sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Sobre filosofia e outros diálogos - Borges, o outro e o mesmo


Jorge Luis Borges por Osvalter

Ao final da vida, Jorge Luis Borges (1899-1986) já era um clássico. Consagrado como um dos maiores escritores do século 20, era solicitado para entrevistas, palestras e aulas nas mais prestigiadas universidades do mundo, onde recebia títulos de doutor honoris causa. Entre uma viagem e outra, continuava criando os contos de teor fantástico e intelectual que lhe renderam fama. Fama, aliás, que tratava com uma refinada auto-ironia: “Eu não sei se minha obra merece essa atenção, eu acho que não, acredito que sou uma espécie de superstição, agora, internacional”.
A frase consta dos diálogos com o escritor Osvaldo Ferrari publicados em três edições pela editora Hedra: Sobre os sonhos, Sobre a filosofia e Sobre a amizade e outros diálogos. Os livros registram as reflexões e devaneios do escritor na fase madura e mais serena da vida. Borges concedeu ao todo 90 entrevistas semanais na biblioteca de sua casa, de março de 1984 até meados de 1985, pouco antes de sua morte, aos 86 anos de idade (ele morreu de câncer em Genebra, Suíça). As conversas eram transmitidas ao vivo pela Rádio Municipal de Buenos Aires e depois publicadas no jornal Tiempo Argentino. Posteriormente, foram compiladas em livro.
Que o leitor não se engane quanto aos títulos da coleção, quase arbitrários. Segundo Ferrari, não havia uma pauta pré-acordada entre ambos. Ele conta que chegava para a gravação, propunha um tema e, no decorrer da entrevista, ao que percebemos pela leitura, se preocupava em evitar que Borges fugisse muito do assunto. Conduzidas assim, sem maiores interferências ou edição, assumem um formato barroco, labiríntico, com as repetições das mesmas idéias e frases. Borges, neste sentido, era uma figura peculiar, que se autocitava com franqueza.
Das referências ao cânone pessoal — que inclui Emerson, Whitman, Dante, Shakespeare, Poe, Cervantes, Wilde, Schopenhauer, Virgílio, Chesterton, Melville, de Quincey e outros —, às observações críticas sobre romances e contos de escritores como Conrad, Kafka, Wells, Henry James, Flaubert, Kipling, Dickens e Stevenson, mesmo quando fala sobre filosofia, mitos ou sonhos, Borges sempre o faz do ponto de vista da literatura.
Cego desde 1955, cita de memórias versos e poemas. O que o interessa, entretanto, é o futuro. Fala com entusiasmo dos países que visitou e que ainda queria conhecer — China e Índia — e de seus projetos literários. Na biblioteca particular, costumava afirmar que não mantinha sequer um livro de sua autoria, e desdenhava da própria relevância como escritor. Só se interessava pelo que ainda iria escrever.

Fascismo

Ferrari não confronta o mestre em nenhum momento, e nem é essa a intenção. As conversas fluem sempre de forma extremamente polida e cordial. Ambos se tratam por “senhor”, a despeito da diferença de idade (Ferrari estava então entre os 35 e os 36 anos).
Temas como política, pelo qual Borges não se interessava, não são exatamente evitados. Simplesmente não rendem mais do que algumas frases, variações de um mesmo argumento. Para o escritor argentino, um artista deveria se abster de emitir opiniões, sobretudo políticas, sob o risco de ser julgados por elas na posteridade, em detrimento à obra.
Ele próprio foi muito criticado por seu conservadorismo político, numa época que pedia (exigia, em alguns casos) engajamentos, ainda mais na América Latina. Chegou a manifestar apoio à ditadura militar e foi perseguido pelo peronismo. Mas foi um pacato funcionário público, um esteta e escritor meticuloso, que nunca lia jornais e não se interessava pelo caráter contingencial do tempo. Declarava-se um “inofensivo anarquista”, por defender o Estado mínimo diante da autonomia individual, posição mais claramente identificada com o liberalismo político. Numa dessas raras passagens sobre política, descreve a ex-URSS como “a forma mais exacerbada de fascismo”, e o século lhe daria razão.
Borges, aliás, antecipou-se à era da globalização e ao multiculturalismo. Apregoava uma visão cosmopolita e, por diversas vezes nos encontros, situava os argentinos como europeus, ou gregos, no desterro. Queria dizer com isso que as culturas contemporâneas são uma herança do diálogo de tradições que remetem à Grécia e à Roma antigas e às civilizações primevas da Índia e da China. Assim, foi um dos primeiros escritores a divulgar e ser influenciado pela filosofia e pelas religiões orientais, principalmente o budismo, que o levou a crer numa espécie de carma, em oposição ao livre-arbítrio do homem.

Amizades

Sobre sua controversa vida pessoal, pouco acrescenta. Fala da timidez diante do público das palestras, dos pensamentos suicidas na juventude, da mãe, Leonor Acevedo Suárez, e do valor da amizade, que considerava superior ao amor erótico. Boa parte dos diálogos, a propósito, trata de amizades afetivas e literárias com escritores como Macedonio Fernández, Rubén Darío, Alfonso Reyes, Ricardo Güiraldes, Lugones, Silvina Ocampo, Bioy Casares, Sarmiento, Evaristo Carriego e Alonso Quijano.
Em outros trechos das entrevistas, relata anedotas de leitores desapontados ao saberem que ele nunca encontrou o Aleph nem possuía o sétimo volume da enciclopédia de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, referências de seus contos famosos publicados, respectivamente, em O Aleph e Ficções.
Se por um lado as conversas repisam assuntos já abordados no vasto acervo oral legado por dezenas de entrevistas, por outro constituem um dos mais ricos conjuntos reunidos de crítica e pensamento do escritor. Nada se revela de novo, por exemplo, sobre o método de escrita, que consistia em ter uma idéia concebida em seu início e fim, para em seguida trabalhar exaustivamente cada palavra, frase e período, ambientando seus personagens, de preferência, em tempos passados, a título de maior liberdade estética. Há também comentários sobre poesias e contos como O Aleph, O Sul, Everthing and nothing e As ruínas circulares, além de bons capítulos sobre literatura, como em O conto policial. Tudo dito com elegância, beleza e originalidade, mas, em se tratando de Borges, também um pouco mais do mesmo.
Não obstante, as entrevistas parecem adquirir a consistência de um ensaio sobre a matriz estética e idealista do universo, a qual Borges conferiu um toque pessoal. A seu modo, falava como quem escrevia um texto, com direito a se corrigir e lapidar conceitos e palavras, daí as repetições por vezes cansativas ao leitor.

Pós-moderno

Borges era um idealista, no sentido filosófico do termo. Para ele, a realidade possuía uma essência onírica e, portanto, tinha algo de fantástico. É essa a hipótese trabalhada em seus contos e que ele deixa explícita na produção oral. Por esse motivo também considerava contraditória a literatura realista. Como toda realidade é fantástica, não faz sentido fazer literatura realista, uma vez que literatura e realidade compartilham da mesma natureza.
Coerente com essa posição, Borges também considerava a experiência proporcionada pelos livros mais abrangente que as concretas. Se a vida real não passa de fábula, sonho ou literatura, pode perfeitamente ser vivenciada através dos textos. Diz ele:

(…) eu me lembro do que li mais do que vivi. Mas é claro que uma das coisas mais importantes que podem acontecer a um homem é ter lido essa ou aquela página que o comoveu, uma experiência muito intensa, não menos intensa que outras.
Um escritor que nunca tenha visto o mar, por exemplo, poderia descrevê-lo com mais intensidade que um marinheiro e, deste modo, passar uma experiência mais vívida. Em outras palavras, constrói uma narrativa melhor de mundo, mais convincente (formulação da qual o filósofo neopragmatista Richard Rorty talvez não discordasse).
Não por acaso, Borges é um dos escritores mais citados e estudados pelos críticos e filósofos pós-modernos, por conta dessa concepção de fabulação ou estetização de mundo, cujas raízes nietzschianas eram também caras aos pós-estruturalistas. É, de certa forma, a mesma idéia que orienta suas digressões sobre leitura e escrita, pautadas pelo hedonismo.

Prazer do texto

Ler, para Borges, é um ato voluntário e hedonista. Obrigar alguém a ler, lembra, é o método mais eficiente para fazer com que uma pessoa odeie livros:
Em todo caso, eu não gostaria que meus livros fossem de leitura obrigatória, uma vez que obrigatório e leitura são duas palavras que se contradizem, porque a leitura tem que ser um prazer, e um prazer não tem que ser obrigatório, tem que ser algo que se procura de maneira espontânea, sim.
Com certa dose de exagero, diz que nunca havia lido um romance do começo ao fim. “Gosto de folhear; isso quer dizer que sempre tive idéia de ser um leitor hedonista, nunca li por sentimento de dever.” Logo, o exclusivo objetivo da literatura é comover, atender a demanda por emoções do leitor. Numa das escassas críticas nominais, desanca o estruturalismo, que considerava prejudicial à crítica por resumir a prosa à sintaxe, e por gerar obras de má qualidade, sem emoção, meras “misérias formais”.
Já no papel de escritor, fez questão de desprender-se de qualquer escola ou contexto sócio-histórico (“A arte e a literatura… teriam que se libertar do tempo.”). Do mesmo modo de Baudelaire, Flaubert e Wilde, dizia que a arte justifica-se a si mesma e não precisa apresentar credenciais a nenhuma chancela de realidade. Shakespeare, Cervantes e Kafka, diz Borges, transcendem sua época por construírem signos descolados do objeto e, por esta razão, abrem-se a infinitas interpretações. A capacidade estética era, para o poeta argentino, algo inerente a todo homem, expresso no sonho, o mais antigo gênero literário. À noite, afirmava, somos todos dramaturgos, encenando narrativas diáfanas.

Deus

Se a própria realidade é de natureza fantástica, também o são as metafísicas e religiões. A hipótese borgiana vai mais longe, ao propor um Deus artista, aos moldes do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (que, ao que tudo indica, não chegou a ler). Num dos diálogos, Borges dá seqüência à máxima de Mallarmé, de que tudo que existe acaba em um livro, e de Homero, para quem os deuses provêm aos homens infortúnios, para que tenham o que cantar: “(….) poderíamos supor que tudo acontece não para sofrermos ou desfrutarmos, mas porque tudo possui um valor estético, e com isso teríamos uma nova teologia, baseada na estética”. O Deus borgiano é o oposto do Javé colérico que imprime culpa e castigo aos homens.
Haveria, finalmente, um elo entre religião, estética e ética. Para Borges, a finalidade da religião é prover um norte de conduta ao homem, um propósito de ordem moral. Segundo ele, a ética tem uma origem instintiva, o que significa que qualquer um pode distinguir boas de más ações, mas é aprimorada pela razão. Um ato de bondade é um ato de inteligência e, por conseguinte, o homem culto possui responsabilidades maiores por suas ações. Deus, para Borges, é essa procura racional pelo bem nos homens que, no caminho, encontram resoluções estéticas para compor uma realidade mais suportável e experiências mais ricas.
Borges, infelizmente, não terminou de revisar sua cosmologia. Como no conto The unending gift (publicado em Elogio da sombra), em que um pintor promete um quadro e morre antes de terminar a obra, deixou um presente mais precioso porque indefinido, na forma de conjecturas.

Os autoresO argentino JORGE LUIS BORGES nasceu em Buenos Aires, em 1899. É um dos mais importantes e conhecidos escritores latino-americanos do século 20. Ficou notório pelos seus contos fantásticos, sobretudo os reunidos nas obras Ficções e O Aleph. Iniciou em literatura publicando poesias e também escreveu ensaios. Temas recorrentes nos seus livros, como labirintos, espadas, tigres, espelhos, o tempo e a memória fazem parte de sua mitologia pessoal. Depois de ficar cego, em 1955, passou a ditar contos e poemas e viajar pelo mundo dando palestras. Pouco antes de morrer, casou-se com Maria Kodama, sua secretária particular. Morreu em 1986, em Genebra.
OSVALDO FERRARI nasceu em 1948. É jornalista, professor universitário e escritor argentino, autor de Poemas de vida (1974) e Poemas autobiográficos (1981), além de ensaios literários e entrevistas com escritores famosos.

JOSÉ RENATO SALATIELé jornalista e professor universitário.

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Sobre filosofia e outros diálogos - Borges, o outro e o mesmo


Jorge Luis Borges por Osvalter

Ao final da vida, Jorge Luis Borges (1899-1986) já era um clássico. Consagrado como um dos maiores escritores do século 20, era solicitado para entrevistas, palestras e aulas nas mais prestigiadas universidades do mundo, onde recebia títulos de doutor honoris causa. Entre uma viagem e outra, continuava criando os contos de teor fantástico e intelectual que lhe renderam fama. Fama, aliás, que tratava com uma refinada auto-ironia: “Eu não sei se minha obra merece essa atenção, eu acho que não, acredito que sou uma espécie de superstição, agora, internacional”.
A frase consta dos diálogos com o escritor Osvaldo Ferrari publicados em três edições pela editora Hedra: Sobre os sonhos, Sobre a filosofia e Sobre a amizade e outros diálogos. Os livros registram as reflexões e devaneios do escritor na fase madura e mais serena da vida. Borges concedeu ao todo 90 entrevistas semanais na biblioteca de sua casa, de março de 1984 até meados de 1985, pouco antes de sua morte, aos 86 anos de idade (ele morreu de câncer em Genebra, Suíça). As conversas eram transmitidas ao vivo pela Rádio Municipal de Buenos Aires e depois publicadas no jornal Tiempo Argentino. Posteriormente, foram compiladas em livro.
Que o leitor não se engane quanto aos títulos da coleção, quase arbitrários. Segundo Ferrari, não havia uma pauta pré-acordada entre ambos. Ele conta que chegava para a gravação, propunha um tema e, no decorrer da entrevista, ao que percebemos pela leitura, se preocupava em evitar que Borges fugisse muito do assunto. Conduzidas assim, sem maiores interferências ou edição, assumem um formato barroco, labiríntico, com as repetições das mesmas idéias e frases. Borges, neste sentido, era uma figura peculiar, que se autocitava com franqueza.
Das referências ao cânone pessoal — que inclui Emerson, Whitman, Dante, Shakespeare, Poe, Cervantes, Wilde, Schopenhauer, Virgílio, Chesterton, Melville, de Quincey e outros —, às observações críticas sobre romances e contos de escritores como Conrad, Kafka, Wells, Henry James, Flaubert, Kipling, Dickens e Stevenson, mesmo quando fala sobre filosofia, mitos ou sonhos, Borges sempre o faz do ponto de vista da literatura.
Cego desde 1955, cita de memórias versos e poemas. O que o interessa, entretanto, é o futuro. Fala com entusiasmo dos países que visitou e que ainda queria conhecer — China e Índia — e de seus projetos literários. Na biblioteca particular, costumava afirmar que não mantinha sequer um livro de sua autoria, e desdenhava da própria relevância como escritor. Só se interessava pelo que ainda iria escrever.

Fascismo

Ferrari não confronta o mestre em nenhum momento, e nem é essa a intenção. As conversas fluem sempre de forma extremamente polida e cordial. Ambos se tratam por “senhor”, a despeito da diferença de idade (Ferrari estava então entre os 35 e os 36 anos).
Temas como política, pelo qual Borges não se interessava, não são exatamente evitados. Simplesmente não rendem mais do que algumas frases, variações de um mesmo argumento. Para o escritor argentino, um artista deveria se abster de emitir opiniões, sobretudo políticas, sob o risco de ser julgados por elas na posteridade, em detrimento à obra.
Ele próprio foi muito criticado por seu conservadorismo político, numa época que pedia (exigia, em alguns casos) engajamentos, ainda mais na América Latina. Chegou a manifestar apoio à ditadura militar e foi perseguido pelo peronismo. Mas foi um pacato funcionário público, um esteta e escritor meticuloso, que nunca lia jornais e não se interessava pelo caráter contingencial do tempo. Declarava-se um “inofensivo anarquista”, por defender o Estado mínimo diante da autonomia individual, posição mais claramente identificada com o liberalismo político. Numa dessas raras passagens sobre política, descreve a ex-URSS como “a forma mais exacerbada de fascismo”, e o século lhe daria razão.
Borges, aliás, antecipou-se à era da globalização e ao multiculturalismo. Apregoava uma visão cosmopolita e, por diversas vezes nos encontros, situava os argentinos como europeus, ou gregos, no desterro. Queria dizer com isso que as culturas contemporâneas são uma herança do diálogo de tradições que remetem à Grécia e à Roma antigas e às civilizações primevas da Índia e da China. Assim, foi um dos primeiros escritores a divulgar e ser influenciado pela filosofia e pelas religiões orientais, principalmente o budismo, que o levou a crer numa espécie de carma, em oposição ao livre-arbítrio do homem.

Amizades

Sobre sua controversa vida pessoal, pouco acrescenta. Fala da timidez diante do público das palestras, dos pensamentos suicidas na juventude, da mãe, Leonor Acevedo Suárez, e do valor da amizade, que considerava superior ao amor erótico. Boa parte dos diálogos, a propósito, trata de amizades afetivas e literárias com escritores como Macedonio Fernández, Rubén Darío, Alfonso Reyes, Ricardo Güiraldes, Lugones, Silvina Ocampo, Bioy Casares, Sarmiento, Evaristo Carriego e Alonso Quijano.
Em outros trechos das entrevistas, relata anedotas de leitores desapontados ao saberem que ele nunca encontrou o Aleph nem possuía o sétimo volume da enciclopédia de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, referências de seus contos famosos publicados, respectivamente, em O Aleph e Ficções.
Se por um lado as conversas repisam assuntos já abordados no vasto acervo oral legado por dezenas de entrevistas, por outro constituem um dos mais ricos conjuntos reunidos de crítica e pensamento do escritor. Nada se revela de novo, por exemplo, sobre o método de escrita, que consistia em ter uma idéia concebida em seu início e fim, para em seguida trabalhar exaustivamente cada palavra, frase e período, ambientando seus personagens, de preferência, em tempos passados, a título de maior liberdade estética. Há também comentários sobre poesias e contos como O Aleph, O Sul, Everthing and nothing e As ruínas circulares, além de bons capítulos sobre literatura, como em O conto policial. Tudo dito com elegância, beleza e originalidade, mas, em se tratando de Borges, também um pouco mais do mesmo.
Não obstante, as entrevistas parecem adquirir a consistência de um ensaio sobre a matriz estética e idealista do universo, a qual Borges conferiu um toque pessoal. A seu modo, falava como quem escrevia um texto, com direito a se corrigir e lapidar conceitos e palavras, daí as repetições por vezes cansativas ao leitor.

Pós-moderno

Borges era um idealista, no sentido filosófico do termo. Para ele, a realidade possuía uma essência onírica e, portanto, tinha algo de fantástico. É essa a hipótese trabalhada em seus contos e que ele deixa explícita na produção oral. Por esse motivo também considerava contraditória a literatura realista. Como toda realidade é fantástica, não faz sentido fazer literatura realista, uma vez que literatura e realidade compartilham da mesma natureza.
Coerente com essa posição, Borges também considerava a experiência proporcionada pelos livros mais abrangente que as concretas. Se a vida real não passa de fábula, sonho ou literatura, pode perfeitamente ser vivenciada através dos textos. Diz ele:

(…) eu me lembro do que li mais do que vivi. Mas é claro que uma das coisas mais importantes que podem acontecer a um homem é ter lido essa ou aquela página que o comoveu, uma experiência muito intensa, não menos intensa que outras.
Um escritor que nunca tenha visto o mar, por exemplo, poderia descrevê-lo com mais intensidade que um marinheiro e, deste modo, passar uma experiência mais vívida. Em outras palavras, constrói uma narrativa melhor de mundo, mais convincente (formulação da qual o filósofo neopragmatista Richard Rorty talvez não discordasse).
Não por acaso, Borges é um dos escritores mais citados e estudados pelos críticos e filósofos pós-modernos, por conta dessa concepção de fabulação ou estetização de mundo, cujas raízes nietzschianas eram também caras aos pós-estruturalistas. É, de certa forma, a mesma idéia que orienta suas digressões sobre leitura e escrita, pautadas pelo hedonismo.

Prazer do texto

Ler, para Borges, é um ato voluntário e hedonista. Obrigar alguém a ler, lembra, é o método mais eficiente para fazer com que uma pessoa odeie livros:
Em todo caso, eu não gostaria que meus livros fossem de leitura obrigatória, uma vez que obrigatório e leitura são duas palavras que se contradizem, porque a leitura tem que ser um prazer, e um prazer não tem que ser obrigatório, tem que ser algo que se procura de maneira espontânea, sim.
Com certa dose de exagero, diz que nunca havia lido um romance do começo ao fim. “Gosto de folhear; isso quer dizer que sempre tive idéia de ser um leitor hedonista, nunca li por sentimento de dever.” Logo, o exclusivo objetivo da literatura é comover, atender a demanda por emoções do leitor. Numa das escassas críticas nominais, desanca o estruturalismo, que considerava prejudicial à crítica por resumir a prosa à sintaxe, e por gerar obras de má qualidade, sem emoção, meras “misérias formais”.
Já no papel de escritor, fez questão de desprender-se de qualquer escola ou contexto sócio-histórico (“A arte e a literatura… teriam que se libertar do tempo.”). Do mesmo modo de Baudelaire, Flaubert e Wilde, dizia que a arte justifica-se a si mesma e não precisa apresentar credenciais a nenhuma chancela de realidade. Shakespeare, Cervantes e Kafka, diz Borges, transcendem sua época por construírem signos descolados do objeto e, por esta razão, abrem-se a infinitas interpretações. A capacidade estética era, para o poeta argentino, algo inerente a todo homem, expresso no sonho, o mais antigo gênero literário. À noite, afirmava, somos todos dramaturgos, encenando narrativas diáfanas.

Deus

Se a própria realidade é de natureza fantástica, também o são as metafísicas e religiões. A hipótese borgiana vai mais longe, ao propor um Deus artista, aos moldes do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (que, ao que tudo indica, não chegou a ler). Num dos diálogos, Borges dá seqüência à máxima de Mallarmé, de que tudo que existe acaba em um livro, e de Homero, para quem os deuses provêm aos homens infortúnios, para que tenham o que cantar: “(….) poderíamos supor que tudo acontece não para sofrermos ou desfrutarmos, mas porque tudo possui um valor estético, e com isso teríamos uma nova teologia, baseada na estética”. O Deus borgiano é o oposto do Javé colérico que imprime culpa e castigo aos homens.
Haveria, finalmente, um elo entre religião, estética e ética. Para Borges, a finalidade da religião é prover um norte de conduta ao homem, um propósito de ordem moral. Segundo ele, a ética tem uma origem instintiva, o que significa que qualquer um pode distinguir boas de más ações, mas é aprimorada pela razão. Um ato de bondade é um ato de inteligência e, por conseguinte, o homem culto possui responsabilidades maiores por suas ações. Deus, para Borges, é essa procura racional pelo bem nos homens que, no caminho, encontram resoluções estéticas para compor uma realidade mais suportável e experiências mais ricas.
Borges, infelizmente, não terminou de revisar sua cosmologia. Como no conto The unending gift (publicado em Elogio da sombra), em que um pintor promete um quadro e morre antes de terminar a obra, deixou um presente mais precioso porque indefinido, na forma de conjecturas.

Os autoresO argentino JORGE LUIS BORGES nasceu em Buenos Aires, em 1899. É um dos mais importantes e conhecidos escritores latino-americanos do século 20. Ficou notório pelos seus contos fantásticos, sobretudo os reunidos nas obras Ficções e O Aleph. Iniciou em literatura publicando poesias e também escreveu ensaios. Temas recorrentes nos seus livros, como labirintos, espadas, tigres, espelhos, o tempo e a memória fazem parte de sua mitologia pessoal. Depois de ficar cego, em 1955, passou a ditar contos e poemas e viajar pelo mundo dando palestras. Pouco antes de morrer, casou-se com Maria Kodama, sua secretária particular. Morreu em 1986, em Genebra.
OSVALDO FERRARI nasceu em 1948. É jornalista, professor universitário e escritor argentino, autor de Poemas de vida (1974) e Poemas autobiográficos (1981), além de ensaios literários e entrevistas com escritores famosos.

JOSÉ RENATO SALATIELé jornalista e professor universitário.

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