terça-feira, 9 de março de 2010

A redescoberta do outro em Lévinas


É gratificante ler Lévinas por um motivo muito simples, a minha subjetividade vem afirmada pela proximidade do outro. Sou eu quando o meu eu se permite entrar em contato com o outro. No dizer de Lévinas é assim: “Próximo é o que permite que o Eu seja Eu, se constitua como subjetividade pelo que a significação própria da subjetividade é a proximidade”. É muito comum entre nós se dizer “bom dia”, “como vai?”, “você está bem?”, “Olá”, enfim, antes de se falar com o outro, segundo Lévinas, é uma saudação como esta que provoca abertura a. Num certo sentido, o pensamento, a própria dúvida de Descartes, é sempre palavra. Não se trata aqui da questão meramente psicológica, sentimental, de saber se pode um pensamento sem palavra. Mesmo se isso existir, o pensamento quer ser palavra. E, falando(dirigindo-lhe a palavra), já se encontrou o outro.

Sua proposta filosófica é bastante íngreme, porém permeada de doçura e inteligência a partir do momento em que a relação com o outro se torna uma relação fundamental, pois é sobre ela que se enxertam o ser e o saber. “A partir da experiência da totalidade, pode-se passar a uma situação na qual a totalidade se despedaça, pois essa situação condiciona a própria totalidade. Essa situação é o fulgor da exterioridade ou da transcendência no rosto dos outros. O conceito dessa transcendência rigorosamente desenvolvido se exprime com o termo infinito”(Totalidade e Infinito, p. 23). O outro, pelo simples fato de existir, é razão do viver e do viver junto, porque é desafio a sair de si, a viver o êxodo sem retorno do amor.

Lado a lado com a alteridade, Lévinas afirma que a felicidade baseada no consumo decadente visa apenas alcançar objetivos desenfreados a fim de consumir o sujeito num vácuo de sentido sempre maior. Ao passo que se entrevê a possível felicidade quando se entende que as razões do viver estão em outros e há um motivo verdadeiro para viver na medida em que se tem a quem amar. Contudo, vê-se em Lévinas ou com Lévinas o rosto dos outros, em sua nudez, em sua concretude, no simples pôr-se de seu olhar, é a medida para a falta de fundamento de todas as pretensões totalizantes do eu(Cf. ibidem, p. 23-25).

Portanto, “o outro não é a encarnação de Deus, mas é através de seu rosto, no qual está desencarnado, que a manifestação da majestade de Deus se revela”(Ibidem, p. 77).

Confira as minhas páginas on line:

www.umasreflexoes.blogspot.com

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www.twitter.com/filoflorania

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

MENSAGEM DE DESPEDIDA DO PROF. FLÁVIO JOSÉ AO SAUDOSO RUI PEREIRA...

Entre aplausos e o canto das cigarras...
Prof. Flávio José de Oliveira Silva
A travessia é uma constante no mundo dos viajantes. Partir de um lugar para outro, sem hora marcada de chegada, muitas vezes é uma façanha que conseguimos realizar. Nós, os viajantes, temos as estratégias repentinas de mudanças bruscas e sempre nos encontramos com um porto seguro, mesmo estando em alto mar. Assim, numa dessas travessias da minha vida, consegui me encontrar com Ruy Pereira, num momento em que me acolheu como companheiro de trabalho.
Nosso primeiro contato foi como o último: sentimento de entusiasmo e paixão pelo que fazia. Causou-me admiração seu gesto _ “Vamos fazer muito pela educação. O momento é esse!” Brado de entusiasta e de certezas pelo dever a ser cumprido. O compromisso com o público.
Havia tido rápidos contatos como gestor em outro cenário. Ele Secretário de Saúde e eu como Prefeito no Município de Florânia. Agora, disposto a vir para a capital estudar e mudar o foco da minha vida pessoal, o destino proporcionou este reencontro. Lembro claramente de todas as vezes que nos reunimos com a equipe de Gestão da SEEC e ainda ouço em meus ouvidos suas colocações de apelo aos “companheiros” – como ele tratava a todos, e ou, “meu caro amigo, minha cara amiga” – Vamos botar esta máquina para funcionar, porque a criança, o aluno que está lá na escola, precisa da nossa atitude! Mas, o que mais me marcou em nosso convívio de apenas um ano e poucos dias foi seu companheirismo e respeito com seus pares. Esboçava uma figura de paternidade ímpar que sempre exerceu entre o grupo. Falava como um pai que aconselha, orientava para que o filho ouvido não cometesse erros. Era sempre alerta. Admirava o sentimento de compaixão que ele tinha pelos excluídos, pelos sujeitos de direito, e a esperança de uma sociedade melhor no futuro. Em seus argumentos, ilustrava sempre sua fala com a história de alguém que conhecera em suas andanças como Prefeito em Serra Negra do Norte, na Academia de Medicina ou mesmo na sua prática como Médico. Mas, a sua infância entre os irmãos era sempre presente. Quando se dirigia aos professores, estivemos juntos em diversas oportunidades, sempre acolhia e enobrecia o trabalho docente. Contava minúcias de sua infância difícil no interior, seu ingresso na escola rural, idas e voltas em uma bicicleta com seu irmão Jaime. Dificuldades, lugares distantes e a saudade do pai que tinha que trabalhar fora para dar sustento a casa. Da vida de agricultora que tivera sua mãe, o carinho e o cuidado pela permanência dos filhos na escola, bem como seu orgulho de ter sido aluno de escola multisseriada da zona rural do estado. Contava sem segredos as dificuldades vividas na casa do estudante em Caicó e seu ingresso no curso de Medicina em Recife. Capaz de expressar por lágrimas seus sentimentos, não escondia de ninguém seu espírito inquieto e irreverente: sempre antenado com o moderno e as transformações do mundo.
No dia do seu aniversário, ano passado, em almoço com seus auxiliares, ele fez um pronunciamento e anotei em um guardanapo de papel sobre a mesa, uma verdadeira lição de humanismo. Ele na sua emoção afirmava:
“Resolvi abraçar a causa dos injustiçados, dos oprimidos, porque desde muito novo descobri que havia aquelas pessoas que juntavam muito e pouco usufruíam. E aqueles que juntavam muito, nunca levavam consigo o que juntaram em vida. Resolvi então fazer pelas pessoas, cuidar das pessoas, pensando nelas e no mundo”.
Entre aplausos dos amigos, mensagens de despedidas, numa tarde cinzenta de um Recife em Carnaval, e com muitas lágrimas nos despedimos dele. E, nas árvores da sua nova morada, o cantar das cigarras contemplaram aquele momento da sua nova travessia.

Natal, em 13 de Fevereiro de 2010.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Há governo de esquerda?



Aprendi com Gilles Deleuze que não existe governo de esquerda, ainda mais quando nossas cabeças políticas estão superaquecidas pelo valor econômico. O dinheiro parece ser o problema e a solução para a política atual. Muita coisa, em nosso país, esbarra no dinheiro, na questão monetária como motivos de explicação dos acertos e desacertos na coisa pública.

Problema, quando gera corrupção nas relações escusas de nossos representantes políticos(dinheiro nas meias, nas cuecas, caso mensalão, caixa dois)... Solução, na medida em que investimentos são feitos no campo da saúde, educação, agricultura, lazer que visem não a um bem em si, mas à coletividade proporcionando qualidade de vida do povo brasileiro, sanando assim os direitos à vida, e vida em abundância.

Porém, voltemos a Gilles Deleuze acerca de sua afirmação de que não há governo de esquerda. Diz ele: “O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda. Mas não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me pedissem para definir o que é ser de esquerda ou definir a esquerda, eu o faria de duas formas. Primeiro, é uma questão de percepção. A questão de percepção é a seguinte: o que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, em que se vive em um país rico, costuma-se pensar em como fazer para que esta situação perdure. Sabe-se que há perigos, que isso não vai durar e que é muita loucura. Como fazer para que isso dure? As pessoas pensam: ‘Os chineses estão longe, mas como fazer para que a Europa dure ainda mais?’ E ser de esquerda é o contrário. É perceber... Dizem que os japoneses percebem assim. Não vêem como nós. Percebem de outra forma. Primeiro, eles percebem o contorno. Começam pelo mundo, depois, o continente... Europeu, por exemplo... Depois a França, até chegarmos à Rue de Bizerte e a mim. É um fenômeno de percepção. Primeiro, percebe-se o horizonte”( in Abecedário, letra “G”, gauche, de Gilles Deleuze).

Segundo Deleuze, é muito relativa a noção de esquerda e de direita que, por vezes, admitimos ter. Depende da percepção da realidade que assumimos. Na verdade, na verdade, o que se nota em alguns representantes do povo é um descaso muito grande em relação à identidade de suas posições políticas. Não assumem, de fato, nenhuma identidade. Simplesmente agem por agir, aleatoriamente. Com isso, os partidos políticos acabam perdendo valor e autonomia em meio a essa diluição do sentido político. Esquerda, direita, de centro esquerda ou de centro direita, enfim... É evidente, nesse país, uma incrível falta de percepção política, de visão de mundo. Grande parte de nossos políticos precisam, afinal, revestir-se de autenticidade e de identidade partidário-política, de modo que o eleitor veja a transparência de suas intenções em direção ao povo, à coletividade.

Deleuze vem a calhar aqui porque abre os nossos olhos para os interesses particulares desmedidos e exagerados de alguns políticos de nosso país que partem de si mesmos em direção a si mesmos, numa relação política medíocre de si para si, sem nenhum escrúpulo de que estão ali não por si, mas para todos, para defender os interesses de todos. Muitos só pensam em si, em si, em si... Onde está o povo nessa percepção política?

Jackislandy Meira de M. Silva, Professor e Filósofo.

Não deixem de conferir suas páginas na internet:

www.umasreflexoes.blogspot.com

www.chegadootempo.blogspot.com

www.twitter.com/filoflorania

www.floraniajacksil.ning.com

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ame ao próximo como a ti mesmo!


“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”(Mateus 19.19) é o ponto alto da ética cristã. No entanto, o que esse mandamento significa e o que ele requer, assim como acontece com muitos princípios morais bons, é ambíguo, porém exigente, sério e urgente do ponto de vista espiritual, haja vista a atual situação secular em que vivemos, onde predominam o desrespeito ao outro, a violência humana, um materialismo desenfreado e o descaso para com os valores éticos.
A questão que se coloca aqui é, do ponto de vista filosófico: Até que ponto “Amarás o teu próximo” é consistente em tolerar as crenças e práticas de seu próximo, quando você acredita que essas crenças causarão sofrimento eterno a ele? Como você poderá amar os outros apropriadamente sem agir para prevenir esse terrível destino? Isso se torna ainda mais complicado quando consideramos o princípio todo “amarás teu próximo como a ti mesmo”.
Afinal de contas, uma característica clara do amor por si mesmo é que você age para prevenir seu próprio sofrimento eterno, quando possível. Assim, se é necessário amar o próximo como a si mesmo, e uma conseqüência de amar a si mesmo é agir para evitar o sofrimento(incluindo o sofrimento eterno), então parece que também é necessário agir para prevenir o sofrimento eterno dos outros. Porém, amar aqui deve apontar para a caridade e fazer com que o outro se liberte do sofrimento, que muitas vezes pode ser o pecado ou o mal ao qual está envolvido, muito embora que a liberdade entendida aqui implique em negar a si mesmo.
A questão se desenrola e desemboca numa compreensão mais ampla: a espiritual. Nossa renúncia ao pecado e ao egoísmo, bem como ao individualismo presente como um fim em si mesmo deve visar à santidade, à comunhão com Deus, mas também ao bem de nosso próximo. Daí, Ele requer que sejamos longânimos com os mais fracos, a fim de ganhá-los para Cristo pelo amor.
Para se praticar ou viver um verdadeiro cristianismo, deve-se ter amor ao próximo, a partir de uma alteridade franca e transparente, conforme ensinou Jesus em Lucas 10.27: “Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”.
Com essa síntese dos mandamentos, Jesus combateu o farisaísmo judaico, fazendo menção à lei de Moisés e inaugurando uma nova ordem, uma nova maneira de servir a Deus, agora por via do amor ao próximo.

Jackislandy Meira de M. Silva, Professor e Filósofo.
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A redescoberta do outro em Lévinas


É gratificante ler Lévinas por um motivo muito simples, a minha subjetividade vem afirmada pela proximidade do outro. Sou eu quando o meu eu se permite entrar em contato com o outro. No dizer de Lévinas é assim: “Próximo é o que permite que o Eu seja Eu, se constitua como subjetividade pelo que a significação própria da subjetividade é a proximidade”. É muito comum entre nós se dizer “bom dia”, “como vai?”, “você está bem?”, “Olá”, enfim, antes de se falar com o outro, segundo Lévinas, é uma saudação como esta que provoca abertura a. Num certo sentido, o pensamento, a própria dúvida de Descartes, é sempre palavra. Não se trata aqui da questão meramente psicológica, sentimental, de saber se pode um pensamento sem palavra. Mesmo se isso existir, o pensamento quer ser palavra. E, falando(dirigindo-lhe a palavra), já se encontrou o outro.

Sua proposta filosófica é bastante íngreme, porém permeada de doçura e inteligência a partir do momento em que a relação com o outro se torna uma relação fundamental, pois é sobre ela que se enxertam o ser e o saber. “A partir da experiência da totalidade, pode-se passar a uma situação na qual a totalidade se despedaça, pois essa situação condiciona a própria totalidade. Essa situação é o fulgor da exterioridade ou da transcendência no rosto dos outros. O conceito dessa transcendência rigorosamente desenvolvido se exprime com o termo infinito”(Totalidade e Infinito, p. 23). O outro, pelo simples fato de existir, é razão do viver e do viver junto, porque é desafio a sair de si, a viver o êxodo sem retorno do amor.

Lado a lado com a alteridade, Lévinas afirma que a felicidade baseada no consumo decadente visa apenas alcançar objetivos desenfreados a fim de consumir o sujeito num vácuo de sentido sempre maior. Ao passo que se entrevê a possível felicidade quando se entende que as razões do viver estão em outros e há um motivo verdadeiro para viver na medida em que se tem a quem amar. Contudo, vê-se em Lévinas ou com Lévinas o rosto dos outros, em sua nudez, em sua concretude, no simples pôr-se de seu olhar, é a medida para a falta de fundamento de todas as pretensões totalizantes do eu(Cf. ibidem, p. 23-25).

Portanto, “o outro não é a encarnação de Deus, mas é através de seu rosto, no qual está desencarnado, que a manifestação da majestade de Deus se revela”(Ibidem, p. 77).

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MENSAGEM DE DESPEDIDA DO PROF. FLÁVIO JOSÉ AO SAUDOSO RUI PEREIRA...

Entre aplausos e o canto das cigarras...
Prof. Flávio José de Oliveira Silva
A travessia é uma constante no mundo dos viajantes. Partir de um lugar para outro, sem hora marcada de chegada, muitas vezes é uma façanha que conseguimos realizar. Nós, os viajantes, temos as estratégias repentinas de mudanças bruscas e sempre nos encontramos com um porto seguro, mesmo estando em alto mar. Assim, numa dessas travessias da minha vida, consegui me encontrar com Ruy Pereira, num momento em que me acolheu como companheiro de trabalho.
Nosso primeiro contato foi como o último: sentimento de entusiasmo e paixão pelo que fazia. Causou-me admiração seu gesto _ “Vamos fazer muito pela educação. O momento é esse!” Brado de entusiasta e de certezas pelo dever a ser cumprido. O compromisso com o público.
Havia tido rápidos contatos como gestor em outro cenário. Ele Secretário de Saúde e eu como Prefeito no Município de Florânia. Agora, disposto a vir para a capital estudar e mudar o foco da minha vida pessoal, o destino proporcionou este reencontro. Lembro claramente de todas as vezes que nos reunimos com a equipe de Gestão da SEEC e ainda ouço em meus ouvidos suas colocações de apelo aos “companheiros” – como ele tratava a todos, e ou, “meu caro amigo, minha cara amiga” – Vamos botar esta máquina para funcionar, porque a criança, o aluno que está lá na escola, precisa da nossa atitude! Mas, o que mais me marcou em nosso convívio de apenas um ano e poucos dias foi seu companheirismo e respeito com seus pares. Esboçava uma figura de paternidade ímpar que sempre exerceu entre o grupo. Falava como um pai que aconselha, orientava para que o filho ouvido não cometesse erros. Era sempre alerta. Admirava o sentimento de compaixão que ele tinha pelos excluídos, pelos sujeitos de direito, e a esperança de uma sociedade melhor no futuro. Em seus argumentos, ilustrava sempre sua fala com a história de alguém que conhecera em suas andanças como Prefeito em Serra Negra do Norte, na Academia de Medicina ou mesmo na sua prática como Médico. Mas, a sua infância entre os irmãos era sempre presente. Quando se dirigia aos professores, estivemos juntos em diversas oportunidades, sempre acolhia e enobrecia o trabalho docente. Contava minúcias de sua infância difícil no interior, seu ingresso na escola rural, idas e voltas em uma bicicleta com seu irmão Jaime. Dificuldades, lugares distantes e a saudade do pai que tinha que trabalhar fora para dar sustento a casa. Da vida de agricultora que tivera sua mãe, o carinho e o cuidado pela permanência dos filhos na escola, bem como seu orgulho de ter sido aluno de escola multisseriada da zona rural do estado. Contava sem segredos as dificuldades vividas na casa do estudante em Caicó e seu ingresso no curso de Medicina em Recife. Capaz de expressar por lágrimas seus sentimentos, não escondia de ninguém seu espírito inquieto e irreverente: sempre antenado com o moderno e as transformações do mundo.
No dia do seu aniversário, ano passado, em almoço com seus auxiliares, ele fez um pronunciamento e anotei em um guardanapo de papel sobre a mesa, uma verdadeira lição de humanismo. Ele na sua emoção afirmava:
“Resolvi abraçar a causa dos injustiçados, dos oprimidos, porque desde muito novo descobri que havia aquelas pessoas que juntavam muito e pouco usufruíam. E aqueles que juntavam muito, nunca levavam consigo o que juntaram em vida. Resolvi então fazer pelas pessoas, cuidar das pessoas, pensando nelas e no mundo”.
Entre aplausos dos amigos, mensagens de despedidas, numa tarde cinzenta de um Recife em Carnaval, e com muitas lágrimas nos despedimos dele. E, nas árvores da sua nova morada, o cantar das cigarras contemplaram aquele momento da sua nova travessia.

Natal, em 13 de Fevereiro de 2010.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Há governo de esquerda?



Aprendi com Gilles Deleuze que não existe governo de esquerda, ainda mais quando nossas cabeças políticas estão superaquecidas pelo valor econômico. O dinheiro parece ser o problema e a solução para a política atual. Muita coisa, em nosso país, esbarra no dinheiro, na questão monetária como motivos de explicação dos acertos e desacertos na coisa pública.

Problema, quando gera corrupção nas relações escusas de nossos representantes políticos(dinheiro nas meias, nas cuecas, caso mensalão, caixa dois)... Solução, na medida em que investimentos são feitos no campo da saúde, educação, agricultura, lazer que visem não a um bem em si, mas à coletividade proporcionando qualidade de vida do povo brasileiro, sanando assim os direitos à vida, e vida em abundância.

Porém, voltemos a Gilles Deleuze acerca de sua afirmação de que não há governo de esquerda. Diz ele: “O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda. Mas não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me pedissem para definir o que é ser de esquerda ou definir a esquerda, eu o faria de duas formas. Primeiro, é uma questão de percepção. A questão de percepção é a seguinte: o que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, em que se vive em um país rico, costuma-se pensar em como fazer para que esta situação perdure. Sabe-se que há perigos, que isso não vai durar e que é muita loucura. Como fazer para que isso dure? As pessoas pensam: ‘Os chineses estão longe, mas como fazer para que a Europa dure ainda mais?’ E ser de esquerda é o contrário. É perceber... Dizem que os japoneses percebem assim. Não vêem como nós. Percebem de outra forma. Primeiro, eles percebem o contorno. Começam pelo mundo, depois, o continente... Europeu, por exemplo... Depois a França, até chegarmos à Rue de Bizerte e a mim. É um fenômeno de percepção. Primeiro, percebe-se o horizonte”( in Abecedário, letra “G”, gauche, de Gilles Deleuze).

Segundo Deleuze, é muito relativa a noção de esquerda e de direita que, por vezes, admitimos ter. Depende da percepção da realidade que assumimos. Na verdade, na verdade, o que se nota em alguns representantes do povo é um descaso muito grande em relação à identidade de suas posições políticas. Não assumem, de fato, nenhuma identidade. Simplesmente agem por agir, aleatoriamente. Com isso, os partidos políticos acabam perdendo valor e autonomia em meio a essa diluição do sentido político. Esquerda, direita, de centro esquerda ou de centro direita, enfim... É evidente, nesse país, uma incrível falta de percepção política, de visão de mundo. Grande parte de nossos políticos precisam, afinal, revestir-se de autenticidade e de identidade partidário-política, de modo que o eleitor veja a transparência de suas intenções em direção ao povo, à coletividade.

Deleuze vem a calhar aqui porque abre os nossos olhos para os interesses particulares desmedidos e exagerados de alguns políticos de nosso país que partem de si mesmos em direção a si mesmos, numa relação política medíocre de si para si, sem nenhum escrúpulo de que estão ali não por si, mas para todos, para defender os interesses de todos. Muitos só pensam em si, em si, em si... Onde está o povo nessa percepção política?

Jackislandy Meira de M. Silva, Professor e Filósofo.

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Ame ao próximo como a ti mesmo!


“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”(Mateus 19.19) é o ponto alto da ética cristã. No entanto, o que esse mandamento significa e o que ele requer, assim como acontece com muitos princípios morais bons, é ambíguo, porém exigente, sério e urgente do ponto de vista espiritual, haja vista a atual situação secular em que vivemos, onde predominam o desrespeito ao outro, a violência humana, um materialismo desenfreado e o descaso para com os valores éticos.
A questão que se coloca aqui é, do ponto de vista filosófico: Até que ponto “Amarás o teu próximo” é consistente em tolerar as crenças e práticas de seu próximo, quando você acredita que essas crenças causarão sofrimento eterno a ele? Como você poderá amar os outros apropriadamente sem agir para prevenir esse terrível destino? Isso se torna ainda mais complicado quando consideramos o princípio todo “amarás teu próximo como a ti mesmo”.
Afinal de contas, uma característica clara do amor por si mesmo é que você age para prevenir seu próprio sofrimento eterno, quando possível. Assim, se é necessário amar o próximo como a si mesmo, e uma conseqüência de amar a si mesmo é agir para evitar o sofrimento(incluindo o sofrimento eterno), então parece que também é necessário agir para prevenir o sofrimento eterno dos outros. Porém, amar aqui deve apontar para a caridade e fazer com que o outro se liberte do sofrimento, que muitas vezes pode ser o pecado ou o mal ao qual está envolvido, muito embora que a liberdade entendida aqui implique em negar a si mesmo.
A questão se desenrola e desemboca numa compreensão mais ampla: a espiritual. Nossa renúncia ao pecado e ao egoísmo, bem como ao individualismo presente como um fim em si mesmo deve visar à santidade, à comunhão com Deus, mas também ao bem de nosso próximo. Daí, Ele requer que sejamos longânimos com os mais fracos, a fim de ganhá-los para Cristo pelo amor.
Para se praticar ou viver um verdadeiro cristianismo, deve-se ter amor ao próximo, a partir de uma alteridade franca e transparente, conforme ensinou Jesus em Lucas 10.27: “Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”.
Com essa síntese dos mandamentos, Jesus combateu o farisaísmo judaico, fazendo menção à lei de Moisés e inaugurando uma nova ordem, uma nova maneira de servir a Deus, agora por via do amor ao próximo.

Jackislandy Meira de M. Silva, Professor e Filósofo.
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