sexta-feira, 15 de março de 2013

Bigelow na linha de sombra



Vejo você escrevendo em seu gabinete. Você mora num bairro de classe média alta de São Paulo. Pessoa sofisticada, você tem aquele sentimento que os outros são menos inteligentes do que você, sem deixar ninguém perceber porque está treinado a fingir modéstia.
Agora, imagine que você toma vinho, dá aulas e vê o olhar apaixonado das alunas brilhando ou o olhar convertido dos alunos acreditando piamente nos absurdos que você fala. Mas você fala apenas absurdos simpáticos à sua própria vaidade ou à vaidade de quem ouve você. Quando ouvimos você falar ou lemos o que você escreve, temos certeza de que você é “ético”.
A razão para existir esses intelectuais “para um mundo melhor” é fazer o mundo servir à vaidade deles e de quem se acha tão “ético” quanto eles. A ética é a baixa escolástica contemporânea: todo mundo fala, mas todos sabem que é “papo furado”. Dizer-se ético é “self-marketing”.
Você viaja a Paris ou a destinos semelhantes e frequenta universidades, galerias de arte, concertos de música erudita (desculpe, sei que a palavra “erudita” trai meu preconceito contra músicas horrorosas “do povo”). Você recebe inclusive financiamentos públicos para algumas dessas viagens e para escrever livros. E, com isso, espalha pelo mundo as ideias delirantes que tem em seu gabinete.
Basicamente, essas ideias se caracterizam por não terem nada a ver com a realidade, mas portam aquele tipo de aparência que encanta: você é a favor de um mundo melhor e condena todo mundo que sabe que você mente.
Projetando a imagem de um coração puro indignado com a injustiça no mundo, às vezes você até esquece que, talvez, esteja processando alguém da família por um quarto e sala na Praia Grande ou em Higienópolis. Ou que trama contra inimigos ideológicos ou institucionais. Claro, este fato concreto nada tem a ver com suas firmes ideias de que, se o mundo fosse como você acha, todos seriam felizes e não seriam necessários Exércitos, polícia, advogados, e, principalmente, pessoas que discordam de você.
As guerras acabariam, porque, óbvio, elas existem desde sempre apenas porque você ainda não tinha nascido no passado para iluminar a todos com sua “boa nova”. Ou, quem sabe, conseguiria calar a todos que não acreditam em você, aliás, como acontece normalmente com mimados e vaidosos como você.
Sim, vi o filme “A Hora Mais Escura”, de Kathryn Bigelow. Brilhante. Há muito que desconfio que o cinema americano depende de cineastas mulheres para sobreviver à pobreza de espírito, pois grande parte dos homens ficou covarde.
O filme mostra tudo que existe para você e eu tomarmos vinho e viajarmos a Paris sem sermos explodidos por aí. Quem acha que o filme louva os “métodos” da CIA é porque não ainda atravessou aquela “linha de sombra” da qual faz referência o escritor Joseph Conrad: a linha que separa a infância da maturidade, ou, diria eu, que separa a vaidade da verdade.
O filme trata de pessoas que vivem na escuridão e com as mãos sujas, enquanto você posa de limpinho. Compare este filme com o “Munique”, de Steven Spielberg. “Munique” narra um suposto plano para matar os terroristas envolvidos na chacina dos atletas israelenses nas Olimpíadas alemãs.
Spielberg é um dos cineastas frouxos dos quais esperamos que Bigelow nos salve.
Em “Munique” o protagonista (líder do grupo) tem uma crise de consciência ao final e abandona “o barco” da espionagem israelense, se refugiando em Nova York. Muito típico de gente como você.
Compare esse final com o final da protagonista de “A Hora Mais Escura” (a ruiva deliciosa Jessica Chastain). Sozinha, “the girl” (como seus colegas da CIA se referem a ela ao longo do filme) tem um avião só pra ela. O piloto do avião militar diz: “Você deve ser importante para mandarem um avião só pra você! Disseram para levar você para onde você quiser. Onde você quer ir?”. Nossa deliciosa heroína não responde. Olha o vazio e derrama duas lágrimas. Um rosto sem vaidade.
Um filme para gente grande que sabe que o vinho nosso de cada dia custa mais do que o preço que pagamos.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 11.03.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI

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sexta-feira, 15 de março de 2013

Bigelow na linha de sombra



Vejo você escrevendo em seu gabinete. Você mora num bairro de classe média alta de São Paulo. Pessoa sofisticada, você tem aquele sentimento que os outros são menos inteligentes do que você, sem deixar ninguém perceber porque está treinado a fingir modéstia.
Agora, imagine que você toma vinho, dá aulas e vê o olhar apaixonado das alunas brilhando ou o olhar convertido dos alunos acreditando piamente nos absurdos que você fala. Mas você fala apenas absurdos simpáticos à sua própria vaidade ou à vaidade de quem ouve você. Quando ouvimos você falar ou lemos o que você escreve, temos certeza de que você é “ético”.
A razão para existir esses intelectuais “para um mundo melhor” é fazer o mundo servir à vaidade deles e de quem se acha tão “ético” quanto eles. A ética é a baixa escolástica contemporânea: todo mundo fala, mas todos sabem que é “papo furado”. Dizer-se ético é “self-marketing”.
Você viaja a Paris ou a destinos semelhantes e frequenta universidades, galerias de arte, concertos de música erudita (desculpe, sei que a palavra “erudita” trai meu preconceito contra músicas horrorosas “do povo”). Você recebe inclusive financiamentos públicos para algumas dessas viagens e para escrever livros. E, com isso, espalha pelo mundo as ideias delirantes que tem em seu gabinete.
Basicamente, essas ideias se caracterizam por não terem nada a ver com a realidade, mas portam aquele tipo de aparência que encanta: você é a favor de um mundo melhor e condena todo mundo que sabe que você mente.
Projetando a imagem de um coração puro indignado com a injustiça no mundo, às vezes você até esquece que, talvez, esteja processando alguém da família por um quarto e sala na Praia Grande ou em Higienópolis. Ou que trama contra inimigos ideológicos ou institucionais. Claro, este fato concreto nada tem a ver com suas firmes ideias de que, se o mundo fosse como você acha, todos seriam felizes e não seriam necessários Exércitos, polícia, advogados, e, principalmente, pessoas que discordam de você.
As guerras acabariam, porque, óbvio, elas existem desde sempre apenas porque você ainda não tinha nascido no passado para iluminar a todos com sua “boa nova”. Ou, quem sabe, conseguiria calar a todos que não acreditam em você, aliás, como acontece normalmente com mimados e vaidosos como você.
Sim, vi o filme “A Hora Mais Escura”, de Kathryn Bigelow. Brilhante. Há muito que desconfio que o cinema americano depende de cineastas mulheres para sobreviver à pobreza de espírito, pois grande parte dos homens ficou covarde.
O filme mostra tudo que existe para você e eu tomarmos vinho e viajarmos a Paris sem sermos explodidos por aí. Quem acha que o filme louva os “métodos” da CIA é porque não ainda atravessou aquela “linha de sombra” da qual faz referência o escritor Joseph Conrad: a linha que separa a infância da maturidade, ou, diria eu, que separa a vaidade da verdade.
O filme trata de pessoas que vivem na escuridão e com as mãos sujas, enquanto você posa de limpinho. Compare este filme com o “Munique”, de Steven Spielberg. “Munique” narra um suposto plano para matar os terroristas envolvidos na chacina dos atletas israelenses nas Olimpíadas alemãs.
Spielberg é um dos cineastas frouxos dos quais esperamos que Bigelow nos salve.
Em “Munique” o protagonista (líder do grupo) tem uma crise de consciência ao final e abandona “o barco” da espionagem israelense, se refugiando em Nova York. Muito típico de gente como você.
Compare esse final com o final da protagonista de “A Hora Mais Escura” (a ruiva deliciosa Jessica Chastain). Sozinha, “the girl” (como seus colegas da CIA se referem a ela ao longo do filme) tem um avião só pra ela. O piloto do avião militar diz: “Você deve ser importante para mandarem um avião só pra você! Disseram para levar você para onde você quiser. Onde você quer ir?”. Nossa deliciosa heroína não responde. Olha o vazio e derrama duas lágrimas. Um rosto sem vaidade.
Um filme para gente grande que sabe que o vinho nosso de cada dia custa mais do que o preço que pagamos.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 11.03.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI

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