis, Atenas volta a "julgar" a partir desta sexta-feira o filósofo grego, para tirar lições para superar da crise atual.
"Aqui estamos falando de democracia contra oligarquia, de liberdade de expressão em tempos de crise nacional, da sabedoria dos eleitores contra sua não-sabedoria", e graças ao processo fictício poderão ser "debatidos novamente todos estes temas", comemora Loretta Preska, uma juíza nova-iorquina que nesta sexta-feira será a presidente do tribunal.
Sócrates se defendeu no século IV a.C. diante de 500 atenienses, cidadãos, juízes e jurados. Nesta sexta-feira, na fundação Onassis de Atenas, um painel de dez juízes europeus e americanos ouvirá os argumentos de advogados internacionais a favor ou contra sua condenação.
Os juízes e o público - 800 espectadores e os internautas que seguirão a audiência ao vivo (http://www.sgt.gr) - decidirão se Sócrates foi culpado de desafiar os deuses da pólis, introduzir novas crenças e corromper a juventude.
Traidor para uns, mestre para outros, Sócrates colocava em questão a "doxa', a opinião comum, com base em perguntas com as quais levava seus discípulos a formular pensamentos que estavam latentes neles. O método é conhecido como maiêutica.
Questionamentos
Suas lições, que nunca escreveu e foram preservadas por seu discípulo Platão, questionavam uma vasta gama de temas, entre eles a política e a moral, o que rendeu a ele muitos inimigos.
"Claro que há um vínculo entre o processo de Sócrates e a atualidade, mas não apenas a atualidade grega. O tema é diacrônico e intercultural", explica Anthony Papadimitriu, presidente da fundação Onassis, organizadora do evento.
Através de Sócrates, "é abordada a questão dos limites da liberdade de palavra e pensamento. Até onde pode ir o cidadão que está contra o regime? Quais são os direitos do regime democrático contra os cidadãos?", explica.
"Também é levantada a questão da justiça. A ideia da inocência de Sócrates foi um pretexto para difamar a democracia ateniense. Trata-se de restabelecer a reputação da democracia grega", afirma Papadimitriu, que defenderá a pólis de Atenas.
Patrick Simon, advogado francês, será um dos defensores de Sócrates.
"Deve a democracia ter medo das opiniões contrárias e do livre arbítrio? Deve-se condenar ideias?", pergunta-se o advogado, feliz de poder participar do processo.
Os organizadores consideram que o processo fictício pode ser benéfico para uma Grécia em plena crise.
Nos últimos meses, a questão da democracia agitou o debate no país.
Manifestações
A violência do Estado contra um povo enraivecido pelas duras medidas de rigor, como ocorreu nas manifestações contra os planos de austeridade, ou a questão da legitimidade do governo anterior de Lucas Papademos, não eleito, suscitaram muitas perguntas.
"A Grécia pode estar vivendo um período difícil, mas acreditamos que devemos superar esta fase, como superamos os romanos, os turcos, os alemães e a cicuta", destaca Papadimitriu.
"Também espero que superemos a sabedoria dos eleitores", ironiza, dias antes da realização no dia 17 de junho de novas eleições legislativas. Nas eleições anteriores, os partidos hostis à austeridade obtiveram maioria e não foi possível formar um governo de coalizão.
O voto dos gregos, que tem cores de referendo a favor ou contra o euro, é esperado com muita atenção no exterior.
Segundo as pesquisas, o partido mais votado será o de esquerda radical Syriza, que pede a anulação das medidas de austeridade impostas ao país em troca de ajuda financeira da UE e do Fundo Monetário Internacional.
Fonte: http://www.cenariomt.com.br/noticia.asp?cod=199361&codDep=1
sexta-feira, 25 de maio de 2012
A filosofia e o "agon"(luta) de Ulisses
Aquela
expressão muito feliz do Prof. Delfim Leão ainda ecoa em meus
ouvidos: HOMERO É UM MANANCIAL DE INFORMAÇÕES QUE NÃO PÁRA,
QUE NÃO CESSA DE NOS SURPREENDER(in Ulisses e o espírito agónico
grego: o herói da imaginação, do sacrifício e do conhecimento,
Universidade de Coimbra, 2011).
Permitam-me,
com isso, puxar um pouco a sardinha pro meu lado, já que tenho uma
formação filosófica.
Partindo
da ideia grega de Agon, de que a vida é como uma luta sem
fim, presente inclusive nas guerras descritas por Homero, o filósofo
moderno Nietzsche, pelo seu filtro filosófico e filológico, nos
brinda com um texto belíssimo de sustentação das qualidades
humanas e naturais dos gregos antigos, especialmente na epopeia e na
tragédia. "O Agon em Homero", in Cinco prefácios para
cinco livros não escritos. Nesse texto, Nietzsche aponta o
homem grego como sendo movido pela relação entre suas qualidades
humanas e qualidades profundamente naturais. Quer mostrar que o homem
grego é fiel aos seus instintos naturais, aos seus impulsos,
fazendo-o aproximar-se ainda mais das condições naturais de sua
existência. Segundo ele, os gestos violentos, impulsivos e
aterradores, a crueldade, os excessos todos são a fonte, o sólo
fértil de onde brotam as grandes ações e as grandes obras da
humanidade.
Para
ilustrar essa leitura de Nietzsche no que diz respeito ao Agon
grego, podemos citar Aquiles, o guerreiro mais amado e admirado da
Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de Heitor,
arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da família,
que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo, para
exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão, como o "herói
dos mil artifícios"(polymetis ou polymechanos), o que faz
dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação,
da capacidade inventiva, de uma diplomacia intuitiva. A imaginação
fulgurante de Ulisses, afirma Delfim, incarnada na curiosidade e no
espírito agónico da mentalidade grega e do ser humano em geral,
comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a
aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos
da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está
representado na figura engenhosa de Ulisses como o "herói
que muito sofreu"(polytlas).
A luta e o
prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si
mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a
inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.
É da
natureza e de toda extensão da cultura do grego, sob expressões
diversas, como polemos, eris, meikos, esse poder de
confrontação, que Heráclito de Éfeso, filósofo grego, absorve
como princípio(arché) do universo. Heráclito, diretamente
influenciado pelo Agon da vida grega, faz dele o princípio do mundo.
Pensar o mundo como devir, vir-a-ser, é concebê-lo como uma luta
constante. Diz ele: "Nos mesmos rios entramos e não
entramos, somos e não somos"(Heráclito, Alegorias, 24).
O mesmo
sentimento de luta de Ulisses, certamente, tivera sido uma fonte
riquíssima, um legado precioso para o desenvolvimento ainda mais
próspero da cultura grega nas bases da Filosofia. Outro exemplo
disso é Sócrates, arraigado neste gosto(beleza também, estética)
pela disputa, inventa a dialética e dá os primeiros passos em
direção à Filosofia, propriamente dita.
Prof.
Jackislandy Meira de M. Silva
Especialista
em Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia
quarta-feira, 16 de maio de 2012
'Só mentirosos negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas'
Título original: A traição da psicologia social
por Luiz Felipe Pondé para Folha
Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare, "Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).
Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.
Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.
Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.
Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele...
Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.
O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!".
Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.
Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como responsáveis por nossos atos.
Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.
Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo, a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.
Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.
por Luiz Felipe Pondé para Folha
Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare, "Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).
Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.
Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.
Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.
Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele...
Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.
O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!".
Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.
Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como responsáveis por nossos atos.
Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.
Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo, a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.
Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Ponto de Vista
Do ponto de vista da terra quem gira é o sol
Do ponto de vista da mãe todo filho é bonito
Do ponto de vista do ponto o círculo é infinito
Do ponto de vista do cego sirene é farol
Do ponto de vista do mar quem balança é a praia
Do ponto de vista da vida um dia é pouco
Guardado no bolso do louco
Há sempre um pedaço de deus
Respeite meus pontos de vista
Que eu respeito os teus
Às vezes o ponto de vista tem certa miopia,
Pois enxerga diferente do que a gente gostaria
Não é preciso por lente nem óculos de grau
Tampouco que exista somente
Um ponto de vista igual
O jeito é manter o respeito e ponto final (2x)
Autoria: Banda Casuarina
Do ponto de vista da mãe todo filho é bonito
Do ponto de vista do ponto o círculo é infinito
Do ponto de vista do cego sirene é farol
Do ponto de vista do mar quem balança é a praia
Do ponto de vista da vida um dia é pouco
Guardado no bolso do louco
Há sempre um pedaço de deus
Respeite meus pontos de vista
Que eu respeito os teus
Às vezes o ponto de vista tem certa miopia,
Pois enxerga diferente do que a gente gostaria
Não é preciso por lente nem óculos de grau
Tampouco que exista somente
Um ponto de vista igual
O jeito é manter o respeito e ponto final (2x)
Autoria: Banda Casuarina
sexta-feira, 11 de maio de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Ação política e paixão erótica: a política pequena
Por Ivo Jose Triches e José
Luiz Ames*
É possível estabelecer uma
relação entre ação política e paixão erótica? O que leva o homem a agir
politicamente e o que o atrai eroticamente? Nietzsche sugeriu que se tratava da
“vontade de poder”: a existência de um desejo instintivo no homem de impor a si
mesmo e aos outros sua própria escala valorativa. Aristóteles acreditava que
tanto a ação política quanto a erótica eram respostas à tendência humana de realizar
fins: a vida boa na política e a procriação na erótica. E para Maquiavel?
O homem, para Maquiavel, é
um ser solitário e autointeressado que faz o bem quando é obrigado
e o mal sempre que tem oportunidade. A solidão que atinge a essência do homem o
faz enfrentar o problema: como alcançar a união, como transcender o solipsismo
da vida individual e encontrar compensação? Enquanto o homem permanecer
prisioneiro de sua solidão será incapaz de dominar ativamente o mundo, as
coisas e as pessoas. Em outras
palavras: se ele decidir viver só, estará fadado ao fracasso em todos os
sentidos.
A ação política e a paixão
erótica emergem como meios de romper as cadeias que prendem a alma humana e
impulsionam o homem ao encontro dos outros em busca de compensação.
O prazer do poder político,
assim como prazer da paixão erótica, está baseado na sensação de submissão. O
erótico, na paixão, é o meio pelo qual se possui a uma pessoa, mas somente por
um instante. O exercício do poder político, em compensação, é a possibilidade
de possuir a muitas pessoas e por um tempo prolongado. O exercício do poder
produz prazer constante. Contudo, se a posse erótica é mais breve do que a
política, o orgasmo lhe confere maior intensidade.
O erótico e o político estão
unidos por uma mesma paixão humana: o poder. Poder é a capacidade de controlar
a vontade do outro e impor-lhe determinado comportamento, mesmo contra sua
vontade. Na ação política e na ação erótica, o controle da vontade do outro é
tanto mais eficaz quanto mais prescindir da força bruta. O verdadeiro dominador
é um encantador de serpentes. Ele
faz uso da comunicação perlocucionaria objetivando atingir seus fins que é
manter-se no poder.
O mundo da ação política é,
por definição, pura presentidade. Aqueles que vivem nele são obrigados a tomar
decisões no agora e aqui. Ali onde o presente é toda a realidade, onde o futuro
se resume a escolhas presentes, domina a frivolidade. Neste mundo, as pessoas
são levadas a querer usufruir imediatamente tudo quanto é possível. A regra
de ouro é: gozar o tempo presente.
É aqui que o erótico e o
político se fundem. Os dois são fruições instantâneas, maneiras de eternizar a
glória fugaz de um momento privilegiado: a vitória no jogo político é o
equivalente do orgasmo no prazer erótico. Os escândalos sexuais que movimentam
o noticiário político, em todas as esferas de organização do poder, são
expressões da frivolidade de um mundo que não conhece sonhos. Basta recordar as
fantasias do ex-presidente americano Bill Clinton com a sua Mônica Levinski. Na
política e na erótica, é no agora e aqui que tudo se decide. É no agora e aqui
que tudo é usufruído. A regra é o máximo de prazer pelo maior tempo possível.
Aqui tudo é efêmero, nada pode ser apreendido. A frustração é o sentimento
inevitável num mundo em que tudo precisa ser gozado imediatamente.
A aproximação entre o
erótico e o político, na maneira como foi feita aqui, gera certo desencanto,
com a política! Com efeito, se a ação política se rege pelo prazer efêmero da
fruição, do gozo, da vitória à semelhança do orgasmo na relação erótica, o que
podemos esperar dela? Será que a política não consegue ser mais do que um jogo
em que interessa unicamente vencer, em que importa tão somente o resultado?
Quando olhamos para a ação
política tal como ela acontece, a única resposta possível é de que ela não
passa de um jogo em que interessa a vitória dos competidores. Não há
finalidades substanciais, não existe nada de permanente a ser esperado dela. O
destino da ação política é ser isso? Não há nada a ser feito para transformar a
ação política em uma construção de um mundo de justiça, liberdade, igualdade?
Será possível fazer da ação política uma obra que se dirija aos outros e não à
satisfação dos próprios competidores?
Essa forma de ser de muitos que vivem no mundo partidário em nosso país,
faz parte da “política pequena” como
dizia Antonio Gramsci (1891-1937). Para que alguém consiga chegar à “grande política” é necessário que
consiga transcender essa visão de mundo. E qual é essa nova visão? No próximo artigo indicaremos alguns caminhos. Contudo,
abaixo você encontrará uma pista..
Voltemos por um instante à
comparação da ação política com a paixão erótica. O eros é desejo de fruição
insaciável. Quer possuir o outro como objeto de satisfação. Como a saciedade
jamais acontece, é frustração. Somente quando o outro deixa de ser algo a ser
possuído para ser alguém para ser amado, emerge a possibilidade de ser feliz.
Para amar é preciso deixar o outro ser, é preciso querer seu bem não porque nos
faz falta, mas simplesmente porque ele existe, porque a pura existência dele é
motivo suficiente para amá-lo.
Na ação política é preciso
que um movimento semelhante aconteça para que se transforme de um jogo em que
interessa tão somente o resultado em uma obra na qual é visado o conjunto da
comunidade política e não os competidores do jogo. Enquanto a ação política se
resumir à disputa entre partidos pela posse do poder, ou de indivíduos pelo
domínio uns sobre os outros, ela não conseguirá ser mais do que fugacidade,
esforço vão de eternizar a glória da vitória momentânea. Enquanto a ação
política for isso será igual ao orgasmo na relação erótica: um prazer fugaz
impossível de ser retido. Como fazer a ação política transformar-se de jogo de
poder em vista do resultado em instrumento de construção para uma sociedade
justa? A resposta é tão complexa quanto a outra: como fazer que a paixão erótica se transforme de fruição
e gozo momentâneos em relação de amor? Resposta a essa questão está na segunda
parte deste escrito que você poderá ler na próxima semana.
http://boletimodiad.blogspot.com.br/
http://boletimodiad.blogspot.com.br/
* José Luiz Ames é doutor em Filosofia, professor da
Unioeste. E-mail: profuni2000@yahoo.com.br
Ivo José Triches é diretor das Faculdades Itecne
de Cascavel e Prof. Titular do Centro de Filosofia Clínica de Cascavel.
E-mail: ivo@itecne.com.br blog: www.itecne.edu.br/ivo
terça-feira, 8 de maio de 2012
O espírito agónico(luta) de Ulisses
Para nos
deleitarmos sob a leitura de Homero no que diz respeito ao Agon
grego, podemos citar ligeiramente Aquiles, o guerreiro mais amado e
admirado da Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de
Heitor, arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da
família, que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo,
para exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão - (in
Ulisses e o espírito agónico grego: o herói da imaginação,
do sacrifício e do conhecimento, Universidade de Coimbra, 2011) - ,
como o "herói dos mil artifícios"(polymetis ou
polymechanos), o que faz dele a ilustração mais paradigmática
dos poderes da imaginação, da capacidade inventiva, de uma
diplomacia intuitiva. A imaginação fulgurante de Ulisses, afirma
Delfim, incarnada na curiosidade e no espírito agónico da
mentalidade grega e do ser humano em geral, comporta de igual modo um
processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento
pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à
experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está representado na
figura engenhosa de Ulisses como o "herói que muito
sofreu"(polytlas).
A luta e o
prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si
mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a
inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.
O povo
grego vive intensamente os conflitos ou as guerras a que se propõe
lutar quer por honra, glória ou conquista territorial. Certamente,
em Ulisses, tudo isso vem legitimado, somando-se as estratégias
gregas em combate.
Conforme a trama muito pessoal da nostalgia empreendida desde que
fora obrigado a deixar a sua ilha, a aventura junto aos Ciclopes, que
muito me impressiona, não faria sentido se não fosse um desvio à
rota simples de seu trajeto, provocado pelo próprio Ulisses. Sem
deixar de ser o que é, carregando consigo todas as suas boas e más
qualidades, procura mostrar que não é um tirano. Por isso, nada
melhor do que travar um “agon” com algo que aparece pra ele
caracterizado de tirânico, ou seja, do modo de ser dos seres com que
se vai confrontar. Ora, moradores desta ilha, os Ciclopes (“olho
circular”), como sendo seres “arrogantes e sem lei” (Canto IX,
v. 106), dependentes de um modo de vida bem provinciano e pastoril,
sem quaisquer labor agrícola, pois tiram toda a sobrevivência da
terra. Dissimulados, vivem da indiferença e desprezam a esfera
política da existência. Cada qual que dite a lei para si e para os
que de si dependem, sem deliberação em assembleia; habitam grutas,
nos píncaros das montanhas (vv. 106-115). No entanto, para
contrariar a tirania dessa gente, eis que surge Ulisses a fim de
triunfar sobre um modelo de vida descomprometido com a virtude e com
a excelência. O agon de Ulisses, portanto, reivindica sua arete,
sua humanidade, seu aner frente aos Ciclopes.
Daí, como se verá através da ação do Ciclope Polifemo, o
indivíduo escolhido para objeto agónico de Ulisses, é evidente que
o mono-ocular e suas investidas não serão suficientes para conter o
espírito de Ulisses, orientado por sua areté e seu logos,
os quais promovem o
agon muito mais superior. “Esta agonia representa um
confronto direto com o mínimo da inteligência propriamente humana
(se o não fosse, Polifemo teria sido aniquilado) e o máximo da
inteligência propriamente humana: o triunfador, Ulisses. Com o ato
de Ulisses junto de Polifemo nasce cruentamente e em agonia a
afirmação da liberdade do ser humano como ser ético e político,
senhor de seus atos, por via de uma agência inteligente, que nada
submete, que nada pode submeter”(PEREIRA, Américo. Ulisses
e Penélope. Da nova paradigmaticidade, a partir da Odisseia de
Homero. Covilhã, Lusosofia,
2011, p. 12-17).
A Odisseia bem que poderia se chamar As agonias de Ulisses,
haja vista seus intentos contra toda sorte de males nas guerras e em
meio ao seu regresso à Ítaca. Trava sempre combates de vida ou
morte. A sua sobrevivência é a sobrevivência e o triunfo do
paradigma que representa toda uma civilização com histórias
marcantes que influenciarão o progresso intelectual da humanidade.
Engraçado, mas vejam que trocadilho curioso: O regresso de Ulisses
que constrói todo o patrimônio do progresso civilizatório da
humanidade. O contraponto do regresso é o seu progresso e
vice-versa.
Prof. Jackislandy Meira
de M. Silva
Especialista em
Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Olhe ao redor
Olhe
para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós. Não temos
amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não entendemos
porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas, coisas e
coisas, mas não temos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não
esteja catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora,
pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam
armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o
começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos
diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público
do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de
fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
Clarice Lispector
A filosofia popular
A charge acima nos faz pensar sobre uma multidão de filosofias que surgem para atender a todos os gostos possíveis. Há filosofia para tudo. Certamente, com a popularização da filosofia, corremos um sério risco de banalizá-la. E outra, com o academicismo da filosofia, podemos elitizá-la e fechá-la ao âmbito do intelectualismo abstrato e conceitual. O que fazer, então, para não diluirmos a filosofia em nem um desses extremos? Será que Diderot estava certo ao afirmar: "Apressemo-nos a tornar a Filosofia popular!"?
quinta-feira, 3 de maio de 2012
A inveja das moscas
por Luiz Felipe Pondé para Folha
Sou uma personalidade atormentada e dada a arroubos. Noites insones me levam a terras distantes onde nossos ancestrais vagam arrancando a vida e seu sentido das pedras. Com o passar dos anos, cada vez mais me encanta a luta desses nossos patriarcas perseguidos pelos elementos naturais, por seus próprios demônios e por deuses de olhos vermelhos cheios de sangue e dentes afiados.
Construímos sonhos de autorrealização profissional, afetiva e material. A expectativa com nossa própria grandeza ocupa grande parte de nossos devaneios.
O sentimento da fragilidade do mundo sempre me perseguiu desde a infância. Se os psicanalistas estiverem certos, e tudo que é primitivo é indelével, esse sentimento constitui minha substância mais íntima. Que inveja eu tenho das moscas!
Livres, voando pelo mundo, sem saber de si mesmas.
Li nas últimas férias a coletânea de ensaios The Best American Essays of the Century, editada por Joyce Carol Oates e Robert Atwan, Houghton Mifflin Company, Boston.
Destaco dois ensaios: The Crack-Up (a rachadura), de F. Scott Fitzgerald, de 1936 e The Old Stone House (a velha casa de pedra) de Edmund Wilson, de 1933.
Edmund Wilson foi, segundo Paulo Francis, o último grande crítico literário de uma tradição na qual o crítico não se escondia atrás de algum teórico, tipo Blanchot ou Derrida, para repetir o que todo mundo diz e com isso não correr riscos. Wilson enfrentava o autor cara a cara, dizendo o que pensava dele, sem se preocupar com o que a "indústria da crítica acadêmica" diria. A coragem nunca foi um valor na academia, Francis tinha razão.
Nesse ensaio, Wilson fala de uma casa de pedra na qual sua família viveu por muitos anos. Sua família era do tipo de família que aqui chamaríamos de quatrocentona falida. Mãe fria, pai, homem letrado e melancólico, ele, Wilson, parecido com seu pai, e também um bêbado.
Estou convencido de que pessoas sem algum vício terrível permanecem em alguma forma de infância moral. Apenas quem perdeu qualquer esperança de ser virtuoso deveria falar sobre moral. Pessoas sem vícios falando sobre moral é como virgens dando aula de sexo.
Wilson, entre outros parentes, fala de uma tia, infeliz no casamento, obrigada a ser uma mulher normal quando na realidade era uma filósofa schopenhauriana amadora. Segundo ele, ela enfrentou virtuosamente seu fardo criando um sistema filosófico pessoal pessimista e, quando ficou viúva, se mudou para Nova York e gastou seus últimos dias indo a livrarias e vendo teatro. Quando ainda casada, sua tia lia à noite, sobre o fogão, sozinha, em seu único momento de paz.
F. Scott Fitzgerald, autor de "O Grande Gatsby", nesse ensaio descreve a sua maior crise existencial (a rachadura que dá título ao ensaio), que o acometeu por volta dos 50 anos. Escritor famoso, Fitzgerald afirma: "Identifiquei-me com meus próprios objetos de horror e compaixão" e "passei a ter uma atitude trágica em relação à tragédia e melancólica em relação à melancolia". Em síntese, foi inundado por seus próprios objetos literários e se tornou, ele mesmo, um deles. O efeito foi devastador e libertador.
Na abertura, ele define o que entende por uma pessoa inteligente: conseguir viver com duas ideias opostas sobre a vida e não desistir de nenhuma delas.
E exemplifica: saber que não há esperança para nós e ainda assim viver buscando provar o contrário. O resultado seria uma vida combativa em nome da esperança. Uma vida pautada pelo controle de si mesmo e do mundo a sua volta.
Ao final do ensaio, ele volta a definir, agora, o que é, após sua rachadura, o estado natural de um adulto que tem consciência e sensibilidade: infelicidade qualificada (e não banal).
Uma condição com a qual convivemos, mas que ao assumi-la, uma espécie de libertação acontece: em suas palavras, não mais desejar ser um homem bom, não mais ser simpático com o marido de sua prima, nem responder a cartas de escritores jovens medíocres que não deveriam aborrecer os outros. Ser apenas um escritor e não querer agradar a ninguém, nem a si mesmo.
Sou uma personalidade atormentada e dada a arroubos. Noites insones me levam a terras distantes onde nossos ancestrais vagam arrancando a vida e seu sentido das pedras. Com o passar dos anos, cada vez mais me encanta a luta desses nossos patriarcas perseguidos pelos elementos naturais, por seus próprios demônios e por deuses de olhos vermelhos cheios de sangue e dentes afiados.
Construímos sonhos de autorrealização profissional, afetiva e material. A expectativa com nossa própria grandeza ocupa grande parte de nossos devaneios.
O sentimento da fragilidade do mundo sempre me perseguiu desde a infância. Se os psicanalistas estiverem certos, e tudo que é primitivo é indelével, esse sentimento constitui minha substância mais íntima. Que inveja eu tenho das moscas!
Livres, voando pelo mundo, sem saber de si mesmas.
Li nas últimas férias a coletânea de ensaios The Best American Essays of the Century, editada por Joyce Carol Oates e Robert Atwan, Houghton Mifflin Company, Boston.
Destaco dois ensaios: The Crack-Up (a rachadura), de F. Scott Fitzgerald, de 1936 e The Old Stone House (a velha casa de pedra) de Edmund Wilson, de 1933.
Edmund Wilson foi, segundo Paulo Francis, o último grande crítico literário de uma tradição na qual o crítico não se escondia atrás de algum teórico, tipo Blanchot ou Derrida, para repetir o que todo mundo diz e com isso não correr riscos. Wilson enfrentava o autor cara a cara, dizendo o que pensava dele, sem se preocupar com o que a "indústria da crítica acadêmica" diria. A coragem nunca foi um valor na academia, Francis tinha razão.
Nesse ensaio, Wilson fala de uma casa de pedra na qual sua família viveu por muitos anos. Sua família era do tipo de família que aqui chamaríamos de quatrocentona falida. Mãe fria, pai, homem letrado e melancólico, ele, Wilson, parecido com seu pai, e também um bêbado.
Estou convencido de que pessoas sem algum vício terrível permanecem em alguma forma de infância moral. Apenas quem perdeu qualquer esperança de ser virtuoso deveria falar sobre moral. Pessoas sem vícios falando sobre moral é como virgens dando aula de sexo.
Wilson, entre outros parentes, fala de uma tia, infeliz no casamento, obrigada a ser uma mulher normal quando na realidade era uma filósofa schopenhauriana amadora. Segundo ele, ela enfrentou virtuosamente seu fardo criando um sistema filosófico pessoal pessimista e, quando ficou viúva, se mudou para Nova York e gastou seus últimos dias indo a livrarias e vendo teatro. Quando ainda casada, sua tia lia à noite, sobre o fogão, sozinha, em seu único momento de paz.
F. Scott Fitzgerald, autor de "O Grande Gatsby", nesse ensaio descreve a sua maior crise existencial (a rachadura que dá título ao ensaio), que o acometeu por volta dos 50 anos. Escritor famoso, Fitzgerald afirma: "Identifiquei-me com meus próprios objetos de horror e compaixão" e "passei a ter uma atitude trágica em relação à tragédia e melancólica em relação à melancolia". Em síntese, foi inundado por seus próprios objetos literários e se tornou, ele mesmo, um deles. O efeito foi devastador e libertador.
Na abertura, ele define o que entende por uma pessoa inteligente: conseguir viver com duas ideias opostas sobre a vida e não desistir de nenhuma delas.
E exemplifica: saber que não há esperança para nós e ainda assim viver buscando provar o contrário. O resultado seria uma vida combativa em nome da esperança. Uma vida pautada pelo controle de si mesmo e do mundo a sua volta.
Ao final do ensaio, ele volta a definir, agora, o que é, após sua rachadura, o estado natural de um adulto que tem consciência e sensibilidade: infelicidade qualificada (e não banal).
Uma condição com a qual convivemos, mas que ao assumi-la, uma espécie de libertação acontece: em suas palavras, não mais desejar ser um homem bom, não mais ser simpático com o marido de sua prima, nem responder a cartas de escritores jovens medíocres que não deveriam aborrecer os outros. Ser apenas um escritor e não querer agradar a ninguém, nem a si mesmo.
terça-feira, 1 de maio de 2012
O processo de socialização da Educação a distância no Brasil
Pelo texto “Ensaio
sobre a Educação a Distância no Brasil”
da autora Maria Luiza Belloni, no tocante aos Processos de
Socialização, pudemos perceber que é uma tentativa clara e aberta
de preparar os jovens indivíduos das novas gerações para o uso dos
meios técnicos disponíveis na sociedade. Ora, é cada vez mais
comum em nossa sociedade a utilização, mesmo banalizada é claro,
dos instrumentos tecnológicos para fins de comunicação e interação
social. Já é quase impensável viver em sociedade sem um celular ou
um computador plugados à internet. A mediação de máquinas em
nossas relações é quase uma necessidade de sobrevivência. É
muito notório em nosso meio o uso das máquinas para se relacionar.
Sendo assim, é oportuna a observação feita no Ensaio, do ponto de
vista da sociologia, “que não
há mais como constestar que as diferentes mídias eletrônicas
assumem um papel cada vez mais importante no processo de
socialização”(BELLONI, Maria Luiza. Ensaio Sobre a Educação a
Distância no Brasil in Educação & Sociedade, ano XXIII, nº
78, Abril/2002, p. 118). A
partir disso, como negligenciar a evidência desses recursos técnicos
tão presentes na sociedade vigente? De um lado, as crianças
aprendendo sozinhas porque já possuem afinidade com essas novas
teconologias, pois convivem em casa com esse tipo de máquina;
escolas particulares equipando ou aparelhando suas instituições com
máquinas de última geração, sem pessoal eficaz e capaz para
operá-las. Por outro lado, temos as escolas públicas que tentam
acelerar os passos lentos no processo de informatização de suas
instituições. O pessoal dos Governos Municipal, Estadual e Federal
abarrotando as escolas públicas de computadores, data show e outros
recursos não oferece, na mesma medida, o acompanhamento de uma
capacitação para coordenadores pedagógicos e professores. Falta
gerenciamento e muita boa vontade. O resultado disso é que nossas
escolas estão, algumas, diga-se de passagem, repletas de aparelhos
multimídia, laboratórios de infomática e etc, inutilizados, porque
o acelerado processo de midiatização ou informatização das
escolas pelo poder público não tem um acompanhamento de capacitação
de pessoal considerado.
Tenho a impressão de que, por causa
disso, há um sério contraponto nas escolas entre o avanço
teconológico muito imediato e o retrocesso dos profissionais da
educação que não acompanham este avanço. Daí surge a pergunta
que não quer calar: Por que a mesma intimidade que os nossos filhos
tem com as máquinas em casa não pode haver nas escolas? Ou por que
eles não são educados a usá-los de forma adequada na escola? As
escolas públicas deveriam se importar um pouco mais com essa
problemática e já ir inserindo mecanismos metodológicos, como a
internet, para quebrar um pouco mais o ranço tradicional dos
sistemas de ensino. A crítica que a autora faz em relação às
escolas públicas e sua interação com as TIC procede: “as
crianças aprendem sozinhas(autodidaxia), lidando com máquinas
'inteligentes' e 'interativas', conteúdos, formas e normas que a
instituição escolar, despreparada, mal equipada e desprestigiada,
nem sempre aprova e raramente desenvolve”(idem).
Com esse panorama, que não é negativo,
mas processual e conflitivo, ousamos justificar pelo chamado choque
de gerações por que passamos hoje. O mundo não é o mesmo de há
20 anos. Estamos passando por transformações profundas na economia,
na moral, na educação, nas relações sociais, enfim. Por incrível
que pareça, as TIC interferem em todas as áreas de conhecimento
muito mais hoje do que no passado. Os meios tecnológicos de
informação e comunicação não tinham grande influência na vida
das sociedades, - bastam lembrar da queda das ditaduras de Honduras e
Egito, o quanto a sociedade civil do mundo inteiro não participou
via internet, influenciando diretamente na queda desses ditadores -
tampouco no processo de socialização entre os próprios indivíduos.
A TV e o rádio foram ampliados pela presença da internet em grande
parte dos lares brasileiros – Coversamos com as vítimas via
internet, em tempo real, no momento do Tsunami e terremoto que varreu
o nordeste do Japão ano passado. O mais impressionante é não só
absorvermos informação, mas interagirmos com ela. Intervirmos na
comunicação, interferirmos na velocidade da informação. A meu
ver, o problema funda-se aí, na constatação de que não basta
copiar ou repetir informações ou multiplicá-las até, mas
cogitá-las, reformando e interiorizando todo e qualquer tipo de
conteúdo veiculado, dependendo da reflexão crítica, intuitiva, e
da criatividade do usuário. Nesse ponto justamente entra o papel
maravilhoso da educação presencial e à distância.
Ao invés de negligenciar os recursos
técnicos como bem fazem as escolas e academias públicas, devíamos
tentar inserir os meios mais sofisticados da tecnologia mundial a
serviço das escolas, bem como de uma grande parte da população
ainda excluída do acesso ao mundo virtual que presta os mais
variados serviços às pessoas, desde a emissão de contracheque,
compras até cursos de bom nível educacional.
É óbvio que não dá para ficarmos fora
de todos os recursos tecnológicos à nossa disposição. Isso é
praticamente impensável, mas cuidemos, como bem demonstra o Ensaio,
de não entrarmos no jogo capitalista de consumo exacerbado dos bens
tecnológicos, porque isso pode nos anestesiar frente às profundas
desigualdades sociais que nos cercam e nos envolvem. Mesmo com todo
avanço da ciência e da técnica, o mundo ainda não está livre da
fome, da miséria, da pobreza, das doenças, da corrupção. Paira
sobre nós ainda um grande atraso cultural e político. É preciso
alertar: “Nos países
subdesenvolvidos porém industrializados e altamente urbanizados;
pobres e atrasados cultural e politicamente, mas com 'bolsões
tecnificados' e globalizados; nesses países as contradições e as
desigualdades sociais tendem a ser agravadas pelo avanço
tecnológico”(idem, p. 119).
Certamente, como nos afirma a autora do
Ensaio, na contramão do capitalismo e do neoliberalismo selvagem,
eis que surge a entrada da EaD como promotora de uma educação mais
econômica e de qualidade, “(...)
no qual o uso intensivo das TIC se combina com as técnicas de gestão
e marketing, gerando formas inéditas de ensino que podem até
resultar, às vezes e com sorte, em efetiva aprendizagem”(idem, p.
121).
Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Bacharel em Teologia, Licenciado em
Filosofia e Especialização em Metafísica
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quarta-feira, 30 de maio de 2012
Copa 2014: "Juntos num só ritmo"
Rio de Janeiro, 30 mai (EFE).- 'Juntos num só ritmo' é o lema oficial
da Copa do Mundo de 2014, divulgado nesta quarta-feira pela Fifa que,
segundo a entidade, representa o toque único que o Brasil trará ao
Mundial, que promete ser vibrante e cheio de emoção.
A apresentação do slogan foi feita em reunião da entidade com o Comitê Organizador Local (COL) e o Governo brasileiro. Também foi divulgado o vídeo oficial da Copa, com imagens do país e jogadas de astros do futebol mundial, como Neymar e Lionel Messi. O vídeo está disponível na internet em 'http://www.youtube.com/fifatv'.
O slogan oficial foi criado pela agência de comunicação brasileira Aktuell, que ganhou concurso disputado por seis diferentes firmas, que apresentaram um total de 26 propostas.
A frase servirá de guia para a criação dos temas centrais que representarão outros eventos que a Fifa promoverá no Brasil, como as cerimônias de abertura e encerramento do Copa do Mundo e as festas de torcedores.
'O lema oficial é o resultado do esforço empreendido pelo Brasil e o mundo do futebol visando a sintetizar em mensagem o sabor único que dará país ao Mundial', afirmou o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke.
O ex-atacante Ronaldo, membro do Comitê Organizador da Copa, lembrou que o futebol pode ser sentido em todo o país. 'O futebol significa tudo para os brasileiros. É por isso que tem tanto potencial de unir as pessoas e de ser uma força benéfica', disse o atacante campeão do mundo em 2002. EFE
Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/juntos-num-so-ritmo-e-escolhido-o-lema-oficial-da-copa-do-mundo-de-2014
A apresentação do slogan foi feita em reunião da entidade com o Comitê Organizador Local (COL) e o Governo brasileiro. Também foi divulgado o vídeo oficial da Copa, com imagens do país e jogadas de astros do futebol mundial, como Neymar e Lionel Messi. O vídeo está disponível na internet em 'http://www.youtube.com/fifatv'.
O slogan oficial foi criado pela agência de comunicação brasileira Aktuell, que ganhou concurso disputado por seis diferentes firmas, que apresentaram um total de 26 propostas.
A frase servirá de guia para a criação dos temas centrais que representarão outros eventos que a Fifa promoverá no Brasil, como as cerimônias de abertura e encerramento do Copa do Mundo e as festas de torcedores.
'O lema oficial é o resultado do esforço empreendido pelo Brasil e o mundo do futebol visando a sintetizar em mensagem o sabor único que dará país ao Mundial', afirmou o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke.
O ex-atacante Ronaldo, membro do Comitê Organizador da Copa, lembrou que o futebol pode ser sentido em todo o país. 'O futebol significa tudo para os brasileiros. É por isso que tem tanto potencial de unir as pessoas e de ser uma força benéfica', disse o atacante campeão do mundo em 2002. EFE
Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/juntos-num-so-ritmo-e-escolhido-o-lema-oficial-da-copa-do-mundo-de-2014
domingo, 27 de maio de 2012
Ética para meu filho (Fernando Savater)
"Robinson
Crusoé passeia por uma das praias da ilha onde o confinaram uma
inoportuna tempestade seguida de naufrágio. Leva seu papagaio ao ombro e
protege-se do sol graças à sombrinha fabricada com folhas de palmeira,
que o faz sentir orgulho, com razão, de sua habilidade. Ele acha que, em
vista das circunstâncias, até que não se arranjou mal. Agora tem um
refúgio para se proteger contra as inclemências do tempo e os ataques
dos animais selvagens, sabe onde conseguir alimento e bebida, tem roupas
para se abrigar, que ele mesmo fez com elementos naturais da ilha, os
dóceis serviços de um pequeno rebanho de cabras, etc. Enfim, acha que
sabe arranjar-se para levar mais ou menos sua vida de náufrago
solitário. Robinson continua passeando, e está contente consigo mesmo,
que por um momento parece não sentir falta de nada. De repente, detém-se
com um sobressalto. Ali, na areia branca, desenha-se uma marca que vai
revolucionar toda a sua pacífica existência: a pegada humana.
De
quem será? Amigo ou inimigo? Talvez um inimigo que possa se tornar
amigo? Homem ou mulher? Como se entenderá com ele, ou ela? Como irá tratá-lo?
Robinson já estava acostumado a se fazer perguntas desde que chegou à
ilha e a resolver problemas do modo mais engenhoso possível: o que vou
comer? Onde vou me abrigar? Como posso proteger-me do sol? Mas agora a
situação não é a mesma, pois não se ttrata de acontecimentos naturais,
como a fome ou a chuva, nem de animais selvagens, mas com um outro ser
humano, ou seja, com outro Robinson ou com outros Robinsons e
Robinsonas. Diante dos elementos ou dos animais, Robinson pôde
comportar-se sem atender a nada além de sua necessidade de
sobrevivência, Tratava-se de ver se podia com eles ou se eles podiam com
ele, sem mais complicações. Mas diante de seres humanos a coisa já não é
tão simples. Ele deve sobreviver, sem dúvida, mas não de qualquer modo.
Se Robinson transformou-se num animal como os outros que perambulam
pela selva, por causa de sua solidão e sua desventura, sua única
preocupação será saber se o desconhecido dono da pegada é um inimigo a
ser eliminado ou uma presa a ser devorada. Mas se quer continuar sendo
homem... Então já não estará lidando com uma presa ou um simples
inimigo, mas com um rival ou um possível companheiro: de todo o modo,
com um semelhante.
Enquanto
está só, Robinson enfrenta questões técnicas, mecânicas, higiénicas,
inclusive científicas, se é que você me entende. A questão é salvar a
vida num meio hostil e desconhecido. Mas quando ele encontra a pegada de
Sexta-Feira na areia da praia começam seus problemas éticos. Já não se
trata apenas de sobreviver; como um animal selvagem ou uma alcachofra,
perdido na natureza; agora precisa começar a viver humanamente, ou seja, com outros ou contra outros homens, mas entre
homens. O que faz a vida ser “humana” é o transcorrer em companhia de
seres humanos, falando com eles, pactuando e mentindo, sendo respeitado
ou traído, amando, fazendo projetos e recordando o passado,
desafiando-se, organizando juntos as coisas comuns, jogando, trocando
símbolos... A ética não se ocupa em saber como se alimentar melhor, qual
a maneira mais recomendável de se proteger do frio ou o que fazer para
atravessar um rio sem se afogar, todas questões muito importantes, sem
dúvida, para a sobrevivência em determinadas circunstâncias; o que
interessa à ética, o que constitui sua especialidade, é
como viver bem a vida humana, a vida que transcorre entre seres humanos.
Se não soubermos como nos arranjar para sobreviver em meio de perigos
naturais, perderemos a vida, o que sem dúvida será um grande dano; mas,
se não tivermos nem idéia de ética, perderemos ou prejudicaremos o
humano de nossa vida, o que, francamente, também não tem graça nenhuma."
Fonte: Romanticos e conspiradores
sábado, 26 de maio de 2012
Julgamento de Sócrates é recriado em Atenas
Louisa Gouliamaki / AFP |
Quase 2.500 anos depois da condenação de Sócrates por ter desafiado as leis da pólis, Atenas volta a "julgar" a partir desta sexta-feira o filósofo grego, para tirar lições para superar da crise atual.
"Aqui estamos falando de democracia contra oligarquia, de liberdade de expressão em tempos de crise nacional, da sabedoria dos eleitores contra sua não-sabedoria", e graças ao processo fictício poderão ser "debatidos novamente todos estes temas", comemora Loretta Preska, uma juíza nova-iorquina que nesta sexta-feira será a presidente do tribunal.
Sócrates se defendeu no século IV a.C. diante de 500 atenienses, cidadãos, juízes e jurados. Nesta sexta-feira, na fundação Onassis de Atenas, um painel de dez juízes europeus e americanos ouvirá os argumentos de advogados internacionais a favor ou contra sua condenação.
Os juízes e o público - 800 espectadores e os internautas que seguirão a audiência ao vivo (http://www.sgt.gr) - decidirão se Sócrates foi culpado de desafiar os deuses da pólis, introduzir novas crenças e corromper a juventude.
Traidor para uns, mestre para outros, Sócrates colocava em questão a "doxa', a opinião comum, com base em perguntas com as quais levava seus discípulos a formular pensamentos que estavam latentes neles. O método é conhecido como maiêutica.
Questionamentos
Suas lições, que nunca escreveu e foram preservadas por seu discípulo Platão, questionavam uma vasta gama de temas, entre eles a política e a moral, o que rendeu a ele muitos inimigos.
"Claro que há um vínculo entre o processo de Sócrates e a atualidade, mas não apenas a atualidade grega. O tema é diacrônico e intercultural", explica Anthony Papadimitriu, presidente da fundação Onassis, organizadora do evento.
Através de Sócrates, "é abordada a questão dos limites da liberdade de palavra e pensamento. Até onde pode ir o cidadão que está contra o regime? Quais são os direitos do regime democrático contra os cidadãos?", explica.
"Também é levantada a questão da justiça. A ideia da inocência de Sócrates foi um pretexto para difamar a democracia ateniense. Trata-se de restabelecer a reputação da democracia grega", afirma Papadimitriu, que defenderá a pólis de Atenas.
Patrick Simon, advogado francês, será um dos defensores de Sócrates.
"Deve a democracia ter medo das opiniões contrárias e do livre arbítrio? Deve-se condenar ideias?", pergunta-se o advogado, feliz de poder participar do processo.
Os organizadores consideram que o processo fictício pode ser benéfico para uma Grécia em plena crise.
Nos últimos meses, a questão da democracia agitou o debate no país.
Manifestações
A violência do Estado contra um povo enraivecido pelas duras medidas de rigor, como ocorreu nas manifestações contra os planos de austeridade, ou a questão da legitimidade do governo anterior de Lucas Papademos, não eleito, suscitaram muitas perguntas.
"A Grécia pode estar vivendo um período difícil, mas acreditamos que devemos superar esta fase, como superamos os romanos, os turcos, os alemães e a cicuta", destaca Papadimitriu.
"Também espero que superemos a sabedoria dos eleitores", ironiza, dias antes da realização no dia 17 de junho de novas eleições legislativas. Nas eleições anteriores, os partidos hostis à austeridade obtiveram maioria e não foi possível formar um governo de coalizão.
O voto dos gregos, que tem cores de referendo a favor ou contra o euro, é esperado com muita atenção no exterior.
Segundo as pesquisas, o partido mais votado será o de esquerda radical Syriza, que pede a anulação das medidas de austeridade impostas ao país em troca de ajuda financeira da UE e do Fundo Monetário Internacional.
Fonte: http://www.cenariomt.com.br/noticia.asp?cod=199361&codDep=1
sexta-feira, 25 de maio de 2012
A filosofia e o "agon"(luta) de Ulisses
Aquela
expressão muito feliz do Prof. Delfim Leão ainda ecoa em meus
ouvidos: HOMERO É UM MANANCIAL DE INFORMAÇÕES QUE NÃO PÁRA,
QUE NÃO CESSA DE NOS SURPREENDER(in Ulisses e o espírito agónico
grego: o herói da imaginação, do sacrifício e do conhecimento,
Universidade de Coimbra, 2011).
Permitam-me,
com isso, puxar um pouco a sardinha pro meu lado, já que tenho uma
formação filosófica.
Partindo
da ideia grega de Agon, de que a vida é como uma luta sem
fim, presente inclusive nas guerras descritas por Homero, o filósofo
moderno Nietzsche, pelo seu filtro filosófico e filológico, nos
brinda com um texto belíssimo de sustentação das qualidades
humanas e naturais dos gregos antigos, especialmente na epopeia e na
tragédia. "O Agon em Homero", in Cinco prefácios para
cinco livros não escritos. Nesse texto, Nietzsche aponta o
homem grego como sendo movido pela relação entre suas qualidades
humanas e qualidades profundamente naturais. Quer mostrar que o homem
grego é fiel aos seus instintos naturais, aos seus impulsos,
fazendo-o aproximar-se ainda mais das condições naturais de sua
existência. Segundo ele, os gestos violentos, impulsivos e
aterradores, a crueldade, os excessos todos são a fonte, o sólo
fértil de onde brotam as grandes ações e as grandes obras da
humanidade.
Para
ilustrar essa leitura de Nietzsche no que diz respeito ao Agon
grego, podemos citar Aquiles, o guerreiro mais amado e admirado da
Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de Heitor,
arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da família,
que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo, para
exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão, como o "herói
dos mil artifícios"(polymetis ou polymechanos), o que faz
dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação,
da capacidade inventiva, de uma diplomacia intuitiva. A imaginação
fulgurante de Ulisses, afirma Delfim, incarnada na curiosidade e no
espírito agónico da mentalidade grega e do ser humano em geral,
comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a
aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos
da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está
representado na figura engenhosa de Ulisses como o "herói
que muito sofreu"(polytlas).
A luta e o
prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si
mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a
inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.
É da
natureza e de toda extensão da cultura do grego, sob expressões
diversas, como polemos, eris, meikos, esse poder de
confrontação, que Heráclito de Éfeso, filósofo grego, absorve
como princípio(arché) do universo. Heráclito, diretamente
influenciado pelo Agon da vida grega, faz dele o princípio do mundo.
Pensar o mundo como devir, vir-a-ser, é concebê-lo como uma luta
constante. Diz ele: "Nos mesmos rios entramos e não
entramos, somos e não somos"(Heráclito, Alegorias, 24).
O mesmo
sentimento de luta de Ulisses, certamente, tivera sido uma fonte
riquíssima, um legado precioso para o desenvolvimento ainda mais
próspero da cultura grega nas bases da Filosofia. Outro exemplo
disso é Sócrates, arraigado neste gosto(beleza também, estética)
pela disputa, inventa a dialética e dá os primeiros passos em
direção à Filosofia, propriamente dita.
Prof.
Jackislandy Meira de M. Silva
Especialista
em Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia
quarta-feira, 16 de maio de 2012
'Só mentirosos negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas'
Título original: A traição da psicologia social
por Luiz Felipe Pondé para Folha
Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare, "Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).
Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.
Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.
Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.
Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele...
Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.
O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!".
Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.
Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como responsáveis por nossos atos.
Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.
Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo, a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.
Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.
por Luiz Felipe Pondé para Folha
Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare, "Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).
Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.
Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.
Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.
Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele...
Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.
O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!".
Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.
Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como responsáveis por nossos atos.
Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.
Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo, a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.
Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Ponto de Vista
Do ponto de vista da terra quem gira é o sol
Do ponto de vista da mãe todo filho é bonito
Do ponto de vista do ponto o círculo é infinito
Do ponto de vista do cego sirene é farol
Do ponto de vista do mar quem balança é a praia
Do ponto de vista da vida um dia é pouco
Guardado no bolso do louco
Há sempre um pedaço de deus
Respeite meus pontos de vista
Que eu respeito os teus
Às vezes o ponto de vista tem certa miopia,
Pois enxerga diferente do que a gente gostaria
Não é preciso por lente nem óculos de grau
Tampouco que exista somente
Um ponto de vista igual
O jeito é manter o respeito e ponto final (2x)
Autoria: Banda Casuarina
Do ponto de vista da mãe todo filho é bonito
Do ponto de vista do ponto o círculo é infinito
Do ponto de vista do cego sirene é farol
Do ponto de vista do mar quem balança é a praia
Do ponto de vista da vida um dia é pouco
Guardado no bolso do louco
Há sempre um pedaço de deus
Respeite meus pontos de vista
Que eu respeito os teus
Às vezes o ponto de vista tem certa miopia,
Pois enxerga diferente do que a gente gostaria
Não é preciso por lente nem óculos de grau
Tampouco que exista somente
Um ponto de vista igual
O jeito é manter o respeito e ponto final (2x)
Autoria: Banda Casuarina
sexta-feira, 11 de maio de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Ação política e paixão erótica: a política pequena
Por Ivo Jose Triches e José
Luiz Ames*
É possível estabelecer uma
relação entre ação política e paixão erótica? O que leva o homem a agir
politicamente e o que o atrai eroticamente? Nietzsche sugeriu que se tratava da
“vontade de poder”: a existência de um desejo instintivo no homem de impor a si
mesmo e aos outros sua própria escala valorativa. Aristóteles acreditava que
tanto a ação política quanto a erótica eram respostas à tendência humana de realizar
fins: a vida boa na política e a procriação na erótica. E para Maquiavel?
O homem, para Maquiavel, é
um ser solitário e autointeressado que faz o bem quando é obrigado
e o mal sempre que tem oportunidade. A solidão que atinge a essência do homem o
faz enfrentar o problema: como alcançar a união, como transcender o solipsismo
da vida individual e encontrar compensação? Enquanto o homem permanecer
prisioneiro de sua solidão será incapaz de dominar ativamente o mundo, as
coisas e as pessoas. Em outras
palavras: se ele decidir viver só, estará fadado ao fracasso em todos os
sentidos.
A ação política e a paixão
erótica emergem como meios de romper as cadeias que prendem a alma humana e
impulsionam o homem ao encontro dos outros em busca de compensação.
O prazer do poder político,
assim como prazer da paixão erótica, está baseado na sensação de submissão. O
erótico, na paixão, é o meio pelo qual se possui a uma pessoa, mas somente por
um instante. O exercício do poder político, em compensação, é a possibilidade
de possuir a muitas pessoas e por um tempo prolongado. O exercício do poder
produz prazer constante. Contudo, se a posse erótica é mais breve do que a
política, o orgasmo lhe confere maior intensidade.
O erótico e o político estão
unidos por uma mesma paixão humana: o poder. Poder é a capacidade de controlar
a vontade do outro e impor-lhe determinado comportamento, mesmo contra sua
vontade. Na ação política e na ação erótica, o controle da vontade do outro é
tanto mais eficaz quanto mais prescindir da força bruta. O verdadeiro dominador
é um encantador de serpentes. Ele
faz uso da comunicação perlocucionaria objetivando atingir seus fins que é
manter-se no poder.
O mundo da ação política é,
por definição, pura presentidade. Aqueles que vivem nele são obrigados a tomar
decisões no agora e aqui. Ali onde o presente é toda a realidade, onde o futuro
se resume a escolhas presentes, domina a frivolidade. Neste mundo, as pessoas
são levadas a querer usufruir imediatamente tudo quanto é possível. A regra
de ouro é: gozar o tempo presente.
É aqui que o erótico e o
político se fundem. Os dois são fruições instantâneas, maneiras de eternizar a
glória fugaz de um momento privilegiado: a vitória no jogo político é o
equivalente do orgasmo no prazer erótico. Os escândalos sexuais que movimentam
o noticiário político, em todas as esferas de organização do poder, são
expressões da frivolidade de um mundo que não conhece sonhos. Basta recordar as
fantasias do ex-presidente americano Bill Clinton com a sua Mônica Levinski. Na
política e na erótica, é no agora e aqui que tudo se decide. É no agora e aqui
que tudo é usufruído. A regra é o máximo de prazer pelo maior tempo possível.
Aqui tudo é efêmero, nada pode ser apreendido. A frustração é o sentimento
inevitável num mundo em que tudo precisa ser gozado imediatamente.
A aproximação entre o
erótico e o político, na maneira como foi feita aqui, gera certo desencanto,
com a política! Com efeito, se a ação política se rege pelo prazer efêmero da
fruição, do gozo, da vitória à semelhança do orgasmo na relação erótica, o que
podemos esperar dela? Será que a política não consegue ser mais do que um jogo
em que interessa unicamente vencer, em que importa tão somente o resultado?
Quando olhamos para a ação
política tal como ela acontece, a única resposta possível é de que ela não
passa de um jogo em que interessa a vitória dos competidores. Não há
finalidades substanciais, não existe nada de permanente a ser esperado dela. O
destino da ação política é ser isso? Não há nada a ser feito para transformar a
ação política em uma construção de um mundo de justiça, liberdade, igualdade?
Será possível fazer da ação política uma obra que se dirija aos outros e não à
satisfação dos próprios competidores?
Essa forma de ser de muitos que vivem no mundo partidário em nosso país,
faz parte da “política pequena” como
dizia Antonio Gramsci (1891-1937). Para que alguém consiga chegar à “grande política” é necessário que
consiga transcender essa visão de mundo. E qual é essa nova visão? No próximo artigo indicaremos alguns caminhos. Contudo,
abaixo você encontrará uma pista..
Voltemos por um instante à
comparação da ação política com a paixão erótica. O eros é desejo de fruição
insaciável. Quer possuir o outro como objeto de satisfação. Como a saciedade
jamais acontece, é frustração. Somente quando o outro deixa de ser algo a ser
possuído para ser alguém para ser amado, emerge a possibilidade de ser feliz.
Para amar é preciso deixar o outro ser, é preciso querer seu bem não porque nos
faz falta, mas simplesmente porque ele existe, porque a pura existência dele é
motivo suficiente para amá-lo.
Na ação política é preciso
que um movimento semelhante aconteça para que se transforme de um jogo em que
interessa tão somente o resultado em uma obra na qual é visado o conjunto da
comunidade política e não os competidores do jogo. Enquanto a ação política se
resumir à disputa entre partidos pela posse do poder, ou de indivíduos pelo
domínio uns sobre os outros, ela não conseguirá ser mais do que fugacidade,
esforço vão de eternizar a glória da vitória momentânea. Enquanto a ação
política for isso será igual ao orgasmo na relação erótica: um prazer fugaz
impossível de ser retido. Como fazer a ação política transformar-se de jogo de
poder em vista do resultado em instrumento de construção para uma sociedade
justa? A resposta é tão complexa quanto a outra: como fazer que a paixão erótica se transforme de fruição
e gozo momentâneos em relação de amor? Resposta a essa questão está na segunda
parte deste escrito que você poderá ler na próxima semana.
http://boletimodiad.blogspot.com.br/
http://boletimodiad.blogspot.com.br/
* José Luiz Ames é doutor em Filosofia, professor da
Unioeste. E-mail: profuni2000@yahoo.com.br
Ivo José Triches é diretor das Faculdades Itecne
de Cascavel e Prof. Titular do Centro de Filosofia Clínica de Cascavel.
E-mail: ivo@itecne.com.br blog: www.itecne.edu.br/ivo
terça-feira, 8 de maio de 2012
O espírito agónico(luta) de Ulisses
Para nos
deleitarmos sob a leitura de Homero no que diz respeito ao Agon
grego, podemos citar ligeiramente Aquiles, o guerreiro mais amado e
admirado da Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de
Heitor, arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da
família, que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo,
para exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão - (in
Ulisses e o espírito agónico grego: o herói da imaginação,
do sacrifício e do conhecimento, Universidade de Coimbra, 2011) - ,
como o "herói dos mil artifícios"(polymetis ou
polymechanos), o que faz dele a ilustração mais paradigmática
dos poderes da imaginação, da capacidade inventiva, de uma
diplomacia intuitiva. A imaginação fulgurante de Ulisses, afirma
Delfim, incarnada na curiosidade e no espírito agónico da
mentalidade grega e do ser humano em geral, comporta de igual modo um
processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento
pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à
experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está representado na
figura engenhosa de Ulisses como o "herói que muito
sofreu"(polytlas).
A luta e o
prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si
mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a
inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.
O povo
grego vive intensamente os conflitos ou as guerras a que se propõe
lutar quer por honra, glória ou conquista territorial. Certamente,
em Ulisses, tudo isso vem legitimado, somando-se as estratégias
gregas em combate.
Conforme a trama muito pessoal da nostalgia empreendida desde que
fora obrigado a deixar a sua ilha, a aventura junto aos Ciclopes, que
muito me impressiona, não faria sentido se não fosse um desvio à
rota simples de seu trajeto, provocado pelo próprio Ulisses. Sem
deixar de ser o que é, carregando consigo todas as suas boas e más
qualidades, procura mostrar que não é um tirano. Por isso, nada
melhor do que travar um “agon” com algo que aparece pra ele
caracterizado de tirânico, ou seja, do modo de ser dos seres com que
se vai confrontar. Ora, moradores desta ilha, os Ciclopes (“olho
circular”), como sendo seres “arrogantes e sem lei” (Canto IX,
v. 106), dependentes de um modo de vida bem provinciano e pastoril,
sem quaisquer labor agrícola, pois tiram toda a sobrevivência da
terra. Dissimulados, vivem da indiferença e desprezam a esfera
política da existência. Cada qual que dite a lei para si e para os
que de si dependem, sem deliberação em assembleia; habitam grutas,
nos píncaros das montanhas (vv. 106-115). No entanto, para
contrariar a tirania dessa gente, eis que surge Ulisses a fim de
triunfar sobre um modelo de vida descomprometido com a virtude e com
a excelência. O agon de Ulisses, portanto, reivindica sua arete,
sua humanidade, seu aner frente aos Ciclopes.
Daí, como se verá através da ação do Ciclope Polifemo, o
indivíduo escolhido para objeto agónico de Ulisses, é evidente que
o mono-ocular e suas investidas não serão suficientes para conter o
espírito de Ulisses, orientado por sua areté e seu logos,
os quais promovem o
agon muito mais superior. “Esta agonia representa um
confronto direto com o mínimo da inteligência propriamente humana
(se o não fosse, Polifemo teria sido aniquilado) e o máximo da
inteligência propriamente humana: o triunfador, Ulisses. Com o ato
de Ulisses junto de Polifemo nasce cruentamente e em agonia a
afirmação da liberdade do ser humano como ser ético e político,
senhor de seus atos, por via de uma agência inteligente, que nada
submete, que nada pode submeter”(PEREIRA, Américo. Ulisses
e Penélope. Da nova paradigmaticidade, a partir da Odisseia de
Homero. Covilhã, Lusosofia,
2011, p. 12-17).
A Odisseia bem que poderia se chamar As agonias de Ulisses,
haja vista seus intentos contra toda sorte de males nas guerras e em
meio ao seu regresso à Ítaca. Trava sempre combates de vida ou
morte. A sua sobrevivência é a sobrevivência e o triunfo do
paradigma que representa toda uma civilização com histórias
marcantes que influenciarão o progresso intelectual da humanidade.
Engraçado, mas vejam que trocadilho curioso: O regresso de Ulisses
que constrói todo o patrimônio do progresso civilizatório da
humanidade. O contraponto do regresso é o seu progresso e
vice-versa.
Prof. Jackislandy Meira
de M. Silva
Especialista em
Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Olhe ao redor
Olhe
para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós. Não temos
amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não entendemos
porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas, coisas e
coisas, mas não temos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não
esteja catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora,
pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam
armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o
começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos
diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público
do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de
fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
Clarice Lispector
A filosofia popular
A charge acima nos faz pensar sobre uma multidão de filosofias que surgem para atender a todos os gostos possíveis. Há filosofia para tudo. Certamente, com a popularização da filosofia, corremos um sério risco de banalizá-la. E outra, com o academicismo da filosofia, podemos elitizá-la e fechá-la ao âmbito do intelectualismo abstrato e conceitual. O que fazer, então, para não diluirmos a filosofia em nem um desses extremos? Será que Diderot estava certo ao afirmar: "Apressemo-nos a tornar a Filosofia popular!"?
quinta-feira, 3 de maio de 2012
A inveja das moscas
por Luiz Felipe Pondé para Folha
Sou uma personalidade atormentada e dada a arroubos. Noites insones me levam a terras distantes onde nossos ancestrais vagam arrancando a vida e seu sentido das pedras. Com o passar dos anos, cada vez mais me encanta a luta desses nossos patriarcas perseguidos pelos elementos naturais, por seus próprios demônios e por deuses de olhos vermelhos cheios de sangue e dentes afiados.
Construímos sonhos de autorrealização profissional, afetiva e material. A expectativa com nossa própria grandeza ocupa grande parte de nossos devaneios.
O sentimento da fragilidade do mundo sempre me perseguiu desde a infância. Se os psicanalistas estiverem certos, e tudo que é primitivo é indelével, esse sentimento constitui minha substância mais íntima. Que inveja eu tenho das moscas!
Livres, voando pelo mundo, sem saber de si mesmas.
Li nas últimas férias a coletânea de ensaios The Best American Essays of the Century, editada por Joyce Carol Oates e Robert Atwan, Houghton Mifflin Company, Boston.
Destaco dois ensaios: The Crack-Up (a rachadura), de F. Scott Fitzgerald, de 1936 e The Old Stone House (a velha casa de pedra) de Edmund Wilson, de 1933.
Edmund Wilson foi, segundo Paulo Francis, o último grande crítico literário de uma tradição na qual o crítico não se escondia atrás de algum teórico, tipo Blanchot ou Derrida, para repetir o que todo mundo diz e com isso não correr riscos. Wilson enfrentava o autor cara a cara, dizendo o que pensava dele, sem se preocupar com o que a "indústria da crítica acadêmica" diria. A coragem nunca foi um valor na academia, Francis tinha razão.
Nesse ensaio, Wilson fala de uma casa de pedra na qual sua família viveu por muitos anos. Sua família era do tipo de família que aqui chamaríamos de quatrocentona falida. Mãe fria, pai, homem letrado e melancólico, ele, Wilson, parecido com seu pai, e também um bêbado.
Estou convencido de que pessoas sem algum vício terrível permanecem em alguma forma de infância moral. Apenas quem perdeu qualquer esperança de ser virtuoso deveria falar sobre moral. Pessoas sem vícios falando sobre moral é como virgens dando aula de sexo.
Wilson, entre outros parentes, fala de uma tia, infeliz no casamento, obrigada a ser uma mulher normal quando na realidade era uma filósofa schopenhauriana amadora. Segundo ele, ela enfrentou virtuosamente seu fardo criando um sistema filosófico pessoal pessimista e, quando ficou viúva, se mudou para Nova York e gastou seus últimos dias indo a livrarias e vendo teatro. Quando ainda casada, sua tia lia à noite, sobre o fogão, sozinha, em seu único momento de paz.
F. Scott Fitzgerald, autor de "O Grande Gatsby", nesse ensaio descreve a sua maior crise existencial (a rachadura que dá título ao ensaio), que o acometeu por volta dos 50 anos. Escritor famoso, Fitzgerald afirma: "Identifiquei-me com meus próprios objetos de horror e compaixão" e "passei a ter uma atitude trágica em relação à tragédia e melancólica em relação à melancolia". Em síntese, foi inundado por seus próprios objetos literários e se tornou, ele mesmo, um deles. O efeito foi devastador e libertador.
Na abertura, ele define o que entende por uma pessoa inteligente: conseguir viver com duas ideias opostas sobre a vida e não desistir de nenhuma delas.
E exemplifica: saber que não há esperança para nós e ainda assim viver buscando provar o contrário. O resultado seria uma vida combativa em nome da esperança. Uma vida pautada pelo controle de si mesmo e do mundo a sua volta.
Ao final do ensaio, ele volta a definir, agora, o que é, após sua rachadura, o estado natural de um adulto que tem consciência e sensibilidade: infelicidade qualificada (e não banal).
Uma condição com a qual convivemos, mas que ao assumi-la, uma espécie de libertação acontece: em suas palavras, não mais desejar ser um homem bom, não mais ser simpático com o marido de sua prima, nem responder a cartas de escritores jovens medíocres que não deveriam aborrecer os outros. Ser apenas um escritor e não querer agradar a ninguém, nem a si mesmo.
Sou uma personalidade atormentada e dada a arroubos. Noites insones me levam a terras distantes onde nossos ancestrais vagam arrancando a vida e seu sentido das pedras. Com o passar dos anos, cada vez mais me encanta a luta desses nossos patriarcas perseguidos pelos elementos naturais, por seus próprios demônios e por deuses de olhos vermelhos cheios de sangue e dentes afiados.
Construímos sonhos de autorrealização profissional, afetiva e material. A expectativa com nossa própria grandeza ocupa grande parte de nossos devaneios.
O sentimento da fragilidade do mundo sempre me perseguiu desde a infância. Se os psicanalistas estiverem certos, e tudo que é primitivo é indelével, esse sentimento constitui minha substância mais íntima. Que inveja eu tenho das moscas!
Livres, voando pelo mundo, sem saber de si mesmas.
Li nas últimas férias a coletânea de ensaios The Best American Essays of the Century, editada por Joyce Carol Oates e Robert Atwan, Houghton Mifflin Company, Boston.
Destaco dois ensaios: The Crack-Up (a rachadura), de F. Scott Fitzgerald, de 1936 e The Old Stone House (a velha casa de pedra) de Edmund Wilson, de 1933.
Edmund Wilson foi, segundo Paulo Francis, o último grande crítico literário de uma tradição na qual o crítico não se escondia atrás de algum teórico, tipo Blanchot ou Derrida, para repetir o que todo mundo diz e com isso não correr riscos. Wilson enfrentava o autor cara a cara, dizendo o que pensava dele, sem se preocupar com o que a "indústria da crítica acadêmica" diria. A coragem nunca foi um valor na academia, Francis tinha razão.
Nesse ensaio, Wilson fala de uma casa de pedra na qual sua família viveu por muitos anos. Sua família era do tipo de família que aqui chamaríamos de quatrocentona falida. Mãe fria, pai, homem letrado e melancólico, ele, Wilson, parecido com seu pai, e também um bêbado.
Estou convencido de que pessoas sem algum vício terrível permanecem em alguma forma de infância moral. Apenas quem perdeu qualquer esperança de ser virtuoso deveria falar sobre moral. Pessoas sem vícios falando sobre moral é como virgens dando aula de sexo.
Wilson, entre outros parentes, fala de uma tia, infeliz no casamento, obrigada a ser uma mulher normal quando na realidade era uma filósofa schopenhauriana amadora. Segundo ele, ela enfrentou virtuosamente seu fardo criando um sistema filosófico pessoal pessimista e, quando ficou viúva, se mudou para Nova York e gastou seus últimos dias indo a livrarias e vendo teatro. Quando ainda casada, sua tia lia à noite, sobre o fogão, sozinha, em seu único momento de paz.
F. Scott Fitzgerald, autor de "O Grande Gatsby", nesse ensaio descreve a sua maior crise existencial (a rachadura que dá título ao ensaio), que o acometeu por volta dos 50 anos. Escritor famoso, Fitzgerald afirma: "Identifiquei-me com meus próprios objetos de horror e compaixão" e "passei a ter uma atitude trágica em relação à tragédia e melancólica em relação à melancolia". Em síntese, foi inundado por seus próprios objetos literários e se tornou, ele mesmo, um deles. O efeito foi devastador e libertador.
Na abertura, ele define o que entende por uma pessoa inteligente: conseguir viver com duas ideias opostas sobre a vida e não desistir de nenhuma delas.
E exemplifica: saber que não há esperança para nós e ainda assim viver buscando provar o contrário. O resultado seria uma vida combativa em nome da esperança. Uma vida pautada pelo controle de si mesmo e do mundo a sua volta.
Ao final do ensaio, ele volta a definir, agora, o que é, após sua rachadura, o estado natural de um adulto que tem consciência e sensibilidade: infelicidade qualificada (e não banal).
Uma condição com a qual convivemos, mas que ao assumi-la, uma espécie de libertação acontece: em suas palavras, não mais desejar ser um homem bom, não mais ser simpático com o marido de sua prima, nem responder a cartas de escritores jovens medíocres que não deveriam aborrecer os outros. Ser apenas um escritor e não querer agradar a ninguém, nem a si mesmo.
terça-feira, 1 de maio de 2012
O processo de socialização da Educação a distância no Brasil
Pelo texto “Ensaio
sobre a Educação a Distância no Brasil”
da autora Maria Luiza Belloni, no tocante aos Processos de
Socialização, pudemos perceber que é uma tentativa clara e aberta
de preparar os jovens indivíduos das novas gerações para o uso dos
meios técnicos disponíveis na sociedade. Ora, é cada vez mais
comum em nossa sociedade a utilização, mesmo banalizada é claro,
dos instrumentos tecnológicos para fins de comunicação e interação
social. Já é quase impensável viver em sociedade sem um celular ou
um computador plugados à internet. A mediação de máquinas em
nossas relações é quase uma necessidade de sobrevivência. É
muito notório em nosso meio o uso das máquinas para se relacionar.
Sendo assim, é oportuna a observação feita no Ensaio, do ponto de
vista da sociologia, “que não
há mais como constestar que as diferentes mídias eletrônicas
assumem um papel cada vez mais importante no processo de
socialização”(BELLONI, Maria Luiza. Ensaio Sobre a Educação a
Distância no Brasil in Educação & Sociedade, ano XXIII, nº
78, Abril/2002, p. 118). A
partir disso, como negligenciar a evidência desses recursos técnicos
tão presentes na sociedade vigente? De um lado, as crianças
aprendendo sozinhas porque já possuem afinidade com essas novas
teconologias, pois convivem em casa com esse tipo de máquina;
escolas particulares equipando ou aparelhando suas instituições com
máquinas de última geração, sem pessoal eficaz e capaz para
operá-las. Por outro lado, temos as escolas públicas que tentam
acelerar os passos lentos no processo de informatização de suas
instituições. O pessoal dos Governos Municipal, Estadual e Federal
abarrotando as escolas públicas de computadores, data show e outros
recursos não oferece, na mesma medida, o acompanhamento de uma
capacitação para coordenadores pedagógicos e professores. Falta
gerenciamento e muita boa vontade. O resultado disso é que nossas
escolas estão, algumas, diga-se de passagem, repletas de aparelhos
multimídia, laboratórios de infomática e etc, inutilizados, porque
o acelerado processo de midiatização ou informatização das
escolas pelo poder público não tem um acompanhamento de capacitação
de pessoal considerado.
Tenho a impressão de que, por causa
disso, há um sério contraponto nas escolas entre o avanço
teconológico muito imediato e o retrocesso dos profissionais da
educação que não acompanham este avanço. Daí surge a pergunta
que não quer calar: Por que a mesma intimidade que os nossos filhos
tem com as máquinas em casa não pode haver nas escolas? Ou por que
eles não são educados a usá-los de forma adequada na escola? As
escolas públicas deveriam se importar um pouco mais com essa
problemática e já ir inserindo mecanismos metodológicos, como a
internet, para quebrar um pouco mais o ranço tradicional dos
sistemas de ensino. A crítica que a autora faz em relação às
escolas públicas e sua interação com as TIC procede: “as
crianças aprendem sozinhas(autodidaxia), lidando com máquinas
'inteligentes' e 'interativas', conteúdos, formas e normas que a
instituição escolar, despreparada, mal equipada e desprestigiada,
nem sempre aprova e raramente desenvolve”(idem).
Com esse panorama, que não é negativo,
mas processual e conflitivo, ousamos justificar pelo chamado choque
de gerações por que passamos hoje. O mundo não é o mesmo de há
20 anos. Estamos passando por transformações profundas na economia,
na moral, na educação, nas relações sociais, enfim. Por incrível
que pareça, as TIC interferem em todas as áreas de conhecimento
muito mais hoje do que no passado. Os meios tecnológicos de
informação e comunicação não tinham grande influência na vida
das sociedades, - bastam lembrar da queda das ditaduras de Honduras e
Egito, o quanto a sociedade civil do mundo inteiro não participou
via internet, influenciando diretamente na queda desses ditadores -
tampouco no processo de socialização entre os próprios indivíduos.
A TV e o rádio foram ampliados pela presença da internet em grande
parte dos lares brasileiros – Coversamos com as vítimas via
internet, em tempo real, no momento do Tsunami e terremoto que varreu
o nordeste do Japão ano passado. O mais impressionante é não só
absorvermos informação, mas interagirmos com ela. Intervirmos na
comunicação, interferirmos na velocidade da informação. A meu
ver, o problema funda-se aí, na constatação de que não basta
copiar ou repetir informações ou multiplicá-las até, mas
cogitá-las, reformando e interiorizando todo e qualquer tipo de
conteúdo veiculado, dependendo da reflexão crítica, intuitiva, e
da criatividade do usuário. Nesse ponto justamente entra o papel
maravilhoso da educação presencial e à distância.
Ao invés de negligenciar os recursos
técnicos como bem fazem as escolas e academias públicas, devíamos
tentar inserir os meios mais sofisticados da tecnologia mundial a
serviço das escolas, bem como de uma grande parte da população
ainda excluída do acesso ao mundo virtual que presta os mais
variados serviços às pessoas, desde a emissão de contracheque,
compras até cursos de bom nível educacional.
É óbvio que não dá para ficarmos fora
de todos os recursos tecnológicos à nossa disposição. Isso é
praticamente impensável, mas cuidemos, como bem demonstra o Ensaio,
de não entrarmos no jogo capitalista de consumo exacerbado dos bens
tecnológicos, porque isso pode nos anestesiar frente às profundas
desigualdades sociais que nos cercam e nos envolvem. Mesmo com todo
avanço da ciência e da técnica, o mundo ainda não está livre da
fome, da miséria, da pobreza, das doenças, da corrupção. Paira
sobre nós ainda um grande atraso cultural e político. É preciso
alertar: “Nos países
subdesenvolvidos porém industrializados e altamente urbanizados;
pobres e atrasados cultural e politicamente, mas com 'bolsões
tecnificados' e globalizados; nesses países as contradições e as
desigualdades sociais tendem a ser agravadas pelo avanço
tecnológico”(idem, p. 119).
Certamente, como nos afirma a autora do
Ensaio, na contramão do capitalismo e do neoliberalismo selvagem,
eis que surge a entrada da EaD como promotora de uma educação mais
econômica e de qualidade, “(...)
no qual o uso intensivo das TIC se combina com as técnicas de gestão
e marketing, gerando formas inéditas de ensino que podem até
resultar, às vezes e com sorte, em efetiva aprendizagem”(idem, p.
121).
Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Bacharel em Teologia, Licenciado em
Filosofia e Especialização em Metafísica
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