segunda-feira, 29 de outubro de 2012

RESUMO DA FILOSOFIA HUMANISTA DE LUC FERRY


Por Jorge Forbes in Café Filosófico CPFL Especial Fronteiras do Pensamento CPFL Cultura
 
Estamos vivendo momentos fortes de mudanças. Todos estão sendo afetados. São mudanças que tocam do nascimento à morte. São mudanças do nascimento à morte. São mudanças do nascimento quando estamos numa época da engenharia genética e temos questões éticas sérias para discutir sobre, por exemplo, o selecionamento de embriões. São mudanças na educação; os professores estão desesperados, a disciplina não funciona mais, os ideais até pouco tempo atrás; vamos estudar, fazer um vestibular, entrar numa faculdade também não é animador, não são animadores esses ideais para os estudantes.
Nós estamos vivendo transformações importantes no amor. Transformações fundamentais. As pessoas, hoje em dia, não têm mais nenhuma razão para estarem juntas se não quiserem estar juntas. Não dá para explicar se você está com alguém porque prometeu ao pai daquela pessoa; porque senão sua parceira ou seu parceiro vão educar mal o seu filho; porque você jurou no leito de morte pro seu sogro ou pro seu pai que ficaria com aquela pessoa até o final de sua vida. Quem reclama de manhã com quem está é porque é uma forma de declarar amor como outra qualquer. Eu detesto você; você também me detesta, muito bem, bom dia e prossigamos.
Nós temos mudanças importantes no trabalho. Nos contaram que a gente ia se aposentar aos 50, 60 anos de idade, mas é mentira. A gente vai viver agora mais 40 anos e ninguém mais vai poder se aposentar nesta idade. Quando a gente acha que chegou no auge, nós temos mais quarenta anos pela frente. Nós temos um bando de adolescentes cinquentão perdidos por aí sem saber o que fazer, como reinventar a sua vida. Faz parte também das transformações atuais. E nós temos, hoje em dia, controles que fazem, muitas vezes, esticar o momento da morte, colocando sérios problemas para as pessoas, para suas famílias. Até onde nós devemos deixar que a tecnologia aja sobre os nossos corpos, às vezes, fazendo uma vida infinita que de sã consciência ninguém gostaria de ter. Enfim, tudo isso faz com que nós estejamos sem bússola, estejamos desbussolados no séc. XXI.
Como dar uma nova bússola a este mundo? De que maneira interessou e muito o pensamento de Luc Ferry sobre uma nova ordem para o pensamento humano? Luc Ferry parte de uma ética e filosofia humanistas. Ele tem feito a clínica, isto é, ele tem se debruçado sobre esta questão e organizado da seguinte maneira. Num primeiro momento, ele nos diz que temos uma bússola muito clara que é a bússola da natureza, uma bússola cósmica, onde cada um tinha o seu lugar já pré-determinado: homens aqui, mulheres aqui, crianças ali, senhores ali, escravos lá, e assim por diante. De modo que as pessoas deviam somente se adequar a esta posição. Uma ética cósmica, onde nós não precisávamos duvidar, devíamos simplesmente nos adequar. Essa seria a primeira. A segunda, por outro lado, corrige um defeito da primeira no sentido de que faz com que todo mundo passe a ser igual. Que todos passem a ser iguais frente a um Deus. Saímos então de uma ética cósmica e entramos numa ética religiosa. Somos agora todos iguais frente à primeira, que seria a socrática. Somos todos iguais frente a um ser além de nós, que nos transcende. Essa ética dura bastante tempo, até fim do séc. XVII e início do séc. XVIII, com o iluminismo, onde ela vem substituída pela ética da razão. Sai Deus, onde estava Deus entra a razão. Finalmente, chegamos ao século passado, o século da desconstrução. Nada fica de pé. Nietzsche, Marx, Freud, Lacan desconstroem todas as possibilidades de amarrações para o ser humano. Nós ficamos sem caminhos, ficamos como dizia agora a pouco, como que desbussolados. E nesse momento, o que fazer? Nesse momento há um desespero enorme em nossa sociedade em setores que num primeiro instante acharam ótima essa liberdade e começam a ficar profundamente angustiados; vivemos um retrocesso em nossa sociedade. Encontramos livros de autoajuda a cada esquina; vemos neo-religiões dando respostas ultrapassadas a questões novas; e é necessário pois fazer essa discussão que estamos fazendo agora. O que é que propõe, enfim, nosso pensador Luc Ferry em seus livros? Ele propõe um novo humanismo. Um novo humanismo. Ele acha que nós temos que reinventar um humanismo, aquele humanismo do séc. XVIII. Não que tenhamos agora que sacralizar a razão, mas o próprio homem. Nós não morremos mais pela ideia de nação, nós não morremos mais pela ideia de Revolução, nós não morremos mais pela ideia de um Deus. Nem religião, nem guerra, nem revolução. Nós podemos, sim, nos sacrificar por um outro homem. A palavra sacrificar está na base do sagrado. A sacralização atual do próprio homem. E propõe, portanto, uma espiritualidade laica. E não é verdade que nós estejamos totalmente perdidos, que não há nada em nós além de nós. Há alguma coisa além. Há uma transcendência da nossa imanência. Aparentemente não cabe, mas se nós pensarmos, quanto mais íntimos nós formos de nós mesmos, quanto mais próximos de nós mesmos nós estivermos, mas estranhos nós vamos nos ver. Lacan chamava isso de extimo. Talvez, se fossemos honestos mesmos conosco, não diríamos nunca o meu íntimo, mas vez por outra seria melhor dizermos o meu extimo. E esse meu extimo só ganha sentido no confronto com o outro. Ou seja, na base última da imanência eu me encontro com algo além de mim que é essa parte mesma de mim por mim desconhecida em outro, razão que a gente se reúne, que a gente conversa, que a gente discute como está fazendo agora.

Compilado pelo Prof. Jackislandy Meira de M. Silva.
Muito interessante o olhar do Prof. Jorge Forbes sobre os problemas da atualidade que são revistos por uma nova filosofia humanista de Luc Ferry a partir da ideia chave de sacrifício/sagrado.

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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

RESUMO DA FILOSOFIA HUMANISTA DE LUC FERRY


Por Jorge Forbes in Café Filosófico CPFL Especial Fronteiras do Pensamento CPFL Cultura
 
Estamos vivendo momentos fortes de mudanças. Todos estão sendo afetados. São mudanças que tocam do nascimento à morte. São mudanças do nascimento à morte. São mudanças do nascimento quando estamos numa época da engenharia genética e temos questões éticas sérias para discutir sobre, por exemplo, o selecionamento de embriões. São mudanças na educação; os professores estão desesperados, a disciplina não funciona mais, os ideais até pouco tempo atrás; vamos estudar, fazer um vestibular, entrar numa faculdade também não é animador, não são animadores esses ideais para os estudantes.
Nós estamos vivendo transformações importantes no amor. Transformações fundamentais. As pessoas, hoje em dia, não têm mais nenhuma razão para estarem juntas se não quiserem estar juntas. Não dá para explicar se você está com alguém porque prometeu ao pai daquela pessoa; porque senão sua parceira ou seu parceiro vão educar mal o seu filho; porque você jurou no leito de morte pro seu sogro ou pro seu pai que ficaria com aquela pessoa até o final de sua vida. Quem reclama de manhã com quem está é porque é uma forma de declarar amor como outra qualquer. Eu detesto você; você também me detesta, muito bem, bom dia e prossigamos.
Nós temos mudanças importantes no trabalho. Nos contaram que a gente ia se aposentar aos 50, 60 anos de idade, mas é mentira. A gente vai viver agora mais 40 anos e ninguém mais vai poder se aposentar nesta idade. Quando a gente acha que chegou no auge, nós temos mais quarenta anos pela frente. Nós temos um bando de adolescentes cinquentão perdidos por aí sem saber o que fazer, como reinventar a sua vida. Faz parte também das transformações atuais. E nós temos, hoje em dia, controles que fazem, muitas vezes, esticar o momento da morte, colocando sérios problemas para as pessoas, para suas famílias. Até onde nós devemos deixar que a tecnologia aja sobre os nossos corpos, às vezes, fazendo uma vida infinita que de sã consciência ninguém gostaria de ter. Enfim, tudo isso faz com que nós estejamos sem bússola, estejamos desbussolados no séc. XXI.
Como dar uma nova bússola a este mundo? De que maneira interessou e muito o pensamento de Luc Ferry sobre uma nova ordem para o pensamento humano? Luc Ferry parte de uma ética e filosofia humanistas. Ele tem feito a clínica, isto é, ele tem se debruçado sobre esta questão e organizado da seguinte maneira. Num primeiro momento, ele nos diz que temos uma bússola muito clara que é a bússola da natureza, uma bússola cósmica, onde cada um tinha o seu lugar já pré-determinado: homens aqui, mulheres aqui, crianças ali, senhores ali, escravos lá, e assim por diante. De modo que as pessoas deviam somente se adequar a esta posição. Uma ética cósmica, onde nós não precisávamos duvidar, devíamos simplesmente nos adequar. Essa seria a primeira. A segunda, por outro lado, corrige um defeito da primeira no sentido de que faz com que todo mundo passe a ser igual. Que todos passem a ser iguais frente a um Deus. Saímos então de uma ética cósmica e entramos numa ética religiosa. Somos agora todos iguais frente à primeira, que seria a socrática. Somos todos iguais frente a um ser além de nós, que nos transcende. Essa ética dura bastante tempo, até fim do séc. XVII e início do séc. XVIII, com o iluminismo, onde ela vem substituída pela ética da razão. Sai Deus, onde estava Deus entra a razão. Finalmente, chegamos ao século passado, o século da desconstrução. Nada fica de pé. Nietzsche, Marx, Freud, Lacan desconstroem todas as possibilidades de amarrações para o ser humano. Nós ficamos sem caminhos, ficamos como dizia agora a pouco, como que desbussolados. E nesse momento, o que fazer? Nesse momento há um desespero enorme em nossa sociedade em setores que num primeiro instante acharam ótima essa liberdade e começam a ficar profundamente angustiados; vivemos um retrocesso em nossa sociedade. Encontramos livros de autoajuda a cada esquina; vemos neo-religiões dando respostas ultrapassadas a questões novas; e é necessário pois fazer essa discussão que estamos fazendo agora. O que é que propõe, enfim, nosso pensador Luc Ferry em seus livros? Ele propõe um novo humanismo. Um novo humanismo. Ele acha que nós temos que reinventar um humanismo, aquele humanismo do séc. XVIII. Não que tenhamos agora que sacralizar a razão, mas o próprio homem. Nós não morremos mais pela ideia de nação, nós não morremos mais pela ideia de Revolução, nós não morremos mais pela ideia de um Deus. Nem religião, nem guerra, nem revolução. Nós podemos, sim, nos sacrificar por um outro homem. A palavra sacrificar está na base do sagrado. A sacralização atual do próprio homem. E propõe, portanto, uma espiritualidade laica. E não é verdade que nós estejamos totalmente perdidos, que não há nada em nós além de nós. Há alguma coisa além. Há uma transcendência da nossa imanência. Aparentemente não cabe, mas se nós pensarmos, quanto mais íntimos nós formos de nós mesmos, quanto mais próximos de nós mesmos nós estivermos, mas estranhos nós vamos nos ver. Lacan chamava isso de extimo. Talvez, se fossemos honestos mesmos conosco, não diríamos nunca o meu íntimo, mas vez por outra seria melhor dizermos o meu extimo. E esse meu extimo só ganha sentido no confronto com o outro. Ou seja, na base última da imanência eu me encontro com algo além de mim que é essa parte mesma de mim por mim desconhecida em outro, razão que a gente se reúne, que a gente conversa, que a gente discute como está fazendo agora.

Compilado pelo Prof. Jackislandy Meira de M. Silva.
Muito interessante o olhar do Prof. Jorge Forbes sobre os problemas da atualidade que são revistos por uma nova filosofia humanista de Luc Ferry a partir da ideia chave de sacrifício/sagrado.

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