"Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você"(Sartre)

domingo, 8 de janeiro de 2012

Tudo começou na Grécia e tudo acabará na Grécia?(Leonardo Boff)

Nossa civilização ocidental hoje mundializada tem sua origem histórica na Grécia do século VI antes de nossa era. Ruira o mundo do mito e da religião que era o eixo organizador da sociedade. Para pôr ordem àquele momento crítico fez-se, num lapso de pouco mais de 50 anos, uma das maiores criações intelectuais da humanidade. Surgiu a era da razão critica que se expressou pela filosofia, pela política, pela democracia, pelo teatro, pela poesia e pela estética. Figuras exponenciais foram Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas que gestaram a arquitetônica do saber, subjacente ao nosso paradigma civilizacional: foi Péricles como governante à frente da democracia; foi Fídias da estética elegante; foram os grandes autores das tragédias como Sófocles, Eurípides e Ésquilo; foram os jogos olímpicos e outras manifestações culturais que não cabe aqui referir.
Esse paradigma se caracteriza pelo predomínio da razão que deixou para trás a percepção do Todo, o sentido da unidade da realidade que caracterizava os pensadores chamados pré-socráticos, os portadores do pensamento originário. Agora se introduzem os famosos dualismos: mundo-Deus, homem-natureza, razão-sensibilidade, teoria-prática. A razão criou a metafísica que na compreensão de Heidegger faz de tudo objeto e se instaura como instância de poder sobre este objeto. O ser humano deixa de se sentir parte da natureza para se confrontar com ela e submetê-la ao projeto de sua vontade.
Este paradigma ganhou sua expressão acabada mil anos depois, no século XVI, com os fundadores do paradigma moderno, Descartes, Newton, Bacon e outros. Com eles se consagrou a cosmovisão mecanicista e dualista: a natureza de um lado e o ser humano de outro de frente e encima dela como seu “mestre e dono”(Descartes) e coroa da criação em função do qual tudo existe. Elaborou-se o ideal do progresso ilimitado que supõe a dominação da natureza, no pressuposto de que esse progresso poderia caminhar infinitamente na direção do futuro. Nos últimos decênios a cobiça de acumular transformou tudo em mercadoria a ser negociada e consumida. Esquecemos que os bens e serviços da natureza são para todos e não podem ser apropriados apenas por alguns.
Depois de quatro séculos de vigência desta metafísica, quer dizer, deste modo de ser e de ver, verificamos que a natureza teve que pagar um preço alto para custear esse modelo de crescimento/desenvolvimento. Agora tocamos nos limites de sua possibilidades. A civilização técnico-científica chegou a um ponto em que ela pode por fim a si mesma, degradar profundamente a natureza, eliminar grande parte do sistema-vida e, eventualmente, erradicar a espécie humana. Seria a realização de um armgedon ecológico-social.
Tudo começou há milênios na Grécia. E agora parece terminar na Grécia, uma das primeiras vitimas do horror econômico, cujos banqueiros, para salvar seus ganhos, lançaram toda uma sociedade no desespero. Chegou à Irlanda, a Portugal, à Itália, podendo-se se estender à Espanha e à França e, quiçá, a todo o sistema mundial.
Estamos assistindo a agonia de um paradigma milenar que está, parece, encerrando sua trajetória histórica. Pode demorar ainda dezenas de anos, como um moribundo que resiste, mas o fim é previsível. Com seus recursos internos não tem condições de se reproduzir.
Temos que encontrar outro tipo de relação para com a natureza, outra forma de produzir e de consumir, desenvolvendo um sentido geral de interdependência face à comunidade de vida e de responsabilidade coletiva pelo nosso futuro comum. A não encetarmos esta conversão, ditaremos para nós mesmos o veredito de desaparecimento. Ou nos transformamos ou desapareceremos.
Faço minhas as palavras de Celso Furtado, economista-pensador:”Os homens de minha geração demonstraram que está ao alcance do engenho humano conduzir a humanidade ao suicídio. Espero que a nova geração comprove que também está ao alcance do homem abrir caminho de acesso a um mundo em que prevaleçam a compaixão, a felicidade, a beleza e a solidariedade”. Mas à condição de mudarmos de paradigma.

Leonardo Boff é autor: Opção-Terra. A solução para a Terra não cai do céu, Record, Rio 2009.

0 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais populares da última semana

Manchetes filosóficas

Loading...

Minha lista de blogs

Filosofia, Educação e Política Headline Animator

Filosofia Podcast Headline Animator

Atividade no Facebook

Minhas imagens

Últimas 10 postagens. Vejam:

TEMAS DISCUTIDOS NESTE BLOG...

filosofia (245) educação (203) cultura (197) sociologia (174) política (134) ética (61) futebol (57) Deus (46) florânia (41) diário da copa (35) cidadania (27) teologia (27) natureza (23) artes (20) Bíblia (19) Cristo (19) Platão (19) Nietzsche (17) férias (15) sócrates (15) Lévinas (14) Religião (14) Luiz Felipe Pondé (13) poesia (13) (12) Aristóteles (11) alteridade (11) amor (11) ecologia (11) justiça (11) Heidegger (9) liberdade (9) vida (9) Pedagogia (8) Foucault (7) literatura (7) Brasil (6) Kant (6) economia (6) simpsons (6) Jesus (5) família (5) Heráclito (4) Marx (4) Tomás (4) valores (4) Adorno (3) Chauí (3) Deleuze (3) Rousseau (3) Schopenhauer (3) Spinoza (3) Sören Kierkegaard (3) dialética (3) livro (3) tecnologia (3) Descartes (2) Existencialismo (2) Filosofia da existência (2) Luc Ferry (2) Mircea Eliade (2) Saramago (2) Zizek (2) felicidade (2) ideologia (2) juventude (2) libertadores (2) tempo (2) verdade (2) Adoniran (1) Agostinho (1) Anselmo (1) Bacon (1) Beethoven (1) Demócrito (1) Diógenes (1) Dostoievski (1) Edgar Morin (1) Einstein (1) Emily (1) Empédocles (1) Epicuro (1) Freud (1) Gadamer (1) Haiti (1) Homero (1) Hume (1) Jaeger (1) Kepler (1) Lincoln (1) Lobato (1) Locke (1) Louvor (1) Lévi-Strauss (1) Mary Schmich (1) Newton (1) Parmênides (1) Proust (1) Racine (1) Rorty (1) Sartre (1) Senhor (1) Sólon (1) Terêncio (1) Weber (1) administração (1) ciência (1) criança (1) curiosidade (1) física (1) gestão (1) homem (1) ideia (1) mito (1) moral (1) morte (1) música (1) nada (1) pedofilia (1) santos (1) seleção (1) vontade (1)