quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O dia do Mestre( 15 de Outubro)...

Neste dia do Professor, temos a oportunidade de interiorizar sobre a beleza do magistério em nossas vidas. Quer sejamos médicos, filósofos, arquitetos, engenheiros, agrônomos, matemáticos, físicos, químicos, enfim... Todos nós passamos pelas mãos ou pelos olhos de um PROFESSOR, um verdadeiro MESTRE de nossas vidas. No texto em questão faço uma pequena apresentação de qual deve ser a função do mestre a exemplo de Sócrates.
O valor de Sócrates está, sobretudo, no método que ele utiliza para desenvolver a sua Filosofia. Ele baseia tudo sobre um encontro. Encontrando-se com Sócrates, a pessoa encontrava-se com o mestre. A função do mestre não é tanto a de ensinar coisas, mas sobretudo de ajudar a pessoa na descoberta da verdade. O encontro com Sócrates tornava-se possível e mais fácil o encontro com a própria verdade presente em nós. A função do mestre era de facilitar a experiência da verdade. Portanto, o valor de Sócrates se manifesta em dois níveis: no nível do conhecimento da verdade e no nível da responsabilidade moral para com esta própria verdade.
Sócrates suscitava nos seus discípulos, o desejo de descobrir a verdade e de aderir pessoalmente a ela.
O Mestre ensina:
1. Coisas – conhecimentos.
2. A descobrir a verdade que está em ti – o logos(razão).

Sto. Agostinho fala do mestre interior: Magister intus(mestre dentro de si).
É a função mais importante do mestre exterior, descobrir a verdade a partir de si mesmo, aprender a ver o mundo por si mesmo.
Esta verdade está em cada homem, mas eu não posso manipular, e esta é a grande diferença entre os sofistas e Sócrates. Não é para usar o conhecimento ao seu bel prazer e sim usá-la com método, com responsabilidade, isto é, usá-la com dignidade.
Sócrates deixa uma abertura bastante profunda que é a alma. Descobrir melhor o sentido da alma, aprofundar...

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Autárkeia e phýsis em Epicuro de Samos

Do próprio conceito grego de autárkeia afirma-se o lugar do pensamento de Epicuro, na phýsis. A autárkeia é o princípio regente de si mesmo. É o comando do ser em profunda harmonia com a phýsis brotando a realidade do mundo.
O que importa para Epicuro é a vida junto à natureza, pois é a verdadeira realização do ser enquanto uma pequena parte integrada na grande totalidade. Não há partes separadas da totalidade, do mesmo modo como não há totalidade separada das partes. Para se entender a phýsis na sua totalidade, segundo Epicuro, é necessário ir até as partes, voltar ao particular, ao indivíduo. “O estado de ser da natureza leva-nos a refletir sobre o sentido de realização do nosso próprio ser, um microcosmos”( Silva, Markus F. da, Epicuro: sabedoria e jardim, p. 15).
A compreensão do todo da phýsis é simultaneamente a compreensão de si mesmo como princípio que se gera a partir de si mesmo, dando uma unidade fundamental ao mundo, às coisas, aos seres e conseqüentemente a si mesmo.
Sendo a phýsis a própria realidade no seu sentido mais profundo e a physiología o exercício de sua compreensão, a autárkeia é o comando, o regente do ser de acordo com a natureza.
Assim, o ser que não vive em sintonia com a natureza está desvinculado da projeção do saber de Epicuro. Este pensamento ou Filosofia é dinâmico porque está estreitamente ligado a phýsis, haja vista a realização de seu pensar sobre a phýsis a partir do princípio(átomo), dos corpos, mundos e todo.
A realização da phýsis é uma questão elementar porque vem explicitado o princípio de realidade(arché) pelo axioma básico do atomismo, conforme o qual o todo é composto de átomos e vazio. Os átomos são elementos constitutivos de todas as coisas, origem dos corpos compostos e a base do atomismo, cujo princípio é afirmado na Carta a Heródoto: “Primeiramente, nada nasce do nada(não-ser). Se não fosse assim, tudo nasceria de tudo e nada teria necessidade de seu próprio germe”( DL, X, 38, in Silva, idem, p. 27).
Não se tem pretensão alguma de explicitar o caráter complexo dos dados da phýsis em Epicuro, porém procura-se estabelecer um viés, uma abertura que se vincule à teleologia da “vida física”. Parece que uma vida tranqüila e feliz implica numa vida física autêntica, daí a volta constante de Epicuro à realidade original da phýsis, da natureza mesma do indivíduo:“Em suma Epicuro preconiza a volta ao ‘início’ para traçar o caminho que o conduza à sabedoria prática, ou ao cumprimento perfeito da natureza do indivíduo, pelo reconhecimento do saber originário aqui entendido como physiología. Mas para que haja este reconhecimento é preciso compreendermos a phýsis em sua realização e não apenas em sua compreensão”(SILVA, p. 27).
A relação intrínseca phýsis-autárkeia se projeta num crescente a um télos extremamente positivo, no sentido da realização completa de um modo de ser do indivíduo, autárkeia. Alcançando, assim, toda sua intensidade no éthos epicúreo. De fato, o centro da ética de Epicuro é a autárkeia como exercício do sábio que procura viver de acordo com a natureza. Este aspecto terá atenção especial na terceira parte deste estudo.
Segundo a etimologia da palavra, phýsis é o processo de crescimento ou gênese de alguma coisa, e, neste sentido, Epicuro somente a utiliza quando se refere aos corpos compostos e aos mundos. Outro sentido de phýsis é princípio(arché), porque é átomos e vazio; e num último sentido, phýsis é o modo de ser do todo ilimitado.
Há de se admitir também outras afirmações de Epicuro no que diz respeito a phýsis. É o problema da composição dos corpos e das almas, a explicação de que tudo o que existe é formado por átomos que se agregam em composições ou corpos, concebendo assim o axioma básico da physiología epicúrea e possibilitando a análise das estruturas compostas, desde as microestruturas corpóreas, até as macroestruturas dos mundos. Os átomos, portanto, constituem a realidade.
Todavia, como a phýsis é a fonte de todo aprendizado do sophós, do equilíbrio entre o homem e a natureza, faz-se necessário ainda compreender o sentido deste equilíbrio em direção ao bem-estar de seu corpo e, por conseguinte, de sua conduta no mundo.


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Epicuro de Samos e sua Ética.

Busca-se explicitar a ética epicúrea a partir do sentido pleno do exercício da Filosofia como um saber para a vida, ou o equilíbrio próprio do sophós(sábio), que é autárkes, isto é, que tem o princípio da sua ação em si mesmo e, por isso, pode se considerar livre dos tormentos que afetam o comum dos mortais.
Vislumbra-se nesse particular, o modo de realização do télos(fim) do indivíduo, uma vez que o período helenístico da Filosofia antiga caracterizou-se sobretudo pelo deslocamento da problemática ética para o âmbito do indivíduo, onde a orientação para o agir no mundo tem o seu télos(fim) no bem-estar e na autárkeia do indivíduo, que já não deposita suas esperanças numa mudança substancial na ordem política e, por isso, volta-se para si e busca, através da Filosofia, o cuidado de si mesmo.
Epicuro enfoca o seu pensamento ético para o sophós(sábio), que é o modelo do homem feliz, por fazer da sua vida um exercício constante de realização da Filosofia, cujo sentido prático está em evitar os problemas advindos das relações estabelecidas no seio do corpo político, da sociedade de então.
Justifica-se, desse modo, o isolamento de Epicuro não como uma fuga da realidade, mas como uma característica do seu éthos que molda o homem sábio:
“Sua ética se caracteriza, sobretudo, pela autárkeia, isto é, por uma conduta na qual a ação fundada na compreensão da natureza supera a reação que tem por base o constante desgaste do indivíduo, que perdeu o domínio de si e vive a impossibilidade de criar o seu modo de vida segundo o que é natural e necessário. O afastamento do sophós em relação à insensatez das normas e valores cultivados em sociedade é, para Epicuro, o caminho para o exercício de um modo de vida autárquico”( SILVA, Markus Figueira da. Epicuro: sabedoria e jardim. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 18).
O homem sábio se constitui como aquele que não vive na polis porque o pressuposto para a política é eminentemente ético. O seu éthos equivale a sua phýsis, pois são uma realidade só.
O equilíbrio então se mostra como sentido para a vida a partir da compreensão da natureza(physiología) e do modo de ser phýsis.Essa é uma das questões centrais do pensar epicúreo devido o sábio alcançar a plenitude no agir, o equilíbrio, a medida, tendo em si mesmo o princípio dessas ações. A ele cabe escolher o que lhe aprouver e recusar o que destoa da medida equilibrada que expressa o seu bem-estar.
Assim, o sophós é autárkes porque age a partir de si mesmo. A autárkeia consiste na implicação da compreensão do sentido de liberdade(eleuthería) que a justifica e ao mesmo tempo a fundamenta.Autárkeia é uma qualidade de quem se basta a si mesmo. Daí, o viver em equilíbrio não depende senão do modo como o homem vivencia a sua situação real de existir independente de qualquer outro “poder” que transcenda a sua dynamis de ação, desde que esse “poder” possa ser permitido ou evitado.
A autárkeia é a expressão da vida tornada independente das necessidades que a negam e a fazem re-agir ou sofrer.
Contudo, eis o grande prazer da sabedoria quando se expressa os ideais da ataraxía, da aponía, da eustatheía e da philía; quando aquele que goza a serenidade de uma vida filosófica, obtém o máximo de prazer em todas as ações refletidas, ao mesmo tempo que se livra de atender às necessidades não naturais.
O propósito maior do comportamento do sábio se define como viver de acordo com a natureza e se expressa pela autárkeia, o modelo de ação que caracteriza o modo de vida do sábio.
Tal propósito passa por um exercício que é a efetivação da sua compreensão da phýsis mediante o dimensionamento da sua conduta no mundo-realidade. Este exercício é ainda a definição da Filosofia enquanto um saber para a vida: “techné tis perì tón bíon”, afirmado por Epicuro.
Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Professor e Filósofo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Quem não merece seu voto.



Como Professor e filósofo, é de minha inteira responsabilidade, querer conscientizar ou sensibilizar as pessoas com quem convivo, bem como os leitores desta coluna, os amigos e eleitores de um modo geral, para a necessidade de se votar bem, uma vez que se aproxima o pleito eleitoral em todos os municípios deste país.
Entendo que há “n” razões para você, caro cidadão, confirmar a sua escolha no dia 05 de outubro de 2008. Todavia, elencarei aqui alguns conhecimentos de causa que farão você jogar luzes sobre o seu precioso voto.
De sorte, não merece o seu voto quem, de fato, carece de educação, princípios e bons costumes, capaz de envergonhar seus conterrâneos; Quem jamais prestou serviço a sua comunidade; Quem não é admirado até pelos próprios familiares; Quem não honra a política pela persuasão e pelo direito de todos, mas por herança genética; Quem se omite frente aos problemas levantados pelo povo; Quem não tem propostas concretas e objetivas para os cidadãos se sentirem felizes no lugar onde nasceram e continuam a viver; Quem não tem compromisso para com as propostas de governo; Quem não admite humildade diante da complexa responsabilidade de administrar a coisa pública; Quem não conhece o próprio lugar e o povo com o qual vai gerir; Quem oferece promessas gigantescas para o povo engolir a seco; Quem não está nem aí para com a verdade; Quem subestima a inteligência do eleitor com mentiras descabidas; Quem não respeita nossos ouvidos e nossa dignidade ao subir num palanque para discursar; Quem não se preocupa com a ÉTICA; Quem apenas brinca de ser político; Quem não vê na política uma oportunidade e, sim um fim, para tentar resolver boa parte dos problemas que afligem a qualidade de vida das pessoas; enfim...
Quem não merece seu voto? Pergunte-se, você mesmo, e tire suas próprias conclusões. Quem procura nos enganar e quem é cúmplice da verdade e do trabalho?
Notadamente, os compromissos com a verdade e com o trabalho devem acompanhar o seu voto, meu caro eleitor, eleitora que lêem minha coluna e acompanham as reflexões acerca da política.
Agora, passem a ler um texto que merece a nossa atenção, “O analfabeto político” do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht:
“O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa
dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil
que da sua ignorância política
nascem a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais.”


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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domingo, 24 de agosto de 2008

A política e suas circunstâncias

A política está mergulhada nas contingências das massas em todos os tempos e lugares da história. Até mesmo na Grécia, na velha Hélade onde tudo começou, o poder era demasiadamente volátil, tão passageiro, artificial, fugaz e abstrato como o é hoje em dia.
Tanto é que se herdava a autoridade política não por lei, não por direito constituído devido à cidadania, não pelo voto direto e participativo, mas por caprichos de alguns e por privilégios de uma pequena parte da população ateniense que detinha o poder nas mãos em detrimento da vontade alheia dos escravos, das mulheres, dos camponeses, dos artesãos e de outros menos favorecidos.
O poder de administrar um “genos”, uma colônia, uma província era o mesmo que assumir uma cooperativa, uma associação de bairro, um grupo de jovens ou o poder de uma família, baseado em muita liderança, domínio público e persuasão. O que não acontecia ao administrar uma Cidade Estado do nível de Atenas, onde o poder era transmitido, passado, transferido de Pai para filho, de Oligarquia para Oligarquia e, diga-se de passagem, geneticamente. Não era algo conquistado a duras penas, infelizmente. No entanto, as circunstâncias eram outras, bastante diferentes das de hoje.
A Idade Média fora marcada pela união entre Igreja e Estado possibilitando a centralização dos interesses políticos, econômicos e sociais por mil anos. Estava nas mãos da Igreja, dos clérigos, dos episcopos e de outras autoridades eclesiásticas a direção tempo/espaço da política Ocidental. Este sim fora um período em que as circunstâncias políticas nada tinham de favoráveis à Democracia e à participação popular na escolha de seus possíveis representantes.
As circunstâncias da modernidade em relação à política estão arraigadas aos valores de suas oligarquias, de suas famílias, de seus “genos”. Estas, por sua vez, sentem-se no “status quo” da arte política, no sentido de somente elas terem condições genéticas para fazer política. Daí, cabe-nos aqui intrigantes perguntas: “Para se fazer política é necessário herdar tais condições?”; “As Oligarquias predominam?”; Os “Maias” e os “Alves” ainda resistem às circunstâncias modernas da política, sobretudo aqui no RN?; “Qual é a Tua, Candidato?”; “És um representante do povo ou de uma família apenas?”.
Na política atual, o candidato que se propõe a um cargo eletivo para servir ao povo, deveria simples e tacitamente justificar sua posição de “candidatus” por ter saído de uma porção da comunidade popular e participativa democraticamente, pois, afinal, é quem o vai ou não eleger.
Os tempos são outros. As circunstâncias também. As relações de poder são brindadas com mentiras e verdades, com interesses escusos e outros mais. Parece-nos que a influência das oligarquias na política brasileira vem dando lugar, aos poucos, à política de alianças, de acordos, de negociações. Umas para o desenvolvimento, outras nem tanto.
Em nosso país, é comum compreendermos a política como “coisa”: leis, plebiscito, partidos, estatísticas, eleições; de modo que atualmente, somos inclinados a vê-la como peça de engrenagem, na fabricação dos “objetos”. Política de mercado. Política de opinião. Política de negócios. Porém, é isso a Política? Um negócio!? Segundo Luiz Inácio Lula da Silva, a política se constitui como a arte da negociação e das convergências. Num certo sentido, sim.
A filósofa Hannah Arendt assim especificou o caráter ou a nossa condição de “zoon politikon”, como um agente da política, caracterizado pelas relações entre os homens na esfera pública. Segundo ela, a compreensão da política é vinculada à questão da liberdade e da espontaneidade. É vista para além das discussões burocráticas e mesquinhas. Antes, passa pela recuperação da idéia de que o livre agir é o agir em público, e público é o espaço original da política.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Deus, nossa doçura e alegria.

“Esse abraço inefável entre o Pai e a sua Imagem não é sem fruição, sem amor e sem alegria, e esse amor, essa dileção, essa felicidade, na Trindade, é o Espírito Santo. Ele não é gerado; é a doce bem-aventurança do gerador e do gerado que inunda com sua liberalidade e abundância imensa todas as criaturas, segundo sua capacidade”.

Agostinho, De Trinitate, VI, 10, 10.


“a doce maçã que por tantos ramos
o zelo dos mortais vai procurando”.

Dante Alighieri, Purg., XXVII, 115s.


“Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos nem dos doutos. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz. Deus de Jesus Cristo. Teu Deus será meu Deus. Esquecimento do mundo e de tudo exceto Deus. A gente só o encontra pelos caminhos do Evangelho. Grandeza da alma humana. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci. Não deva ser separado dele eternamente. Alegria, alegria, lágrimas de alegria”.

Aqui o filósofo Pascal faz uma experiência candente do Deus vivo e procura expressar-se sob a forma de breves exclamações numa folha de papel; esta, por ocasião de sua morte, foi encontrada costurada no interior de seu casaco, sobre o coração.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Uma vez alguém já disse: “Não gosto de política”.

Não poucas vezes, ouvimos, à boca pequena, expressões como essas: “Odeio política”, “Não gosto de política”, “Tenho nojo de política”..., Principalmente em tempos de eleição. A política parece sempre ocupar os extremos do amor e do ódio, do ame-a ou deixe-a, da alegria e da tristeza, do bem e do mal, do calor e do frio, do grito e do silêncio, do conformismo e do ativismo. Assim é a política na boca de milhares de pessoas, ou doce ou amarga ou agridoce.
Para vulgarizarmos um pouco menos e não banalizarmos por demais a palavra política é importante entendermos três acepções sobre ela: a primeira assume uma conotação de governo, autoridade e administração da coisa pública ou do tesouro de todos, sob a forma de Estado; a segunda dá a idéia de atividade realizada por especialistas, profissionais, políticos pertencentes a um certo tipo de organização sociopolítica – os partidos – que disputam o direito de governar, ocupando cargos e postos no Estado; por fim, este último significado advém do anterior porque é o mais popular, no sentido de ser o mais corrente por se tratar de uma visão negativa da política, admitindo colocar sob suspeita as práticas secretas de quem exerce o poder e se beneficia dele.
O calor político é produzido pela oposição dos três sentidos mencionados acima, que na prática se confirma mais ainda. Aflora-se, com isso, um paradoxo na divergência entre o primeiro e o último sentido da palavra política, pois o primeiro se refere a algo geral concernente à sociedade como um todo com suas leis e seus costumes, seus direitos e obrigações, reivindicações, resistências e desobediências, enquanto o último sentido afasta a política de nosso alcance, blindando-a. Daí, muitas interpretações parecem viáveis acerca da política ou de quem administra a coisa pública; que vão desde os casos de corrupção aos casos de transparência e de lisura administrativa.
Costumo colocar num mesmo patamar o atemporal, o misantropo, o apolítico, o a-histórico uma vez que todos eles tentam sublimar os problemas pertinentes à existência. É da natureza da própria existência inserir-nos no mundo dos contrários da política porque somos seres sociais, carregados de história e sujeitos ao tempo e ao espaço. Implicações como essas não nos permitem fugir da nossa condição de seres políticos, tampouco afirmarmos que “não gostamos de política”.
“Não gostar de” significa não desejá-la, não sentir prazer pela política. Não querer bem a política. Muito embora acredite que pelo simples fato de “não gostar” não quer dizer que venha a negá-la. “Não gostar” aqui está muito mais próxima da indiferença e da dissimulação do que da negação, da extinção. Não se trata de negá-la. Se assim for, é até mais suportável tal estranhamento. Do contrário, estaríamos agredindo a nós mesmos enquanto “animais políticos”, no dizer de Aristóteles. Como não estranhar tal repulsa!
Fora justamente a banalização do termo “política” ou o desgaste usual dela desde a Antiguidade que possibilitou a criação de escamas negativas em torno de seu rico significado. Isso diz o essencial da vida social em geral, e da política em particular: que são sempre coletivas e conflituosas. Diria Kant, “Insociável sociabilidade”. Por que os homens são injustos? Por que os homens são corruptos? Por que os homens são maus? Nada disso. Mas porque são egoístas, incapazes de viver sozinhos, pois, “homem algum é uma ilha”, afirmou Thomas Merton.
Engana-se quem pensa que a política é ausência de conflitos e uma bela auréola de paz e harmonia. E para nos livrarmos mais desse preconceito, deixo literalmente uma passagem do Livro “A vida humana” do filósofo francês André Comte-Sponville, 68p.:


“Engana-se quem vê na paz ausência de conflitos, o reino do consenso ou do interesse geral em tudo. Se assim fosse, não teríamos mais necessidade de política: a administração e a técnica bastariam. Estamos longe disso, felizmente(...). É para isso que servem nossas eleições, nossos parlamentos, nossos referendos. Democracia não é ausência de conflitos; é uma maneira de assumi-los e resolvê-los – sem os abolir – sem ser pela violência. Uma eleição vale mais que a guerra civil. Um parlamento, mais que um tirano. Ainda é preciso que haja vários partidos diferentes, que não se oponham apenas sobre insignificâncias(...). A política, diria eu, ao contrário de Clausewitz, é a guerra continuada por outros meios. Equivale a dizer que é um dos mais formidáveis progressos da história da humanidade e a única forma efetiva de paz. Por isso o apolitismo é um erro; o individualismo, um defeito. Ninguém luta sozinho, porque só se luta contra alguém, só se tem chances de ganhar, na escala da sociedade, junto com outros...(...)”.

Agora, portanto, pense bem antes de dizer: “Não gosto de política”.



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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O dia do Mestre( 15 de Outubro)...

Neste dia do Professor, temos a oportunidade de interiorizar sobre a beleza do magistério em nossas vidas. Quer sejamos médicos, filósofos, arquitetos, engenheiros, agrônomos, matemáticos, físicos, químicos, enfim... Todos nós passamos pelas mãos ou pelos olhos de um PROFESSOR, um verdadeiro MESTRE de nossas vidas. No texto em questão faço uma pequena apresentação de qual deve ser a função do mestre a exemplo de Sócrates.
O valor de Sócrates está, sobretudo, no método que ele utiliza para desenvolver a sua Filosofia. Ele baseia tudo sobre um encontro. Encontrando-se com Sócrates, a pessoa encontrava-se com o mestre. A função do mestre não é tanto a de ensinar coisas, mas sobretudo de ajudar a pessoa na descoberta da verdade. O encontro com Sócrates tornava-se possível e mais fácil o encontro com a própria verdade presente em nós. A função do mestre era de facilitar a experiência da verdade. Portanto, o valor de Sócrates se manifesta em dois níveis: no nível do conhecimento da verdade e no nível da responsabilidade moral para com esta própria verdade.
Sócrates suscitava nos seus discípulos, o desejo de descobrir a verdade e de aderir pessoalmente a ela.
O Mestre ensina:
1. Coisas – conhecimentos.
2. A descobrir a verdade que está em ti – o logos(razão).

Sto. Agostinho fala do mestre interior: Magister intus(mestre dentro de si).
É a função mais importante do mestre exterior, descobrir a verdade a partir de si mesmo, aprender a ver o mundo por si mesmo.
Esta verdade está em cada homem, mas eu não posso manipular, e esta é a grande diferença entre os sofistas e Sócrates. Não é para usar o conhecimento ao seu bel prazer e sim usá-la com método, com responsabilidade, isto é, usá-la com dignidade.
Sócrates deixa uma abertura bastante profunda que é a alma. Descobrir melhor o sentido da alma, aprofundar...

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Autárkeia e phýsis em Epicuro de Samos

Do próprio conceito grego de autárkeia afirma-se o lugar do pensamento de Epicuro, na phýsis. A autárkeia é o princípio regente de si mesmo. É o comando do ser em profunda harmonia com a phýsis brotando a realidade do mundo.
O que importa para Epicuro é a vida junto à natureza, pois é a verdadeira realização do ser enquanto uma pequena parte integrada na grande totalidade. Não há partes separadas da totalidade, do mesmo modo como não há totalidade separada das partes. Para se entender a phýsis na sua totalidade, segundo Epicuro, é necessário ir até as partes, voltar ao particular, ao indivíduo. “O estado de ser da natureza leva-nos a refletir sobre o sentido de realização do nosso próprio ser, um microcosmos”( Silva, Markus F. da, Epicuro: sabedoria e jardim, p. 15).
A compreensão do todo da phýsis é simultaneamente a compreensão de si mesmo como princípio que se gera a partir de si mesmo, dando uma unidade fundamental ao mundo, às coisas, aos seres e conseqüentemente a si mesmo.
Sendo a phýsis a própria realidade no seu sentido mais profundo e a physiología o exercício de sua compreensão, a autárkeia é o comando, o regente do ser de acordo com a natureza.
Assim, o ser que não vive em sintonia com a natureza está desvinculado da projeção do saber de Epicuro. Este pensamento ou Filosofia é dinâmico porque está estreitamente ligado a phýsis, haja vista a realização de seu pensar sobre a phýsis a partir do princípio(átomo), dos corpos, mundos e todo.
A realização da phýsis é uma questão elementar porque vem explicitado o princípio de realidade(arché) pelo axioma básico do atomismo, conforme o qual o todo é composto de átomos e vazio. Os átomos são elementos constitutivos de todas as coisas, origem dos corpos compostos e a base do atomismo, cujo princípio é afirmado na Carta a Heródoto: “Primeiramente, nada nasce do nada(não-ser). Se não fosse assim, tudo nasceria de tudo e nada teria necessidade de seu próprio germe”( DL, X, 38, in Silva, idem, p. 27).
Não se tem pretensão alguma de explicitar o caráter complexo dos dados da phýsis em Epicuro, porém procura-se estabelecer um viés, uma abertura que se vincule à teleologia da “vida física”. Parece que uma vida tranqüila e feliz implica numa vida física autêntica, daí a volta constante de Epicuro à realidade original da phýsis, da natureza mesma do indivíduo:“Em suma Epicuro preconiza a volta ao ‘início’ para traçar o caminho que o conduza à sabedoria prática, ou ao cumprimento perfeito da natureza do indivíduo, pelo reconhecimento do saber originário aqui entendido como physiología. Mas para que haja este reconhecimento é preciso compreendermos a phýsis em sua realização e não apenas em sua compreensão”(SILVA, p. 27).
A relação intrínseca phýsis-autárkeia se projeta num crescente a um télos extremamente positivo, no sentido da realização completa de um modo de ser do indivíduo, autárkeia. Alcançando, assim, toda sua intensidade no éthos epicúreo. De fato, o centro da ética de Epicuro é a autárkeia como exercício do sábio que procura viver de acordo com a natureza. Este aspecto terá atenção especial na terceira parte deste estudo.
Segundo a etimologia da palavra, phýsis é o processo de crescimento ou gênese de alguma coisa, e, neste sentido, Epicuro somente a utiliza quando se refere aos corpos compostos e aos mundos. Outro sentido de phýsis é princípio(arché), porque é átomos e vazio; e num último sentido, phýsis é o modo de ser do todo ilimitado.
Há de se admitir também outras afirmações de Epicuro no que diz respeito a phýsis. É o problema da composição dos corpos e das almas, a explicação de que tudo o que existe é formado por átomos que se agregam em composições ou corpos, concebendo assim o axioma básico da physiología epicúrea e possibilitando a análise das estruturas compostas, desde as microestruturas corpóreas, até as macroestruturas dos mundos. Os átomos, portanto, constituem a realidade.
Todavia, como a phýsis é a fonte de todo aprendizado do sophós, do equilíbrio entre o homem e a natureza, faz-se necessário ainda compreender o sentido deste equilíbrio em direção ao bem-estar de seu corpo e, por conseguinte, de sua conduta no mundo.


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Epicuro de Samos e sua Ética.

Busca-se explicitar a ética epicúrea a partir do sentido pleno do exercício da Filosofia como um saber para a vida, ou o equilíbrio próprio do sophós(sábio), que é autárkes, isto é, que tem o princípio da sua ação em si mesmo e, por isso, pode se considerar livre dos tormentos que afetam o comum dos mortais.
Vislumbra-se nesse particular, o modo de realização do télos(fim) do indivíduo, uma vez que o período helenístico da Filosofia antiga caracterizou-se sobretudo pelo deslocamento da problemática ética para o âmbito do indivíduo, onde a orientação para o agir no mundo tem o seu télos(fim) no bem-estar e na autárkeia do indivíduo, que já não deposita suas esperanças numa mudança substancial na ordem política e, por isso, volta-se para si e busca, através da Filosofia, o cuidado de si mesmo.
Epicuro enfoca o seu pensamento ético para o sophós(sábio), que é o modelo do homem feliz, por fazer da sua vida um exercício constante de realização da Filosofia, cujo sentido prático está em evitar os problemas advindos das relações estabelecidas no seio do corpo político, da sociedade de então.
Justifica-se, desse modo, o isolamento de Epicuro não como uma fuga da realidade, mas como uma característica do seu éthos que molda o homem sábio:
“Sua ética se caracteriza, sobretudo, pela autárkeia, isto é, por uma conduta na qual a ação fundada na compreensão da natureza supera a reação que tem por base o constante desgaste do indivíduo, que perdeu o domínio de si e vive a impossibilidade de criar o seu modo de vida segundo o que é natural e necessário. O afastamento do sophós em relação à insensatez das normas e valores cultivados em sociedade é, para Epicuro, o caminho para o exercício de um modo de vida autárquico”( SILVA, Markus Figueira da. Epicuro: sabedoria e jardim. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 18).
O homem sábio se constitui como aquele que não vive na polis porque o pressuposto para a política é eminentemente ético. O seu éthos equivale a sua phýsis, pois são uma realidade só.
O equilíbrio então se mostra como sentido para a vida a partir da compreensão da natureza(physiología) e do modo de ser phýsis.Essa é uma das questões centrais do pensar epicúreo devido o sábio alcançar a plenitude no agir, o equilíbrio, a medida, tendo em si mesmo o princípio dessas ações. A ele cabe escolher o que lhe aprouver e recusar o que destoa da medida equilibrada que expressa o seu bem-estar.
Assim, o sophós é autárkes porque age a partir de si mesmo. A autárkeia consiste na implicação da compreensão do sentido de liberdade(eleuthería) que a justifica e ao mesmo tempo a fundamenta.Autárkeia é uma qualidade de quem se basta a si mesmo. Daí, o viver em equilíbrio não depende senão do modo como o homem vivencia a sua situação real de existir independente de qualquer outro “poder” que transcenda a sua dynamis de ação, desde que esse “poder” possa ser permitido ou evitado.
A autárkeia é a expressão da vida tornada independente das necessidades que a negam e a fazem re-agir ou sofrer.
Contudo, eis o grande prazer da sabedoria quando se expressa os ideais da ataraxía, da aponía, da eustatheía e da philía; quando aquele que goza a serenidade de uma vida filosófica, obtém o máximo de prazer em todas as ações refletidas, ao mesmo tempo que se livra de atender às necessidades não naturais.
O propósito maior do comportamento do sábio se define como viver de acordo com a natureza e se expressa pela autárkeia, o modelo de ação que caracteriza o modo de vida do sábio.
Tal propósito passa por um exercício que é a efetivação da sua compreensão da phýsis mediante o dimensionamento da sua conduta no mundo-realidade. Este exercício é ainda a definição da Filosofia enquanto um saber para a vida: “techné tis perì tón bíon”, afirmado por Epicuro.
Jackislandy Meira de Medeiros Silva, Professor e Filósofo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Quem não merece seu voto.



Como Professor e filósofo, é de minha inteira responsabilidade, querer conscientizar ou sensibilizar as pessoas com quem convivo, bem como os leitores desta coluna, os amigos e eleitores de um modo geral, para a necessidade de se votar bem, uma vez que se aproxima o pleito eleitoral em todos os municípios deste país.
Entendo que há “n” razões para você, caro cidadão, confirmar a sua escolha no dia 05 de outubro de 2008. Todavia, elencarei aqui alguns conhecimentos de causa que farão você jogar luzes sobre o seu precioso voto.
De sorte, não merece o seu voto quem, de fato, carece de educação, princípios e bons costumes, capaz de envergonhar seus conterrâneos; Quem jamais prestou serviço a sua comunidade; Quem não é admirado até pelos próprios familiares; Quem não honra a política pela persuasão e pelo direito de todos, mas por herança genética; Quem se omite frente aos problemas levantados pelo povo; Quem não tem propostas concretas e objetivas para os cidadãos se sentirem felizes no lugar onde nasceram e continuam a viver; Quem não tem compromisso para com as propostas de governo; Quem não admite humildade diante da complexa responsabilidade de administrar a coisa pública; Quem não conhece o próprio lugar e o povo com o qual vai gerir; Quem oferece promessas gigantescas para o povo engolir a seco; Quem não está nem aí para com a verdade; Quem subestima a inteligência do eleitor com mentiras descabidas; Quem não respeita nossos ouvidos e nossa dignidade ao subir num palanque para discursar; Quem não se preocupa com a ÉTICA; Quem apenas brinca de ser político; Quem não vê na política uma oportunidade e, sim um fim, para tentar resolver boa parte dos problemas que afligem a qualidade de vida das pessoas; enfim...
Quem não merece seu voto? Pergunte-se, você mesmo, e tire suas próprias conclusões. Quem procura nos enganar e quem é cúmplice da verdade e do trabalho?
Notadamente, os compromissos com a verdade e com o trabalho devem acompanhar o seu voto, meu caro eleitor, eleitora que lêem minha coluna e acompanham as reflexões acerca da política.
Agora, passem a ler um texto que merece a nossa atenção, “O analfabeto político” do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht:
“O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa
dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil
que da sua ignorância política
nascem a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais.”


Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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domingo, 24 de agosto de 2008

A política e suas circunstâncias

A política está mergulhada nas contingências das massas em todos os tempos e lugares da história. Até mesmo na Grécia, na velha Hélade onde tudo começou, o poder era demasiadamente volátil, tão passageiro, artificial, fugaz e abstrato como o é hoje em dia.
Tanto é que se herdava a autoridade política não por lei, não por direito constituído devido à cidadania, não pelo voto direto e participativo, mas por caprichos de alguns e por privilégios de uma pequena parte da população ateniense que detinha o poder nas mãos em detrimento da vontade alheia dos escravos, das mulheres, dos camponeses, dos artesãos e de outros menos favorecidos.
O poder de administrar um “genos”, uma colônia, uma província era o mesmo que assumir uma cooperativa, uma associação de bairro, um grupo de jovens ou o poder de uma família, baseado em muita liderança, domínio público e persuasão. O que não acontecia ao administrar uma Cidade Estado do nível de Atenas, onde o poder era transmitido, passado, transferido de Pai para filho, de Oligarquia para Oligarquia e, diga-se de passagem, geneticamente. Não era algo conquistado a duras penas, infelizmente. No entanto, as circunstâncias eram outras, bastante diferentes das de hoje.
A Idade Média fora marcada pela união entre Igreja e Estado possibilitando a centralização dos interesses políticos, econômicos e sociais por mil anos. Estava nas mãos da Igreja, dos clérigos, dos episcopos e de outras autoridades eclesiásticas a direção tempo/espaço da política Ocidental. Este sim fora um período em que as circunstâncias políticas nada tinham de favoráveis à Democracia e à participação popular na escolha de seus possíveis representantes.
As circunstâncias da modernidade em relação à política estão arraigadas aos valores de suas oligarquias, de suas famílias, de seus “genos”. Estas, por sua vez, sentem-se no “status quo” da arte política, no sentido de somente elas terem condições genéticas para fazer política. Daí, cabe-nos aqui intrigantes perguntas: “Para se fazer política é necessário herdar tais condições?”; “As Oligarquias predominam?”; Os “Maias” e os “Alves” ainda resistem às circunstâncias modernas da política, sobretudo aqui no RN?; “Qual é a Tua, Candidato?”; “És um representante do povo ou de uma família apenas?”.
Na política atual, o candidato que se propõe a um cargo eletivo para servir ao povo, deveria simples e tacitamente justificar sua posição de “candidatus” por ter saído de uma porção da comunidade popular e participativa democraticamente, pois, afinal, é quem o vai ou não eleger.
Os tempos são outros. As circunstâncias também. As relações de poder são brindadas com mentiras e verdades, com interesses escusos e outros mais. Parece-nos que a influência das oligarquias na política brasileira vem dando lugar, aos poucos, à política de alianças, de acordos, de negociações. Umas para o desenvolvimento, outras nem tanto.
Em nosso país, é comum compreendermos a política como “coisa”: leis, plebiscito, partidos, estatísticas, eleições; de modo que atualmente, somos inclinados a vê-la como peça de engrenagem, na fabricação dos “objetos”. Política de mercado. Política de opinião. Política de negócios. Porém, é isso a Política? Um negócio!? Segundo Luiz Inácio Lula da Silva, a política se constitui como a arte da negociação e das convergências. Num certo sentido, sim.
A filósofa Hannah Arendt assim especificou o caráter ou a nossa condição de “zoon politikon”, como um agente da política, caracterizado pelas relações entre os homens na esfera pública. Segundo ela, a compreensão da política é vinculada à questão da liberdade e da espontaneidade. É vista para além das discussões burocráticas e mesquinhas. Antes, passa pela recuperação da idéia de que o livre agir é o agir em público, e público é o espaço original da política.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Deus, nossa doçura e alegria.

“Esse abraço inefável entre o Pai e a sua Imagem não é sem fruição, sem amor e sem alegria, e esse amor, essa dileção, essa felicidade, na Trindade, é o Espírito Santo. Ele não é gerado; é a doce bem-aventurança do gerador e do gerado que inunda com sua liberalidade e abundância imensa todas as criaturas, segundo sua capacidade”.

Agostinho, De Trinitate, VI, 10, 10.


“a doce maçã que por tantos ramos
o zelo dos mortais vai procurando”.

Dante Alighieri, Purg., XXVII, 115s.


“Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos nem dos doutos. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz. Deus de Jesus Cristo. Teu Deus será meu Deus. Esquecimento do mundo e de tudo exceto Deus. A gente só o encontra pelos caminhos do Evangelho. Grandeza da alma humana. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci. Não deva ser separado dele eternamente. Alegria, alegria, lágrimas de alegria”.

Aqui o filósofo Pascal faz uma experiência candente do Deus vivo e procura expressar-se sob a forma de breves exclamações numa folha de papel; esta, por ocasião de sua morte, foi encontrada costurada no interior de seu casaco, sobre o coração.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Uma vez alguém já disse: “Não gosto de política”.

Não poucas vezes, ouvimos, à boca pequena, expressões como essas: “Odeio política”, “Não gosto de política”, “Tenho nojo de política”..., Principalmente em tempos de eleição. A política parece sempre ocupar os extremos do amor e do ódio, do ame-a ou deixe-a, da alegria e da tristeza, do bem e do mal, do calor e do frio, do grito e do silêncio, do conformismo e do ativismo. Assim é a política na boca de milhares de pessoas, ou doce ou amarga ou agridoce.
Para vulgarizarmos um pouco menos e não banalizarmos por demais a palavra política é importante entendermos três acepções sobre ela: a primeira assume uma conotação de governo, autoridade e administração da coisa pública ou do tesouro de todos, sob a forma de Estado; a segunda dá a idéia de atividade realizada por especialistas, profissionais, políticos pertencentes a um certo tipo de organização sociopolítica – os partidos – que disputam o direito de governar, ocupando cargos e postos no Estado; por fim, este último significado advém do anterior porque é o mais popular, no sentido de ser o mais corrente por se tratar de uma visão negativa da política, admitindo colocar sob suspeita as práticas secretas de quem exerce o poder e se beneficia dele.
O calor político é produzido pela oposição dos três sentidos mencionados acima, que na prática se confirma mais ainda. Aflora-se, com isso, um paradoxo na divergência entre o primeiro e o último sentido da palavra política, pois o primeiro se refere a algo geral concernente à sociedade como um todo com suas leis e seus costumes, seus direitos e obrigações, reivindicações, resistências e desobediências, enquanto o último sentido afasta a política de nosso alcance, blindando-a. Daí, muitas interpretações parecem viáveis acerca da política ou de quem administra a coisa pública; que vão desde os casos de corrupção aos casos de transparência e de lisura administrativa.
Costumo colocar num mesmo patamar o atemporal, o misantropo, o apolítico, o a-histórico uma vez que todos eles tentam sublimar os problemas pertinentes à existência. É da natureza da própria existência inserir-nos no mundo dos contrários da política porque somos seres sociais, carregados de história e sujeitos ao tempo e ao espaço. Implicações como essas não nos permitem fugir da nossa condição de seres políticos, tampouco afirmarmos que “não gostamos de política”.
“Não gostar de” significa não desejá-la, não sentir prazer pela política. Não querer bem a política. Muito embora acredite que pelo simples fato de “não gostar” não quer dizer que venha a negá-la. “Não gostar” aqui está muito mais próxima da indiferença e da dissimulação do que da negação, da extinção. Não se trata de negá-la. Se assim for, é até mais suportável tal estranhamento. Do contrário, estaríamos agredindo a nós mesmos enquanto “animais políticos”, no dizer de Aristóteles. Como não estranhar tal repulsa!
Fora justamente a banalização do termo “política” ou o desgaste usual dela desde a Antiguidade que possibilitou a criação de escamas negativas em torno de seu rico significado. Isso diz o essencial da vida social em geral, e da política em particular: que são sempre coletivas e conflituosas. Diria Kant, “Insociável sociabilidade”. Por que os homens são injustos? Por que os homens são corruptos? Por que os homens são maus? Nada disso. Mas porque são egoístas, incapazes de viver sozinhos, pois, “homem algum é uma ilha”, afirmou Thomas Merton.
Engana-se quem pensa que a política é ausência de conflitos e uma bela auréola de paz e harmonia. E para nos livrarmos mais desse preconceito, deixo literalmente uma passagem do Livro “A vida humana” do filósofo francês André Comte-Sponville, 68p.:


“Engana-se quem vê na paz ausência de conflitos, o reino do consenso ou do interesse geral em tudo. Se assim fosse, não teríamos mais necessidade de política: a administração e a técnica bastariam. Estamos longe disso, felizmente(...). É para isso que servem nossas eleições, nossos parlamentos, nossos referendos. Democracia não é ausência de conflitos; é uma maneira de assumi-los e resolvê-los – sem os abolir – sem ser pela violência. Uma eleição vale mais que a guerra civil. Um parlamento, mais que um tirano. Ainda é preciso que haja vários partidos diferentes, que não se oponham apenas sobre insignificâncias(...). A política, diria eu, ao contrário de Clausewitz, é a guerra continuada por outros meios. Equivale a dizer que é um dos mais formidáveis progressos da história da humanidade e a única forma efetiva de paz. Por isso o apolitismo é um erro; o individualismo, um defeito. Ninguém luta sozinho, porque só se luta contra alguém, só se tem chances de ganhar, na escala da sociedade, junto com outros...(...)”.

Agora, portanto, pense bem antes de dizer: “Não gosto de política”.



Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.
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