quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A síndrome da "rinoceronite"


(foto de meus arquivos pessoais: zoológico de Brasília, DF) 

Não sei se li bem a peça de Eugène Ionesco, intitulada “O rinoceronte”, de 1960, na qual é possível ver, numa crescente dramática, os indivíduos de uma cidade se transformarem em animais porque não conseguem deixar de ser os mesmos, isto é, levados pela obsessão de se tornarem iguais uns aos outros, acabam se metamorfoseando em rinocerontes.
O fato, considerado absurdo, nos chama a atenção para elementos banais, usuais, uniformes e habituais da sociedade, conforme os quais, é urgente capturar senão o insólito ou a insignificância da existência. De todas as personagens, a única que resiste ao habitual, ao que chamo aqui de síndrome da “rinoceronite” naquela cidade, é Bérenger; mesmo assim, tem que conviver com sua solidão ao ponto de debater-se consigo mesmo, duvidando da sua identidade e achando que o monstro é ele, e não os outros.
            Além de ser bastante divertida, a peça consegue nos fazer pensar quem realmente somos e por que precisamos entender nossas diferenças para lutar contra a uniformidade. De tão incomum e inabitual, a mutação de pessoas em rinocerontes destoa simbolicamente como evento pontual em toda peça para uma tomada de reflexão: fingimos quem somos e nos tornamos em rinocerontes ou assumimos nossa condição humana e permanecemos homens?
            A sensação que há, ao aproximarmos a sociedade povoada de rinocerontes com a nossa, é que estamos criando cidadãos ainda mais conformados; incapazes de expressar sua indignação, impotentes frente às estruturas de poder, reféns de um modelo de comportamento padrão, segundo o qual a mediocridade é o que predomina. Parece que ser diferente ou fazer a diferença nesse país é proibido e acarreta problemas.
            Em geral, as pessoas não gostam de quem faz a diferença e, com isso, contribuem para a transformação do humano em rinocerontes, aumentando o número daqueles que sofrem com a síndrome da “rinoceronite”. Há sempre os que colaboram com a corrupção política e cedem a inúmeras espécies de suborno, tornando-se iguais aos demais. A resistência a este modelo distorcido de comportamento é algo muito raro, talvez pela forte tentação às facilidades, pelas ilusões de satisfação material ou até por causa dos medos de enfrentar a própria realidade.
            Engraçado, mas, ao menos em dois momentos que aparecem rapidamente o rinoceronte pela cidade, a reação de Bérenger é diferente da dos outros personagens envolvidos na peça, visto que no exato instante que aparece o exótico animal, também aparece Daisy e arrebata completamente a atenção de Bérenger. Enquanto todos se admiram com a presença avassaladora do bicho, somente Bérenger é envolvido pelo seu desejo particular: “Oh, Daisy!”
            Embora tomado de amor por Daisy, sentindo-se livre de seus complexos, ainda assim Bérenger não consegue ficar indiferente ao chocante acontecimento da cidade, onde pessoas amigas e queridas estão deixando de ser humanas e passando a animais. Surpreso com o avanço da “síndrome”, Bérenger desabafa: “Eu me sinto solidário com tudo o que acontece. Eu participo... Não consigo ficar indiferente.”
            Muito me impressiona o que Bérenger acaba de afirmar, pois parece soar como uma explicação razoável, segundo a qual apenas ele não tenha se transformado em rinoceronte. O lógico, os clássicos, os aparentemente bons, as autoridades, gente próxima e distante, rica e pobre, importantes ou não, todos estão se deformando. As pessoas, nas quais ele mais confiava, cederam, sucumbiram!
            No final da trama, a atmosfera ganha ares de desolação, indignação e dúvida pelas expressões de Bérenger, pondo em crise sua própria condição humana: “(vendo-se pelo espelho) Um homem não é feio; não é feio, um homem! (passando a mão pelo rosto) Que coisa gozada! Com que é que eu me pareço, então? Com quê?... Infelizmente, eu sou um monstro, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar para a minha cara. Tenho vergonha! (vira as costas ao espelho) Como eu sou feio! Infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! (Tem um sobressalto brusco) Muito bem! Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! Minha carabina, minha carabina! (Volta-se de frente para a parede do fundo onde estão as cabeças dos rinocerontes, sempre gritando) Contra todo o mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo!" 



Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
www.twitter.com/filoflorania                     

 

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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A síndrome da "rinoceronite"


(foto de meus arquivos pessoais: zoológico de Brasília, DF) 

Não sei se li bem a peça de Eugène Ionesco, intitulada “O rinoceronte”, de 1960, na qual é possível ver, numa crescente dramática, os indivíduos de uma cidade se transformarem em animais porque não conseguem deixar de ser os mesmos, isto é, levados pela obsessão de se tornarem iguais uns aos outros, acabam se metamorfoseando em rinocerontes.
O fato, considerado absurdo, nos chama a atenção para elementos banais, usuais, uniformes e habituais da sociedade, conforme os quais, é urgente capturar senão o insólito ou a insignificância da existência. De todas as personagens, a única que resiste ao habitual, ao que chamo aqui de síndrome da “rinoceronite” naquela cidade, é Bérenger; mesmo assim, tem que conviver com sua solidão ao ponto de debater-se consigo mesmo, duvidando da sua identidade e achando que o monstro é ele, e não os outros.
            Além de ser bastante divertida, a peça consegue nos fazer pensar quem realmente somos e por que precisamos entender nossas diferenças para lutar contra a uniformidade. De tão incomum e inabitual, a mutação de pessoas em rinocerontes destoa simbolicamente como evento pontual em toda peça para uma tomada de reflexão: fingimos quem somos e nos tornamos em rinocerontes ou assumimos nossa condição humana e permanecemos homens?
            A sensação que há, ao aproximarmos a sociedade povoada de rinocerontes com a nossa, é que estamos criando cidadãos ainda mais conformados; incapazes de expressar sua indignação, impotentes frente às estruturas de poder, reféns de um modelo de comportamento padrão, segundo o qual a mediocridade é o que predomina. Parece que ser diferente ou fazer a diferença nesse país é proibido e acarreta problemas.
            Em geral, as pessoas não gostam de quem faz a diferença e, com isso, contribuem para a transformação do humano em rinocerontes, aumentando o número daqueles que sofrem com a síndrome da “rinoceronite”. Há sempre os que colaboram com a corrupção política e cedem a inúmeras espécies de suborno, tornando-se iguais aos demais. A resistência a este modelo distorcido de comportamento é algo muito raro, talvez pela forte tentação às facilidades, pelas ilusões de satisfação material ou até por causa dos medos de enfrentar a própria realidade.
            Engraçado, mas, ao menos em dois momentos que aparecem rapidamente o rinoceronte pela cidade, a reação de Bérenger é diferente da dos outros personagens envolvidos na peça, visto que no exato instante que aparece o exótico animal, também aparece Daisy e arrebata completamente a atenção de Bérenger. Enquanto todos se admiram com a presença avassaladora do bicho, somente Bérenger é envolvido pelo seu desejo particular: “Oh, Daisy!”
            Embora tomado de amor por Daisy, sentindo-se livre de seus complexos, ainda assim Bérenger não consegue ficar indiferente ao chocante acontecimento da cidade, onde pessoas amigas e queridas estão deixando de ser humanas e passando a animais. Surpreso com o avanço da “síndrome”, Bérenger desabafa: “Eu me sinto solidário com tudo o que acontece. Eu participo... Não consigo ficar indiferente.”
            Muito me impressiona o que Bérenger acaba de afirmar, pois parece soar como uma explicação razoável, segundo a qual apenas ele não tenha se transformado em rinoceronte. O lógico, os clássicos, os aparentemente bons, as autoridades, gente próxima e distante, rica e pobre, importantes ou não, todos estão se deformando. As pessoas, nas quais ele mais confiava, cederam, sucumbiram!
            No final da trama, a atmosfera ganha ares de desolação, indignação e dúvida pelas expressões de Bérenger, pondo em crise sua própria condição humana: “(vendo-se pelo espelho) Um homem não é feio; não é feio, um homem! (passando a mão pelo rosto) Que coisa gozada! Com que é que eu me pareço, então? Com quê?... Infelizmente, eu sou um monstro, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar para a minha cara. Tenho vergonha! (vira as costas ao espelho) Como eu sou feio! Infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! (Tem um sobressalto brusco) Muito bem! Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! Minha carabina, minha carabina! (Volta-se de frente para a parede do fundo onde estão as cabeças dos rinocerontes, sempre gritando) Contra todo o mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo!" 



Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
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