segunda-feira, 27 de maio de 2013

O sapo filosófico: Por que o sapo não lava o pé?

Como o pensamento filosófico pode ser aprendido de modo divertido, atraente e criativo sem perder sua peculiaridade. É possível passear por importantes filósofos a partir da seguinte questão:


POR QUE O SAPO NÃO LAVA O PÉ?


Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!

Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: isso mesmo.

Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas – domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.

Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.

Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação – herança de povos mediterrâneos, certamente – uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida – e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.

Filmer: Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa. Sendo o sapo um descendente do sapo ancestral, é legitimo, obrigatório e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e infração.

Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E, ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.

Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de que atuar segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.

Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.

Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.

Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.

Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão. A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: O mundo como vontade e representação.

Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte. Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão: O sapo que vemos é nada além da corruptela do sapo ideal, que a alma conheceu antes da Queda. O sapo ideal lava seus pés eternos com esponjas imutáveis, num mundo sem movimento. O sapo imperfeito, porém, jamais lava os pés.

Diógenes de Laércio: Foda-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?

Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.

Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.

Estóicos: O sapo deve lavar seu pé segundo as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.

Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Fonte: http://oficinadefilosofiacap.wordpress.com/o-sapo-filosofico/

quinta-feira, 16 de maio de 2013

“Educar é argumentar” (Richard Rorty).

A partir desta expressão do filósofo pragmático dos EUA, podemos afirmar sim que a educação passa também por um fator extremamente útil da fala, a argumentação. Vivemos indiscutivelmente num mundo voltado para a comunicação, para a exposição de ideias, exigindo mais ainda de nossos estudantes certo preparo nessa dimensão.
Sendo assim, a Escola Estadual Teônia Amaral da cidade de Florânia/RN, sob a orientação do Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, está realizando, desde o dia 18/04/2013,  oficinas do Programa do Ensino Médio Inovador (ProEmi) que abre a possibilidade para os estudantes desta Escola e de outras instituições educacionais do município desenvolverem um lastro de atividades que tem a ver com a argumentação.
Exploração da oralidade, exercício do debate, polidez no discurso e ampliação do diálogo são alguns componentes trabalhados por nossas oficinas que carregam a ideia de FERRAMENTAS FILOSÓFICAS: oralidade, interpretação textual e tecnologias.
Iniciamos propondo a construção de um púlpito. Pelas fotos, é possível acompanhar detalhadamente a confecção de um púlpito, local exclusivo para o discurso, a fala. Durante as oficinas, o púlpito está sempre lá, à disposição para o uso da fala, isto é, o púlpito representa de fato um lugar chamativo que, ora ou outra, convoca o estudante para exprimir sua indignação, bem como o coloca no centro das atenções do exercício democrático. O púlpito não só atrai os eminentes oradores, mas também forma os futuros oradores para uma atividade indispensável numa sociedade democrática, a expressão de opiniões.
Por falar nisso, ainda temos um vídeo que poderá ser visto aqui na rede das experiências inovadoras do Ensino Médio em que os próprios estudantes fazem seus protestos, desabafos, indignações ou qualquer reclamação, estimulando-os, claro, a este tipo de posicionamento. Aos poucos, os estudantes estão tomando gosto pelas práticas das oficinas e por variadas abordagens que emergem delas.
Que os estudantes de nossa Escola continuem com o mesmo empenho, dedicados aos trabalhos e às atividades propostas pelas oficinas do ProEmi 2013.

                Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Para ver estas e outras fotos das oficinas é só acessar http://redeemiexperienciasinovadoras.ning.com/profiles/blogs/oficina-do-proemi-ferramentas-filos-ficas-oralidade-interpreta-o

  
  


domingo, 12 de maio de 2013

MÃEZONA

Mainha, permita-me hoje, sobretudo hoje, tratar-lhe no aumentativo, mãezona. Na verdade, você é uma mãezona que jamais economizou carinho, proteção e cuidado para com os seus filhos. Este seu filho aqui de Florânia lhe quer muito bem. Saiba o quanto a amo e o quanto é especial para mim. Você tem um lugarzinho na minha cabeça, pois sempre sua imagem e suas atitudes aparecem em minha memória como num estalo, como num lampejo agradabilíssimo. Há também um lugar cativo todo seu em meu coração, uma vez que, volta e meia, saltita só de saber que estará sempre dentro de mim, alimentando o tônus da minha vida.
Sem você não estaria agora no útero do mundo com todas as suas adversidades. Sei da sua importância não só porque estou aqui sem cordão umbilical algum, mas por me ensinar o que é justo, honesto; por me mostrar o bom caráter, o respeito ao outro e o valor da humildade.
Aprendi com a senhora, minha mãe, que não basta ter dinheiro de qualquer jeito para sobreviver, mas como tê-lo mesmo com todo sacrifício. Trabalhar é uma honra e tudo que vem dele também. Se trabalhamos nos mostramos o quanto somos saudáveis e o quanto fomos bem educados.
Obrigado por me fazer enxergar isso, enquanto muitos fogem do sacrifício, do caminho sagrado e mais difícil para a felicidade que é o próprio trabalho.
Viver cada dia assumindo o seu preço, seu peso, seu salário e o quanto vale, por mais duro ou mole que seja seu cotidiano. Carrego comigo este aprendizado, mas com a responsabilidade de um eterno aprendiz, principalmente nos conceitos que emergem dos fragmentos da vida.
Avalio, de verdade, o quanto foi precioso cada ato de sacrifício, de esforço para cuidar de mim e de meus irmãos. O que dizer então das muitas noites de sono dispensadas a meu favor, regadas a choros e soluços que não faziam sentido quando não implicava em algum tipo de enfermidade; das advertências que não me faziam ouvir, das preocupações e atribulações pelas quais passou só para proteger-me ou poupar-me.
Obrigado, mãezona, por fazer-me mais forte e resistente, por preparar-me para uma vida cheia de sacrifícios, contradições, por isso não menos ou mais feliz, nem boa ou má, mas agradável e serena, pacificadora.
Inteiramente feliz por todo sacrifício posto em dar sentido à minha vida!

De seu filho,
Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

"Platões" de um mesmo Platão



Pelas evidências da vasta produção literária sobre o assunto, pude perceber que Platão ainda continua mexendo conosco, o caráter poliédrico ou polivalente de sua filosofia, segundo Reale(1990: 133) fora capaz de incomodar muita gente, inclusive o próprio Popper. Se Popper provocou todo esse rebuliço na dimensão política de Platão, é porque algo mexeu com ele, alguma coisa que veio de Platão o instigou.
O texto “Defender Platão de Popper (ou de si mesmo?)” de Vegetti(2010: 193-230) é muito sugestivo para nos ajudar a tirar Platão do estado de crisálida e alçar voo em sua dimensão política, tão mal compreendida por Popper. Quero dizer que para defender Platão até de si mesmo quanto mais de Popper exige-se despertar os estudiosos do século XX para uma análise do Platão clássico, historiográfico e autêntico, ligado às suas fontes literárias.
Certamente, as provocações de Popper serviram até certo ponto para nos tirar de uma posição confortável quanto a um Platão de absoluta autoridade com que a tradição cristã e boa parte da histórica do Ocidente o haviam considerado. Platão não é dogmático e nunca poderá se esquivar de qualquer contrassenso. Platão responde a si mesmo em suas obras.
Ao sugerir pelo silogismo: “que o pensamento liberal-democrata fosse o único modo aceitável de conceber a política”(Vegetti, 2010: 193), Popper não só abre um forte precedente para tirar Platão do pedestal teórico/doutrinário em que o haviam colocado, como também é possível admitir que motivava estudiosos, filólogos, filósofos e hermeneutas a desconfiar que “Platão estava errado”.
Parece, e aqui estou conjecturando, que Platão começa a ser amplamente revisado. O mais ousado de Popper é que, na posição de filósofo, em pleno séc XX, sua tentativa de atacar o criador da Academia provoca um efeito contrário ao esperado por ele. Suas críticas efusivas ao aspecto político liberal-democrata de Platão não apenas põem em evidência o pensamento clássico do contexto histórico ao qual vivia Platão, como também são responsáveis pelas abundantes produções no tocante à “coisa política” do “multifacetado”(Reale, 1990: 133) pensamento do filósofo, conhecido por sua alegoria da caverna e por sua temática política, ou melhor, ético-político-educativa(Reale, 1990: 133).
Dessas produções que nos fazem olhar para o Platão político, Vegetti é certeiro: Primeiro, “Platão era verdadeiramente, de alguma forma, um pensador político liberal-democrata”(2010: 194); Segundo, contrário a uma tradição milenar de Aristóteles a Popper, “Platão verdadeiramente não defendia que as posições expressadas nos seus diálogos políticos fossem, na realidade, desejáveis e de certa forma realizáveis”(Vegetti, 2010: 194), uma vez que “a) seus textos são do gênero literário da utopia e não apresentam nenhum aspecto projetual” e “b) seus diálogos políticos têm uma intenção irônica, que consiste em defender o contrário do que aparece à superfície do texto”(Vegetti, 2010: 194); Terceiro, “não obstante as aparências e o consenso quase unânime da tradição exegética, os ditos diálogos políticos de Platão não pertencem absolutamente ao âmbito da filosofia política, pois visam exclusivamente os problemas da moral individual(a polis é, quando muito uma metáfora da alma)”(Vegetti, 2010: 194).
Decorre daí, então, que o silogismo ou estratagema lógico de Popper não resistiu à panóplia de argumentos emanados dos textos políticos de Platão, sobretudo em larga escala a partir da segunda metade do séc. XX em diante, mostrando claramente que Popper, e não Platão, estava errado.
Curioso, pois “de Platão disse Montaigne: 'Queiram sacudir e agitar Platão: cada qual, orgulhando-se de apossar-se dele, coloca-o do lado que quer'”(Reale, 1990: 124). Muito feliz essa expressiva citação de Montaigne feita por Reale em sua clássica obra que revigora os nervos da filosofia antiga de Platão em constante diálogo com o presente.
Na esteira do texto de Vegetti, é possível discutir ainda mais o Platão da “coisa política” em três dimensões importantíssimas: Platão liberal-democrata; Platão Utópico; e Platão irônico.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

Bibliografia:
REALE, Giovanni.(1990).História da filosofia: Antiguidade e Idade Média/Giovanni Reale, Dario Antiseri. São Paulo: Paulinas.
VEGETTI, Mário.(2010). Um paradigma no céu. Platão político de Aristóteles ao século xx. São Paulo: Annablume, p. 193-230.


terça-feira, 7 de maio de 2013

Para além do niilismo

O leitor sabe que meu pecado espiritual é o niilismo. Enfrento-o dia a dia como qualquer moléstia incurável. O tema já foi tratado por gênios como Nietzsche, Turguêniev, Dostoiévski, Cioran. Deixo meu leitor em companhia desses gigantes, muito melhores do que eu.
A tragédia também me acompanha em todo café da manhã, essa concepção grega de mundo que julgo a mais correta já pensada. Aqui tenho grandes parceiros como o autor da tragédia ática Sófocles (entre outros), o filósofo Nietzsche, o dramaturgo Shakespeare e os escritores contemporâneos Albert Camus e Philip Roth.
Ambos, niilismo e tragédia, são visões de mundo que arruínam a vida. Diante deles, ateísmo é para iniciantes. O ateísmo só é aceitável quando blasé e sem associações de ateus
militantes. Para niilistas como eu, o ateísmo crente em si mesmo é brincadeira de meninas com fita cor-de-rosa amarrada na cabeça.
Ando de saco cheio do niilismo e da tragédia, apesar de continuar experimentando-os todo dia. Em termos morais, a virtude máxima para ambos é a coragem, e o vício mais a mão, a covardia.
Nos últimos tempos, tenho me interessado por outra virtude, a confiança, essa, tão difícil quanto a coragem, uma vez tomada a alma pelo niilismo e pela tragédia. É sobre ela que quero falar nesta segunda-feira, dia normalmente difícil, acompanhado do "bode" do domingo e da monotonia do dia a dia que recomeça imerso num sono que nunca descansa, porque sempre atormentado pela dúvida com relação ao amor, à família, ao trabalho e à viabilidade do futuro.
Meu maior pecado como escritor é jamais enganar, jamais querer agradar. Essa é minha forma de prestar respeito a quem me lê semanalmente. O caráter de alguém que escreve é medido pela ausência de desejo de agradar a quem o lê.
Amar cães e confiar neles é mais fácil do que amar seres humanos e confiar neles. Por isso, num mundo atormentado pela dúvida niilista, ainda que em constante denegação dela, tanta gente se lança à defesa melosa de cães e gatos e exige carne de frangos felizes na hora de comer em restaurantes ridículos.
Quero propor a você duas obras. Um filme e um livro que julgo entre os maiores exemplos da arte a serviço da confiança na vida.
O filme "As Damas do Bois de Boulogne", do cineasta francês Robert Bresson, de 1945, é uma pérola sobre a confiança na vida e nos laços afetivos. Bresson é um cineasta muito marcado pelo pensamento do escritor George Bernanos, grande anatomista da alma e especialista em nossa natureza vaidosa, mentirosa e, por isso mesmo, desesperada. Coisa para gente grande, rara hoje em dia, neste mundo governado por adultos infantis.
O filme trata da vingança de uma mulher belíssima contra seu ex-amante (que a abandonou), um homem frívolo e covarde por temperamento. Essa vingança se constitui na aposta de que ele e a mulher que ela "contrata" para sua vingança agirão do modo esperado. Sua intenção é fazer com que seu ex-amante se apaixone por essa mulher "contratada", uma prostituta.
O homem é mantido na ignorância da vida pregressa de sua noiva até depois do casamento. O que a mulher abandonada não contava é que a prostituta se apaixonasse pelo covarde, levando-o a transformação inesperada de caráter.
O amor também é personagem central da obra do dinamarquês Soren Kierkegaard "As Obras do Amor", da Vozes. Esse livro é o texto mais belo que conheço sobre o amor na filosofia ocidental.
Segundo nosso existencialista, o amor tudo crê, mas nunca se ilude porque, assim como a desconfiança e o ceticismo, o amor sabe que o conhecimento não é capaz de nada além do que fundamentar o niilismo, o ceticismo e o desespero.
O amor é um afeto moral, não um ato da razão. A razão não justifica a vida. O amor é uma escolha de investimento na vida, uma atitude, mesmo que a razão prove a falta de sentido último de tudo.
Ingênuos são os niilistas e céticos que consideram a desconfiança um ato livre da vontade. A desconfiança é uma escravidão. A aposta na vida é que mostra o caráter maduro de mulheres e homens. Boa semana. 


Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

Crítica: Obra de Tomás de Aquino ilumina Idade Média


Tomás de Aquino (1225-1274), um dos principais filosofos da Idade Media

O mundo medieval é distante do nosso. Aquele banhado pelas sombras, este pelas luzes dos iPhones. Mesmo a espiritualidade se faz prestadora de serviço e Jesus, um consultor de sucesso.
A metafísica, antes uma elegante ciência do intelecto, torna-se, a cada dia, mero imaginário a serviço de nossas pequenas neuroses instantâneas: hoje sou budista, amanhã seguidor de algum neocacique aborígene.
Pensamos na Idade Média como um esgoto grande cheio de peste, mulheres queimadas, anjos e demônios.



Tomás de Aquino (1225-1274), um dos principais filosofos da Idade Media (foto)

Mas não, a Idade Média foi uma época de grande atividade intelectual, com grande diversidade de interesses e concepções, ao contrário da nossa época, uma hora obcecada pelo cérebro, outra pelos genes, outra ainda pelo "social".
Uma das formas de conhecer a Idade Média, ultrapassando o "nosso senso comum de esgoto" sobre ela, é conhecer sua filosofia e o santo italiano Tomás de Aquino (1225-1274), que foi um dos seus maiores expoentes.
O Aquinate, como ficou conhecido seu conjunto de ideias, buscou pôr em diálogo a tradição bíblica e a filosofia grega, elaborando um sofisticado sistema filosófico de difícil redução a algum conjunto limitado de manias. Essas duas tradições são "costuradas" de modo sutil ao longo de sua obra.
Um belo exemplo desse percurso é "Questões Disputadas Sobre a Alma", que a editora É Realizações nos traz agora, numa elegante edição bilíngue latim-português, com excelente prefácio de Carlos Augusto Casanova Guerra, doutor pela Universidade de Navarra.
GRANDES TEMAS
A edição é um presente não só para o grande público erudito, interessado em conhecer mais a "mente medieval", mas também, e principalmente, para o público especializado, que agora dispõe de uma peça com tradução em português para seus estudos acadêmicos.
Tomás de Aquino arrola várias fontes na obra --Bíblia, Platão, Aristóteles, patrística, neoplatonismo--, todas organizadas de modo escolástico, ou seja, buscando clareza no encadeamento dos argumentos e conclusões.
O repertório erudito de sua época está todo ali, a serviço do esclarecimento de 21 questões sobre a alma que podem ser resumidas em alguns grandes temas.
Por exemplo, o que é o ser, o que é a essência da alma e qual seu lugar no mundo visível e invisível? Qual sua relação com o corpo? Somos imortais? E como é essa imortalidade?
O filósofo responde com esse elenco de temas algumas das questões de sua época, as inquietações do dia e da noite e do cotidiano. Será que essas questões mudaram tanto de lá pra cá?

QUESTÕES DISPUTADAS SOBRE A ALMA
AUTOR Tomás de Aquino
TRADUÇÃO Luiz Astorga
EDITORA É Realizações
QUANTO R$ 59 (464 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O sapo filosófico: Por que o sapo não lava o pé?

Como o pensamento filosófico pode ser aprendido de modo divertido, atraente e criativo sem perder sua peculiaridade. É possível passear por importantes filósofos a partir da seguinte questão:


POR QUE O SAPO NÃO LAVA O PÉ?


Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!

Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: isso mesmo.

Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas – domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.

Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.

Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação – herança de povos mediterrâneos, certamente – uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida – e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.

Filmer: Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa. Sendo o sapo um descendente do sapo ancestral, é legitimo, obrigatório e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e infração.

Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E, ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.

Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de que atuar segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.

Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.

Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.

Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.

Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão. A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: O mundo como vontade e representação.

Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte. Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão: O sapo que vemos é nada além da corruptela do sapo ideal, que a alma conheceu antes da Queda. O sapo ideal lava seus pés eternos com esponjas imutáveis, num mundo sem movimento. O sapo imperfeito, porém, jamais lava os pés.

Diógenes de Laércio: Foda-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?

Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.

Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.

Estóicos: O sapo deve lavar seu pé segundo as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.

Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Fonte: http://oficinadefilosofiacap.wordpress.com/o-sapo-filosofico/

quinta-feira, 16 de maio de 2013

“Educar é argumentar” (Richard Rorty).

A partir desta expressão do filósofo pragmático dos EUA, podemos afirmar sim que a educação passa também por um fator extremamente útil da fala, a argumentação. Vivemos indiscutivelmente num mundo voltado para a comunicação, para a exposição de ideias, exigindo mais ainda de nossos estudantes certo preparo nessa dimensão.
Sendo assim, a Escola Estadual Teônia Amaral da cidade de Florânia/RN, sob a orientação do Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, está realizando, desde o dia 18/04/2013,  oficinas do Programa do Ensino Médio Inovador (ProEmi) que abre a possibilidade para os estudantes desta Escola e de outras instituições educacionais do município desenvolverem um lastro de atividades que tem a ver com a argumentação.
Exploração da oralidade, exercício do debate, polidez no discurso e ampliação do diálogo são alguns componentes trabalhados por nossas oficinas que carregam a ideia de FERRAMENTAS FILOSÓFICAS: oralidade, interpretação textual e tecnologias.
Iniciamos propondo a construção de um púlpito. Pelas fotos, é possível acompanhar detalhadamente a confecção de um púlpito, local exclusivo para o discurso, a fala. Durante as oficinas, o púlpito está sempre lá, à disposição para o uso da fala, isto é, o púlpito representa de fato um lugar chamativo que, ora ou outra, convoca o estudante para exprimir sua indignação, bem como o coloca no centro das atenções do exercício democrático. O púlpito não só atrai os eminentes oradores, mas também forma os futuros oradores para uma atividade indispensável numa sociedade democrática, a expressão de opiniões.
Por falar nisso, ainda temos um vídeo que poderá ser visto aqui na rede das experiências inovadoras do Ensino Médio em que os próprios estudantes fazem seus protestos, desabafos, indignações ou qualquer reclamação, estimulando-os, claro, a este tipo de posicionamento. Aos poucos, os estudantes estão tomando gosto pelas práticas das oficinas e por variadas abordagens que emergem delas.
Que os estudantes de nossa Escola continuem com o mesmo empenho, dedicados aos trabalhos e às atividades propostas pelas oficinas do ProEmi 2013.

                Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Para ver estas e outras fotos das oficinas é só acessar http://redeemiexperienciasinovadoras.ning.com/profiles/blogs/oficina-do-proemi-ferramentas-filos-ficas-oralidade-interpreta-o

  
  


domingo, 12 de maio de 2013

MÃEZONA

Mainha, permita-me hoje, sobretudo hoje, tratar-lhe no aumentativo, mãezona. Na verdade, você é uma mãezona que jamais economizou carinho, proteção e cuidado para com os seus filhos. Este seu filho aqui de Florânia lhe quer muito bem. Saiba o quanto a amo e o quanto é especial para mim. Você tem um lugarzinho na minha cabeça, pois sempre sua imagem e suas atitudes aparecem em minha memória como num estalo, como num lampejo agradabilíssimo. Há também um lugar cativo todo seu em meu coração, uma vez que, volta e meia, saltita só de saber que estará sempre dentro de mim, alimentando o tônus da minha vida.
Sem você não estaria agora no útero do mundo com todas as suas adversidades. Sei da sua importância não só porque estou aqui sem cordão umbilical algum, mas por me ensinar o que é justo, honesto; por me mostrar o bom caráter, o respeito ao outro e o valor da humildade.
Aprendi com a senhora, minha mãe, que não basta ter dinheiro de qualquer jeito para sobreviver, mas como tê-lo mesmo com todo sacrifício. Trabalhar é uma honra e tudo que vem dele também. Se trabalhamos nos mostramos o quanto somos saudáveis e o quanto fomos bem educados.
Obrigado por me fazer enxergar isso, enquanto muitos fogem do sacrifício, do caminho sagrado e mais difícil para a felicidade que é o próprio trabalho.
Viver cada dia assumindo o seu preço, seu peso, seu salário e o quanto vale, por mais duro ou mole que seja seu cotidiano. Carrego comigo este aprendizado, mas com a responsabilidade de um eterno aprendiz, principalmente nos conceitos que emergem dos fragmentos da vida.
Avalio, de verdade, o quanto foi precioso cada ato de sacrifício, de esforço para cuidar de mim e de meus irmãos. O que dizer então das muitas noites de sono dispensadas a meu favor, regadas a choros e soluços que não faziam sentido quando não implicava em algum tipo de enfermidade; das advertências que não me faziam ouvir, das preocupações e atribulações pelas quais passou só para proteger-me ou poupar-me.
Obrigado, mãezona, por fazer-me mais forte e resistente, por preparar-me para uma vida cheia de sacrifícios, contradições, por isso não menos ou mais feliz, nem boa ou má, mas agradável e serena, pacificadora.
Inteiramente feliz por todo sacrifício posto em dar sentido à minha vida!

De seu filho,
Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

"Platões" de um mesmo Platão



Pelas evidências da vasta produção literária sobre o assunto, pude perceber que Platão ainda continua mexendo conosco, o caráter poliédrico ou polivalente de sua filosofia, segundo Reale(1990: 133) fora capaz de incomodar muita gente, inclusive o próprio Popper. Se Popper provocou todo esse rebuliço na dimensão política de Platão, é porque algo mexeu com ele, alguma coisa que veio de Platão o instigou.
O texto “Defender Platão de Popper (ou de si mesmo?)” de Vegetti(2010: 193-230) é muito sugestivo para nos ajudar a tirar Platão do estado de crisálida e alçar voo em sua dimensão política, tão mal compreendida por Popper. Quero dizer que para defender Platão até de si mesmo quanto mais de Popper exige-se despertar os estudiosos do século XX para uma análise do Platão clássico, historiográfico e autêntico, ligado às suas fontes literárias.
Certamente, as provocações de Popper serviram até certo ponto para nos tirar de uma posição confortável quanto a um Platão de absoluta autoridade com que a tradição cristã e boa parte da histórica do Ocidente o haviam considerado. Platão não é dogmático e nunca poderá se esquivar de qualquer contrassenso. Platão responde a si mesmo em suas obras.
Ao sugerir pelo silogismo: “que o pensamento liberal-democrata fosse o único modo aceitável de conceber a política”(Vegetti, 2010: 193), Popper não só abre um forte precedente para tirar Platão do pedestal teórico/doutrinário em que o haviam colocado, como também é possível admitir que motivava estudiosos, filólogos, filósofos e hermeneutas a desconfiar que “Platão estava errado”.
Parece, e aqui estou conjecturando, que Platão começa a ser amplamente revisado. O mais ousado de Popper é que, na posição de filósofo, em pleno séc XX, sua tentativa de atacar o criador da Academia provoca um efeito contrário ao esperado por ele. Suas críticas efusivas ao aspecto político liberal-democrata de Platão não apenas põem em evidência o pensamento clássico do contexto histórico ao qual vivia Platão, como também são responsáveis pelas abundantes produções no tocante à “coisa política” do “multifacetado”(Reale, 1990: 133) pensamento do filósofo, conhecido por sua alegoria da caverna e por sua temática política, ou melhor, ético-político-educativa(Reale, 1990: 133).
Dessas produções que nos fazem olhar para o Platão político, Vegetti é certeiro: Primeiro, “Platão era verdadeiramente, de alguma forma, um pensador político liberal-democrata”(2010: 194); Segundo, contrário a uma tradição milenar de Aristóteles a Popper, “Platão verdadeiramente não defendia que as posições expressadas nos seus diálogos políticos fossem, na realidade, desejáveis e de certa forma realizáveis”(Vegetti, 2010: 194), uma vez que “a) seus textos são do gênero literário da utopia e não apresentam nenhum aspecto projetual” e “b) seus diálogos políticos têm uma intenção irônica, que consiste em defender o contrário do que aparece à superfície do texto”(Vegetti, 2010: 194); Terceiro, “não obstante as aparências e o consenso quase unânime da tradição exegética, os ditos diálogos políticos de Platão não pertencem absolutamente ao âmbito da filosofia política, pois visam exclusivamente os problemas da moral individual(a polis é, quando muito uma metáfora da alma)”(Vegetti, 2010: 194).
Decorre daí, então, que o silogismo ou estratagema lógico de Popper não resistiu à panóplia de argumentos emanados dos textos políticos de Platão, sobretudo em larga escala a partir da segunda metade do séc. XX em diante, mostrando claramente que Popper, e não Platão, estava errado.
Curioso, pois “de Platão disse Montaigne: 'Queiram sacudir e agitar Platão: cada qual, orgulhando-se de apossar-se dele, coloca-o do lado que quer'”(Reale, 1990: 124). Muito feliz essa expressiva citação de Montaigne feita por Reale em sua clássica obra que revigora os nervos da filosofia antiga de Platão em constante diálogo com o presente.
Na esteira do texto de Vegetti, é possível discutir ainda mais o Platão da “coisa política” em três dimensões importantíssimas: Platão liberal-democrata; Platão Utópico; e Platão irônico.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

Bibliografia:
REALE, Giovanni.(1990).História da filosofia: Antiguidade e Idade Média/Giovanni Reale, Dario Antiseri. São Paulo: Paulinas.
VEGETTI, Mário.(2010). Um paradigma no céu. Platão político de Aristóteles ao século xx. São Paulo: Annablume, p. 193-230.


terça-feira, 7 de maio de 2013

Para além do niilismo

O leitor sabe que meu pecado espiritual é o niilismo. Enfrento-o dia a dia como qualquer moléstia incurável. O tema já foi tratado por gênios como Nietzsche, Turguêniev, Dostoiévski, Cioran. Deixo meu leitor em companhia desses gigantes, muito melhores do que eu.
A tragédia também me acompanha em todo café da manhã, essa concepção grega de mundo que julgo a mais correta já pensada. Aqui tenho grandes parceiros como o autor da tragédia ática Sófocles (entre outros), o filósofo Nietzsche, o dramaturgo Shakespeare e os escritores contemporâneos Albert Camus e Philip Roth.
Ambos, niilismo e tragédia, são visões de mundo que arruínam a vida. Diante deles, ateísmo é para iniciantes. O ateísmo só é aceitável quando blasé e sem associações de ateus
militantes. Para niilistas como eu, o ateísmo crente em si mesmo é brincadeira de meninas com fita cor-de-rosa amarrada na cabeça.
Ando de saco cheio do niilismo e da tragédia, apesar de continuar experimentando-os todo dia. Em termos morais, a virtude máxima para ambos é a coragem, e o vício mais a mão, a covardia.
Nos últimos tempos, tenho me interessado por outra virtude, a confiança, essa, tão difícil quanto a coragem, uma vez tomada a alma pelo niilismo e pela tragédia. É sobre ela que quero falar nesta segunda-feira, dia normalmente difícil, acompanhado do "bode" do domingo e da monotonia do dia a dia que recomeça imerso num sono que nunca descansa, porque sempre atormentado pela dúvida com relação ao amor, à família, ao trabalho e à viabilidade do futuro.
Meu maior pecado como escritor é jamais enganar, jamais querer agradar. Essa é minha forma de prestar respeito a quem me lê semanalmente. O caráter de alguém que escreve é medido pela ausência de desejo de agradar a quem o lê.
Amar cães e confiar neles é mais fácil do que amar seres humanos e confiar neles. Por isso, num mundo atormentado pela dúvida niilista, ainda que em constante denegação dela, tanta gente se lança à defesa melosa de cães e gatos e exige carne de frangos felizes na hora de comer em restaurantes ridículos.
Quero propor a você duas obras. Um filme e um livro que julgo entre os maiores exemplos da arte a serviço da confiança na vida.
O filme "As Damas do Bois de Boulogne", do cineasta francês Robert Bresson, de 1945, é uma pérola sobre a confiança na vida e nos laços afetivos. Bresson é um cineasta muito marcado pelo pensamento do escritor George Bernanos, grande anatomista da alma e especialista em nossa natureza vaidosa, mentirosa e, por isso mesmo, desesperada. Coisa para gente grande, rara hoje em dia, neste mundo governado por adultos infantis.
O filme trata da vingança de uma mulher belíssima contra seu ex-amante (que a abandonou), um homem frívolo e covarde por temperamento. Essa vingança se constitui na aposta de que ele e a mulher que ela "contrata" para sua vingança agirão do modo esperado. Sua intenção é fazer com que seu ex-amante se apaixone por essa mulher "contratada", uma prostituta.
O homem é mantido na ignorância da vida pregressa de sua noiva até depois do casamento. O que a mulher abandonada não contava é que a prostituta se apaixonasse pelo covarde, levando-o a transformação inesperada de caráter.
O amor também é personagem central da obra do dinamarquês Soren Kierkegaard "As Obras do Amor", da Vozes. Esse livro é o texto mais belo que conheço sobre o amor na filosofia ocidental.
Segundo nosso existencialista, o amor tudo crê, mas nunca se ilude porque, assim como a desconfiança e o ceticismo, o amor sabe que o conhecimento não é capaz de nada além do que fundamentar o niilismo, o ceticismo e o desespero.
O amor é um afeto moral, não um ato da razão. A razão não justifica a vida. O amor é uma escolha de investimento na vida, uma atitude, mesmo que a razão prove a falta de sentido último de tudo.
Ingênuos são os niilistas e céticos que consideram a desconfiança um ato livre da vontade. A desconfiança é uma escravidão. A aposta na vida é que mostra o caráter maduro de mulheres e homens. Boa semana. 


Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

Crítica: Obra de Tomás de Aquino ilumina Idade Média


Tomás de Aquino (1225-1274), um dos principais filosofos da Idade Media

O mundo medieval é distante do nosso. Aquele banhado pelas sombras, este pelas luzes dos iPhones. Mesmo a espiritualidade se faz prestadora de serviço e Jesus, um consultor de sucesso.
A metafísica, antes uma elegante ciência do intelecto, torna-se, a cada dia, mero imaginário a serviço de nossas pequenas neuroses instantâneas: hoje sou budista, amanhã seguidor de algum neocacique aborígene.
Pensamos na Idade Média como um esgoto grande cheio de peste, mulheres queimadas, anjos e demônios.



Tomás de Aquino (1225-1274), um dos principais filosofos da Idade Media (foto)

Mas não, a Idade Média foi uma época de grande atividade intelectual, com grande diversidade de interesses e concepções, ao contrário da nossa época, uma hora obcecada pelo cérebro, outra pelos genes, outra ainda pelo "social".
Uma das formas de conhecer a Idade Média, ultrapassando o "nosso senso comum de esgoto" sobre ela, é conhecer sua filosofia e o santo italiano Tomás de Aquino (1225-1274), que foi um dos seus maiores expoentes.
O Aquinate, como ficou conhecido seu conjunto de ideias, buscou pôr em diálogo a tradição bíblica e a filosofia grega, elaborando um sofisticado sistema filosófico de difícil redução a algum conjunto limitado de manias. Essas duas tradições são "costuradas" de modo sutil ao longo de sua obra.
Um belo exemplo desse percurso é "Questões Disputadas Sobre a Alma", que a editora É Realizações nos traz agora, numa elegante edição bilíngue latim-português, com excelente prefácio de Carlos Augusto Casanova Guerra, doutor pela Universidade de Navarra.
GRANDES TEMAS
A edição é um presente não só para o grande público erudito, interessado em conhecer mais a "mente medieval", mas também, e principalmente, para o público especializado, que agora dispõe de uma peça com tradução em português para seus estudos acadêmicos.
Tomás de Aquino arrola várias fontes na obra --Bíblia, Platão, Aristóteles, patrística, neoplatonismo--, todas organizadas de modo escolástico, ou seja, buscando clareza no encadeamento dos argumentos e conclusões.
O repertório erudito de sua época está todo ali, a serviço do esclarecimento de 21 questões sobre a alma que podem ser resumidas em alguns grandes temas.
Por exemplo, o que é o ser, o que é a essência da alma e qual seu lugar no mundo visível e invisível? Qual sua relação com o corpo? Somos imortais? E como é essa imortalidade?
O filósofo responde com esse elenco de temas algumas das questões de sua época, as inquietações do dia e da noite e do cotidiano. Será que essas questões mudaram tanto de lá pra cá?

QUESTÕES DISPUTADAS SOBRE A ALMA
AUTOR Tomás de Aquino
TRADUÇÃO Luiz Astorga
EDITORA É Realizações
QUANTO R$ 59 (464 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

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