"Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você"(Sartre)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A filosofia em "Asas do Desejo"


Um diálogo dramático e extremamente existencialista do filme “Asas do Desejo”

  • Então?
  • Nascer do Sol 7h22min; Por do Sol 16h28min; Nascer da Lua 19h04min; Por da Lua; Nível das águas do Havel e do Spree... Há vinte anos um caça soviético despenhou-se no lago Stössen... Há 50 anos foram as olimpíadas. Há 200 anos, Nicolas François Blanchard sobrevoou a cidade num balão de ar quente. Os fugitivos fizeram o mesmo no outro dia.
  • E hoje... Um homem caminhava pela Lilienthaler Chaussée e olhou para o vago por cima do ombro.
  • Hoje, na estação de correios 44, um homem que vai por fim à vida, colou selos especiais nas suas cartas de despedida; um em cada. Depois cá fora falou inglês com um soldado americano pela primeira vez desde os tempos da escola, e fluentemente. Na prisão de Plötzensee, um preso, antes de ir de contra a parede, disse “Agora!”. Na estação de Metro do Zoo, o funcionário, em vez do nome da estação gritou “Terra do fogo”.
  • Bonito.
  • Nas montanhas de Reh um velho lia a Odisseia a uma criança. O pequeno escutava-o atentamente. E tu, que tens para contar?
  • Uma transeunte fechou o chapéu de chuva e ficou encharcada. Um aluno descreveu ao professor como brota um feto da terra, e este ficou espantado. Uma cega tacteou o relógio quando me sentiu. É fantástico viver espiritualmente, o que há de puro, de espiritual nas pessoas. Mas às vezes farto-me desta eterna existência de espírito. Nessas alturas gostaria de não pairar eternamente. Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à terra. A cada passo ou a cada golpe de vento gostaria de poder dizer: “Agora, agora, agora” e não “desde sempre” e “para todo o sempre”. Sentar-me à mesa e jogar às cartas, ser cumprimentado, nem que seja só com um aceno. Sempre que o fizemos, foi a fingir. Fingimos que numa luta de boxe deslocávamos uma anca. Fingimos que nos sentamos numa mesa a comer e a beber, que nos serviam borrego assado e vinho, nas tendas no deserto. Era tudo a fingir. Eu não quero gerar um filho, nem plantar uma árvore, mas seria bem agradável chegar em casa cansado e dar de comer ao gato, como Philipp Marlow. Ter febre, ficar com os dedos sujos de ter lido o jornal... Não me entusiasmar só com coisas do espírito, mas com uma refeição, a curva de uma nuca, uma orelha. Mentir à descarada. Ao andar, sentir o esqueleto mexer-se a cada passo. Poder dizer “ah”, “oh”, “ai” em vez de “sim” e “amém”. Poder, ao menos uma vez, entusiasmar-me com o mal. Extrair todos os demônios da Terra, dos que por nós passam, e afugentá-los para bem longe. Ser selvagem. Ou experimentar o que se sente quando se tiram os sapatos debaixo da mesa e se estendem os dedos descalços. Assim. Ficar só. Deixar correr. Ficar sério.
  • Só se pode ser feroz na medida em que se fica sério. Não fazer senão olhar, reunir, testemunhar, preservar. Continuar espírito. Manter a distância, a palavra.


Nada mal para quem precisa de uma sacudida de existência. Uma verdadeira lição de Filosofia da Existência!

Transcrito pelo Professor Jackislandy Meira de M. Silva


0 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais populares da última semana

Manchetes filosóficas

Loading...

Minha lista de blogs

Filosofia, Educação e Política Headline Animator

Filosofia Podcast Headline Animator

Atividade no Facebook

Minhas imagens

Últimas 10 postagens. Vejam:

TEMAS DISCUTIDOS NESTE BLOG...

filosofia (247) educação (205) cultura (198) sociologia (178) política (137) ética (61) futebol (57) Deus (46) florânia (41) diário da copa (35) cidadania (29) teologia (27) natureza (23) artes (20) Bíblia (19) Cristo (19) Platão (19) Nietzsche (17) férias (15) sócrates (15) Lévinas (14) Religião (14) Luiz Felipe Pondé (13) poesia (13) (12) Aristóteles (11) alteridade (11) amor (11) ecologia (11) justiça (11) Heidegger (9) liberdade (9) vida (9) Pedagogia (8) Foucault (7) literatura (7) Brasil (6) Kant (6) economia (6) simpsons (6) Jesus (5) família (5) Heráclito (4) Marx (4) Tomás (4) valores (4) Adorno (3) Chauí (3) Deleuze (3) Rousseau (3) Schopenhauer (3) Spinoza (3) Sören Kierkegaard (3) dialética (3) livro (3) tecnologia (3) Descartes (2) Existencialismo (2) Filosofia da existência (2) Luc Ferry (2) Mircea Eliade (2) Saramago (2) Zizek (2) felicidade (2) ideologia (2) juventude (2) libertadores (2) música (2) tempo (2) verdade (2) Adoniran (1) Agostinho (1) Anselmo (1) Bacon (1) Beethoven (1) Demócrito (1) Diógenes (1) Dostoievski (1) Edgar Morin (1) Einstein (1) Emily (1) Empédocles (1) Epicuro (1) Freud (1) Gadamer (1) Haiti (1) Homero (1) Hume (1) Jaeger (1) Kepler (1) Lincoln (1) Lobato (1) Locke (1) Louvor (1) Lévi-Strauss (1) Mary Schmich (1) Newton (1) Parmênides (1) Proust (1) Racine (1) Rorty (1) Sartre (1) Senhor (1) Sólon (1) Terêncio (1) Weber (1) administração (1) ciência (1) criança (1) curiosidade (1) física (1) gestão (1) homem (1) ideia (1) mito (1) moral (1) morte (1) nada (1) pedofilia (1) santos (1) seleção (1) vontade (1)