terça-feira, 8 de maio de 2012

O espírito agónico(luta) de Ulisses


Para nos deleitarmos sob a leitura de Homero no que diz respeito ao Agon grego, podemos citar ligeiramente Aquiles, o guerreiro mais amado e admirado da Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de Heitor, arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da família, que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo, para exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão - (in Ulisses e o espírito agónico grego: o herói da imaginação, do sacrifício e do conhecimento, Universidade de Coimbra, 2011) - , como o "herói dos mil artifícios"(polymetis ou polymechanos), o que faz dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação, da capacidade inventiva, de uma diplomacia intuitiva. A imaginação fulgurante de Ulisses, afirma Delfim, incarnada na curiosidade e no espírito agónico da mentalidade grega e do ser humano em geral, comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está representado na figura engenhosa de Ulisses como o "herói que muito sofreu"(polytlas).
A luta e o prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.
O povo grego vive intensamente os conflitos ou as guerras a que se propõe lutar quer por honra, glória ou conquista territorial. Certamente, em Ulisses, tudo isso vem legitimado, somando-se as estratégias gregas em combate.
Conforme a trama muito pessoal da nostalgia empreendida desde que fora obrigado a deixar a sua ilha, a aventura junto aos Ciclopes, que muito me impressiona, não faria sentido se não fosse um desvio à rota simples de seu trajeto, provocado pelo próprio Ulisses. Sem deixar de ser o que é, carregando consigo todas as suas boas e más qualidades, procura mostrar que não é um tirano. Por isso, nada melhor do que travar um “agon” com algo que aparece pra ele caracterizado de tirânico, ou seja, do modo de ser dos seres com que se vai confrontar. Ora, moradores desta ilha, os Ciclopes (“olho circular”), como sendo seres “arrogantes e sem lei” (Canto IX, v. 106), dependentes de um modo de vida bem provinciano e pastoril, sem quaisquer labor agrícola, pois tiram toda a sobrevivência da terra. Dissimulados, vivem da indiferença e desprezam a esfera política da existência. Cada qual que dite a lei para si e para os que de si dependem, sem deliberação em assembleia; habitam grutas, nos píncaros das montanhas (vv. 106-115). No entanto, para contrariar a tirania dessa gente, eis que surge Ulisses a fim de triunfar sobre um modelo de vida descomprometido com a virtude e com a excelência. O agon de Ulisses, portanto, reivindica sua arete, sua humanidade, seu aner frente aos Ciclopes.
Daí, como se verá através da ação do Ciclope Polifemo, o indivíduo escolhido para objeto agónico de Ulisses, é evidente que o mono-ocular e suas investidas não serão suficientes para conter o espírito de Ulisses, orientado por sua areté e seu logos, os quais promovem o agon muito mais superior. “Esta agonia representa um confronto direto com o mínimo da inteligência propriamente humana (se o não fosse, Polifemo teria sido aniquilado) e o máximo da inteligência propriamente humana: o triunfador, Ulisses. Com o ato de Ulisses junto de Polifemo nasce cruentamente e em agonia a afirmação da liberdade do ser humano como ser ético e político, senhor de seus atos, por via de uma agência inteligente, que nada submete, que nada pode submeter”(PEREIRA, Américo. Ulisses e Penélope. Da nova paradigmaticidade, a partir da Odisseia de Homero. Covilhã, Lusosofia, 2011, p. 12-17).
A Odisseia bem que poderia se chamar As agonias de Ulisses, haja vista seus intentos contra toda sorte de males nas guerras e em meio ao seu regresso à Ítaca. Trava sempre combates de vida ou morte. A sua sobrevivência é a sobrevivência e o triunfo do paradigma que representa toda uma civilização com histórias marcantes que influenciarão o progresso intelectual da humanidade. Engraçado, mas vejam que trocadilho curioso: O regresso de Ulisses que constrói todo o patrimônio do progresso civilizatório da humanidade. O contraponto do regresso é o seu progresso e vice-versa.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia

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terça-feira, 8 de maio de 2012

O espírito agónico(luta) de Ulisses


Para nos deleitarmos sob a leitura de Homero no que diz respeito ao Agon grego, podemos citar ligeiramente Aquiles, o guerreiro mais amado e admirado da Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de Heitor, arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da família, que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo, para exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão - (in Ulisses e o espírito agónico grego: o herói da imaginação, do sacrifício e do conhecimento, Universidade de Coimbra, 2011) - , como o "herói dos mil artifícios"(polymetis ou polymechanos), o que faz dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação, da capacidade inventiva, de uma diplomacia intuitiva. A imaginação fulgurante de Ulisses, afirma Delfim, incarnada na curiosidade e no espírito agónico da mentalidade grega e do ser humano em geral, comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está representado na figura engenhosa de Ulisses como o "herói que muito sofreu"(polytlas).
A luta e o prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.
O povo grego vive intensamente os conflitos ou as guerras a que se propõe lutar quer por honra, glória ou conquista territorial. Certamente, em Ulisses, tudo isso vem legitimado, somando-se as estratégias gregas em combate.
Conforme a trama muito pessoal da nostalgia empreendida desde que fora obrigado a deixar a sua ilha, a aventura junto aos Ciclopes, que muito me impressiona, não faria sentido se não fosse um desvio à rota simples de seu trajeto, provocado pelo próprio Ulisses. Sem deixar de ser o que é, carregando consigo todas as suas boas e más qualidades, procura mostrar que não é um tirano. Por isso, nada melhor do que travar um “agon” com algo que aparece pra ele caracterizado de tirânico, ou seja, do modo de ser dos seres com que se vai confrontar. Ora, moradores desta ilha, os Ciclopes (“olho circular”), como sendo seres “arrogantes e sem lei” (Canto IX, v. 106), dependentes de um modo de vida bem provinciano e pastoril, sem quaisquer labor agrícola, pois tiram toda a sobrevivência da terra. Dissimulados, vivem da indiferença e desprezam a esfera política da existência. Cada qual que dite a lei para si e para os que de si dependem, sem deliberação em assembleia; habitam grutas, nos píncaros das montanhas (vv. 106-115). No entanto, para contrariar a tirania dessa gente, eis que surge Ulisses a fim de triunfar sobre um modelo de vida descomprometido com a virtude e com a excelência. O agon de Ulisses, portanto, reivindica sua arete, sua humanidade, seu aner frente aos Ciclopes.
Daí, como se verá através da ação do Ciclope Polifemo, o indivíduo escolhido para objeto agónico de Ulisses, é evidente que o mono-ocular e suas investidas não serão suficientes para conter o espírito de Ulisses, orientado por sua areté e seu logos, os quais promovem o agon muito mais superior. “Esta agonia representa um confronto direto com o mínimo da inteligência propriamente humana (se o não fosse, Polifemo teria sido aniquilado) e o máximo da inteligência propriamente humana: o triunfador, Ulisses. Com o ato de Ulisses junto de Polifemo nasce cruentamente e em agonia a afirmação da liberdade do ser humano como ser ético e político, senhor de seus atos, por via de uma agência inteligente, que nada submete, que nada pode submeter”(PEREIRA, Américo. Ulisses e Penélope. Da nova paradigmaticidade, a partir da Odisseia de Homero. Covilhã, Lusosofia, 2011, p. 12-17).
A Odisseia bem que poderia se chamar As agonias de Ulisses, haja vista seus intentos contra toda sorte de males nas guerras e em meio ao seu regresso à Ítaca. Trava sempre combates de vida ou morte. A sua sobrevivência é a sobrevivência e o triunfo do paradigma que representa toda uma civilização com histórias marcantes que influenciarão o progresso intelectual da humanidade. Engraçado, mas vejam que trocadilho curioso: O regresso de Ulisses que constrói todo o patrimônio do progresso civilizatório da humanidade. O contraponto do regresso é o seu progresso e vice-versa.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia

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