domingo, 28 de outubro de 2012

Arte poética


                                                  (foto: Ítaca na Grécia)


Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar e que a morte
Que nossa carne teme é esta morte
De cada noite, que se chama sonho.

Ver no dia ou no ano um símbolo
Dos dias do homem de seus anos,
Converter o ultraje dos anos
Em música, rumor e símbolo,

Ver na morte o sonho, no ocaso
Um triste ouro, como a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, em plena tarde, uma face
Nos observa do fundo do espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Verde e humilde. A arte é esta Ítaca
De verde eternidade, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges

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domingo, 28 de outubro de 2012

Arte poética


                                                  (foto: Ítaca na Grécia)


Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar e que a morte
Que nossa carne teme é esta morte
De cada noite, que se chama sonho.

Ver no dia ou no ano um símbolo
Dos dias do homem de seus anos,
Converter o ultraje dos anos
Em música, rumor e símbolo,

Ver na morte o sonho, no ocaso
Um triste ouro, como a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, em plena tarde, uma face
Nos observa do fundo do espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Verde e humilde. A arte é esta Ítaca
De verde eternidade, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges

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