sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Jornal Evangélico entrevista o ex-Padre Jackislandy


Jornal evangélico de repercussão nacional, "Mensageiro da Paz", publica na íntegra a entrevista do "ex-Padre", Jackislandy, um floraniense que dá testemunho cristão na Assembléia de Deus desta cidade. A entrevista pode ser lida aqui no Portal INFORSIDE e em todos os jornais do mensageiro da paz espalhados pelo país.

De onde derivam os sentidos?

Platão explica a gênese do mundo sensível por meio de um mito chamado o mito da “Chora”. Originalmente existiam as idéias e também a matéria originária que em grego se chama “Chora”. Num certo ponto entra em ação um demiurgo. Uma entidade intermediária entre as idéias e a matéria. O demiurgo é uma espécie de deus artífice que plasma as coisas tendo como modelo as idéias. O artífice, o demiurgo produz a realidade física olhando para o modelo eterno que é constituído pelas idéias. No diálogo Timeu, Platão descreve este mito da “Chora” e afirma que a finalidade última da produção do mundo é o bem. O demiurgo plasma o mundo pelo amor ao bem. As coisas derivam desta ação do demiurgo que tem como objeto a realização do bem. O mundo, portanto, é a obra da inteligência do demiurgo que produz no nível sensível uma cópia do modelo eterno constituído pelas idéias.
Para Platão, conhecer se identifica com a anamnese, isto é, com a recordação, com a lembrança, com a memória. A alma pode conhecer o mundo supra-sensível porque antes de encarnar-se num corpo o tinha contemplado. Nesta vida, por ocasião do encontro com as coisas, a alma lembra as essências eternas que tinham contemplado antes. A alma extrai de si mesma, quer dizer, lembra aquilo que já tinha visto, isto é, a primeira forma de explicar o conhecimento que se trata de uma explicação mítica ligada as doutrinas órfico-pitagóricas, segundo as quais a alma é imortal, preexiste ao corpo, se encarna num corpo por causa de uma culpa. A novidade deste argumento consiste porém no fato de que a influência órfico-pitagórica se junta com o elemento da maiêutica socrática porque, conforme afirmação, a alma está grávida da verdade. Em um segundo momento, sempre no diálogo Menon, Platão usa um argumento dialético, utilizando uma experiência maiêutica. Ele interroga um escravo ignorante em geometria e através de perguntas adequadas lhe permite que, ele mesmo, resolva o problema de geometria.
O escravo, ignorante de geometria, afirma Platão, encontra a solução dentro de si mesmo, na sua própria alma. A verdade, segundo Platão, já está na alma. O conhecimento consiste em extrair de si mesmo a verdade antes de contemplada.
No Fédon, Platão aprofunda o argumento confirmando a anamnese por meio da reflexão sobre os conhecimentos matemáticos que o homem aprende não a partir da experiência sensível, mas pelo cálculo que ele se realiza no plano do mundo puramente inteligível, isto é, do mundo interior.
Os graus do conhecimento:
| Sensível -----> Doxa(opinião)CONHECIMENTO -|
| Supra-sensível -----> Episteme(ciência verdadeira)
A doxa se divide em duas partes Eikassia (Imaginação) e Pistis (crença).
A episteme se divide também em duas outras partes Diánoia e Nóesis.
§ Diánoia: conhecimento intermediário ou matemático-geométrico;
§ Nóesis: intelecção das idéias e captação da idéia suprema que é a do bem.
A dialética platônica consiste na intuição intelectual na qual o homem passa de idéia em idéia até chegar a idéia suprema do bem.
Em Platão, a dialética é de tipo positivo porque comporta uma progressiva ascensão dos níveis mais baixos que são constituídos pelo mundo material e sensível aos níveis mais altos que são constituídos pelo mundo das idéias, da idéia do bem.
Para Platão, a arte é imitação do mundo sensível, do mundo material, mas a arte é imitação da idéia. Então, a arte é a sombra das sombras. A idéia das idéias.

Prof. e filósofo, Jackislandy Meira de Medeiros Silva

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Fotos da 3ª Ação Cidadania do Teônia Amaral



























































sala de "Curiosidades filosóficas" na


3ª Ação cidadania da EETA de


Florânia/RN.


A Farmácia de Epicuro.

Segunda-feira passada, dia 01 de dezembro de 2008, na Escola Estadual Teônia Amaral em Florânia, RN, pudemos vislumbrar de perto as práticas, saberes e valores que tanto estimulam alunos, professores, equipe pedagógica, direção escolar ou Comunidade Escolar no que diz respeito às preocupações internas da instituição quando o assunto é aprendizagem. Houve a 3ª Ação Cidadania da EETA, cujo tema fora: “Teônia Amaral mostra seus saberes e práticas”.
Nesse dia tão badalado, não menos rico de conteúdos que nas aulas, sentimo-nos presenteados também pela 4ª feira do empreendedor do “Despertar” em nosso Município, ocorrida nas mesmas circunstâncias da “Ação”. Um presente duplamente carregado de sentido e de admiração por aqueles que iam e vinham das apresentações da sala do Centenário de morte de Machado de Assis, da sala de História com seus personagens e fatos, da sala de Geografia com a preocupação do espaço, do clima e da política, da sala de Curiosidades filosóficas no tocante à Farmácia de Epicuro, à Morte dos filósofos, aos bustos dos filósofos e ao jogo da memória com os personagens históricos da Filosofia, bem como os laboratórios de Biologia e Química de nossa Escola que acabaram dando um show de experimentos. Ainda tivemos a sala de Turismo mostrando as belezas religiosas e paisagísticas de Florânia... Muito mais, mas muito mais mesmo nós tivemos com que nos encher de orgulho quando vimos todas as salas repletas de trabalhos construtivos, realizados com carinho pelos alunos de nossa Escola. Valeu a pena! Ótimo trabalho!
Mas, gostaria aqui, nesse espaço, de intensificar as iniciativas do trabalho realizado pelos alunos do 3º ano do Ensino Médio do Cajueiro em que sobrou ousadia e muita criatividade. Desenvolveram uma “Farmácia de Epicuro” invejável e inteligente do ponto de vista filosófico.
Nela, o “Tetrafármacon”(chamada “ética de Epicuro”): “1º) Não se deve temer a morte; 2º) É fácil alcançar o bem; 3º) não se deve temer a divindade; 4º) É fácil suportar o mal” (in “O Jardim das Aflições”, pg. 58). Segundo Olavo de Carvalho, não se trata de uma ética, mas de uma psicologia prática, uma espécie de “auto-ajuda” para a conquista da felicidade – assim entendida por Epicuro. Para mim, é uma sabedoria ou a própria filosofia de Epicuro uma vez que afirma a vida pautada na alegria, na amizade, na paz e na felicidade.
O saber médico era um dos principais saberes da época de Epicuro, SÉC. IV - III a.C. Onde a FELICIDADE era fruto da harmonia entre MEDICINA E FILOSOFIA que davam normas para a vida correta, para a BOA VIDA.
Daí, a Filosofia de Epicuro ser chamada de PHARMAKON ou TETRAPHARMAKON. Vejam a bula com os quatro remédios de Epicuro para a cura das paixões e dos tormentos da alma: 1ª. As divindades não observam os homens com qualquer interesse. Tudo é “átomo e vazio”, e os átomos, que são partículas minúsculas, se movimentam como em uma constante queda, e se há um desvio de um que pode ocorrer um choque, há então mudanças no plano visível. Isso não quer dizer que não possa existir deuses, e de fato eles existem. Todavia, ficam no seu mundo, e os homens tem também o seu próprio. Sendo divinos, não se interessam em olhar para o que é menos que eles, a vida dos mortais. Por isso mesmo, os homens não devem temê-los. Criar, lutar para obter riquezas e honrá-los seria uma forma de grande tormento entre homens. Um tormento tolo e inútil. Eis então a primeira regra para a Felicidade: não temer os deuses; não se preocupar com eles(isso não quer dizer, não se ocupar deles – Epicuro não manda não crer neles); 2ª. Sendo o mundo só “átomos e vazio”, temos de entender que sensações são físicas e que sentimentos são também produtos de mudanças de movimentações atômicas e, portanto, corporais. Assim, quando a morte chega, as sensações cessam e tudo que é significante para nós – prazer e dor – desaparece. Eis que a morte é ludibriada, pois quando ela vem, no mesmo momento não encontra mais o homem que ali está. Eis aí a segunda regra: não temer a morte, ela é tão incapaz de nos fazer mal quanto os deuses; 3ª. e 4ª. Ambas estão no próprio senso comum do pensamento hedonista: aquilo que é autenticamente bom é explicitamente simples, e pode ser buscado sem medo. Por exemplo: para alguém que tem sede, um simples copo de água é um bem valioso; uma vez degustado de modo correto, inteligente, é tudo o que se precisa(no momento) e, então, fonte de imenso prazer. Em relação ao mal, que poderia ofuscar prazeres, devemos saber que ele é o sofrimento, a dor, mas ele jamais dura para sempre; além disso, há uma série de exercícios mentais que podemos fazer para não prestarmos a atenção na dor, esperando-a passar, pois uma hora ela irá, com certeza, acabar. Eis aí a nossa receita para a busca do prazer e a fuga da dor, base da felicidade para Epicuro. “É vã toda e qualquer filosofia que não cure algum mal do espírito humano”.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Lampejos do Eros(Amor) em Platão

Tratado no “Banquete” descreve-se como sendo o mito do nascimento de Eros. Quem fala sobre o nascimento de Eros não é diretamente Sócrates, mas ele recebeu a narração do nascimento de uma mulher, chamada Diotima. Esta mulher é uma invenção platônica. A personagem enriquece a trama, tão bem discorrida no diálogo contado aqui superficialmente sem as miudezas dos detalhes postos pelo autor.
Por ocasião da festa de Afrodite(deusa do amor) e para os festejos, os deuses fazem uma grande festa e a esta convidam deuses e semi-deuses. A esta festa é convidado POROS(riqueza, recurso) pai de Eros. De repente, aparece a mulher que tem duas características:
§ Peneia(pobreza) é feia. Entra para mendigar as migalhas da festa. Da união dos dois(POROS E PENEIA) nasce EROS.
Platão diz: “Eros tem as características do pai e da mãe. Ele não é belo e não é feio, porém é desejo de beleza, desejo de verdade”. O homem é Eros.
No início, Platão tinha colocado uma pergunta: “o amor é belo, bruto ou feio?” Não é nem belo, nem feio e nem bruto, mas é algo intermediário(uma realidade intermediária).
O homem é, sobretudo, desejo da beleza, é desejo da verdade, é desejo de uma beleza completa; exatamente porque não a possui. O que seria, talvez, um desafio nosso do presente, se a desejássemos quando a possuíssemos!
O amor é desejo do bem e da felicidade em forma completa; é o desejo de procriação do belo.
O homem tem desejo de criar algo que dure, não apenas uma beleza que passa, mas que permanece.
A procriação nos corpos(sexo) é a necessidade de algo que não passe, que se eternize.
O desejo de procriar nos corpos é o nível mais baixo. Existe o nível profundo, aqueles que desejam procriar no espírito(na alma).
Quem tem a capacidade de procriar verdadeiramente é a alma, porque por meio da alma se chega a perceber a realidade do mundo verdadeiro. Nesse sentido o desejo do bem e do belo é inseparável do desejo da imortalidade. Para chegar à beleza eterna existem vários graus no caminho do Eros.
1. O homem chega à beleza eterna começando com o amor aos corpos belos;
2. O amor às almas belas;
3. O amor aos costumes belos e às leis morais;
4. O amor aos conhecimentos científicos e idéias;
5. O amor à ciência das ciências(que é contemplação da verdade e da beleza do mundo ideal-divino) que é conhecimento da beleza em si.
O Eros, desejo de eterna beleza, representa o dinamismo do homem que não fica satisfeito até enquanto não alcança a eterna beleza; aquela que não nasce nem morre; mas que simplesmente é. Existe por si e não por outro, caracterizando no homem concreto a busca por uma beleza intensa, verdadeira e autêntica, que não se cansa de ser desejada porque desejável.
Essas luzes jogadas na obra “O Banquete” de Platão têm o objetivo de nos convidar a ler este diálogo, desejando-o a tal ponto que queiramos, de fato, amá-lo. Lampejos, lampejos, lampejos de idéias que fluem da boca dos personagens, apenas para nos fazer entrar na festa, apenas para nos levar a ler esta admirável obra.

Texto construído com base no diálogo “O Banquete” de Platão, apoiado pela obra:
REALE, G. – ANTISERI, D. História da Filosofia, vol. I, S. Paulo: Paulinas
1990.

Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Prof. e filósofo.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Platão e o sentido de vida verdadeira

No diálogo Górgias, Platão desenvolve uma sabedoria para a vida, quando afirma por boca de um personagem, evidentemente de um sofista que a verdade está sempre do lado mais forte e que a vida do homem virtuoso é sem sentido. Já o poeta Eurípedes dizia que quem pode saber se o viver não é morrer e se o morrer não é viver? Nós somos mortos e o corpo significa para nós como um túmulo. Platão retoma de qualquer forma esta afirmação que inverte o sentido comum dado a vida, a morte. A vida verdadeira é aquela vivida não na dimensão do corpo, mas sim, da alma. Viver para o corpo significa viver para aquilo que é destinado a morrer. Viver para a alma significa viver para aquilo que é destinado a existir sempre. Platão fornece também as provas da imortalidade da alma, sobretudo no diálogo Fédon. Ele afirma que a alma humana é capaz de conhecer coisas imutáveis e eternas, quer dizer, as idéias. Ora, para poder conhecer tais coisas ela deve possuir, como condição indispensável, uma natureza dotada de afinidades com essas coisas imateriais e eternas, caso contrário, elas não poderiam ser minimamente entendidas.
Conseqüentemente, como essas coisas que a alma conhece são imutáveis e eternas, a alma também deve ser eterna e imutável. A alma é feita da mesma substância da qual são feitas as idéias. A alma é uma realidade que tem afinidade com as idéias, e portanto, pertencem ao mesmo gênero dos entes mais visíveis e não perceptíveis por meio dos sentidos. A alma é de natureza espiritual e racional. Ela é inteligente e imortal. A imortalidade é uma conseqüência da espiritualidade da alma. Se ela é de natureza espiritual significa que é diferente da matéria. A matéria é corruptível. A alma sendo espiritual é incorruptível. Portanto, a alma permanece sempre. A alma não é sujeita a corrupção, ela é imortal. Assim, Platão afirma que no homem existe o corpo que é destinado à morte e a alma que é destinada à vida, a alma é imortal. Afirmada a existência de algo incorruptível e eterno que existe na vida do próprio homem.
A vida do homem nesta dimensão terrena é uma passagem e é uma prova. Os homens são chamados a viver segundo a alma. Se eles vivem ligados ao corpo, as paixões não conseguem, após a morte, separar-se do elemento corpóreo e portanto estas almas se ligam novamente a outros corpos, não apenas de homens, mas também de animais. As almas que tiverem vivido segundo a alma, elas se reencarnam, mas em formas superiores, sempre mais purificadas da matéria. Estamos assim diante da doutrina da reencarnação ou setempsicose que fala de um ciclo de reencarnações para o homem chegar a uma purificação completa da alma.
Com esta doutrina da imortalidade da alma da qual a reencarnação é o aspecto norteador, Platão revoluciona os valores clássicos do mundo grego que eram em ordem, a saúde física, a beleza do corpo, as riquezas honestas, a juventude de vida com os amigos. Platão planta uma na ordem baseada na descoberta do mundo supra-sensível. Os valores ligados ao mundo corpóreo passam e são efêmeros. Os valores verdadeiros são aqueles ligados ao conhecimento da verdade eterna do mundo das idéias. Portanto, o primado é dado à verdade, à justiça e à fortaleza de ânimos.
O verdadeiro eu é o supra-sensível. Portanto, na vida do homem o aspecto mais importante é, como já dizia Sócrates, o cuidado com a alma, através de um processo pelo qual o homem se purifica, chegando sempre mais ao conhecimento do mundo supra-sensível.
Esta é a verdadeira conversão, conhecendo o mundo verdadeiro, a alma cuida de si mesma e realiza a própria purificação. Converte-se e eleva-se. Nisso consiste a virtude. Para Platão, o filósofo é aquele que deseja o mundo eterno e supra-sensível. Portanto, a filosofia é, a um só tempo, desejo da morte, mas enquanto desejo da verdadeira vida. A filosofia é o exercício de vida verdadeira. Admite-se, assim, a Filosofia como um aprender a morrer, uma preparação para a morte.





Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Divagações sobre o sentido da refeição.

O que provoca uma boa refeição não é tanto a comida, mas as pessoas que se juntam em torno da mesa para degustá-la. Não é só o aroma apetitoso que se exala pela casa inteira o motivo maior de nos encontrarmos na hora de uma refeição. Quem geralmente nos convida para a mesa são pessoas. Elas são a graça, são o tom que dão harmonia a todo e qualquer encontro familiar ou entre amigos. Além disso, ainda há o sentido cristão que se objetiva nas palavras do Apóstolo Paulo, “Quer comamos, quer bebamos, façamos tudo por causa de Cristo”.
Epicuro, filósofo helenístico, que viveu antes de Cristo há três séculos e meio, jamais seria capaz de entrar numa lanchonete para comer sozinho. Para ele, a razão de nos alimentarmos não está no simples prazer de comer, mas na alegria de nos encontrarmos no momento do ágape. Sentarmo-nos à mesa sozinhos é triste e, por vezes, deprimente. Refeição, mesa, ágape devem ser sinônimas de encontro, partilha, alegria, festa, celebração da vida...
A cultura judaica, diferentemente da romana, eleva o sentido da refeição à “Beraká”, a uma verdadeira e indispensável Ação de Graças. Daí reiteramos o real valor da refeição que se desprende da Cultura neoliberal, artificial e relativa por que passa o mundo europeu.
Ao invés de acumularmos capital, lucros para o consumo desmedido de nossas falsas necessidades que se desenrolam até a mesa nossa de cada dia, cheia de guloseimas, excessos e desperdícios, o ideal mesmo seria nos deleitarmos com os frutíferos encontros e desencontros que ela propicia. Troca de experiências, o repartir da culinária, o diálogo sobre as notícias do dia, o afeto entre familiares e convidados, o lugar de reunião de pessoas que há muito não se viam e agora sentam juntas, comem do mesmo pão e bebem da mesma bebida, revelando o mistério de uma refeição, onde temperos e destemperos são revolvidos, tentando formar a medida desejada dos alimentos e das relações ali dispostos por aqueles que participam da mesa.
As interfaces, os vários sentidos da refeição nos indicam que por dentro dela emerge o que dá unidade, gozo e satisfação para além da matéria, do que é visto e ouvido, do que é sentido, para além do dito, a comunhão de todos a fim de testemunhar o pleno desejo do alto, o elevado desejo do céu quando não há sequer desejo, apenas presença real de algo inaudito. Atentamos assim, para essa poesia:
“O próprio Deus o compõe
Da fina flor de seu firmamento.
É o pão tão prazeroso
Que não serve em sua mesa
O mundo que você acompanha.
Ofereço-o a quem quiser me acompanhar:
Aproximem-se. Vocês querem viver?
Tomem-no, comam-no e vivam!”
Trecho de Racine, citado por Marcel Proust para relacionar à profissão de Padeiro, caso não fosse escritor, cujo título é Pão dos Anjos. O ato de escrever é comparado por Proust como o do padeiro que produz o pão dos anjos, o pão puro e prazeroso.


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O dia do Mestre( 15 de Outubro)...

Neste dia do Professor, temos a oportunidade de interiorizar sobre a beleza do magistério em nossas vidas. Quer sejamos médicos, filósofos, arquitetos, engenheiros, agrônomos, matemáticos, físicos, químicos, enfim... Todos nós passamos pelas mãos ou pelos olhos de um PROFESSOR, um verdadeiro MESTRE de nossas vidas. No texto em questão faço uma pequena apresentação de qual deve ser a função do mestre a exemplo de Sócrates.
O valor de Sócrates está, sobretudo, no método que ele utiliza para desenvolver a sua Filosofia. Ele baseia tudo sobre um encontro. Encontrando-se com Sócrates, a pessoa encontrava-se com o mestre. A função do mestre não é tanto a de ensinar coisas, mas sobretudo de ajudar a pessoa na descoberta da verdade. O encontro com Sócrates tornava-se possível e mais fácil o encontro com a própria verdade presente em nós. A função do mestre era de facilitar a experiência da verdade. Portanto, o valor de Sócrates se manifesta em dois níveis: no nível do conhecimento da verdade e no nível da responsabilidade moral para com esta própria verdade.
Sócrates suscitava nos seus discípulos, o desejo de descobrir a verdade e de aderir pessoalmente a ela.
O Mestre ensina:
1. Coisas – conhecimentos.
2. A descobrir a verdade que está em ti – o logos(razão).

Sto. Agostinho fala do mestre interior: Magister intus(mestre dentro de si).
É a função mais importante do mestre exterior, descobrir a verdade a partir de si mesmo, aprender a ver o mundo por si mesmo.
Esta verdade está em cada homem, mas eu não posso manipular, e esta é a grande diferença entre os sofistas e Sócrates. Não é para usar o conhecimento ao seu bel prazer e sim usá-la com método, com responsabilidade, isto é, usá-la com dignidade.
Sócrates deixa uma abertura bastante profunda que é a alma. Descobrir melhor o sentido da alma, aprofundar...

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Autárkeia e phýsis em Epicuro de Samos

Do próprio conceito grego de autárkeia afirma-se o lugar do pensamento de Epicuro, na phýsis. A autárkeia é o princípio regente de si mesmo. É o comando do ser em profunda harmonia com a phýsis brotando a realidade do mundo.
O que importa para Epicuro é a vida junto à natureza, pois é a verdadeira realização do ser enquanto uma pequena parte integrada na grande totalidade. Não há partes separadas da totalidade, do mesmo modo como não há totalidade separada das partes. Para se entender a phýsis na sua totalidade, segundo Epicuro, é necessário ir até as partes, voltar ao particular, ao indivíduo. “O estado de ser da natureza leva-nos a refletir sobre o sentido de realização do nosso próprio ser, um microcosmos”( Silva, Markus F. da, Epicuro: sabedoria e jardim, p. 15).
A compreensão do todo da phýsis é simultaneamente a compreensão de si mesmo como princípio que se gera a partir de si mesmo, dando uma unidade fundamental ao mundo, às coisas, aos seres e conseqüentemente a si mesmo.
Sendo a phýsis a própria realidade no seu sentido mais profundo e a physiología o exercício de sua compreensão, a autárkeia é o comando, o regente do ser de acordo com a natureza.
Assim, o ser que não vive em sintonia com a natureza está desvinculado da projeção do saber de Epicuro. Este pensamento ou Filosofia é dinâmico porque está estreitamente ligado a phýsis, haja vista a realização de seu pensar sobre a phýsis a partir do princípio(átomo), dos corpos, mundos e todo.
A realização da phýsis é uma questão elementar porque vem explicitado o princípio de realidade(arché) pelo axioma básico do atomismo, conforme o qual o todo é composto de átomos e vazio. Os átomos são elementos constitutivos de todas as coisas, origem dos corpos compostos e a base do atomismo, cujo princípio é afirmado na Carta a Heródoto: “Primeiramente, nada nasce do nada(não-ser). Se não fosse assim, tudo nasceria de tudo e nada teria necessidade de seu próprio germe”( DL, X, 38, in Silva, idem, p. 27).
Não se tem pretensão alguma de explicitar o caráter complexo dos dados da phýsis em Epicuro, porém procura-se estabelecer um viés, uma abertura que se vincule à teleologia da “vida física”. Parece que uma vida tranqüila e feliz implica numa vida física autêntica, daí a volta constante de Epicuro à realidade original da phýsis, da natureza mesma do indivíduo:“Em suma Epicuro preconiza a volta ao ‘início’ para traçar o caminho que o conduza à sabedoria prática, ou ao cumprimento perfeito da natureza do indivíduo, pelo reconhecimento do saber originário aqui entendido como physiología. Mas para que haja este reconhecimento é preciso compreendermos a phýsis em sua realização e não apenas em sua compreensão”(SILVA, p. 27).
A relação intrínseca phýsis-autárkeia se projeta num crescente a um télos extremamente positivo, no sentido da realização completa de um modo de ser do indivíduo, autárkeia. Alcançando, assim, toda sua intensidade no éthos epicúreo. De fato, o centro da ética de Epicuro é a autárkeia como exercício do sábio que procura viver de acordo com a natureza. Este aspecto terá atenção especial na terceira parte deste estudo.
Segundo a etimologia da palavra, phýsis é o processo de crescimento ou gênese de alguma coisa, e, neste sentido, Epicuro somente a utiliza quando se refere aos corpos compostos e aos mundos. Outro sentido de phýsis é princípio(arché), porque é átomos e vazio; e num último sentido, phýsis é o modo de ser do todo ilimitado.
Há de se admitir também outras afirmações de Epicuro no que diz respeito a phýsis. É o problema da composição dos corpos e das almas, a explicação de que tudo o que existe é formado por átomos que se agregam em composições ou corpos, concebendo assim o axioma básico da physiología epicúrea e possibilitando a análise das estruturas compostas, desde as microestruturas corpóreas, até as macroestruturas dos mundos. Os átomos, portanto, constituem a realidade.
Todavia, como a phýsis é a fonte de todo aprendizado do sophós, do equilíbrio entre o homem e a natureza, faz-se necessário ainda compreender o sentido deste equilíbrio em direção ao bem-estar de seu corpo e, por conseguinte, de sua conduta no mundo.


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Epicuro de Samos e sua Ética.

Busca-se explicitar a ética epicúrea a partir do sentido pleno do exercício da Filosofia como um saber para a vida, ou o equilíbrio próprio do sophós(sábio), que é autárkes, isto é, que tem o princípio da sua ação em si mesmo e, por isso, pode se considerar livre dos tormentos que afetam o comum dos mortais.
Vislumbra-se nesse particular, o modo de realização do télos(fim) do indivíduo, uma vez que o período helenístico da Filosofia antiga caracterizou-se sobretudo pelo deslocamento da problemática ética para o âmbito do indivíduo, onde a orientação para o agir no mundo tem o seu télos(fim) no bem-estar e na autárkeia do indivíduo, que já não deposita suas esperanças numa mudança substancial na ordem política e, por isso, volta-se para si e busca, através da Filosofia, o cuidado de si mesmo.
Epicuro enfoca o seu pensamento ético para o sophós(sábio), que é o modelo do homem feliz, por fazer da sua vida um exercício constante de realização da Filosofia, cujo sentido prático está em evitar os problemas advindos das relações estabelecidas no seio do corpo político, da sociedade de então.
Justifica-se, desse modo, o isolamento de Epicuro não como uma fuga da realidade, mas como uma característica do seu éthos que molda o homem sábio:
“Sua ética se caracteriza, sobretudo, pela autárkeia, isto é, por uma conduta na qual a ação fundada na compreensão da natureza supera a reação que tem por base o constante desgaste do indivíduo, que perdeu o domínio de si e vive a impossibilidade de criar o seu modo de vida segundo o que é natural e necessário. O afastamento do sophós em relação à insensatez das normas e valores cultivados em sociedade é, para Epicuro, o caminho para o exercício de um modo de vida autárquico”( SILVA, Markus Figueira da. Epicuro: sabedoria e jardim. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 18).
O homem sábio se constitui como aquele que não vive na polis porque o pressuposto para a política é eminentemente ético. O seu éthos equivale a sua phýsis, pois são uma realidade só.
O equilíbrio então se mostra como sentido para a vida a partir da compreensão da natureza(physiología) e do modo de ser phýsis.Essa é uma das questões centrais do pensar epicúreo devido o sábio alcançar a plenitude no agir, o equilíbrio, a medida, tendo em si mesmo o princípio dessas ações. A ele cabe escolher o que lhe aprouver e recusar o que destoa da medida equilibrada que expressa o seu bem-estar.
Assim, o sophós é autárkes porque age a partir de si mesmo. A autárkeia consiste na implicação da compreensão do sentido de liberdade(eleuthería) que a justifica e ao mesmo tempo a fundamenta.Autárkeia é uma qualidade de quem se basta a si mesmo. Daí, o viver em equilíbrio não depende senão do modo como o homem vivencia a sua situação real de existir independente de qualquer outro “poder” que transcenda a sua dynamis de ação, desde que esse “poder” possa ser permitido ou evitado.
A autárkeia é a expressão da vida tornada independente das necessidades que a negam e a fazem re-agir ou sofrer.
Contudo, eis o grande prazer da sabedoria quando se expressa os ideais da ataraxía, da aponía, da eustatheía e da philía; quando aquele que goza a serenidade de uma vida filosófica, obtém o máximo de prazer em todas as ações refletidas, ao mesmo tempo que se livra de atender às necessidades não naturais.
O propósito maior do comportamento do sábio se define como viver de acordo com a natureza e se expressa pela autárkeia, o modelo de ação que caracteriza o modo de vida do sábio.
Tal propósito passa por um exercício que é a efetivação da sua compreensão da phýsis mediante o dimensionamento da sua conduta no mundo-realidade. Este exercício é ainda a definição da Filosofia enquanto um saber para a vida: “techné tis perì tón bíon”, afirmado por Epicuro.
Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Professor e Filósofo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Quem não merece seu voto.



Como Professor e filósofo, é de minha inteira responsabilidade, querer conscientizar ou sensibilizar as pessoas com quem convivo, bem como os leitores desta coluna, os amigos e eleitores de um modo geral, para a necessidade de se votar bem, uma vez que se aproxima o pleito eleitoral em todos os municípios deste país.
Entendo que há “n” razões para você, caro cidadão, confirmar a sua escolha no dia 05 de outubro de 2008. Todavia, elencarei aqui alguns conhecimentos de causa que farão você jogar luzes sobre o seu precioso voto.
De sorte, não merece o seu voto quem, de fato, carece de educação, princípios e bons costumes, capaz de envergonhar seus conterrâneos; Quem jamais prestou serviço a sua comunidade; Quem não é admirado até pelos próprios familiares; Quem não honra a política pela persuasão e pelo direito de todos, mas por herança genética; Quem se omite frente aos problemas levantados pelo povo; Quem não tem propostas concretas e objetivas para os cidadãos se sentirem felizes no lugar onde nasceram e continuam a viver; Quem não tem compromisso para com as propostas de governo; Quem não admite humildade diante da complexa responsabilidade de administrar a coisa pública; Quem não conhece o próprio lugar e o povo com o qual vai gerir; Quem oferece promessas gigantescas para o povo engolir a seco; Quem não está nem aí para com a verdade; Quem subestima a inteligência do eleitor com mentiras descabidas; Quem não respeita nossos ouvidos e nossa dignidade ao subir num palanque para discursar; Quem não se preocupa com a ÉTICA; Quem apenas brinca de ser político; Quem não vê na política uma oportunidade e, sim um fim, para tentar resolver boa parte dos problemas que afligem a qualidade de vida das pessoas; enfim...
Quem não merece seu voto? Pergunte-se, você mesmo, e tire suas próprias conclusões. Quem procura nos enganar e quem é cúmplice da verdade e do trabalho?
Notadamente, os compromissos com a verdade e com o trabalho devem acompanhar o seu voto, meu caro eleitor, eleitora que lêem minha coluna e acompanham as reflexões acerca da política.
Agora, passem a ler um texto que merece a nossa atenção, “O analfabeto político” do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht:
“O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa
dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil
que da sua ignorância política
nascem a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais.”


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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domingo, 24 de agosto de 2008

A política e suas circunstâncias

A política está mergulhada nas contingências das massas em todos os tempos e lugares da história. Até mesmo na Grécia, na velha Hélade onde tudo começou, o poder era demasiadamente volátil, tão passageiro, artificial, fugaz e abstrato como o é hoje em dia.
Tanto é que se herdava a autoridade política não por lei, não por direito constituído devido à cidadania, não pelo voto direto e participativo, mas por caprichos de alguns e por privilégios de uma pequena parte da população ateniense que detinha o poder nas mãos em detrimento da vontade alheia dos escravos, das mulheres, dos camponeses, dos artesãos e de outros menos favorecidos.
O poder de administrar um “genos”, uma colônia, uma província era o mesmo que assumir uma cooperativa, uma associação de bairro, um grupo de jovens ou o poder de uma família, baseado em muita liderança, domínio público e persuasão. O que não acontecia ao administrar uma Cidade Estado do nível de Atenas, onde o poder era transmitido, passado, transferido de Pai para filho, de Oligarquia para Oligarquia e, diga-se de passagem, geneticamente. Não era algo conquistado a duras penas, infelizmente. No entanto, as circunstâncias eram outras, bastante diferentes das de hoje.
A Idade Média fora marcada pela união entre Igreja e Estado possibilitando a centralização dos interesses políticos, econômicos e sociais por mil anos. Estava nas mãos da Igreja, dos clérigos, dos episcopos e de outras autoridades eclesiásticas a direção tempo/espaço da política Ocidental. Este sim fora um período em que as circunstâncias políticas nada tinham de favoráveis à Democracia e à participação popular na escolha de seus possíveis representantes.
As circunstâncias da modernidade em relação à política estão arraigadas aos valores de suas oligarquias, de suas famílias, de seus “genos”. Estas, por sua vez, sentem-se no “status quo” da arte política, no sentido de somente elas terem condições genéticas para fazer política. Daí, cabe-nos aqui intrigantes perguntas: “Para se fazer política é necessário herdar tais condições?”; “As Oligarquias predominam?”; Os “Maias” e os “Alves” ainda resistem às circunstâncias modernas da política, sobretudo aqui no RN?; “Qual é a Tua, Candidato?”; “És um representante do povo ou de uma família apenas?”.
Na política atual, o candidato que se propõe a um cargo eletivo para servir ao povo, deveria simples e tacitamente justificar sua posição de “candidatus” por ter saído de uma porção da comunidade popular e participativa democraticamente, pois, afinal, é quem o vai ou não eleger.
Os tempos são outros. As circunstâncias também. As relações de poder são brindadas com mentiras e verdades, com interesses escusos e outros mais. Parece-nos que a influência das oligarquias na política brasileira vem dando lugar, aos poucos, à política de alianças, de acordos, de negociações. Umas para o desenvolvimento, outras nem tanto.
Em nosso país, é comum compreendermos a política como “coisa”: leis, plebiscito, partidos, estatísticas, eleições; de modo que atualmente, somos inclinados a vê-la como peça de engrenagem, na fabricação dos “objetos”. Política de mercado. Política de opinião. Política de negócios. Porém, é isso a Política? Um negócio!? Segundo Luiz Inácio Lula da Silva, a política se constitui como a arte da negociação e das convergências. Num certo sentido, sim.
A filósofa Hannah Arendt assim especificou o caráter ou a nossa condição de “zoon politikon”, como um agente da política, caracterizado pelas relações entre os homens na esfera pública. Segundo ela, a compreensão da política é vinculada à questão da liberdade e da espontaneidade. É vista para além das discussões burocráticas e mesquinhas. Antes, passa pela recuperação da idéia de que o livre agir é o agir em público, e público é o espaço original da política.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Deus, nossa doçura e alegria.

“Esse abraço inefável entre o Pai e a sua Imagem não é sem fruição, sem amor e sem alegria, e esse amor, essa dileção, essa felicidade, na Trindade, é o Espírito Santo. Ele não é gerado; é a doce bem-aventurança do gerador e do gerado que inunda com sua liberalidade e abundância imensa todas as criaturas, segundo sua capacidade”.

Agostinho, De Trinitate, VI, 10, 10.


“a doce maçã que por tantos ramos
o zelo dos mortais vai procurando”.

Dante Alighieri, Purg., XXVII, 115s.


“Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos nem dos doutos. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz. Deus de Jesus Cristo. Teu Deus será meu Deus. Esquecimento do mundo e de tudo exceto Deus. A gente só o encontra pelos caminhos do Evangelho. Grandeza da alma humana. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci. Não deva ser separado dele eternamente. Alegria, alegria, lágrimas de alegria”.

Aqui o filósofo Pascal faz uma experiência candente do Deus vivo e procura expressar-se sob a forma de breves exclamações numa folha de papel; esta, por ocasião de sua morte, foi encontrada costurada no interior de seu casaco, sobre o coração.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Uma vez alguém já disse: “Não gosto de política”.

Não poucas vezes, ouvimos, à boca pequena, expressões como essas: “Odeio política”, “Não gosto de política”, “Tenho nojo de política”..., Principalmente em tempos de eleição. A política parece sempre ocupar os extremos do amor e do ódio, do ame-a ou deixe-a, da alegria e da tristeza, do bem e do mal, do calor e do frio, do grito e do silêncio, do conformismo e do ativismo. Assim é a política na boca de milhares de pessoas, ou doce ou amarga ou agridoce.
Para vulgarizarmos um pouco menos e não banalizarmos por demais a palavra política é importante entendermos três acepções sobre ela: a primeira assume uma conotação de governo, autoridade e administração da coisa pública ou do tesouro de todos, sob a forma de Estado; a segunda dá a idéia de atividade realizada por especialistas, profissionais, políticos pertencentes a um certo tipo de organização sociopolítica – os partidos – que disputam o direito de governar, ocupando cargos e postos no Estado; por fim, este último significado advém do anterior porque é o mais popular, no sentido de ser o mais corrente por se tratar de uma visão negativa da política, admitindo colocar sob suspeita as práticas secretas de quem exerce o poder e se beneficia dele.
O calor político é produzido pela oposição dos três sentidos mencionados acima, que na prática se confirma mais ainda. Aflora-se, com isso, um paradoxo na divergência entre o primeiro e o último sentido da palavra política, pois o primeiro se refere a algo geral concernente à sociedade como um todo com suas leis e seus costumes, seus direitos e obrigações, reivindicações, resistências e desobediências, enquanto o último sentido afasta a política de nosso alcance, blindando-a. Daí, muitas interpretações parecem viáveis acerca da política ou de quem administra a coisa pública; que vão desde os casos de corrupção aos casos de transparência e de lisura administrativa.
Costumo colocar num mesmo patamar o atemporal, o misantropo, o apolítico, o a-histórico uma vez que todos eles tentam sublimar os problemas pertinentes à existência. É da natureza da própria existência inserir-nos no mundo dos contrários da política porque somos seres sociais, carregados de história e sujeitos ao tempo e ao espaço. Implicações como essas não nos permitem fugir da nossa condição de seres políticos, tampouco afirmarmos que “não gostamos de política”.
“Não gostar de” significa não desejá-la, não sentir prazer pela política. Não querer bem a política. Muito embora acredite que pelo simples fato de “não gostar” não quer dizer que venha a negá-la. “Não gostar” aqui está muito mais próxima da indiferença e da dissimulação do que da negação, da extinção. Não se trata de negá-la. Se assim for, é até mais suportável tal estranhamento. Do contrário, estaríamos agredindo a nós mesmos enquanto “animais políticos”, no dizer de Aristóteles. Como não estranhar tal repulsa!
Fora justamente a banalização do termo “política” ou o desgaste usual dela desde a Antiguidade que possibilitou a criação de escamas negativas em torno de seu rico significado. Isso diz o essencial da vida social em geral, e da política em particular: que são sempre coletivas e conflituosas. Diria Kant, “Insociável sociabilidade”. Por que os homens são injustos? Por que os homens são corruptos? Por que os homens são maus? Nada disso. Mas porque são egoístas, incapazes de viver sozinhos, pois, “homem algum é uma ilha”, afirmou Thomas Merton.
Engana-se quem pensa que a política é ausência de conflitos e uma bela auréola de paz e harmonia. E para nos livrarmos mais desse preconceito, deixo literalmente uma passagem do Livro “A vida humana” do filósofo francês André Comte-Sponville, 68p.:


“Engana-se quem vê na paz ausência de conflitos, o reino do consenso ou do interesse geral em tudo. Se assim fosse, não teríamos mais necessidade de política: a administração e a técnica bastariam. Estamos longe disso, felizmente(...). É para isso que servem nossas eleições, nossos parlamentos, nossos referendos. Democracia não é ausência de conflitos; é uma maneira de assumi-los e resolvê-los – sem os abolir – sem ser pela violência. Uma eleição vale mais que a guerra civil. Um parlamento, mais que um tirano. Ainda é preciso que haja vários partidos diferentes, que não se oponham apenas sobre insignificâncias(...). A política, diria eu, ao contrário de Clausewitz, é a guerra continuada por outros meios. Equivale a dizer que é um dos mais formidáveis progressos da história da humanidade e a única forma efetiva de paz. Por isso o apolitismo é um erro; o individualismo, um defeito. Ninguém luta sozinho, porque só se luta contra alguém, só se tem chances de ganhar, na escala da sociedade, junto com outros...(...)”.

Agora, portanto, pense bem antes de dizer: “Não gosto de política”.



Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Olhares de Agostinho e Anselmo... Confiram.

“Ensina-me, Senhor, a procurar-te, e mostra-te quando te procuro. Não posso procurar-te se tu mesmo não me indicas, nem achar-te se tu mesmo não te mostras a mim. Que eu te procure desejando-te e anseie por ti procurando-te; que eu te ache amando-te e te ame encontrando-te”.

Anselmo, Proslogion, 1(Opera omnia, 1, Edimburgo, 1946, p. 100).



“Senhor Deus meu, minha única esperança, atende-me e faz com que eu não cesse por cansaço de te procurar, mas sempre procure com ardor teu rosto(...) Diante de ti está minha força e minha fraqueza: conserva uma e cura a outra(...) Faze que eu me lembre de ti, que te compreenda, que te ame”.

Agostinho, De Trinitate, XV, 28, 51.



“Quando te busco, tu que és meu Deus, busco a felicidade”.

Agostinho, Confissões, X, 20.


Deus é Felicidade! “É o Deus que faz feliz”.

Agostinho, Cidade de Deus, IX, 15, 2.


“Esse abraço inefável entre o Pai e a sua Imagem não é sem fruição, sem amor e sem alegria, e esse amor, essa dileção, essa felicidade, na Trindade, é o Espírito Santo. Ele não é gerado; é a doce bem-aventurança do gerador e do gerado que inunda com sua liberalidade e abundância imensa todas as criaturas, segundo sua capacidade”.

Agostinho, De Trinitate, VI, 10, 10.

A náusea...

“Eu me encontrava no jardim público. A raiz do castanheiro mergulhava na terra exatamente por baixo de meu banco. Não me lembrava mais do que era uma raiz. As palavras haviam desaparecido, com elas o significado das coisas, os modos de seu emprego, os tênues sinais de identificação que os homens lhe traçaram na superfície. Eu estava sentado, meio inclinado, cabisbaixo, sozinho diante daquela massa negra e nodosa, totalmente grosseira, que me metia medo. Depois tive um lampejo de iluminação. Aquilo me fez perder o fôlego. Eu nunca pressentira antes o que significa ‘existir’. Nisso assemelhava-se aos demais, aos que passeiam à beira do mar em trajes primaveris. Dizia como eles: ‘O mar é verde, aquele ponto branco lá em cima é uma gaivota’, mas não me compenetrara de que de que aquilo existia, que a gaivota era uma gaivota-existente; a existência costuma esconder-se. Está aí, ao redor de nós, somos nós, não se pode dizer duas palavras sem falar dela e, por fim, nela não se toca... E depois, eis que de repente estava ali, clara como a luz do dia; a existência se revelara inopinadamente”.


J. –P. Sartre, La náusea, Mondadori, Milão, 1984, pp. 193s. Sobre o projeto da Modernidade de voltar às coisas, pois elas, de fato, existem.

terça-feira, 29 de julho de 2008

A política por todos e todos pela política.



Este título plagiado da clássica expressão dos três mosqueteiros “Um por todos e todos por um” mais representa a coletividade e o interesse pelo bem comum do que a própria política ora em evidência devido às eleições municipais em todo o Brasil. Tal expressão cabe perfeitamente no contexto político que se apresenta, na medida em que sobrevive da participação e do engajamento de todos. A sociedade civil organizada e mobilizada caracteriza a política.
A política é e sempre será um bem de todos, muito embora que os banqueiros, empresários, alguns políticos e as classes mais privilegiadas pelo sistema econômico tentem privatizá-la de algum modo. A política, sobretudo em tempo eleitoral, é uma arma ideológica importantíssima para colocarmos em exposição àqueles que se escondem por trás e por dentro da máquina administrativa, não atendendo as exigências mais prementes de nosso povo. Salvo engano aqueles que honram sua administração com idoneidade, compromisso, ética e trabalho, muito trabalho. A estes, as nossas saudações políticas...
A cada dois anos, ao passar de cada eleição, mais nos damos conta do quão difícil é a vida política, incerta e hesitante. Tudo se mistura. É uma realidade de contrastes, de conflitos. Amigos e inimigos se misturam, mas também amigos se constroem, assim como inimizades são destruídas, da mesma forma que novas relações políticas são estabelecidas. Fascinante! Na política, mesclam-se egoísmo e generosidade, exaltação e humildade, conformismo e revolta, individualismo e coletivismo, timidez e excentricidade, sede de poder e reconhecimento, tudo em virtude, em função de uma vitória, cujo poder é duramente temporal.
No entanto, todos respiramos política porque somos sujeitos a relações sociais, somos eminentemente sociais, por isso políticos. Vivemos numa cidade, rodeados de pessoas, de casas, instituições por todos os lados, negócios, comércios de produtos e de argumentos, num grande mercado do corpo a corpo, onde cada um quer mostrar a sua força apoderando-se da força do outro. Assim, meus caros, é que se afirma inevitavelmente a política independentemente do anúncio iminente de qualquer eleição.
Os interesses saltam aos olhos, o dinheiro, o poder, o emprego, um espaço, uma vida mais social... Interesses, por mais simples que sejam, fomentam a política. Mesmo que estes sejam para justificar nossas idéias e nossos valores, por mais bem intencionados que possam ser, esses interesses configuram uma atividade política. Como bem disse Karl Marx, em seu “Manifesto Comunista”, deixem um pouco de pensar o mundo e passemos agora a transformá-lo. Portanto, a política, bem de todos, por todos e para todos, modela o caráter social, crítico e verdadeiro do indivíduo.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

A boa e velha política...



Mal chegamos a meados de julho que a boa e velha política partidária teima em começar. E desta vez vem com gosto de gás para honrar a Democracia brasileira em todos os municípios. São reuniões políticas, passeatas, carreatas, mobilizações que, a meu ver, mais enaltecem a Democracia do que a depreciam. Na verdade, por aí a fora, assistimos a um "show" grandioso de opiniões, discussões e debates políticos que infestam as ruas de nossas múltiplas cidades. Não há mal nisso! Há, sim, uma emblemática oportunidade de vivermos a política com todas as suas vantagens e desvantagens, com todas as suas posturas e descomposturas, com todos os seus erros e acertos, com todas as suas falsidades e verdades, com todo o jogo dela consigo mesma. É o mundo da política, complexo e vasto por ele mesmo que exige, mais do que nunca, nossa participação.
O ano de 2008 é marcado, mais uma vez, por campanhas eleitorais em todos os municípios desse imenso país, de norte a sul, de leste a oeste, de modo a renascer a esperança na cabeça de milhares de brasileiros. E aqui é oportuno lembrar o filósofo grego, do séc. IV a.C., Aristóteles, para o qual a política injusta na distribuição da riqueza é tratar os desiguais de modo igual, uma vez que, na prática, o contrário deveria prevalecer. Isto é, tratar os desiguais de forma desigual. Isso posto, tornar iguais os desiguais. Tarefa árdua essa!
No entanto, em 5 de outubro deste ano acontece o tão esperado pleito eleitoral na cidade de Florânia, bem como nas demais cidades brasileiras, entre o representante da coligação "Por amor a Florânia", Flávio José de Oliveira Silva e o representante da coligação "Por respeito a Florânia", Sinval Salomão com seus respectivos candidatos a vereadores. A estes, digo, aos vereadores, cabe a função de legislar e fiscalizar o executivo a respeito dos rumos que o município deve trilhar. Àqueles, isto é, aos candidatos a Prefeito, implica a responsabilidade em promover ainda mais um "show" de Democracia na vida política de nosso município. A nós, eleitores, cabe a tarefa de fiscalizar as atitudes dos vereadores, não se omitindo, quando é imperativo denunciá-los por não primarem pelo comportamento ético. Por outro lado, deve-se levar em conta, também, a cobrança de propostas em questões bem pertinentes como, por exemplo, desigualdade social, infra-estrutura social – educação, saúde, saneamento(pavimentação), moradia, geração de emprego e renda, agricultura... – e, sobretudo, o compromisso com a ÉTICA. Afinal, a fronteira ética, na formação social é a libertação das classes populares.
Enquanto cidadãos, todos devem cumprir: a cobrança de atitudes éticas de nós mesmos e dos nossos possíveis representantes. Caso contrário, contribuiremos para uma real banalização do mal. Se a política for considerada como algo apenas técnico, ou seja, só para especialistas, ela não é ética. Se considerada ainda como simples divergências pessoais, deixará de ser ideológica passando a trair a ética. Portanto, candidatos, não esqueçam! As divergências devem estar apenas no nível ético, político e ideológico, não enveredando para o nível pessoal.
Para a filósofa Marilena Chauí, não é certo falar em retorno da ética, como se fosse algo que pudéssemos perder com um tempo. Ela deve estar presente em todas as posturas de quem é cidadão. Política e ética andam juntas. A vida justa e feliz é a finalidade da política. Dessa forma, não dá para separá-la da ética. Também não se trata de ética na política, ou seja, pode estar ou não, mas da política, essencialmente, ela é sempre ética. O que caracteriza a política é a ética. Portanto, não a descaracterizemos!!!!


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.


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terça-feira, 8 de julho de 2008

"Lei seca" afirma a vida.


O Estado brasileiro, recentemente, sancionou Lei aprovada pela Câmara dos deputados e dos senadores – O Projeto de lei que prevê mais rigor contra o motorista que ingerir bebida alcoólica. A multa será considerada gravíssima punida com suspensão da carteira de habilitação por um ano e multa. Somente motoristas com mais de seis decigramas de álcool por litro de sangue eram punidos – que não permite indivíduo algum, alcoolizado, a dirigir veículos.
Conforme a Lei mencionada acima, qualquer pessoa pega em flagrante incorrerá em pena de um ano sem poder conduzir legalmente seu veículo, incluindo multa de mil reais. Essa medida vem trazendo muita polêmica por parte da imprensa brasileira, uma vez que a sociedade, caracterizada como secular, acha-se no direito neoliberal de reivindicar suas posturas, embora contraditórias.
De qualquer forma, é um avanço para a nossa sociedade esse tipo de atitude, absolutamente educativa, não contrariando o bom senso e sendo favorável à ética, a uma lei por dentro, do coração; do que por fora, fruto apenas das exigências institucionais. O quê não é o caso. Temos aqui um salto na qualidade de vida de nosso povo. Pelo menos a Lei brasileira está na vanguarda de uma mudança de valores, haja vista a mudança de postura cultural que ela há de promover.
É preciso entender que a medida legal discutida no momento qualifica-se pelo avanço extraordinário de nossa sociedade em promovendo as virtudes humanas (sobriedade, prudência, temperança, responsabilidade, lealdade,...) e em freando os vícios provenientes do álcool e outras drogas. Quem tem ou já teve um pai alcoólatra sabe do que estou falando. Quem sofre conflitos familiares oriundos das drogas percebe a gravidade do problema.
Não podemos mais nos dar ao luxo de vivermos entregues a toda sorte de hábitos desmedidos e exagerados que causam um risco enorme para nossa saúde porque o que somos hoje é fruto do que construímos ontem e o que seremos amanhã é resultado do que construímos hoje. Por isso, temos o direito de viver bem o presente com responsabilidade, consciência e equilíbrio.
É urgente pensarmos em pautar uma vida o mais simples possível. Começar a renunciar um pouco mais dos prazeres, dos gostos que a vida nos proporciona agora para adquirirmos reservas lucrativas em qualidade de vida depois, no futuro.
Quiçá, a Lei em vigor nos possibilite mais do que sua aplicação enquanto tal, com certo sacrifício e contra-senso, aliás, tudo nessa vida é passivo de contra-senso, fazermos uma poupança de vida para uma velhice mais saudável e abençoada!


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

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terça-feira, 1 de julho de 2008

Umas palavras sobre a modernidade II

O nosso século teve quatro grandes mudanças da realidade: A primeira, o mundo dos medos e das superstições é vencido. Daí a necessidade de se abordar o filme Matrix do ponto de vista dos paradoxos da modernidade ou da pós-modernidade, uma vez que a radicalização das contradições já mencionadas torna-se riquíssimas em símbolos. Estes são autônomos; Segunda, nós temos uma ciência misteriosa, presente, onipotente e onipresente. A ciência passa a ser um dos instrumentos mais presentes nos costumes humanos. Ela torna o cotidiano homogêneo. O que caracteriza o futuro é o inesperado. Nós vivemos num mundo ameaçado de não termos futuro; E, terceira, voltamos a idéia de Kant de aliviar ou eliminar os medos e as superstições, isto é, o problema antes resolvido volta a aparecer. Com isso, a ciência não eliminou, porém criou novos medos. Para o grego, a noção de morte equivale a estar separado da “polis”, da cidade. O sentido de morte está associado ao da exclusão social em nossos dias. Está morto que não tem um celular, um micro-computador, um carro do ano, uma namorada... A quarta e última se destina aos desafios da vida, da natureza e da sociedade fazendo com que o homem se sinta preso. E assim busca uma autonomia. Aqui está o ponto em que Kant propõe um PROJETO emancipatório da modernidade, enquanto Adorno diz que não, pois a emancipação já estava em gestão.
O homem conseguiu tornar-se autônomo da natureza desde o século XIX. A natureza foi domada. Adorno afirma que o seu Projeto esclarecedor é imposto e ninguém o discute. É a mistificação das massas. Uma mistificação imanente. Daí, surgem dois modelos bastante sedutores para os que pensam na direção da valorização da individualidade humana.
O modelo alternativo, fruto do pensamento e das conjecturas de Foucault, discute a criação das micro-práticas de poder ou da consciência. Por outro lado, Milton Santos evidencia a questão de um pensamento único, oriundo dos debates econômicos-políticos do neoliberalismo moderno com a idéia de aldeia global ou globalização.
Em virtude disso, sai pela tangente a Indústria cultural que vem se tornando efusivamente um símbolo religioso das massas modernas. Sugerimos assim, como pista para discussão filosófica, o filme "Inteligência Artificial" a partir do ponto de vista da contemporaneidade. Um robô como membro da família. Mas o sonho é um elemento puramente humano. Como será um computador com células humanas? Em algum ponto do labirinto da história nós perdemos a nossa humanidade.
No livro "História da Loucura", Foucault tem uma pergunta: o louco tinha ou não um dom especial dado por Deus?
O final do século XX é totalmente marcado pelo horror – mortes, suicídios, desastres, pessimismos... - , por outro lado, é marcado ainda por um otimismo(economia, revoluções, o poder das teorias, a fé na ciência...). O século da glória, esperado por todos como o séc. da vitória. Isso posto, duas coisas merecem atenção:
Um século frustrante. Não trouxe a felicidade e a autonomia, pois criou infelizes, multidões de pessoas angustiadas. O século das guerras! A guerra do Vietnã que foi filmada pelos EUA. Concomitantemente, as grandes teorias e invenções econômicas não libertaram o ser humano.
É um século de desdobramentos. O homem foi à lua. A revolução sexual. Surge uma tecnologia médica fruto da guerra do Vietnã. A medicina da experimentação nazista. Diga-se de passagem, que quem vai realizar os sonhos dos nazistas são os EUA. As modernas práticas de UTI surgiram no Vietnã. Anestesias, morfinas, enfim... Nós temos um profundo desencanto. As evoluções vão mudar as nossas vidas. Era a mentalidade do séc. XIX, porém o séc. XX acaba com essa idéia de futuro. Pelo contrário, o séc. XX é um brutal acelerador do processo tecnológico de desenvolvimento.


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Umas palavras sobre a modernidade...

Entender a “aporia” dos tempos modernos, como diria Parmênides de Eléia, a dificuldade de conciliar o mundo dos sentidos com o mundo da razão, torna-se, a meu ver, ainda mais “aporético”, isto é, problemático e complexo.
Há que se pressupor alguns expoentes capitais ou substanciais, a fim de lermos as condições atuais por que passa a cultura. Um deles é Nietzsche quando da declaração da morte de Deus; o outro é Heidegger que reconstruiu toda a Filosofia a partir da língua e cultura alemãs. Ainda há Adorno acerca do conceito de Esclarecimento e da dialética do esclarecimento.
Para Kant, o esclarecimento é um Projeto da Modernidade. O primeiro pressuposto do esclarecimento para este pensador seria a doutrina calvinista e o espírito de emancipação do indivíduo que foi recuperado por Max Weber.
Víamos que na Idade Clássica o homem estava preso aos ditames da “polis” e notadamente de um regime democrático. Ao passo que na Idade Média, o medievo vivia enclausurado no conceito de religião e na obediência a Deus. Uma vez que na idade Moderna, as pessoas sentem-se presas a si mesmas ou a nada, inaugurando a emancipação do indivíduo.
É próprio do calvinista acreditar que a salvação se materializa na riqueza, desenvolvendo assim uma doutrina protestante cuja visão se atém na autonomia econômica.
Isso posto, tanto Weber quanto Nietzsche, Adorno e Foucault estabeleceram visões de autonomia, ainda que admitam no bojo do esclarecimento calvinista apenas um ideal porque experimentou uma nova forma de barbárie.
Todavia, o próprio Kant, fruto do iluminismo, tem uma visão otimista e progressista desse indivíduo empreendedor, afirmando que é o desenvolvimento científico e experimental. Não havia, segundo Kant, no séc. XIV, uma certa compreensão entre fé e ciência. O que Nostradamos fazia era uma química rudimentar da época. Rudimentos científicos, mas intensifica-se somente no séc. XVI. O véu da Teologia cai principalmente com Descartes.
Para Kant, a visão de Esclarecimento estava ligada a vencer o medo e a opressão, como também as superstições. É ideal e conceitual mais do que prático. Já o homem do séc. XIX é um homem livre dos medos e das superstições. Livre dos medos é a liberdade diante da insegurança e do futuro. Livre das superstições é a liberdade para com a Tradição religiosa, filosófica e política.
Como conseqüência disso, a modernidade se viu marcada por dois PROJETOS contraditórios: O homem que busca divinizar-se, não deixando de ser o que é; Depois, a tentativa de resolver os problemas da realidade, ou seja, de mudar a realidade, admitindo a aparição de uma questão: Para quê? Uma verdadeira “aporia” dentro da modernidade.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Parabéns pelo seu aniversário. Mãe você merece!!!

Esta é uma pessoa abençoada por Deus. Minha mãezona por aqui! Que beleza. Na verdade, na verdade, essa é uma mulher de toda especial. Deus a fez assim mesmo alegre por natureza. Obrigado, Senhor, por presentear-me uma Mãe assim, com qualidades que saltam aos olhos e que dispensam quaisquer palavras. Um beijo, abraços e muitas, muitas, muitas risadas como essas. Bendito seja Deus!!!!!!!!!!!!!!!!!!! De seu filhão, Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Duas histórias, dois desfechos.

Nesse final de semana, meados de junho, pude vislumbrar duas extraordinárias ilustrações ou analogias que me reportam aos princípios vitais da minha existência cristã.
Um certo homem bastante preocupado e triste carregava água em dois vasos de barro, um cheio e outro trincado, para dentro do Palácio do Rei, quando de repente, o jardineiro, que estava na porta de entrada do Palácio, assim o interrogou:
- Você não está feliz servindo ao Rei?
- Claro que sim.
- Mas não aparenta.
- É que sempre um dos vasos nunca chega cheio, mas só pela metade, pois está trincado.
- Sabia que todos os dias lanço sementes no jardim junto à entrada do Palácio?!
- Não.
- Ora, todas as vezes que passa por aqui, um de seus vasos escorre água pelo jardim aguando a terra com as sementes. O resultado foi um jardim florido e belo devido à água do vaso trincado.
O homem ficou por um instante espantado e maravilhado com o que acabara de ouvir daquele jardineiro, quando percebeu o valor de um vaso trincado.
O vaso de barro trincado simboliza cada um de nós, seres humanos, pecadores, cristãos, evangélicos, católicos, enfim, todos que aqui nunca desistiram de seus projetos e ideais, pois sentem a necessidade de avançar sempre para se reconstruir como vasos de barro nas mãos de Deus. “Trincados” pelos desafios e intempéries que a vida os proporcionou.
A outra metáfora, - como diria o poeta chileno Pablo Neruda, “metáforas, metáforas, metáforas, ai de nós se não fossem elas” – diz respeito a um senhor idoso que orava todos os dias regularmente numa Escola cristã dos EUA passando pelos armários dos alunos, um a um, da mencionada Escola, com a Bíblia nas mãos. Essa história é fruto de um filme “Desafiando Gigantes” a que assisti há poucos dias.
Houve um período de grandes dificuldades na vida do treinador de um time de futebol americano que o levou a buscar a Deus com muita intensidade conforme as circunstâncias exigiam dele. De fato, aquele jovem treinador não tinha muita escolha diante das adversidades pelas quais vinha passando, e logo procurou o Senhor Jesus começando a orar e a clamar a Deus por ajuda e conforto. Por providência divina, acontece que os dois se encontraram, o senhor idoso e o treinador, e estabeleceram uma calorosa conversa no corredor da Escola:
- O senhor realmente crê que Deus possa mudar minha vida?
- creio.
- O senhor crê que tudo é possível para Deus?
- creio.
- Por que, então, oro, oro e não vejo sinais na minha vida desse Deus?
- Olha, é preciso confiar. São como dois agricultores. Um pede chuva, clama, pede chuva novamente, pede chuva o tempo todo, mas não vai para o campo plantar e jogar a semente. O outro, além de pedir e orar, sai para plantar e a chuva vem e ele colhe porque aprendeu a confiar.
A diferença está na confiança. O primeiro ora a Deus, mas não sai para plantar, não confia. O segundo ora a Deus e sai para plantar quer chova ou não. Aqui está o ponto, é preciso confiar, ter fé. Abandonar-se as ações de Deus independentemente do que você pensa.
Portanto, honre a Deus que está com você, meu irmão, minha irmã. Confie N’Ele que, pois, Ele agirá.

Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Professor e Filósofo.
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segunda-feira, 16 de junho de 2008

As belas-artes.


Esse texto pretende, por hora, encerrar uma série de reflexões acerca da arte atrelada a Filosofia de Kant.
Conforme a doutrina kantiana, as belas-artes têm a finalidade da bela representação das coisas, servindo-se dos mesmos princípios gerais do juízo estético. A partir de se constituírem como objeto de contemplação é que esteticamente podem ser julgadas.
Como o belo, as artes devem aparentar a livre finalidade da Natureza. Suas representações, embora resultando de uma elaboração, que não prescinde de técnica, requerem à espontaneidade que a imaginação instila nas representações das coisas. Uma obra será artística se nos impressiona como se fosse um produto da Natureza, do mesmo modo que a beleza natural aparenta o aspecto de haver sido artisticamente trabalhada.
Sendo assim, a beleza artística não pode estar condicionado a normas ou à regras objetivas, uma vez que é o mesmo juízo estético transferido para o domínio da Arte. Isto não quer dizer que a arte não tenha princípios reguladores no tocante à sua atividade, mas tais princípios existem confundidos com as disposições inatas que condicionam a faculdade produtiva do artista: o talento próprio para a arte, que se chama gênio.
Nesse horizonte de Kant há em germe a figura romântica do artista genial, que seria uma espécie de ser “exceção”, podendo elevar-se, segundo Schelling e Schopenhauer, por intermédio da Arte, ao conhecimento dos segredos da Natureza. A sua imaginação estaria ligada, por uma articulação originária de profunda, ao princípio insondável das coisas.
As belas-artes são, pois, para Kant, as artes do gênio, que hão de parecer livres do constrangimento exterior das regras. No entanto, a beleza possui, nesse domínio, função similar à que desempenha em relação ao conjunto das coisas.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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sábado, 7 de junho de 2008

KANT E O BELO

Como vimos na edição anterior, os juízos estéticos são elementos evidentes por si só. Porém, diante da existência do juízo estético, colocam-se dois problemas: o de estabelecer o que seja propriamente o belo que nele se manifesta; e o de remontar ao fundamento que o torna possível.
Kant, de fato, divide a beleza em duas espécies: “a beleza livre, que não depende de nenhum conceito de perfeição ou uso; e a beleza dependente, que depende desses conceitos. Conseqüentemente, os juízos estéticos estão relacionados com a primeira espécie de beleza” (ARANHA, p. 366).
O belo obviamente não pode ser uma propriedade objetiva das coisas, como o belo ontológico, mas sim algo que nasce da relação entre o sujeito e o objeto. Além disso, é aquela propriedade que nasce da relação dos objetos comparados com o nosso sentimento de prazer e que nós atribuímos aos próprios objetos.
A imagem do objeto referida ao sentimento de prazer, comparada a este e por este avaliada dá lugar ao juízo de gosto, assim definido: “O juízo de gosto ou estético é universalizável: o seu objeto provoca a adesão de outros sujeitos conscientes, na medida em que o prazer desinteressado não é uma satisfação confinada ao que particulariza como indivíduo, mas depende da capacidade de sentir e de pensar, comum a todos os homens” (Benedito Nunes. Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 2002, p. 49).
Daí, o belo caracterizar-se como objeto de “prazer sem interesse”. Falar de prazer sem interesse significa falar de prazer que não está ligado ao grosseiro prazer dos sentidos, nem ao útil econômico e ao bem moral.
Belo, para Kant, é aquilo que agrada universalmente, sem conceito. O prazer do bem é universal, porque vale para todos os homens e, portanto, se distingue dos gostos individuais; entretanto, essa universalidade não é de caráter conceitual ou cognoscitivo. Trata-se, portanto, de uma universalidade “subjetiva”, no sentido de que vale para cada sujeito.
Todavia, bela é a forma da finalidade do objeto percebida sem objetivo. Diante do belo da natureza, nós percebemos como que a presença de um desígnio intencional pelo qual o objeto belo se nos configura como obra de arte. Ao contrário, diante de uma obra de arte, que segue um desígnio intencional, nós sentimos que ela é verdadeiramente bela quando aquela intencionalidade se oblitera e o objeto parece uma criação espontânea da natureza.
Uma vez que reunidas as duas qualidades, parecidas em contraste, mas não convergentes, podemos dizer que no belo, da natureza ou da arte, é preciso que exista e não exista fim, ou seja, exista como se não existisse, isto é, que a intencionalidade e a espontaneidade estejam fundidas de tal maneira que a natureza pareça arte e a arte pareça natureza.
Portanto, o belo é aquilo que é reconhecido, sem conceito, como objeto de prazer necessário. Trata-se, obviamente, não de uma necessidade lógica, mas sim subjetiva, no sentido de que se trata de algo que se impõe a todos os homens.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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sábado, 31 de maio de 2008

Uma cidadania merecida pela vida.


Mais uma vez a Câmara dos Vereadores de nossa cidade eleva graciosamente alguns filhos seus à cidadania que, de algum modo, já se sentiam parte desta família chamada Florânia. Uma noite, certamente, que passará para história, na qual a Cidade de Florânia homenageou merecidamente diversas pessoas, donas de suas vidas marcadas pelo trabalho e por uma história cheia de desafios como a maioria dos que aqui moram construindo rumos diferentes.
Na minha fala, quando tive a oportunidade de proferi-la, agradeci, sobretudo a Deus de quem depende exclusivamente a minha vida. Depois fui grato à Sra. Vereadora Márcia Rejane, autora da proposição delegada a mim, por conferir-me generosamente o título de cidadão floraniense. Muito embora, saiba que, por natureza, como diria o filósofo francês Jean Paul Sartre, “Pour la force des choses” – “Pela força das coisas” – pela força das circunstâncias e pela Providência divina fui trazido para cá há quase cinco anos, onde acabei me enamorando e casando com uma filha desta cidade, Silmara Rejane, com quem pretendo conviver pelo resto da minha vida. Não pude deixar de mencionar, de fato, os meus pais que moram em Jardim de Piranhas por serem os responsáveis diretos pela educação proporcionada a mim. Lembrava, ainda, de um personagem bíblico, Paulo de Tarso, mais precisamente no livro de Atos dos Apóstolos, que teve a sua cidadania comprada em virtude do orgulho dos pais quererem vê-lo cheio de glória, honra e fama admitido no exército romano, como acontece ainda hoje em alguns países do mundo. Fazer parte de um exército ou ainda pertencer a uma infantaria militar era questão de honra, de orgulho, de “status” para uma família. Foi o que aconteceu com Paulo no início de sua juventude, tornando-se soldado romano e, mais tarde, sendo responsável pela morte de muitos cristãos, inclusive, o mártir Estevão.
No entanto, a nossa cidadania não é comprada por algumas moedas de prata, mas merecida por uma vida pautada na hombridade, no altruísmo e na prestação de serviços visando apenas o bem de Florânia. Indiscutivelmente, a vida de cada um foi a grande responsável por nos conduzir até a câmara dos vereadores, fazendo-nos valer a cidadania. O bom e verdadeiro exercício dela nos deram a honra da proposição, pois se assim não fosse poucos de nós teríamos sido agraciados.
Graças a Deus e ao povo desta terra, tão caro aos olhos de nosso Senhor, pela honra e pela felicidade distribuídas a mim e a todos quantos tiveram a graça de serem elevados oficialmente a cidadão floraniense. Diante disso, muitíssimo obrigado CONTERRÂNEOS.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

“Entre a vida e a morte” de olho em “Entre lobos”




Na noite de 25 de maio deste ano, com a presença de várias autoridades de nossa cidade, dentre elas o Sr. Prefeito Flávio José e o Presidente da câmara Arlindo Delgado, assim como outros vereadores, diretores e professores das Escolas, ficamos todos perplexos e – pedindo licença da expressão celebrada pelo filme “Agonia e Êxtase de Michelangelo” – extasiados pela brilhante, não menos emocionada apresentação teatral de jovens e populares de Florânia, enchendo-nos de orgulho e encanto, devido ao realismo e beleza com que conduziram o tema “Entre a vida e a morte” sob a direção do nosso mais novo cineasta, J.Júnior.
Assim que entramos no Ginásio de Esportes do Município, de cara nos deparamos, surpresos, pela originalidade do cenário do espetáculo, construído pelos próprios jovens atores. Reproduzia quase fielmente as características da nossa caatinga, pois é nela que se desdobra toda a trama da apresentação, de modo a promover o sertão com inúmeros detalhes, sua paisagem, sua cultura, sua gente, sua luta, sua morte, sua vida...
Do início ao fim, mesclam-se vida e morte no texto, na luz, no figurino, sobretudo, na representação magistral dos atores, cujo desfecho salta aos olhos dos espectadores presentes, um misto silencioso de liberdade da vida em meio a religiosidade popular que se encerra numa oração, “Salve Regina”.
O floraniense fora premiado, em plena noite de domingo, por um belíssimo espetáculo que mais enalteceu a vida destemida do sertanejo “cabra da peste”; do que a diminuiu frente à dura lida ou realidade envolvida pela morte tão bem simbolizada na vegetação árida, na casa de taipa coberta com palhas de coqueiro, nas mulheres trabalhadoras e nas crianças humildes com poucas condições de vida.
Todavia, não podemos deixar de salientar que o interesse dessa apresentação, além de nos presentear, era todo voltado para recepcionar a equipe de cineastas do Rio Grande do Norte – Diretor: Edson Soares. Fotografia: Jean Carlo. Produção: Carlos Frederic e Jean Custo. Ator: Ignácio – e proporcionar-lhes observar, avaliar e selecionar alguns atores de nossa cidade que farão parte de uma longa metragem, denominada “Entre lobos”, tendo como Empresas co-produtoras Interfilmes e Nucnatal. A equipe, que começará seus trabalhos de filmagens já na segunda semana de junho aqui em Florânia, esteve conosco desde sábado, sentindo o calor e a ternura do acolhimento por demais agradável do nosso povo.
Texto: Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Professor de Filosofia.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Nosso tão sonhado "Clube Municipal". Palavras do Prefeito Flávio José. Florânia/RN.

AMIGOS, ESTE É O PROTÓTIPO DA REFORMA DO TÃO SONHADO CLUBE MUNICIPAL QUE ESTÁ SENDO REFORMADO COM RECURSOS DO MINISTÉRIO DO TURISMO E COM CONTRA PARTIDA DA PREFEITURA MUNICIPAL, NUM MONTANTE DE QUASE R$ 140.000,00. TERÁ STATUS DE CENTRO DE CULTURA, ONDE SERVIRÁ PARA RECEPÇÕES, FESTAS SOCIAIS, AUDITÓRIO PARA CONVENÇÕES, ENFIM, SUPRIR A NECESSIDADE DE UM ESPAÇO SOCIAL E DEVOLVER A NOSSA CIDADE, UM MODERNO E BONITO PRÉDIO QUE ESTAVA ABANDONADO A TANTO TEMPO. PEÇO QUE DIVULGUEM SE POSSÍVEL. FORTE ABRAÇO, FLÁVIO JOSÉ.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

KANT E A CRÍTICA DO JUÍZO ESTÉTICO



Cabe-nos aqui, num excurso de três ou mais textos que se seguirão, tentar perceber a filigrana da abrangência filosófico-estética de Kant, que começa distinguindo a base lógica do juízo estético da base lógica dos juízos sobre outras fontes de prazer e da base dos juízos de utilidade e de bondade.
A Filosofia de Kant possibilitará, vias estéticas, uma nova compreensão teórica do belo, atribuindo horizontes para a reformulação do problema das relações entre arte e realidade. Alguns dados a respeito dessa filosofia são indispensáveis para apresentarmos as concepções estéticas que direta ou indiretamente a ela se filiam.




KANT E A CRÍTICA DO JUÍZO ESTÉTICO

A crítica do juízo é talvez a obra que exerceu maior influência no mundo da cultura e imediatamente posterior a Kant.
Na crítica do juízo, elaborada em 1790, Kant se ocupa, em primeiro lugar, do julgamento estético, expressando de maneira lógica muitas das idéias e doutrinas dos estetas ingleses do séc XVIII e modelando-as dentro de um sistema coerente.
O seu escopo principal é estudar como são possíveis juízos estéticos universalmente válidos, mas ela tem também outro escopo, e muito importante: estabelecer uma ligação entre a razão pura e razão prática. Vimos que a crítica da razão pura concluiu que verdadeira ciência só é possível no mundo sensível, fonomênico; a Crítica da razão prática revelou-nos, por outro lado, a assistência no mundo numênico, de um reino de liberdade, subtraído ao determinismo dos fenômenos físicos; logo, não fenomênico. Mas há uma separação entre os dois mundos, e não existe passagem de um lado para o outro.
Assim, “(...) conformando-se ao conhecimento de um objeto possível, a Arte cumpre somente as operações necessárias para realizá-lo, diz-se que ela é a Arte mecânica; se, porém, tem por fim imediato o sentimento do prazer, é a Arte estética. Esta é a Arte aprazível ou bela. Arte é aprazível quando sua finalidade é fazer que o prazer acompanhe as representações enquanto simples sensações; é bela quando o seu fim é conjugar o prazer às representações como forma de conhecimento”(In ABBAGNANO, 2000, p. 82. Cf. Crítica do Juízo, § 44)

Em virtude disso, o conceito de natureza pode, sem dúvida, representar os seus objetos na intuição, não como coisa em si, mas como fenômeno; o conceito de liberdade pode representar o seu objeto como coisa em si, mas não na intuição; conseqüentemente nenhum dos dois pode oferecer um conhecimento teorético do seu objeto ( nenhum do sujeito pensante) como coisa em si.
Ao fim das duas primeiras Críticas, entra-se em contato, mas em contato cego, com o inteligível por meio da lei moral. O inteligível não é intuído nem visto; por outro lado, aquilo que se intui, aquilo que se tem ciência, é apenas sensível, apenas fenômeno, não realidade em si. E, no entanto, afirma Kant, apesar da separação, o mundo inteligível deve exercer influência sobre o sensível, porque a liberdade deve poder atuar no mundo sensível. Como é isto possível?
O intermediário entre a razão, que tem apenas função prática, e o sentimento, a terceira faculdade espiritual do homem, cuja atividade consiste em emitir juízos estéticos.
Portanto, juízo estético é uma intuição do inteligível, do reino dos fins, do Absoluto, de Deus, no sensível, não uma intuição objetiva, mas subjetiva.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Jornal Evangélico entrevista o ex-Padre Jackislandy


Jornal evangélico de repercussão nacional, "Mensageiro da Paz", publica na íntegra a entrevista do "ex-Padre", Jackislandy, um floraniense que dá testemunho cristão na Assembléia de Deus desta cidade. A entrevista pode ser lida aqui no Portal INFORSIDE e em todos os jornais do mensageiro da paz espalhados pelo país.

De onde derivam os sentidos?

Platão explica a gênese do mundo sensível por meio de um mito chamado o mito da “Chora”. Originalmente existiam as idéias e também a matéria originária que em grego se chama “Chora”. Num certo ponto entra em ação um demiurgo. Uma entidade intermediária entre as idéias e a matéria. O demiurgo é uma espécie de deus artífice que plasma as coisas tendo como modelo as idéias. O artífice, o demiurgo produz a realidade física olhando para o modelo eterno que é constituído pelas idéias. No diálogo Timeu, Platão descreve este mito da “Chora” e afirma que a finalidade última da produção do mundo é o bem. O demiurgo plasma o mundo pelo amor ao bem. As coisas derivam desta ação do demiurgo que tem como objeto a realização do bem. O mundo, portanto, é a obra da inteligência do demiurgo que produz no nível sensível uma cópia do modelo eterno constituído pelas idéias.
Para Platão, conhecer se identifica com a anamnese, isto é, com a recordação, com a lembrança, com a memória. A alma pode conhecer o mundo supra-sensível porque antes de encarnar-se num corpo o tinha contemplado. Nesta vida, por ocasião do encontro com as coisas, a alma lembra as essências eternas que tinham contemplado antes. A alma extrai de si mesma, quer dizer, lembra aquilo que já tinha visto, isto é, a primeira forma de explicar o conhecimento que se trata de uma explicação mítica ligada as doutrinas órfico-pitagóricas, segundo as quais a alma é imortal, preexiste ao corpo, se encarna num corpo por causa de uma culpa. A novidade deste argumento consiste porém no fato de que a influência órfico-pitagórica se junta com o elemento da maiêutica socrática porque, conforme afirmação, a alma está grávida da verdade. Em um segundo momento, sempre no diálogo Menon, Platão usa um argumento dialético, utilizando uma experiência maiêutica. Ele interroga um escravo ignorante em geometria e através de perguntas adequadas lhe permite que, ele mesmo, resolva o problema de geometria.
O escravo, ignorante de geometria, afirma Platão, encontra a solução dentro de si mesmo, na sua própria alma. A verdade, segundo Platão, já está na alma. O conhecimento consiste em extrair de si mesmo a verdade antes de contemplada.
No Fédon, Platão aprofunda o argumento confirmando a anamnese por meio da reflexão sobre os conhecimentos matemáticos que o homem aprende não a partir da experiência sensível, mas pelo cálculo que ele se realiza no plano do mundo puramente inteligível, isto é, do mundo interior.
Os graus do conhecimento:
| Sensível -----> Doxa(opinião)CONHECIMENTO -|
| Supra-sensível -----> Episteme(ciência verdadeira)
A doxa se divide em duas partes Eikassia (Imaginação) e Pistis (crença).
A episteme se divide também em duas outras partes Diánoia e Nóesis.
§ Diánoia: conhecimento intermediário ou matemático-geométrico;
§ Nóesis: intelecção das idéias e captação da idéia suprema que é a do bem.
A dialética platônica consiste na intuição intelectual na qual o homem passa de idéia em idéia até chegar a idéia suprema do bem.
Em Platão, a dialética é de tipo positivo porque comporta uma progressiva ascensão dos níveis mais baixos que são constituídos pelo mundo material e sensível aos níveis mais altos que são constituídos pelo mundo das idéias, da idéia do bem.
Para Platão, a arte é imitação do mundo sensível, do mundo material, mas a arte é imitação da idéia. Então, a arte é a sombra das sombras. A idéia das idéias.

Prof. e filósofo, Jackislandy Meira de Medeiros Silva

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Fotos da 3ª Ação Cidadania do Teônia Amaral



























































sala de "Curiosidades filosóficas" na


3ª Ação cidadania da EETA de


Florânia/RN.


A Farmácia de Epicuro.

Segunda-feira passada, dia 01 de dezembro de 2008, na Escola Estadual Teônia Amaral em Florânia, RN, pudemos vislumbrar de perto as práticas, saberes e valores que tanto estimulam alunos, professores, equipe pedagógica, direção escolar ou Comunidade Escolar no que diz respeito às preocupações internas da instituição quando o assunto é aprendizagem. Houve a 3ª Ação Cidadania da EETA, cujo tema fora: “Teônia Amaral mostra seus saberes e práticas”.
Nesse dia tão badalado, não menos rico de conteúdos que nas aulas, sentimo-nos presenteados também pela 4ª feira do empreendedor do “Despertar” em nosso Município, ocorrida nas mesmas circunstâncias da “Ação”. Um presente duplamente carregado de sentido e de admiração por aqueles que iam e vinham das apresentações da sala do Centenário de morte de Machado de Assis, da sala de História com seus personagens e fatos, da sala de Geografia com a preocupação do espaço, do clima e da política, da sala de Curiosidades filosóficas no tocante à Farmácia de Epicuro, à Morte dos filósofos, aos bustos dos filósofos e ao jogo da memória com os personagens históricos da Filosofia, bem como os laboratórios de Biologia e Química de nossa Escola que acabaram dando um show de experimentos. Ainda tivemos a sala de Turismo mostrando as belezas religiosas e paisagísticas de Florânia... Muito mais, mas muito mais mesmo nós tivemos com que nos encher de orgulho quando vimos todas as salas repletas de trabalhos construtivos, realizados com carinho pelos alunos de nossa Escola. Valeu a pena! Ótimo trabalho!
Mas, gostaria aqui, nesse espaço, de intensificar as iniciativas do trabalho realizado pelos alunos do 3º ano do Ensino Médio do Cajueiro em que sobrou ousadia e muita criatividade. Desenvolveram uma “Farmácia de Epicuro” invejável e inteligente do ponto de vista filosófico.
Nela, o “Tetrafármacon”(chamada “ética de Epicuro”): “1º) Não se deve temer a morte; 2º) É fácil alcançar o bem; 3º) não se deve temer a divindade; 4º) É fácil suportar o mal” (in “O Jardim das Aflições”, pg. 58). Segundo Olavo de Carvalho, não se trata de uma ética, mas de uma psicologia prática, uma espécie de “auto-ajuda” para a conquista da felicidade – assim entendida por Epicuro. Para mim, é uma sabedoria ou a própria filosofia de Epicuro uma vez que afirma a vida pautada na alegria, na amizade, na paz e na felicidade.
O saber médico era um dos principais saberes da época de Epicuro, SÉC. IV - III a.C. Onde a FELICIDADE era fruto da harmonia entre MEDICINA E FILOSOFIA que davam normas para a vida correta, para a BOA VIDA.
Daí, a Filosofia de Epicuro ser chamada de PHARMAKON ou TETRAPHARMAKON. Vejam a bula com os quatro remédios de Epicuro para a cura das paixões e dos tormentos da alma: 1ª. As divindades não observam os homens com qualquer interesse. Tudo é “átomo e vazio”, e os átomos, que são partículas minúsculas, se movimentam como em uma constante queda, e se há um desvio de um que pode ocorrer um choque, há então mudanças no plano visível. Isso não quer dizer que não possa existir deuses, e de fato eles existem. Todavia, ficam no seu mundo, e os homens tem também o seu próprio. Sendo divinos, não se interessam em olhar para o que é menos que eles, a vida dos mortais. Por isso mesmo, os homens não devem temê-los. Criar, lutar para obter riquezas e honrá-los seria uma forma de grande tormento entre homens. Um tormento tolo e inútil. Eis então a primeira regra para a Felicidade: não temer os deuses; não se preocupar com eles(isso não quer dizer, não se ocupar deles – Epicuro não manda não crer neles); 2ª. Sendo o mundo só “átomos e vazio”, temos de entender que sensações são físicas e que sentimentos são também produtos de mudanças de movimentações atômicas e, portanto, corporais. Assim, quando a morte chega, as sensações cessam e tudo que é significante para nós – prazer e dor – desaparece. Eis que a morte é ludibriada, pois quando ela vem, no mesmo momento não encontra mais o homem que ali está. Eis aí a segunda regra: não temer a morte, ela é tão incapaz de nos fazer mal quanto os deuses; 3ª. e 4ª. Ambas estão no próprio senso comum do pensamento hedonista: aquilo que é autenticamente bom é explicitamente simples, e pode ser buscado sem medo. Por exemplo: para alguém que tem sede, um simples copo de água é um bem valioso; uma vez degustado de modo correto, inteligente, é tudo o que se precisa(no momento) e, então, fonte de imenso prazer. Em relação ao mal, que poderia ofuscar prazeres, devemos saber que ele é o sofrimento, a dor, mas ele jamais dura para sempre; além disso, há uma série de exercícios mentais que podemos fazer para não prestarmos a atenção na dor, esperando-a passar, pois uma hora ela irá, com certeza, acabar. Eis aí a nossa receita para a busca do prazer e a fuga da dor, base da felicidade para Epicuro. “É vã toda e qualquer filosofia que não cure algum mal do espírito humano”.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Lampejos do Eros(Amor) em Platão

Tratado no “Banquete” descreve-se como sendo o mito do nascimento de Eros. Quem fala sobre o nascimento de Eros não é diretamente Sócrates, mas ele recebeu a narração do nascimento de uma mulher, chamada Diotima. Esta mulher é uma invenção platônica. A personagem enriquece a trama, tão bem discorrida no diálogo contado aqui superficialmente sem as miudezas dos detalhes postos pelo autor.
Por ocasião da festa de Afrodite(deusa do amor) e para os festejos, os deuses fazem uma grande festa e a esta convidam deuses e semi-deuses. A esta festa é convidado POROS(riqueza, recurso) pai de Eros. De repente, aparece a mulher que tem duas características:
§ Peneia(pobreza) é feia. Entra para mendigar as migalhas da festa. Da união dos dois(POROS E PENEIA) nasce EROS.
Platão diz: “Eros tem as características do pai e da mãe. Ele não é belo e não é feio, porém é desejo de beleza, desejo de verdade”. O homem é Eros.
No início, Platão tinha colocado uma pergunta: “o amor é belo, bruto ou feio?” Não é nem belo, nem feio e nem bruto, mas é algo intermediário(uma realidade intermediária).
O homem é, sobretudo, desejo da beleza, é desejo da verdade, é desejo de uma beleza completa; exatamente porque não a possui. O que seria, talvez, um desafio nosso do presente, se a desejássemos quando a possuíssemos!
O amor é desejo do bem e da felicidade em forma completa; é o desejo de procriação do belo.
O homem tem desejo de criar algo que dure, não apenas uma beleza que passa, mas que permanece.
A procriação nos corpos(sexo) é a necessidade de algo que não passe, que se eternize.
O desejo de procriar nos corpos é o nível mais baixo. Existe o nível profundo, aqueles que desejam procriar no espírito(na alma).
Quem tem a capacidade de procriar verdadeiramente é a alma, porque por meio da alma se chega a perceber a realidade do mundo verdadeiro. Nesse sentido o desejo do bem e do belo é inseparável do desejo da imortalidade. Para chegar à beleza eterna existem vários graus no caminho do Eros.
1. O homem chega à beleza eterna começando com o amor aos corpos belos;
2. O amor às almas belas;
3. O amor aos costumes belos e às leis morais;
4. O amor aos conhecimentos científicos e idéias;
5. O amor à ciência das ciências(que é contemplação da verdade e da beleza do mundo ideal-divino) que é conhecimento da beleza em si.
O Eros, desejo de eterna beleza, representa o dinamismo do homem que não fica satisfeito até enquanto não alcança a eterna beleza; aquela que não nasce nem morre; mas que simplesmente é. Existe por si e não por outro, caracterizando no homem concreto a busca por uma beleza intensa, verdadeira e autêntica, que não se cansa de ser desejada porque desejável.
Essas luzes jogadas na obra “O Banquete” de Platão têm o objetivo de nos convidar a ler este diálogo, desejando-o a tal ponto que queiramos, de fato, amá-lo. Lampejos, lampejos, lampejos de idéias que fluem da boca dos personagens, apenas para nos fazer entrar na festa, apenas para nos levar a ler esta admirável obra.

Texto construído com base no diálogo “O Banquete” de Platão, apoiado pela obra:
REALE, G. – ANTISERI, D. História da Filosofia, vol. I, S. Paulo: Paulinas
1990.

Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Prof. e filósofo.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Platão e o sentido de vida verdadeira

No diálogo Górgias, Platão desenvolve uma sabedoria para a vida, quando afirma por boca de um personagem, evidentemente de um sofista que a verdade está sempre do lado mais forte e que a vida do homem virtuoso é sem sentido. Já o poeta Eurípedes dizia que quem pode saber se o viver não é morrer e se o morrer não é viver? Nós somos mortos e o corpo significa para nós como um túmulo. Platão retoma de qualquer forma esta afirmação que inverte o sentido comum dado a vida, a morte. A vida verdadeira é aquela vivida não na dimensão do corpo, mas sim, da alma. Viver para o corpo significa viver para aquilo que é destinado a morrer. Viver para a alma significa viver para aquilo que é destinado a existir sempre. Platão fornece também as provas da imortalidade da alma, sobretudo no diálogo Fédon. Ele afirma que a alma humana é capaz de conhecer coisas imutáveis e eternas, quer dizer, as idéias. Ora, para poder conhecer tais coisas ela deve possuir, como condição indispensável, uma natureza dotada de afinidades com essas coisas imateriais e eternas, caso contrário, elas não poderiam ser minimamente entendidas.
Conseqüentemente, como essas coisas que a alma conhece são imutáveis e eternas, a alma também deve ser eterna e imutável. A alma é feita da mesma substância da qual são feitas as idéias. A alma é uma realidade que tem afinidade com as idéias, e portanto, pertencem ao mesmo gênero dos entes mais visíveis e não perceptíveis por meio dos sentidos. A alma é de natureza espiritual e racional. Ela é inteligente e imortal. A imortalidade é uma conseqüência da espiritualidade da alma. Se ela é de natureza espiritual significa que é diferente da matéria. A matéria é corruptível. A alma sendo espiritual é incorruptível. Portanto, a alma permanece sempre. A alma não é sujeita a corrupção, ela é imortal. Assim, Platão afirma que no homem existe o corpo que é destinado à morte e a alma que é destinada à vida, a alma é imortal. Afirmada a existência de algo incorruptível e eterno que existe na vida do próprio homem.
A vida do homem nesta dimensão terrena é uma passagem e é uma prova. Os homens são chamados a viver segundo a alma. Se eles vivem ligados ao corpo, as paixões não conseguem, após a morte, separar-se do elemento corpóreo e portanto estas almas se ligam novamente a outros corpos, não apenas de homens, mas também de animais. As almas que tiverem vivido segundo a alma, elas se reencarnam, mas em formas superiores, sempre mais purificadas da matéria. Estamos assim diante da doutrina da reencarnação ou setempsicose que fala de um ciclo de reencarnações para o homem chegar a uma purificação completa da alma.
Com esta doutrina da imortalidade da alma da qual a reencarnação é o aspecto norteador, Platão revoluciona os valores clássicos do mundo grego que eram em ordem, a saúde física, a beleza do corpo, as riquezas honestas, a juventude de vida com os amigos. Platão planta uma na ordem baseada na descoberta do mundo supra-sensível. Os valores ligados ao mundo corpóreo passam e são efêmeros. Os valores verdadeiros são aqueles ligados ao conhecimento da verdade eterna do mundo das idéias. Portanto, o primado é dado à verdade, à justiça e à fortaleza de ânimos.
O verdadeiro eu é o supra-sensível. Portanto, na vida do homem o aspecto mais importante é, como já dizia Sócrates, o cuidado com a alma, através de um processo pelo qual o homem se purifica, chegando sempre mais ao conhecimento do mundo supra-sensível.
Esta é a verdadeira conversão, conhecendo o mundo verdadeiro, a alma cuida de si mesma e realiza a própria purificação. Converte-se e eleva-se. Nisso consiste a virtude. Para Platão, o filósofo é aquele que deseja o mundo eterno e supra-sensível. Portanto, a filosofia é, a um só tempo, desejo da morte, mas enquanto desejo da verdadeira vida. A filosofia é o exercício de vida verdadeira. Admite-se, assim, a Filosofia como um aprender a morrer, uma preparação para a morte.





Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Divagações sobre o sentido da refeição.

O que provoca uma boa refeição não é tanto a comida, mas as pessoas que se juntam em torno da mesa para degustá-la. Não é só o aroma apetitoso que se exala pela casa inteira o motivo maior de nos encontrarmos na hora de uma refeição. Quem geralmente nos convida para a mesa são pessoas. Elas são a graça, são o tom que dão harmonia a todo e qualquer encontro familiar ou entre amigos. Além disso, ainda há o sentido cristão que se objetiva nas palavras do Apóstolo Paulo, “Quer comamos, quer bebamos, façamos tudo por causa de Cristo”.
Epicuro, filósofo helenístico, que viveu antes de Cristo há três séculos e meio, jamais seria capaz de entrar numa lanchonete para comer sozinho. Para ele, a razão de nos alimentarmos não está no simples prazer de comer, mas na alegria de nos encontrarmos no momento do ágape. Sentarmo-nos à mesa sozinhos é triste e, por vezes, deprimente. Refeição, mesa, ágape devem ser sinônimas de encontro, partilha, alegria, festa, celebração da vida...
A cultura judaica, diferentemente da romana, eleva o sentido da refeição à “Beraká”, a uma verdadeira e indispensável Ação de Graças. Daí reiteramos o real valor da refeição que se desprende da Cultura neoliberal, artificial e relativa por que passa o mundo europeu.
Ao invés de acumularmos capital, lucros para o consumo desmedido de nossas falsas necessidades que se desenrolam até a mesa nossa de cada dia, cheia de guloseimas, excessos e desperdícios, o ideal mesmo seria nos deleitarmos com os frutíferos encontros e desencontros que ela propicia. Troca de experiências, o repartir da culinária, o diálogo sobre as notícias do dia, o afeto entre familiares e convidados, o lugar de reunião de pessoas que há muito não se viam e agora sentam juntas, comem do mesmo pão e bebem da mesma bebida, revelando o mistério de uma refeição, onde temperos e destemperos são revolvidos, tentando formar a medida desejada dos alimentos e das relações ali dispostos por aqueles que participam da mesa.
As interfaces, os vários sentidos da refeição nos indicam que por dentro dela emerge o que dá unidade, gozo e satisfação para além da matéria, do que é visto e ouvido, do que é sentido, para além do dito, a comunhão de todos a fim de testemunhar o pleno desejo do alto, o elevado desejo do céu quando não há sequer desejo, apenas presença real de algo inaudito. Atentamos assim, para essa poesia:
“O próprio Deus o compõe
Da fina flor de seu firmamento.
É o pão tão prazeroso
Que não serve em sua mesa
O mundo que você acompanha.
Ofereço-o a quem quiser me acompanhar:
Aproximem-se. Vocês querem viver?
Tomem-no, comam-no e vivam!”
Trecho de Racine, citado por Marcel Proust para relacionar à profissão de Padeiro, caso não fosse escritor, cujo título é Pão dos Anjos. O ato de escrever é comparado por Proust como o do padeiro que produz o pão dos anjos, o pão puro e prazeroso.


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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O dia do Mestre( 15 de Outubro)...

Neste dia do Professor, temos a oportunidade de interiorizar sobre a beleza do magistério em nossas vidas. Quer sejamos médicos, filósofos, arquitetos, engenheiros, agrônomos, matemáticos, físicos, químicos, enfim... Todos nós passamos pelas mãos ou pelos olhos de um PROFESSOR, um verdadeiro MESTRE de nossas vidas. No texto em questão faço uma pequena apresentação de qual deve ser a função do mestre a exemplo de Sócrates.
O valor de Sócrates está, sobretudo, no método que ele utiliza para desenvolver a sua Filosofia. Ele baseia tudo sobre um encontro. Encontrando-se com Sócrates, a pessoa encontrava-se com o mestre. A função do mestre não é tanto a de ensinar coisas, mas sobretudo de ajudar a pessoa na descoberta da verdade. O encontro com Sócrates tornava-se possível e mais fácil o encontro com a própria verdade presente em nós. A função do mestre era de facilitar a experiência da verdade. Portanto, o valor de Sócrates se manifesta em dois níveis: no nível do conhecimento da verdade e no nível da responsabilidade moral para com esta própria verdade.
Sócrates suscitava nos seus discípulos, o desejo de descobrir a verdade e de aderir pessoalmente a ela.
O Mestre ensina:
1. Coisas – conhecimentos.
2. A descobrir a verdade que está em ti – o logos(razão).

Sto. Agostinho fala do mestre interior: Magister intus(mestre dentro de si).
É a função mais importante do mestre exterior, descobrir a verdade a partir de si mesmo, aprender a ver o mundo por si mesmo.
Esta verdade está em cada homem, mas eu não posso manipular, e esta é a grande diferença entre os sofistas e Sócrates. Não é para usar o conhecimento ao seu bel prazer e sim usá-la com método, com responsabilidade, isto é, usá-la com dignidade.
Sócrates deixa uma abertura bastante profunda que é a alma. Descobrir melhor o sentido da alma, aprofundar...

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Autárkeia e phýsis em Epicuro de Samos

Do próprio conceito grego de autárkeia afirma-se o lugar do pensamento de Epicuro, na phýsis. A autárkeia é o princípio regente de si mesmo. É o comando do ser em profunda harmonia com a phýsis brotando a realidade do mundo.
O que importa para Epicuro é a vida junto à natureza, pois é a verdadeira realização do ser enquanto uma pequena parte integrada na grande totalidade. Não há partes separadas da totalidade, do mesmo modo como não há totalidade separada das partes. Para se entender a phýsis na sua totalidade, segundo Epicuro, é necessário ir até as partes, voltar ao particular, ao indivíduo. “O estado de ser da natureza leva-nos a refletir sobre o sentido de realização do nosso próprio ser, um microcosmos”( Silva, Markus F. da, Epicuro: sabedoria e jardim, p. 15).
A compreensão do todo da phýsis é simultaneamente a compreensão de si mesmo como princípio que se gera a partir de si mesmo, dando uma unidade fundamental ao mundo, às coisas, aos seres e conseqüentemente a si mesmo.
Sendo a phýsis a própria realidade no seu sentido mais profundo e a physiología o exercício de sua compreensão, a autárkeia é o comando, o regente do ser de acordo com a natureza.
Assim, o ser que não vive em sintonia com a natureza está desvinculado da projeção do saber de Epicuro. Este pensamento ou Filosofia é dinâmico porque está estreitamente ligado a phýsis, haja vista a realização de seu pensar sobre a phýsis a partir do princípio(átomo), dos corpos, mundos e todo.
A realização da phýsis é uma questão elementar porque vem explicitado o princípio de realidade(arché) pelo axioma básico do atomismo, conforme o qual o todo é composto de átomos e vazio. Os átomos são elementos constitutivos de todas as coisas, origem dos corpos compostos e a base do atomismo, cujo princípio é afirmado na Carta a Heródoto: “Primeiramente, nada nasce do nada(não-ser). Se não fosse assim, tudo nasceria de tudo e nada teria necessidade de seu próprio germe”( DL, X, 38, in Silva, idem, p. 27).
Não se tem pretensão alguma de explicitar o caráter complexo dos dados da phýsis em Epicuro, porém procura-se estabelecer um viés, uma abertura que se vincule à teleologia da “vida física”. Parece que uma vida tranqüila e feliz implica numa vida física autêntica, daí a volta constante de Epicuro à realidade original da phýsis, da natureza mesma do indivíduo:“Em suma Epicuro preconiza a volta ao ‘início’ para traçar o caminho que o conduza à sabedoria prática, ou ao cumprimento perfeito da natureza do indivíduo, pelo reconhecimento do saber originário aqui entendido como physiología. Mas para que haja este reconhecimento é preciso compreendermos a phýsis em sua realização e não apenas em sua compreensão”(SILVA, p. 27).
A relação intrínseca phýsis-autárkeia se projeta num crescente a um télos extremamente positivo, no sentido da realização completa de um modo de ser do indivíduo, autárkeia. Alcançando, assim, toda sua intensidade no éthos epicúreo. De fato, o centro da ética de Epicuro é a autárkeia como exercício do sábio que procura viver de acordo com a natureza. Este aspecto terá atenção especial na terceira parte deste estudo.
Segundo a etimologia da palavra, phýsis é o processo de crescimento ou gênese de alguma coisa, e, neste sentido, Epicuro somente a utiliza quando se refere aos corpos compostos e aos mundos. Outro sentido de phýsis é princípio(arché), porque é átomos e vazio; e num último sentido, phýsis é o modo de ser do todo ilimitado.
Há de se admitir também outras afirmações de Epicuro no que diz respeito a phýsis. É o problema da composição dos corpos e das almas, a explicação de que tudo o que existe é formado por átomos que se agregam em composições ou corpos, concebendo assim o axioma básico da physiología epicúrea e possibilitando a análise das estruturas compostas, desde as microestruturas corpóreas, até as macroestruturas dos mundos. Os átomos, portanto, constituem a realidade.
Todavia, como a phýsis é a fonte de todo aprendizado do sophós, do equilíbrio entre o homem e a natureza, faz-se necessário ainda compreender o sentido deste equilíbrio em direção ao bem-estar de seu corpo e, por conseguinte, de sua conduta no mundo.


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Epicuro de Samos e sua Ética.

Busca-se explicitar a ética epicúrea a partir do sentido pleno do exercício da Filosofia como um saber para a vida, ou o equilíbrio próprio do sophós(sábio), que é autárkes, isto é, que tem o princípio da sua ação em si mesmo e, por isso, pode se considerar livre dos tormentos que afetam o comum dos mortais.
Vislumbra-se nesse particular, o modo de realização do télos(fim) do indivíduo, uma vez que o período helenístico da Filosofia antiga caracterizou-se sobretudo pelo deslocamento da problemática ética para o âmbito do indivíduo, onde a orientação para o agir no mundo tem o seu télos(fim) no bem-estar e na autárkeia do indivíduo, que já não deposita suas esperanças numa mudança substancial na ordem política e, por isso, volta-se para si e busca, através da Filosofia, o cuidado de si mesmo.
Epicuro enfoca o seu pensamento ético para o sophós(sábio), que é o modelo do homem feliz, por fazer da sua vida um exercício constante de realização da Filosofia, cujo sentido prático está em evitar os problemas advindos das relações estabelecidas no seio do corpo político, da sociedade de então.
Justifica-se, desse modo, o isolamento de Epicuro não como uma fuga da realidade, mas como uma característica do seu éthos que molda o homem sábio:
“Sua ética se caracteriza, sobretudo, pela autárkeia, isto é, por uma conduta na qual a ação fundada na compreensão da natureza supera a reação que tem por base o constante desgaste do indivíduo, que perdeu o domínio de si e vive a impossibilidade de criar o seu modo de vida segundo o que é natural e necessário. O afastamento do sophós em relação à insensatez das normas e valores cultivados em sociedade é, para Epicuro, o caminho para o exercício de um modo de vida autárquico”( SILVA, Markus Figueira da. Epicuro: sabedoria e jardim. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 18).
O homem sábio se constitui como aquele que não vive na polis porque o pressuposto para a política é eminentemente ético. O seu éthos equivale a sua phýsis, pois são uma realidade só.
O equilíbrio então se mostra como sentido para a vida a partir da compreensão da natureza(physiología) e do modo de ser phýsis.Essa é uma das questões centrais do pensar epicúreo devido o sábio alcançar a plenitude no agir, o equilíbrio, a medida, tendo em si mesmo o princípio dessas ações. A ele cabe escolher o que lhe aprouver e recusar o que destoa da medida equilibrada que expressa o seu bem-estar.
Assim, o sophós é autárkes porque age a partir de si mesmo. A autárkeia consiste na implicação da compreensão do sentido de liberdade(eleuthería) que a justifica e ao mesmo tempo a fundamenta.Autárkeia é uma qualidade de quem se basta a si mesmo. Daí, o viver em equilíbrio não depende senão do modo como o homem vivencia a sua situação real de existir independente de qualquer outro “poder” que transcenda a sua dynamis de ação, desde que esse “poder” possa ser permitido ou evitado.
A autárkeia é a expressão da vida tornada independente das necessidades que a negam e a fazem re-agir ou sofrer.
Contudo, eis o grande prazer da sabedoria quando se expressa os ideais da ataraxía, da aponía, da eustatheía e da philía; quando aquele que goza a serenidade de uma vida filosófica, obtém o máximo de prazer em todas as ações refletidas, ao mesmo tempo que se livra de atender às necessidades não naturais.
O propósito maior do comportamento do sábio se define como viver de acordo com a natureza e se expressa pela autárkeia, o modelo de ação que caracteriza o modo de vida do sábio.
Tal propósito passa por um exercício que é a efetivação da sua compreensão da phýsis mediante o dimensionamento da sua conduta no mundo-realidade. Este exercício é ainda a definição da Filosofia enquanto um saber para a vida: “techné tis perì tón bíon”, afirmado por Epicuro.
Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Professor e Filósofo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Quem não merece seu voto.



Como Professor e filósofo, é de minha inteira responsabilidade, querer conscientizar ou sensibilizar as pessoas com quem convivo, bem como os leitores desta coluna, os amigos e eleitores de um modo geral, para a necessidade de se votar bem, uma vez que se aproxima o pleito eleitoral em todos os municípios deste país.
Entendo que há “n” razões para você, caro cidadão, confirmar a sua escolha no dia 05 de outubro de 2008. Todavia, elencarei aqui alguns conhecimentos de causa que farão você jogar luzes sobre o seu precioso voto.
De sorte, não merece o seu voto quem, de fato, carece de educação, princípios e bons costumes, capaz de envergonhar seus conterrâneos; Quem jamais prestou serviço a sua comunidade; Quem não é admirado até pelos próprios familiares; Quem não honra a política pela persuasão e pelo direito de todos, mas por herança genética; Quem se omite frente aos problemas levantados pelo povo; Quem não tem propostas concretas e objetivas para os cidadãos se sentirem felizes no lugar onde nasceram e continuam a viver; Quem não tem compromisso para com as propostas de governo; Quem não admite humildade diante da complexa responsabilidade de administrar a coisa pública; Quem não conhece o próprio lugar e o povo com o qual vai gerir; Quem oferece promessas gigantescas para o povo engolir a seco; Quem não está nem aí para com a verdade; Quem subestima a inteligência do eleitor com mentiras descabidas; Quem não respeita nossos ouvidos e nossa dignidade ao subir num palanque para discursar; Quem não se preocupa com a ÉTICA; Quem apenas brinca de ser político; Quem não vê na política uma oportunidade e, sim um fim, para tentar resolver boa parte dos problemas que afligem a qualidade de vida das pessoas; enfim...
Quem não merece seu voto? Pergunte-se, você mesmo, e tire suas próprias conclusões. Quem procura nos enganar e quem é cúmplice da verdade e do trabalho?
Notadamente, os compromissos com a verdade e com o trabalho devem acompanhar o seu voto, meu caro eleitor, eleitora que lêem minha coluna e acompanham as reflexões acerca da política.
Agora, passem a ler um texto que merece a nossa atenção, “O analfabeto político” do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht:
“O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa
dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil
que da sua ignorância política
nascem a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais.”


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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domingo, 24 de agosto de 2008

A política e suas circunstâncias

A política está mergulhada nas contingências das massas em todos os tempos e lugares da história. Até mesmo na Grécia, na velha Hélade onde tudo começou, o poder era demasiadamente volátil, tão passageiro, artificial, fugaz e abstrato como o é hoje em dia.
Tanto é que se herdava a autoridade política não por lei, não por direito constituído devido à cidadania, não pelo voto direto e participativo, mas por caprichos de alguns e por privilégios de uma pequena parte da população ateniense que detinha o poder nas mãos em detrimento da vontade alheia dos escravos, das mulheres, dos camponeses, dos artesãos e de outros menos favorecidos.
O poder de administrar um “genos”, uma colônia, uma província era o mesmo que assumir uma cooperativa, uma associação de bairro, um grupo de jovens ou o poder de uma família, baseado em muita liderança, domínio público e persuasão. O que não acontecia ao administrar uma Cidade Estado do nível de Atenas, onde o poder era transmitido, passado, transferido de Pai para filho, de Oligarquia para Oligarquia e, diga-se de passagem, geneticamente. Não era algo conquistado a duras penas, infelizmente. No entanto, as circunstâncias eram outras, bastante diferentes das de hoje.
A Idade Média fora marcada pela união entre Igreja e Estado possibilitando a centralização dos interesses políticos, econômicos e sociais por mil anos. Estava nas mãos da Igreja, dos clérigos, dos episcopos e de outras autoridades eclesiásticas a direção tempo/espaço da política Ocidental. Este sim fora um período em que as circunstâncias políticas nada tinham de favoráveis à Democracia e à participação popular na escolha de seus possíveis representantes.
As circunstâncias da modernidade em relação à política estão arraigadas aos valores de suas oligarquias, de suas famílias, de seus “genos”. Estas, por sua vez, sentem-se no “status quo” da arte política, no sentido de somente elas terem condições genéticas para fazer política. Daí, cabe-nos aqui intrigantes perguntas: “Para se fazer política é necessário herdar tais condições?”; “As Oligarquias predominam?”; Os “Maias” e os “Alves” ainda resistem às circunstâncias modernas da política, sobretudo aqui no RN?; “Qual é a Tua, Candidato?”; “És um representante do povo ou de uma família apenas?”.
Na política atual, o candidato que se propõe a um cargo eletivo para servir ao povo, deveria simples e tacitamente justificar sua posição de “candidatus” por ter saído de uma porção da comunidade popular e participativa democraticamente, pois, afinal, é quem o vai ou não eleger.
Os tempos são outros. As circunstâncias também. As relações de poder são brindadas com mentiras e verdades, com interesses escusos e outros mais. Parece-nos que a influência das oligarquias na política brasileira vem dando lugar, aos poucos, à política de alianças, de acordos, de negociações. Umas para o desenvolvimento, outras nem tanto.
Em nosso país, é comum compreendermos a política como “coisa”: leis, plebiscito, partidos, estatísticas, eleições; de modo que atualmente, somos inclinados a vê-la como peça de engrenagem, na fabricação dos “objetos”. Política de mercado. Política de opinião. Política de negócios. Porém, é isso a Política? Um negócio!? Segundo Luiz Inácio Lula da Silva, a política se constitui como a arte da negociação e das convergências. Num certo sentido, sim.
A filósofa Hannah Arendt assim especificou o caráter ou a nossa condição de “zoon politikon”, como um agente da política, caracterizado pelas relações entre os homens na esfera pública. Segundo ela, a compreensão da política é vinculada à questão da liberdade e da espontaneidade. É vista para além das discussões burocráticas e mesquinhas. Antes, passa pela recuperação da idéia de que o livre agir é o agir em público, e público é o espaço original da política.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Deus, nossa doçura e alegria.

“Esse abraço inefável entre o Pai e a sua Imagem não é sem fruição, sem amor e sem alegria, e esse amor, essa dileção, essa felicidade, na Trindade, é o Espírito Santo. Ele não é gerado; é a doce bem-aventurança do gerador e do gerado que inunda com sua liberalidade e abundância imensa todas as criaturas, segundo sua capacidade”.

Agostinho, De Trinitate, VI, 10, 10.


“a doce maçã que por tantos ramos
o zelo dos mortais vai procurando”.

Dante Alighieri, Purg., XXVII, 115s.


“Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos nem dos doutos. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz. Deus de Jesus Cristo. Teu Deus será meu Deus. Esquecimento do mundo e de tudo exceto Deus. A gente só o encontra pelos caminhos do Evangelho. Grandeza da alma humana. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci. Não deva ser separado dele eternamente. Alegria, alegria, lágrimas de alegria”.

Aqui o filósofo Pascal faz uma experiência candente do Deus vivo e procura expressar-se sob a forma de breves exclamações numa folha de papel; esta, por ocasião de sua morte, foi encontrada costurada no interior de seu casaco, sobre o coração.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Uma vez alguém já disse: “Não gosto de política”.

Não poucas vezes, ouvimos, à boca pequena, expressões como essas: “Odeio política”, “Não gosto de política”, “Tenho nojo de política”..., Principalmente em tempos de eleição. A política parece sempre ocupar os extremos do amor e do ódio, do ame-a ou deixe-a, da alegria e da tristeza, do bem e do mal, do calor e do frio, do grito e do silêncio, do conformismo e do ativismo. Assim é a política na boca de milhares de pessoas, ou doce ou amarga ou agridoce.
Para vulgarizarmos um pouco menos e não banalizarmos por demais a palavra política é importante entendermos três acepções sobre ela: a primeira assume uma conotação de governo, autoridade e administração da coisa pública ou do tesouro de todos, sob a forma de Estado; a segunda dá a idéia de atividade realizada por especialistas, profissionais, políticos pertencentes a um certo tipo de organização sociopolítica – os partidos – que disputam o direito de governar, ocupando cargos e postos no Estado; por fim, este último significado advém do anterior porque é o mais popular, no sentido de ser o mais corrente por se tratar de uma visão negativa da política, admitindo colocar sob suspeita as práticas secretas de quem exerce o poder e se beneficia dele.
O calor político é produzido pela oposição dos três sentidos mencionados acima, que na prática se confirma mais ainda. Aflora-se, com isso, um paradoxo na divergência entre o primeiro e o último sentido da palavra política, pois o primeiro se refere a algo geral concernente à sociedade como um todo com suas leis e seus costumes, seus direitos e obrigações, reivindicações, resistências e desobediências, enquanto o último sentido afasta a política de nosso alcance, blindando-a. Daí, muitas interpretações parecem viáveis acerca da política ou de quem administra a coisa pública; que vão desde os casos de corrupção aos casos de transparência e de lisura administrativa.
Costumo colocar num mesmo patamar o atemporal, o misantropo, o apolítico, o a-histórico uma vez que todos eles tentam sublimar os problemas pertinentes à existência. É da natureza da própria existência inserir-nos no mundo dos contrários da política porque somos seres sociais, carregados de história e sujeitos ao tempo e ao espaço. Implicações como essas não nos permitem fugir da nossa condição de seres políticos, tampouco afirmarmos que “não gostamos de política”.
“Não gostar de” significa não desejá-la, não sentir prazer pela política. Não querer bem a política. Muito embora acredite que pelo simples fato de “não gostar” não quer dizer que venha a negá-la. “Não gostar” aqui está muito mais próxima da indiferença e da dissimulação do que da negação, da extinção. Não se trata de negá-la. Se assim for, é até mais suportável tal estranhamento. Do contrário, estaríamos agredindo a nós mesmos enquanto “animais políticos”, no dizer de Aristóteles. Como não estranhar tal repulsa!
Fora justamente a banalização do termo “política” ou o desgaste usual dela desde a Antiguidade que possibilitou a criação de escamas negativas em torno de seu rico significado. Isso diz o essencial da vida social em geral, e da política em particular: que são sempre coletivas e conflituosas. Diria Kant, “Insociável sociabilidade”. Por que os homens são injustos? Por que os homens são corruptos? Por que os homens são maus? Nada disso. Mas porque são egoístas, incapazes de viver sozinhos, pois, “homem algum é uma ilha”, afirmou Thomas Merton.
Engana-se quem pensa que a política é ausência de conflitos e uma bela auréola de paz e harmonia. E para nos livrarmos mais desse preconceito, deixo literalmente uma passagem do Livro “A vida humana” do filósofo francês André Comte-Sponville, 68p.:


“Engana-se quem vê na paz ausência de conflitos, o reino do consenso ou do interesse geral em tudo. Se assim fosse, não teríamos mais necessidade de política: a administração e a técnica bastariam. Estamos longe disso, felizmente(...). É para isso que servem nossas eleições, nossos parlamentos, nossos referendos. Democracia não é ausência de conflitos; é uma maneira de assumi-los e resolvê-los – sem os abolir – sem ser pela violência. Uma eleição vale mais que a guerra civil. Um parlamento, mais que um tirano. Ainda é preciso que haja vários partidos diferentes, que não se oponham apenas sobre insignificâncias(...). A política, diria eu, ao contrário de Clausewitz, é a guerra continuada por outros meios. Equivale a dizer que é um dos mais formidáveis progressos da história da humanidade e a única forma efetiva de paz. Por isso o apolitismo é um erro; o individualismo, um defeito. Ninguém luta sozinho, porque só se luta contra alguém, só se tem chances de ganhar, na escala da sociedade, junto com outros...(...)”.

Agora, portanto, pense bem antes de dizer: “Não gosto de política”.



Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Olhares de Agostinho e Anselmo... Confiram.

“Ensina-me, Senhor, a procurar-te, e mostra-te quando te procuro. Não posso procurar-te se tu mesmo não me indicas, nem achar-te se tu mesmo não te mostras a mim. Que eu te procure desejando-te e anseie por ti procurando-te; que eu te ache amando-te e te ame encontrando-te”.

Anselmo, Proslogion, 1(Opera omnia, 1, Edimburgo, 1946, p. 100).



“Senhor Deus meu, minha única esperança, atende-me e faz com que eu não cesse por cansaço de te procurar, mas sempre procure com ardor teu rosto(...) Diante de ti está minha força e minha fraqueza: conserva uma e cura a outra(...) Faze que eu me lembre de ti, que te compreenda, que te ame”.

Agostinho, De Trinitate, XV, 28, 51.



“Quando te busco, tu que és meu Deus, busco a felicidade”.

Agostinho, Confissões, X, 20.


Deus é Felicidade! “É o Deus que faz feliz”.

Agostinho, Cidade de Deus, IX, 15, 2.


“Esse abraço inefável entre o Pai e a sua Imagem não é sem fruição, sem amor e sem alegria, e esse amor, essa dileção, essa felicidade, na Trindade, é o Espírito Santo. Ele não é gerado; é a doce bem-aventurança do gerador e do gerado que inunda com sua liberalidade e abundância imensa todas as criaturas, segundo sua capacidade”.

Agostinho, De Trinitate, VI, 10, 10.

A náusea...

“Eu me encontrava no jardim público. A raiz do castanheiro mergulhava na terra exatamente por baixo de meu banco. Não me lembrava mais do que era uma raiz. As palavras haviam desaparecido, com elas o significado das coisas, os modos de seu emprego, os tênues sinais de identificação que os homens lhe traçaram na superfície. Eu estava sentado, meio inclinado, cabisbaixo, sozinho diante daquela massa negra e nodosa, totalmente grosseira, que me metia medo. Depois tive um lampejo de iluminação. Aquilo me fez perder o fôlego. Eu nunca pressentira antes o que significa ‘existir’. Nisso assemelhava-se aos demais, aos que passeiam à beira do mar em trajes primaveris. Dizia como eles: ‘O mar é verde, aquele ponto branco lá em cima é uma gaivota’, mas não me compenetrara de que de que aquilo existia, que a gaivota era uma gaivota-existente; a existência costuma esconder-se. Está aí, ao redor de nós, somos nós, não se pode dizer duas palavras sem falar dela e, por fim, nela não se toca... E depois, eis que de repente estava ali, clara como a luz do dia; a existência se revelara inopinadamente”.


J. –P. Sartre, La náusea, Mondadori, Milão, 1984, pp. 193s. Sobre o projeto da Modernidade de voltar às coisas, pois elas, de fato, existem.

terça-feira, 29 de julho de 2008

A política por todos e todos pela política.



Este título plagiado da clássica expressão dos três mosqueteiros “Um por todos e todos por um” mais representa a coletividade e o interesse pelo bem comum do que a própria política ora em evidência devido às eleições municipais em todo o Brasil. Tal expressão cabe perfeitamente no contexto político que se apresenta, na medida em que sobrevive da participação e do engajamento de todos. A sociedade civil organizada e mobilizada caracteriza a política.
A política é e sempre será um bem de todos, muito embora que os banqueiros, empresários, alguns políticos e as classes mais privilegiadas pelo sistema econômico tentem privatizá-la de algum modo. A política, sobretudo em tempo eleitoral, é uma arma ideológica importantíssima para colocarmos em exposição àqueles que se escondem por trás e por dentro da máquina administrativa, não atendendo as exigências mais prementes de nosso povo. Salvo engano aqueles que honram sua administração com idoneidade, compromisso, ética e trabalho, muito trabalho. A estes, as nossas saudações políticas...
A cada dois anos, ao passar de cada eleição, mais nos damos conta do quão difícil é a vida política, incerta e hesitante. Tudo se mistura. É uma realidade de contrastes, de conflitos. Amigos e inimigos se misturam, mas também amigos se constroem, assim como inimizades são destruídas, da mesma forma que novas relações políticas são estabelecidas. Fascinante! Na política, mesclam-se egoísmo e generosidade, exaltação e humildade, conformismo e revolta, individualismo e coletivismo, timidez e excentricidade, sede de poder e reconhecimento, tudo em virtude, em função de uma vitória, cujo poder é duramente temporal.
No entanto, todos respiramos política porque somos sujeitos a relações sociais, somos eminentemente sociais, por isso políticos. Vivemos numa cidade, rodeados de pessoas, de casas, instituições por todos os lados, negócios, comércios de produtos e de argumentos, num grande mercado do corpo a corpo, onde cada um quer mostrar a sua força apoderando-se da força do outro. Assim, meus caros, é que se afirma inevitavelmente a política independentemente do anúncio iminente de qualquer eleição.
Os interesses saltam aos olhos, o dinheiro, o poder, o emprego, um espaço, uma vida mais social... Interesses, por mais simples que sejam, fomentam a política. Mesmo que estes sejam para justificar nossas idéias e nossos valores, por mais bem intencionados que possam ser, esses interesses configuram uma atividade política. Como bem disse Karl Marx, em seu “Manifesto Comunista”, deixem um pouco de pensar o mundo e passemos agora a transformá-lo. Portanto, a política, bem de todos, por todos e para todos, modela o caráter social, crítico e verdadeiro do indivíduo.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

A boa e velha política...



Mal chegamos a meados de julho que a boa e velha política partidária teima em começar. E desta vez vem com gosto de gás para honrar a Democracia brasileira em todos os municípios. São reuniões políticas, passeatas, carreatas, mobilizações que, a meu ver, mais enaltecem a Democracia do que a depreciam. Na verdade, por aí a fora, assistimos a um "show" grandioso de opiniões, discussões e debates políticos que infestam as ruas de nossas múltiplas cidades. Não há mal nisso! Há, sim, uma emblemática oportunidade de vivermos a política com todas as suas vantagens e desvantagens, com todas as suas posturas e descomposturas, com todos os seus erros e acertos, com todas as suas falsidades e verdades, com todo o jogo dela consigo mesma. É o mundo da política, complexo e vasto por ele mesmo que exige, mais do que nunca, nossa participação.
O ano de 2008 é marcado, mais uma vez, por campanhas eleitorais em todos os municípios desse imenso país, de norte a sul, de leste a oeste, de modo a renascer a esperança na cabeça de milhares de brasileiros. E aqui é oportuno lembrar o filósofo grego, do séc. IV a.C., Aristóteles, para o qual a política injusta na distribuição da riqueza é tratar os desiguais de modo igual, uma vez que, na prática, o contrário deveria prevalecer. Isto é, tratar os desiguais de forma desigual. Isso posto, tornar iguais os desiguais. Tarefa árdua essa!
No entanto, em 5 de outubro deste ano acontece o tão esperado pleito eleitoral na cidade de Florânia, bem como nas demais cidades brasileiras, entre o representante da coligação "Por amor a Florânia", Flávio José de Oliveira Silva e o representante da coligação "Por respeito a Florânia", Sinval Salomão com seus respectivos candidatos a vereadores. A estes, digo, aos vereadores, cabe a função de legislar e fiscalizar o executivo a respeito dos rumos que o município deve trilhar. Àqueles, isto é, aos candidatos a Prefeito, implica a responsabilidade em promover ainda mais um "show" de Democracia na vida política de nosso município. A nós, eleitores, cabe a tarefa de fiscalizar as atitudes dos vereadores, não se omitindo, quando é imperativo denunciá-los por não primarem pelo comportamento ético. Por outro lado, deve-se levar em conta, também, a cobrança de propostas em questões bem pertinentes como, por exemplo, desigualdade social, infra-estrutura social – educação, saúde, saneamento(pavimentação), moradia, geração de emprego e renda, agricultura... – e, sobretudo, o compromisso com a ÉTICA. Afinal, a fronteira ética, na formação social é a libertação das classes populares.
Enquanto cidadãos, todos devem cumprir: a cobrança de atitudes éticas de nós mesmos e dos nossos possíveis representantes. Caso contrário, contribuiremos para uma real banalização do mal. Se a política for considerada como algo apenas técnico, ou seja, só para especialistas, ela não é ética. Se considerada ainda como simples divergências pessoais, deixará de ser ideológica passando a trair a ética. Portanto, candidatos, não esqueçam! As divergências devem estar apenas no nível ético, político e ideológico, não enveredando para o nível pessoal.
Para a filósofa Marilena Chauí, não é certo falar em retorno da ética, como se fosse algo que pudéssemos perder com um tempo. Ela deve estar presente em todas as posturas de quem é cidadão. Política e ética andam juntas. A vida justa e feliz é a finalidade da política. Dessa forma, não dá para separá-la da ética. Também não se trata de ética na política, ou seja, pode estar ou não, mas da política, essencialmente, ela é sempre ética. O que caracteriza a política é a ética. Portanto, não a descaracterizemos!!!!


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.


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terça-feira, 8 de julho de 2008

"Lei seca" afirma a vida.


O Estado brasileiro, recentemente, sancionou Lei aprovada pela Câmara dos deputados e dos senadores – O Projeto de lei que prevê mais rigor contra o motorista que ingerir bebida alcoólica. A multa será considerada gravíssima punida com suspensão da carteira de habilitação por um ano e multa. Somente motoristas com mais de seis decigramas de álcool por litro de sangue eram punidos – que não permite indivíduo algum, alcoolizado, a dirigir veículos.
Conforme a Lei mencionada acima, qualquer pessoa pega em flagrante incorrerá em pena de um ano sem poder conduzir legalmente seu veículo, incluindo multa de mil reais. Essa medida vem trazendo muita polêmica por parte da imprensa brasileira, uma vez que a sociedade, caracterizada como secular, acha-se no direito neoliberal de reivindicar suas posturas, embora contraditórias.
De qualquer forma, é um avanço para a nossa sociedade esse tipo de atitude, absolutamente educativa, não contrariando o bom senso e sendo favorável à ética, a uma lei por dentro, do coração; do que por fora, fruto apenas das exigências institucionais. O quê não é o caso. Temos aqui um salto na qualidade de vida de nosso povo. Pelo menos a Lei brasileira está na vanguarda de uma mudança de valores, haja vista a mudança de postura cultural que ela há de promover.
É preciso entender que a medida legal discutida no momento qualifica-se pelo avanço extraordinário de nossa sociedade em promovendo as virtudes humanas (sobriedade, prudência, temperança, responsabilidade, lealdade,...) e em freando os vícios provenientes do álcool e outras drogas. Quem tem ou já teve um pai alcoólatra sabe do que estou falando. Quem sofre conflitos familiares oriundos das drogas percebe a gravidade do problema.
Não podemos mais nos dar ao luxo de vivermos entregues a toda sorte de hábitos desmedidos e exagerados que causam um risco enorme para nossa saúde porque o que somos hoje é fruto do que construímos ontem e o que seremos amanhã é resultado do que construímos hoje. Por isso, temos o direito de viver bem o presente com responsabilidade, consciência e equilíbrio.
É urgente pensarmos em pautar uma vida o mais simples possível. Começar a renunciar um pouco mais dos prazeres, dos gostos que a vida nos proporciona agora para adquirirmos reservas lucrativas em qualidade de vida depois, no futuro.
Quiçá, a Lei em vigor nos possibilite mais do que sua aplicação enquanto tal, com certo sacrifício e contra-senso, aliás, tudo nessa vida é passivo de contra-senso, fazermos uma poupança de vida para uma velhice mais saudável e abençoada!


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

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terça-feira, 1 de julho de 2008

Umas palavras sobre a modernidade II

O nosso século teve quatro grandes mudanças da realidade: A primeira, o mundo dos medos e das superstições é vencido. Daí a necessidade de se abordar o filme Matrix do ponto de vista dos paradoxos da modernidade ou da pós-modernidade, uma vez que a radicalização das contradições já mencionadas torna-se riquíssimas em símbolos. Estes são autônomos; Segunda, nós temos uma ciência misteriosa, presente, onipotente e onipresente. A ciência passa a ser um dos instrumentos mais presentes nos costumes humanos. Ela torna o cotidiano homogêneo. O que caracteriza o futuro é o inesperado. Nós vivemos num mundo ameaçado de não termos futuro; E, terceira, voltamos a idéia de Kant de aliviar ou eliminar os medos e as superstições, isto é, o problema antes resolvido volta a aparecer. Com isso, a ciência não eliminou, porém criou novos medos. Para o grego, a noção de morte equivale a estar separado da “polis”, da cidade. O sentido de morte está associado ao da exclusão social em nossos dias. Está morto que não tem um celular, um micro-computador, um carro do ano, uma namorada... A quarta e última se destina aos desafios da vida, da natureza e da sociedade fazendo com que o homem se sinta preso. E assim busca uma autonomia. Aqui está o ponto em que Kant propõe um PROJETO emancipatório da modernidade, enquanto Adorno diz que não, pois a emancipação já estava em gestão.
O homem conseguiu tornar-se autônomo da natureza desde o século XIX. A natureza foi domada. Adorno afirma que o seu Projeto esclarecedor é imposto e ninguém o discute. É a mistificação das massas. Uma mistificação imanente. Daí, surgem dois modelos bastante sedutores para os que pensam na direção da valorização da individualidade humana.
O modelo alternativo, fruto do pensamento e das conjecturas de Foucault, discute a criação das micro-práticas de poder ou da consciência. Por outro lado, Milton Santos evidencia a questão de um pensamento único, oriundo dos debates econômicos-políticos do neoliberalismo moderno com a idéia de aldeia global ou globalização.
Em virtude disso, sai pela tangente a Indústria cultural que vem se tornando efusivamente um símbolo religioso das massas modernas. Sugerimos assim, como pista para discussão filosófica, o filme "Inteligência Artificial" a partir do ponto de vista da contemporaneidade. Um robô como membro da família. Mas o sonho é um elemento puramente humano. Como será um computador com células humanas? Em algum ponto do labirinto da história nós perdemos a nossa humanidade.
No livro "História da Loucura", Foucault tem uma pergunta: o louco tinha ou não um dom especial dado por Deus?
O final do século XX é totalmente marcado pelo horror – mortes, suicídios, desastres, pessimismos... - , por outro lado, é marcado ainda por um otimismo(economia, revoluções, o poder das teorias, a fé na ciência...). O século da glória, esperado por todos como o séc. da vitória. Isso posto, duas coisas merecem atenção:
Um século frustrante. Não trouxe a felicidade e a autonomia, pois criou infelizes, multidões de pessoas angustiadas. O século das guerras! A guerra do Vietnã que foi filmada pelos EUA. Concomitantemente, as grandes teorias e invenções econômicas não libertaram o ser humano.
É um século de desdobramentos. O homem foi à lua. A revolução sexual. Surge uma tecnologia médica fruto da guerra do Vietnã. A medicina da experimentação nazista. Diga-se de passagem, que quem vai realizar os sonhos dos nazistas são os EUA. As modernas práticas de UTI surgiram no Vietnã. Anestesias, morfinas, enfim... Nós temos um profundo desencanto. As evoluções vão mudar as nossas vidas. Era a mentalidade do séc. XIX, porém o séc. XX acaba com essa idéia de futuro. Pelo contrário, o séc. XX é um brutal acelerador do processo tecnológico de desenvolvimento.


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Umas palavras sobre a modernidade...

Entender a “aporia” dos tempos modernos, como diria Parmênides de Eléia, a dificuldade de conciliar o mundo dos sentidos com o mundo da razão, torna-se, a meu ver, ainda mais “aporético”, isto é, problemático e complexo.
Há que se pressupor alguns expoentes capitais ou substanciais, a fim de lermos as condições atuais por que passa a cultura. Um deles é Nietzsche quando da declaração da morte de Deus; o outro é Heidegger que reconstruiu toda a Filosofia a partir da língua e cultura alemãs. Ainda há Adorno acerca do conceito de Esclarecimento e da dialética do esclarecimento.
Para Kant, o esclarecimento é um Projeto da Modernidade. O primeiro pressuposto do esclarecimento para este pensador seria a doutrina calvinista e o espírito de emancipação do indivíduo que foi recuperado por Max Weber.
Víamos que na Idade Clássica o homem estava preso aos ditames da “polis” e notadamente de um regime democrático. Ao passo que na Idade Média, o medievo vivia enclausurado no conceito de religião e na obediência a Deus. Uma vez que na idade Moderna, as pessoas sentem-se presas a si mesmas ou a nada, inaugurando a emancipação do indivíduo.
É próprio do calvinista acreditar que a salvação se materializa na riqueza, desenvolvendo assim uma doutrina protestante cuja visão se atém na autonomia econômica.
Isso posto, tanto Weber quanto Nietzsche, Adorno e Foucault estabeleceram visões de autonomia, ainda que admitam no bojo do esclarecimento calvinista apenas um ideal porque experimentou uma nova forma de barbárie.
Todavia, o próprio Kant, fruto do iluminismo, tem uma visão otimista e progressista desse indivíduo empreendedor, afirmando que é o desenvolvimento científico e experimental. Não havia, segundo Kant, no séc. XIV, uma certa compreensão entre fé e ciência. O que Nostradamos fazia era uma química rudimentar da época. Rudimentos científicos, mas intensifica-se somente no séc. XVI. O véu da Teologia cai principalmente com Descartes.
Para Kant, a visão de Esclarecimento estava ligada a vencer o medo e a opressão, como também as superstições. É ideal e conceitual mais do que prático. Já o homem do séc. XIX é um homem livre dos medos e das superstições. Livre dos medos é a liberdade diante da insegurança e do futuro. Livre das superstições é a liberdade para com a Tradição religiosa, filosófica e política.
Como conseqüência disso, a modernidade se viu marcada por dois PROJETOS contraditórios: O homem que busca divinizar-se, não deixando de ser o que é; Depois, a tentativa de resolver os problemas da realidade, ou seja, de mudar a realidade, admitindo a aparição de uma questão: Para quê? Uma verdadeira “aporia” dentro da modernidade.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Parabéns pelo seu aniversário. Mãe você merece!!!

Esta é uma pessoa abençoada por Deus. Minha mãezona por aqui! Que beleza. Na verdade, na verdade, essa é uma mulher de toda especial. Deus a fez assim mesmo alegre por natureza. Obrigado, Senhor, por presentear-me uma Mãe assim, com qualidades que saltam aos olhos e que dispensam quaisquer palavras. Um beijo, abraços e muitas, muitas, muitas risadas como essas. Bendito seja Deus!!!!!!!!!!!!!!!!!!! De seu filhão, Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Duas histórias, dois desfechos.

Nesse final de semana, meados de junho, pude vislumbrar duas extraordinárias ilustrações ou analogias que me reportam aos princípios vitais da minha existência cristã.
Um certo homem bastante preocupado e triste carregava água em dois vasos de barro, um cheio e outro trincado, para dentro do Palácio do Rei, quando de repente, o jardineiro, que estava na porta de entrada do Palácio, assim o interrogou:
- Você não está feliz servindo ao Rei?
- Claro que sim.
- Mas não aparenta.
- É que sempre um dos vasos nunca chega cheio, mas só pela metade, pois está trincado.
- Sabia que todos os dias lanço sementes no jardim junto à entrada do Palácio?!
- Não.
- Ora, todas as vezes que passa por aqui, um de seus vasos escorre água pelo jardim aguando a terra com as sementes. O resultado foi um jardim florido e belo devido à água do vaso trincado.
O homem ficou por um instante espantado e maravilhado com o que acabara de ouvir daquele jardineiro, quando percebeu o valor de um vaso trincado.
O vaso de barro trincado simboliza cada um de nós, seres humanos, pecadores, cristãos, evangélicos, católicos, enfim, todos que aqui nunca desistiram de seus projetos e ideais, pois sentem a necessidade de avançar sempre para se reconstruir como vasos de barro nas mãos de Deus. “Trincados” pelos desafios e intempéries que a vida os proporcionou.
A outra metáfora, - como diria o poeta chileno Pablo Neruda, “metáforas, metáforas, metáforas, ai de nós se não fossem elas” – diz respeito a um senhor idoso que orava todos os dias regularmente numa Escola cristã dos EUA passando pelos armários dos alunos, um a um, da mencionada Escola, com a Bíblia nas mãos. Essa história é fruto de um filme “Desafiando Gigantes” a que assisti há poucos dias.
Houve um período de grandes dificuldades na vida do treinador de um time de futebol americano que o levou a buscar a Deus com muita intensidade conforme as circunstâncias exigiam dele. De fato, aquele jovem treinador não tinha muita escolha diante das adversidades pelas quais vinha passando, e logo procurou o Senhor Jesus começando a orar e a clamar a Deus por ajuda e conforto. Por providência divina, acontece que os dois se encontraram, o senhor idoso e o treinador, e estabeleceram uma calorosa conversa no corredor da Escola:
- O senhor realmente crê que Deus possa mudar minha vida?
- creio.
- O senhor crê que tudo é possível para Deus?
- creio.
- Por que, então, oro, oro e não vejo sinais na minha vida desse Deus?
- Olha, é preciso confiar. São como dois agricultores. Um pede chuva, clama, pede chuva novamente, pede chuva o tempo todo, mas não vai para o campo plantar e jogar a semente. O outro, além de pedir e orar, sai para plantar e a chuva vem e ele colhe porque aprendeu a confiar.
A diferença está na confiança. O primeiro ora a Deus, mas não sai para plantar, não confia. O segundo ora a Deus e sai para plantar quer chova ou não. Aqui está o ponto, é preciso confiar, ter fé. Abandonar-se as ações de Deus independentemente do que você pensa.
Portanto, honre a Deus que está com você, meu irmão, minha irmã. Confie N’Ele que, pois, Ele agirá.

Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Professor e Filósofo.
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segunda-feira, 16 de junho de 2008

As belas-artes.


Esse texto pretende, por hora, encerrar uma série de reflexões acerca da arte atrelada a Filosofia de Kant.
Conforme a doutrina kantiana, as belas-artes têm a finalidade da bela representação das coisas, servindo-se dos mesmos princípios gerais do juízo estético. A partir de se constituírem como objeto de contemplação é que esteticamente podem ser julgadas.
Como o belo, as artes devem aparentar a livre finalidade da Natureza. Suas representações, embora resultando de uma elaboração, que não prescinde de técnica, requerem à espontaneidade que a imaginação instila nas representações das coisas. Uma obra será artística se nos impressiona como se fosse um produto da Natureza, do mesmo modo que a beleza natural aparenta o aspecto de haver sido artisticamente trabalhada.
Sendo assim, a beleza artística não pode estar condicionado a normas ou à regras objetivas, uma vez que é o mesmo juízo estético transferido para o domínio da Arte. Isto não quer dizer que a arte não tenha princípios reguladores no tocante à sua atividade, mas tais princípios existem confundidos com as disposições inatas que condicionam a faculdade produtiva do artista: o talento próprio para a arte, que se chama gênio.
Nesse horizonte de Kant há em germe a figura romântica do artista genial, que seria uma espécie de ser “exceção”, podendo elevar-se, segundo Schelling e Schopenhauer, por intermédio da Arte, ao conhecimento dos segredos da Natureza. A sua imaginação estaria ligada, por uma articulação originária de profunda, ao princípio insondável das coisas.
As belas-artes são, pois, para Kant, as artes do gênio, que hão de parecer livres do constrangimento exterior das regras. No entanto, a beleza possui, nesse domínio, função similar à que desempenha em relação ao conjunto das coisas.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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sábado, 7 de junho de 2008

KANT E O BELO

Como vimos na edição anterior, os juízos estéticos são elementos evidentes por si só. Porém, diante da existência do juízo estético, colocam-se dois problemas: o de estabelecer o que seja propriamente o belo que nele se manifesta; e o de remontar ao fundamento que o torna possível.
Kant, de fato, divide a beleza em duas espécies: “a beleza livre, que não depende de nenhum conceito de perfeição ou uso; e a beleza dependente, que depende desses conceitos. Conseqüentemente, os juízos estéticos estão relacionados com a primeira espécie de beleza” (ARANHA, p. 366).
O belo obviamente não pode ser uma propriedade objetiva das coisas, como o belo ontológico, mas sim algo que nasce da relação entre o sujeito e o objeto. Além disso, é aquela propriedade que nasce da relação dos objetos comparados com o nosso sentimento de prazer e que nós atribuímos aos próprios objetos.
A imagem do objeto referida ao sentimento de prazer, comparada a este e por este avaliada dá lugar ao juízo de gosto, assim definido: “O juízo de gosto ou estético é universalizável: o seu objeto provoca a adesão de outros sujeitos conscientes, na medida em que o prazer desinteressado não é uma satisfação confinada ao que particulariza como indivíduo, mas depende da capacidade de sentir e de pensar, comum a todos os homens” (Benedito Nunes. Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 2002, p. 49).
Daí, o belo caracterizar-se como objeto de “prazer sem interesse”. Falar de prazer sem interesse significa falar de prazer que não está ligado ao grosseiro prazer dos sentidos, nem ao útil econômico e ao bem moral.
Belo, para Kant, é aquilo que agrada universalmente, sem conceito. O prazer do bem é universal, porque vale para todos os homens e, portanto, se distingue dos gostos individuais; entretanto, essa universalidade não é de caráter conceitual ou cognoscitivo. Trata-se, portanto, de uma universalidade “subjetiva”, no sentido de que vale para cada sujeito.
Todavia, bela é a forma da finalidade do objeto percebida sem objetivo. Diante do belo da natureza, nós percebemos como que a presença de um desígnio intencional pelo qual o objeto belo se nos configura como obra de arte. Ao contrário, diante de uma obra de arte, que segue um desígnio intencional, nós sentimos que ela é verdadeiramente bela quando aquela intencionalidade se oblitera e o objeto parece uma criação espontânea da natureza.
Uma vez que reunidas as duas qualidades, parecidas em contraste, mas não convergentes, podemos dizer que no belo, da natureza ou da arte, é preciso que exista e não exista fim, ou seja, exista como se não existisse, isto é, que a intencionalidade e a espontaneidade estejam fundidas de tal maneira que a natureza pareça arte e a arte pareça natureza.
Portanto, o belo é aquilo que é reconhecido, sem conceito, como objeto de prazer necessário. Trata-se, obviamente, não de uma necessidade lógica, mas sim subjetiva, no sentido de que se trata de algo que se impõe a todos os homens.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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sábado, 31 de maio de 2008

Uma cidadania merecida pela vida.


Mais uma vez a Câmara dos Vereadores de nossa cidade eleva graciosamente alguns filhos seus à cidadania que, de algum modo, já se sentiam parte desta família chamada Florânia. Uma noite, certamente, que passará para história, na qual a Cidade de Florânia homenageou merecidamente diversas pessoas, donas de suas vidas marcadas pelo trabalho e por uma história cheia de desafios como a maioria dos que aqui moram construindo rumos diferentes.
Na minha fala, quando tive a oportunidade de proferi-la, agradeci, sobretudo a Deus de quem depende exclusivamente a minha vida. Depois fui grato à Sra. Vereadora Márcia Rejane, autora da proposição delegada a mim, por conferir-me generosamente o título de cidadão floraniense. Muito embora, saiba que, por natureza, como diria o filósofo francês Jean Paul Sartre, “Pour la force des choses” – “Pela força das coisas” – pela força das circunstâncias e pela Providência divina fui trazido para cá há quase cinco anos, onde acabei me enamorando e casando com uma filha desta cidade, Silmara Rejane, com quem pretendo conviver pelo resto da minha vida. Não pude deixar de mencionar, de fato, os meus pais que moram em Jardim de Piranhas por serem os responsáveis diretos pela educação proporcionada a mim. Lembrava, ainda, de um personagem bíblico, Paulo de Tarso, mais precisamente no livro de Atos dos Apóstolos, que teve a sua cidadania comprada em virtude do orgulho dos pais quererem vê-lo cheio de glória, honra e fama admitido no exército romano, como acontece ainda hoje em alguns países do mundo. Fazer parte de um exército ou ainda pertencer a uma infantaria militar era questão de honra, de orgulho, de “status” para uma família. Foi o que aconteceu com Paulo no início de sua juventude, tornando-se soldado romano e, mais tarde, sendo responsável pela morte de muitos cristãos, inclusive, o mártir Estevão.
No entanto, a nossa cidadania não é comprada por algumas moedas de prata, mas merecida por uma vida pautada na hombridade, no altruísmo e na prestação de serviços visando apenas o bem de Florânia. Indiscutivelmente, a vida de cada um foi a grande responsável por nos conduzir até a câmara dos vereadores, fazendo-nos valer a cidadania. O bom e verdadeiro exercício dela nos deram a honra da proposição, pois se assim não fosse poucos de nós teríamos sido agraciados.
Graças a Deus e ao povo desta terra, tão caro aos olhos de nosso Senhor, pela honra e pela felicidade distribuídas a mim e a todos quantos tiveram a graça de serem elevados oficialmente a cidadão floraniense. Diante disso, muitíssimo obrigado CONTERRÂNEOS.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

“Entre a vida e a morte” de olho em “Entre lobos”




Na noite de 25 de maio deste ano, com a presença de várias autoridades de nossa cidade, dentre elas o Sr. Prefeito Flávio José e o Presidente da câmara Arlindo Delgado, assim como outros vereadores, diretores e professores das Escolas, ficamos todos perplexos e – pedindo licença da expressão celebrada pelo filme “Agonia e Êxtase de Michelangelo” – extasiados pela brilhante, não menos emocionada apresentação teatral de jovens e populares de Florânia, enchendo-nos de orgulho e encanto, devido ao realismo e beleza com que conduziram o tema “Entre a vida e a morte” sob a direção do nosso mais novo cineasta, J.Júnior.
Assim que entramos no Ginásio de Esportes do Município, de cara nos deparamos, surpresos, pela originalidade do cenário do espetáculo, construído pelos próprios jovens atores. Reproduzia quase fielmente as características da nossa caatinga, pois é nela que se desdobra toda a trama da apresentação, de modo a promover o sertão com inúmeros detalhes, sua paisagem, sua cultura, sua gente, sua luta, sua morte, sua vida...
Do início ao fim, mesclam-se vida e morte no texto, na luz, no figurino, sobretudo, na representação magistral dos atores, cujo desfecho salta aos olhos dos espectadores presentes, um misto silencioso de liberdade da vida em meio a religiosidade popular que se encerra numa oração, “Salve Regina”.
O floraniense fora premiado, em plena noite de domingo, por um belíssimo espetáculo que mais enalteceu a vida destemida do sertanejo “cabra da peste”; do que a diminuiu frente à dura lida ou realidade envolvida pela morte tão bem simbolizada na vegetação árida, na casa de taipa coberta com palhas de coqueiro, nas mulheres trabalhadoras e nas crianças humildes com poucas condições de vida.
Todavia, não podemos deixar de salientar que o interesse dessa apresentação, além de nos presentear, era todo voltado para recepcionar a equipe de cineastas do Rio Grande do Norte – Diretor: Edson Soares. Fotografia: Jean Carlo. Produção: Carlos Frederic e Jean Custo. Ator: Ignácio – e proporcionar-lhes observar, avaliar e selecionar alguns atores de nossa cidade que farão parte de uma longa metragem, denominada “Entre lobos”, tendo como Empresas co-produtoras Interfilmes e Nucnatal. A equipe, que começará seus trabalhos de filmagens já na segunda semana de junho aqui em Florânia, esteve conosco desde sábado, sentindo o calor e a ternura do acolhimento por demais agradável do nosso povo.
Texto: Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Professor de Filosofia.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Nosso tão sonhado "Clube Municipal". Palavras do Prefeito Flávio José. Florânia/RN.

AMIGOS, ESTE É O PROTÓTIPO DA REFORMA DO TÃO SONHADO CLUBE MUNICIPAL QUE ESTÁ SENDO REFORMADO COM RECURSOS DO MINISTÉRIO DO TURISMO E COM CONTRA PARTIDA DA PREFEITURA MUNICIPAL, NUM MONTANTE DE QUASE R$ 140.000,00. TERÁ STATUS DE CENTRO DE CULTURA, ONDE SERVIRÁ PARA RECEPÇÕES, FESTAS SOCIAIS, AUDITÓRIO PARA CONVENÇÕES, ENFIM, SUPRIR A NECESSIDADE DE UM ESPAÇO SOCIAL E DEVOLVER A NOSSA CIDADE, UM MODERNO E BONITO PRÉDIO QUE ESTAVA ABANDONADO A TANTO TEMPO. PEÇO QUE DIVULGUEM SE POSSÍVEL. FORTE ABRAÇO, FLÁVIO JOSÉ.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

KANT E A CRÍTICA DO JUÍZO ESTÉTICO



Cabe-nos aqui, num excurso de três ou mais textos que se seguirão, tentar perceber a filigrana da abrangência filosófico-estética de Kant, que começa distinguindo a base lógica do juízo estético da base lógica dos juízos sobre outras fontes de prazer e da base dos juízos de utilidade e de bondade.
A Filosofia de Kant possibilitará, vias estéticas, uma nova compreensão teórica do belo, atribuindo horizontes para a reformulação do problema das relações entre arte e realidade. Alguns dados a respeito dessa filosofia são indispensáveis para apresentarmos as concepções estéticas que direta ou indiretamente a ela se filiam.




KANT E A CRÍTICA DO JUÍZO ESTÉTICO

A crítica do juízo é talvez a obra que exerceu maior influência no mundo da cultura e imediatamente posterior a Kant.
Na crítica do juízo, elaborada em 1790, Kant se ocupa, em primeiro lugar, do julgamento estético, expressando de maneira lógica muitas das idéias e doutrinas dos estetas ingleses do séc XVIII e modelando-as dentro de um sistema coerente.
O seu escopo principal é estudar como são possíveis juízos estéticos universalmente válidos, mas ela tem também outro escopo, e muito importante: estabelecer uma ligação entre a razão pura e razão prática. Vimos que a crítica da razão pura concluiu que verdadeira ciência só é possível no mundo sensível, fonomênico; a Crítica da razão prática revelou-nos, por outro lado, a assistência no mundo numênico, de um reino de liberdade, subtraído ao determinismo dos fenômenos físicos; logo, não fenomênico. Mas há uma separação entre os dois mundos, e não existe passagem de um lado para o outro.
Assim, “(...) conformando-se ao conhecimento de um objeto possível, a Arte cumpre somente as operações necessárias para realizá-lo, diz-se que ela é a Arte mecânica; se, porém, tem por fim imediato o sentimento do prazer, é a Arte estética. Esta é a Arte aprazível ou bela. Arte é aprazível quando sua finalidade é fazer que o prazer acompanhe as representações enquanto simples sensações; é bela quando o seu fim é conjugar o prazer às representações como forma de conhecimento”(In ABBAGNANO, 2000, p. 82. Cf. Crítica do Juízo, § 44)

Em virtude disso, o conceito de natureza pode, sem dúvida, representar os seus objetos na intuição, não como coisa em si, mas como fenômeno; o conceito de liberdade pode representar o seu objeto como coisa em si, mas não na intuição; conseqüentemente nenhum dos dois pode oferecer um conhecimento teorético do seu objeto ( nenhum do sujeito pensante) como coisa em si.
Ao fim das duas primeiras Críticas, entra-se em contato, mas em contato cego, com o inteligível por meio da lei moral. O inteligível não é intuído nem visto; por outro lado, aquilo que se intui, aquilo que se tem ciência, é apenas sensível, apenas fenômeno, não realidade em si. E, no entanto, afirma Kant, apesar da separação, o mundo inteligível deve exercer influência sobre o sensível, porque a liberdade deve poder atuar no mundo sensível. Como é isto possível?
O intermediário entre a razão, que tem apenas função prática, e o sentimento, a terceira faculdade espiritual do homem, cuja atividade consiste em emitir juízos estéticos.
Portanto, juízo estético é uma intuição do inteligível, do reino dos fins, do Absoluto, de Deus, no sensível, não uma intuição objetiva, mas subjetiva.

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

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