sábado, 9 de fevereiro de 2013

NEM TUDO É O QUE PARECE


Capitalismo! Uma ideia de ordem que vende sem parar. Passando pelo que comemos, bebemos e pelo que vestimos, como se não bastasse, pelo que desejamos, inclusive, a felicidade. Sim, vende-se também felicidade. Lucra-se com ela, por ela e para ela. Nunca se vendeu tanta autoajuda como hoje. Vendemos conselhos motivacionais. Eles valem ouro. As pessoas buscam o tempo todo uma receita para viver melhor. Uma receita que lhes ensinem a viver. Mas tudo em nome do capitalismo. Uma dominação política sustentada na ilusão de que nossos desejos são satisfeitos, quando na verdade não são. Isso mesmo é uma farsa.
No capitalismo liberal, nem tudo, ou melhor, quase tudo não é o que parece. As sociedades capitalistas como a nossa se esforçam, sacrificam-se único e exclusivamente por uma fantasia de satisfação de desejos. Não refletimos sobre o que se passa conosco. Simplesmente nos basta o gozo ou o prazer fantasmático de algo satisfeito, de um conforto mentirosamente alcançado. O capitalismo, então, nos dá este conforto, e ele, assim como nós, não se dá por satisfeito, mas cria outros e mais outros novos estímulos, de modo a nos controlar compulsivamente. Não só nos tornamos consumidores por necessidade de sobrevivência, mas por manutenção de prazeres diários.
A verdade é que, por causa do capitalismo, somos incapazes de ver além de nossos desejos, de dar sentido a eles, de descobrir quem somos. Com isso, passamos a ser vistos aos poucos como máquinas de produção de conforto, porém muito conforto. Atolados demais em conforto, a sociedade fica doente, vulnerável a toda sorte de males. Nós ficamos doentes, ao ponto de sequer questionar o modo como vivemos. Não damos mais alternativas ao capitalismo e nem desconfiamos dele, visto que “parece mais fácil imaginar o fim do mundo que uma mudança muito mais modesta no modo de produção, como se o capitalismo liberal fosse o 'real' que de algum modo sobreviverá, mesmo na eventualidade de uma catástrofe ecológica global...(...) Pode-se afirmar categoricamente a existência de uma 'qua' matriz geradora que regula a relação entre o visível e o invisível, o imaginável e o inimaginável, bem como as mudanças nessa relação”(Slavoj Zizek, in Um Mapa da Ideologia, p. 07).
Repare que paira sobre nós uma sensação estranha de dominação política, sobretudo em tempos de realidade virtual, de sofisticação tecnológica, outro dado que se junta ao capitalismo para controlar nossos desejos e ansiedades. Vivemos meio que deslocados do mundo real, fora do espaço e tempo em que ocupamos. Estamos nos enchendo de informações via celulares, Ipads e Laptops, e isso costuma não dar em nada, pois nos tornamos até mais despolitizados. Consumimos ideologia por desejo e não por reflexão.
Interessa-nos muito mais a relação amorosa de uma atriz que mora em Londres ou em New York do que o número alarmante de separações de casais em nosso país. Rende mais debate um terremoto que ocorre no Japão ou um desequilíbrio climático ao redor do mundo do que com a carência de fios de aço para cirurgias na saúde pública do RN. Discussões sobre o descaso com a infraestrutura do país como transportes, saneamento, educação, políticas públicas de convivência com o semiárido... Nada disso importa o quanto importa a realização de uma Copa do Mundo no Brasil, o que é preocupante porque nem a Copa e tudo o que dizem dela é o que parece. Nem tudo é o que parece. A Copa do mundo, bem como o carnaval e uma porção de coisa no Brasil tentam esconder corrupção, altos impostos e inflação que oprimem a população.
Penso que a pauta das discussões políticas e sociais está indo na onda do capitalismo liberal que pretende esvaziar mais ainda o debate cultural entre os povos pela via superficial da informação virtual cada vez mais disseminada no mundo. O filósofo esloveno Slavoj Zizek, numa obra organizada por ele, Um Mapa da Ideologia, assim nos alerta para o perigo do capitalismo: “Hoje em dia, muito ouvimos e lemos sobre como a própria sobrevivência da espécie humana está ameaçada pela perspectiva da catástrofe ecológica (diminuição da camada de ozônio, o efeito estufa etc.). O verdadeiro perigo, entretanto, acha-se em outro lugar: o que está ameaçado, em última análise, é a própria essência do homem. Ao nos esforçarmos por prevenir a catástrofe ecológica iminente, com soluções tecnológicas cada vez mais novas, estamos, na verdade, simplesmente jogando lenha na fogueira e, com isso, agravando a ameaça à essência espiritual do homem, que não pode ser reduzido a um animal tecnológico”(p. 22).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

Um comentário:

Will Son disse...

Quero dar-lhe meus parabéns pela excelência do seu escrito. O consumismo está à deriva.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

NEM TUDO É O QUE PARECE


Capitalismo! Uma ideia de ordem que vende sem parar. Passando pelo que comemos, bebemos e pelo que vestimos, como se não bastasse, pelo que desejamos, inclusive, a felicidade. Sim, vende-se também felicidade. Lucra-se com ela, por ela e para ela. Nunca se vendeu tanta autoajuda como hoje. Vendemos conselhos motivacionais. Eles valem ouro. As pessoas buscam o tempo todo uma receita para viver melhor. Uma receita que lhes ensinem a viver. Mas tudo em nome do capitalismo. Uma dominação política sustentada na ilusão de que nossos desejos são satisfeitos, quando na verdade não são. Isso mesmo é uma farsa.
No capitalismo liberal, nem tudo, ou melhor, quase tudo não é o que parece. As sociedades capitalistas como a nossa se esforçam, sacrificam-se único e exclusivamente por uma fantasia de satisfação de desejos. Não refletimos sobre o que se passa conosco. Simplesmente nos basta o gozo ou o prazer fantasmático de algo satisfeito, de um conforto mentirosamente alcançado. O capitalismo, então, nos dá este conforto, e ele, assim como nós, não se dá por satisfeito, mas cria outros e mais outros novos estímulos, de modo a nos controlar compulsivamente. Não só nos tornamos consumidores por necessidade de sobrevivência, mas por manutenção de prazeres diários.
A verdade é que, por causa do capitalismo, somos incapazes de ver além de nossos desejos, de dar sentido a eles, de descobrir quem somos. Com isso, passamos a ser vistos aos poucos como máquinas de produção de conforto, porém muito conforto. Atolados demais em conforto, a sociedade fica doente, vulnerável a toda sorte de males. Nós ficamos doentes, ao ponto de sequer questionar o modo como vivemos. Não damos mais alternativas ao capitalismo e nem desconfiamos dele, visto que “parece mais fácil imaginar o fim do mundo que uma mudança muito mais modesta no modo de produção, como se o capitalismo liberal fosse o 'real' que de algum modo sobreviverá, mesmo na eventualidade de uma catástrofe ecológica global...(...) Pode-se afirmar categoricamente a existência de uma 'qua' matriz geradora que regula a relação entre o visível e o invisível, o imaginável e o inimaginável, bem como as mudanças nessa relação”(Slavoj Zizek, in Um Mapa da Ideologia, p. 07).
Repare que paira sobre nós uma sensação estranha de dominação política, sobretudo em tempos de realidade virtual, de sofisticação tecnológica, outro dado que se junta ao capitalismo para controlar nossos desejos e ansiedades. Vivemos meio que deslocados do mundo real, fora do espaço e tempo em que ocupamos. Estamos nos enchendo de informações via celulares, Ipads e Laptops, e isso costuma não dar em nada, pois nos tornamos até mais despolitizados. Consumimos ideologia por desejo e não por reflexão.
Interessa-nos muito mais a relação amorosa de uma atriz que mora em Londres ou em New York do que o número alarmante de separações de casais em nosso país. Rende mais debate um terremoto que ocorre no Japão ou um desequilíbrio climático ao redor do mundo do que com a carência de fios de aço para cirurgias na saúde pública do RN. Discussões sobre o descaso com a infraestrutura do país como transportes, saneamento, educação, políticas públicas de convivência com o semiárido... Nada disso importa o quanto importa a realização de uma Copa do Mundo no Brasil, o que é preocupante porque nem a Copa e tudo o que dizem dela é o que parece. Nem tudo é o que parece. A Copa do mundo, bem como o carnaval e uma porção de coisa no Brasil tentam esconder corrupção, altos impostos e inflação que oprimem a população.
Penso que a pauta das discussões políticas e sociais está indo na onda do capitalismo liberal que pretende esvaziar mais ainda o debate cultural entre os povos pela via superficial da informação virtual cada vez mais disseminada no mundo. O filósofo esloveno Slavoj Zizek, numa obra organizada por ele, Um Mapa da Ideologia, assim nos alerta para o perigo do capitalismo: “Hoje em dia, muito ouvimos e lemos sobre como a própria sobrevivência da espécie humana está ameaçada pela perspectiva da catástrofe ecológica (diminuição da camada de ozônio, o efeito estufa etc.). O verdadeiro perigo, entretanto, acha-se em outro lugar: o que está ameaçado, em última análise, é a própria essência do homem. Ao nos esforçarmos por prevenir a catástrofe ecológica iminente, com soluções tecnológicas cada vez mais novas, estamos, na verdade, simplesmente jogando lenha na fogueira e, com isso, agravando a ameaça à essência espiritual do homem, que não pode ser reduzido a um animal tecnológico”(p. 22).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

Um comentário:

Will Son disse...

Quero dar-lhe meus parabéns pela excelência do seu escrito. O consumismo está à deriva.

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