sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A fascinação do estrangeiro


(obra de arte de Salvador Dalí – Metamorfose de Narciso - 1937)
Pasmem. Mas o estrangeiro acrescenta e muito ao nosso “território” cultural, ao nosso eu cultural. Acrescenta em diálogo, em conhecimento e em aprendizagem. Sem muito esforço, conseguimos, logo de cara, perceber que se trata de alguém bastante diferente de nós.
Nesse ponto, não há como não evocar e provocar Lévinas, filósofo lituano, que nos diz algo mais ou menos assim: “Com o estrangeiro nos permitimos sair do mesmo em direção ao outro”. Se no pensamento de Lévinas é sempre o outro quem tem autonomia, o que dizer então do estrangeiro?!
Na cultura greco-romana, o estrangeiro era, de certo modo, repudiado, visto como inimigo, pronto para guerrear, sua presença era uma ameaça ao poder estabelecido naquele território. O império romano não tolerava os bárbaros, os excluía e os ameaçava a qualquer custo. Os bárbaros não representavam nada para os que detinham a hegemonia cultural. No entanto, cabe a pergunta: O que representava o Império Romano para os bárbaros?
Seguindo uma direção contrária à expansão dominadora e usurpadora do Império Romano, os cristãos são orientados por Jesus a amar o estrangeiro, bem como a viúva e o órfão, de modo a colocá-lo no centro do seu discurso, no episódio da cura dos dez leprosos: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”(Lc 17.18-19).
Mesmo sendo de outro mundo, falando uma língua diferente, de aparência, às vezes, diferente, de costumes diferentes, de uma visão de mundo estranhamente contrária à nossa, o estrangeiro cria uma atmosfera inteiramente curiosa nos ambientes onde chega e com quem conversa. Quem não lembra da chegada avassaladora do Estrangeiro de Eléia no diálogo platônico Sofista em que Sócrates parece ironizar com ele ao sentir-se bem à vontade no meio deles?! A impressão que se tem é que o Estrangeiro causa um certo “frisson” ao chegar no meio da conversa de Sócrates com seus discípulos. Sem ser um deles, o estrangeiro se faz um deles!
Não sei se essa sensação hoje em dia estaria um pouco minimizada devido ao grande processo de globalização por que passamos. Vivemos tempos de uma enorme aproximação dos mundos, das distâncias e etc. No entanto, não queremos abandonar nossos territórios, nossas coisas, nossas ideias, nossos apegos... Apegamo-nos a nós mesmos. Apegamo-nos muitíssimo às nossas vaidades pessoais. A verdade é que, enquanto nos prendemos a nós mesmos e aos nossos hábitos ao ponto de divinizá-los; um outro ser fascinante chama e continua a chamar por nós pedindo relacionamento, querendo aproximação e descoberta.
Ao revisitar um livro que guarda Grandes Indagações Filosóficas, Café Philo, deparei-me mais uma vez com o texto dialógico entre Paul Ricoeur e Jean Daniel sobre A estranheza do estrangeiro que me impressionou bastante, sobretudo porque trata o estrangeiro com fascinação, mas que poderia ser visto também com aversão. Aproprio-me aqui de um aspecto da sua fascinação, em que o estrangeiro, admite Paul Ricoeur, “é uma espécie de lugar vazio. Sabemos a que pertencemos, mas não sabemos quem são os outros em suas terras. Só por uma espécie de reação é que nos sentimos nós mesmos estrangeiros, conforme o modelo da estranheza do estrangeiro. A consciência disso é que nos põe num caminho de reconhecimento mútuo, na via da hospitalidade em suas dimensões morais e políticas, e permite assim tratar positivamente a pluralidade humana como algo insuperável”(pág. 13).
Mais adiante, numa certa altura das intervenções, Ricoeur reconhece ainda mais nossa condição humana de sermos estrangeiros de nós mesmos. “Acreditamos saber quem somos, ou mais exatamente acreditamos saber a que pertencemos, ali onde estamos instalados: a uma classe, a uma família, a uma nação etc. O estrangeiro é um desconhecido. Ao procurarmos num dicionário a palavra 'estrangeiro', encontramos: aquele que não é de nosso lugar, que é de outra nação, que é de outro país; é, pois, um lugar vazio. É por isso que acho que devemos começar por descobrir nossa própria estranheza nos 'desinstalando' de algum modo. Eu estava pensando um pouco na proposição do Levítico: 'Fostes estrangeiros no Egito...' Se não tivermos sido estrangeiros alhures, temos que descobrir nosso Egito. Nossa 'estrangeireza' simbólica. Ser estrangeiro simbolicamente”(pág. 16).
Reconhecer o estrangeiro na sua singularidade especial, como o fez Jesus, o próprio Lévinas, bem como Paul Ricoeur e Jean Daniel, significa superar a nós mesmos, partir de nosso “status quo”, de nossa zona de conforto e ir migrar, senão visitar ou até mesmo morar em outros mundos, em outras pessoas, em outras experiências. Que se trave, portanto, uma relação amistosa de hospitalidade com o outro, em que ambos se recebam mutuamente, de modo que nada os impeça de ampliar ainda mais suas diferenças culturais.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia e Especialista em Metafísica
Páginas na net:

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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A fascinação do estrangeiro


(obra de arte de Salvador Dalí – Metamorfose de Narciso - 1937)
Pasmem. Mas o estrangeiro acrescenta e muito ao nosso “território” cultural, ao nosso eu cultural. Acrescenta em diálogo, em conhecimento e em aprendizagem. Sem muito esforço, conseguimos, logo de cara, perceber que se trata de alguém bastante diferente de nós.
Nesse ponto, não há como não evocar e provocar Lévinas, filósofo lituano, que nos diz algo mais ou menos assim: “Com o estrangeiro nos permitimos sair do mesmo em direção ao outro”. Se no pensamento de Lévinas é sempre o outro quem tem autonomia, o que dizer então do estrangeiro?!
Na cultura greco-romana, o estrangeiro era, de certo modo, repudiado, visto como inimigo, pronto para guerrear, sua presença era uma ameaça ao poder estabelecido naquele território. O império romano não tolerava os bárbaros, os excluía e os ameaçava a qualquer custo. Os bárbaros não representavam nada para os que detinham a hegemonia cultural. No entanto, cabe a pergunta: O que representava o Império Romano para os bárbaros?
Seguindo uma direção contrária à expansão dominadora e usurpadora do Império Romano, os cristãos são orientados por Jesus a amar o estrangeiro, bem como a viúva e o órfão, de modo a colocá-lo no centro do seu discurso, no episódio da cura dos dez leprosos: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”(Lc 17.18-19).
Mesmo sendo de outro mundo, falando uma língua diferente, de aparência, às vezes, diferente, de costumes diferentes, de uma visão de mundo estranhamente contrária à nossa, o estrangeiro cria uma atmosfera inteiramente curiosa nos ambientes onde chega e com quem conversa. Quem não lembra da chegada avassaladora do Estrangeiro de Eléia no diálogo platônico Sofista em que Sócrates parece ironizar com ele ao sentir-se bem à vontade no meio deles?! A impressão que se tem é que o Estrangeiro causa um certo “frisson” ao chegar no meio da conversa de Sócrates com seus discípulos. Sem ser um deles, o estrangeiro se faz um deles!
Não sei se essa sensação hoje em dia estaria um pouco minimizada devido ao grande processo de globalização por que passamos. Vivemos tempos de uma enorme aproximação dos mundos, das distâncias e etc. No entanto, não queremos abandonar nossos territórios, nossas coisas, nossas ideias, nossos apegos... Apegamo-nos a nós mesmos. Apegamo-nos muitíssimo às nossas vaidades pessoais. A verdade é que, enquanto nos prendemos a nós mesmos e aos nossos hábitos ao ponto de divinizá-los; um outro ser fascinante chama e continua a chamar por nós pedindo relacionamento, querendo aproximação e descoberta.
Ao revisitar um livro que guarda Grandes Indagações Filosóficas, Café Philo, deparei-me mais uma vez com o texto dialógico entre Paul Ricoeur e Jean Daniel sobre A estranheza do estrangeiro que me impressionou bastante, sobretudo porque trata o estrangeiro com fascinação, mas que poderia ser visto também com aversão. Aproprio-me aqui de um aspecto da sua fascinação, em que o estrangeiro, admite Paul Ricoeur, “é uma espécie de lugar vazio. Sabemos a que pertencemos, mas não sabemos quem são os outros em suas terras. Só por uma espécie de reação é que nos sentimos nós mesmos estrangeiros, conforme o modelo da estranheza do estrangeiro. A consciência disso é que nos põe num caminho de reconhecimento mútuo, na via da hospitalidade em suas dimensões morais e políticas, e permite assim tratar positivamente a pluralidade humana como algo insuperável”(pág. 13).
Mais adiante, numa certa altura das intervenções, Ricoeur reconhece ainda mais nossa condição humana de sermos estrangeiros de nós mesmos. “Acreditamos saber quem somos, ou mais exatamente acreditamos saber a que pertencemos, ali onde estamos instalados: a uma classe, a uma família, a uma nação etc. O estrangeiro é um desconhecido. Ao procurarmos num dicionário a palavra 'estrangeiro', encontramos: aquele que não é de nosso lugar, que é de outra nação, que é de outro país; é, pois, um lugar vazio. É por isso que acho que devemos começar por descobrir nossa própria estranheza nos 'desinstalando' de algum modo. Eu estava pensando um pouco na proposição do Levítico: 'Fostes estrangeiros no Egito...' Se não tivermos sido estrangeiros alhures, temos que descobrir nosso Egito. Nossa 'estrangeireza' simbólica. Ser estrangeiro simbolicamente”(pág. 16).
Reconhecer o estrangeiro na sua singularidade especial, como o fez Jesus, o próprio Lévinas, bem como Paul Ricoeur e Jean Daniel, significa superar a nós mesmos, partir de nosso “status quo”, de nossa zona de conforto e ir migrar, senão visitar ou até mesmo morar em outros mundos, em outras pessoas, em outras experiências. Que se trave, portanto, uma relação amistosa de hospitalidade com o outro, em que ambos se recebam mutuamente, de modo que nada os impeça de ampliar ainda mais suas diferenças culturais.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia e Especialista em Metafísica
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