sábado, 30 de abril de 2011

Estranhamento e entranhamento, um estranho trocadilho.

(Imagem do filme "Onde vivem os monstros", 2009, EUA, direção de Spike Jonze)

A vida é cheia de reações. Há momentos que nos fazem sentir e outros que nos fazem pensar; ora somos extrovertidos, ora introvertidos; vezes agimos para fora, vezes agimos para dentro. Há momentos em que precisamos ser ativos, outros em que precisamos ser absolutamente passivos. Porém, na maior parte do tempo, somos simultaneamente um e outro, ativos e passivos, como numa sala de aula, como num diálogo, por exemplo, no trabalho, enfim, na vida... Imagino a vida como um grande novelo de linha que se desenrola pouco a pouco nas mãos da vovozinha que incansavelmente faz e refaz suas casas no pano de linho. Ao final, meio que tomada de ímpeto, a vovozinha se depara com uma belíssima imagem, antes não vista, mas imaginada em sua memória. Só que, do início ao fim, o novelo guarda múltiplas experiências até concretizar a tão sonhada imagem. O novelo se desfia para se fiar e se desfiar novamente na existência.
A existência nos prega muitas peças. Umas de estranhamento, outras de entranhamento. O estranhar uma realidade é inquietar-se com ela. Estranhar uma viagem que nos levará para um lugar desconhecido. Estranhar uma escola nova. Estranhar um novo membro da família que chega de imediato. Estranhar uma mudança de domicílio. Estranhar está muito ligado ao “páthos” em Aristóteles, uma espécie de afecção da alma, tem a ver com os sentimentos que nos provocam uma determinada experiência de vida. Ao entrarmos em contato com algo novo, com um fato inusitado, temos a impressão de que alguma coisa estranha mexe conosco. Esta coisa estranha é a reação da nossa mais fina natureza.
O estranhamento está muito presente no exercício do filosofar, tanto em Aristóteles quanto em Platão. “A admiração, o estranhamento é o modo de ver daquele para quem o filosofar é um modo de viver. Os gregos denominaram thaumátzein esta atitude originante do filosofar”(Cf. Aristóteles, Metafísica A,2,17-19. Platão: Teeteto, 155d). Realmente, a gente só pergunta porque estranha!
Se somos acometidos constantemente pela experiência do estranhar, uma vez que alguma mudança está ocorrendo, o que dizer então da experiência do entranhar. Entranhar está para Sócrates como Sócrates está para a Filosofia. Esta palavra me faz lembrar Fenarete, a mãe de Sócrates, parteira ou tratadeira das mulheres gestantes, prontas para dar a luz. Imagino Fenarete saindo pelas ruelas da Grécia antiga, de casa em casa, cuidando de muitas mulheres que engravidavam e ansiosas esperavam seus filhos. Sócrates, certamente muito pequeno a seguia por essas ruas estreitas da Grécia a fim de acompanhar zelosamente o trabalho da mãe. Imaginem o pequenino menino filósofo ali, à sombra da mãe, vendo o ofício das mãos afinadas com a enfermagem. Sem saber ao certo, Sócrates já estava antecipando os traços visíveis de sua mais nobre filosofia, a arte de fazer parto de almas e não de corpos. Com a mãe, parteira de corpos, viu maravilhado, entranhado, a maneira com que ela habilmente ajudava suas pacientes a dar a vida.
Talvez, a partir dessa experiência de Sócrates com sua mãe, o filósofo tenha adquirido os dois principais métodos da sua filosofia, o “elénkos” e a “maiêutica”. O primeiro é pura refutação, o segundo é o nascimento da verdade pelo diálogo. Principalmente, na linha do segundo é que se encontra o entranhamento da Filosofia. Argumento demasiadamente os elementos da justiça que tenho a possibilidade de me tornar justo. Argumento frequentemente as categorias da bondade que me torno bom. Falo por demais sobre Deus que me torno um religioso ou cristão ao falar muito de Cristo. Falo tanto de Filosofia que, com isso, passo a me tornar um filósofo. Entende-se assim a maneira de se entranhar do filósofo Sócrates, de modo que seus pensamentos chegam ao coração, promovendo nos seus interlocutores uma forma de impregnar suas convicções. Os seus ouvintes ficavam tão imbuídos com suas ideias que, de pronto, assumiam suas convicções devido ao poder de suas argumentações. Entranhar é embrenhar-se disso. Estar profundamente penetrado ou impregnado de suas ideias e convicções.
Estou aqui a viajar um pouco em minhas ideias filosóficas para atribuir a Sócrates, talvez, as duas maneiras de se sentir afetado por suas ideias. Quando Sócrates interrompia um juiz e o perguntava sobre justiça é porque aquilo o estava estranhando, perturbando, de alguma maneira. Como é que um homem que se diz juiz não sabe nada de justiça!? Por outra, o entranhamento acontecia quando, o tal indivíduo se convencia da sua ignorância e aceitava aprender para encontrar, de fato, a verdade. Perguntar-se é estranhar. Convencer-se em buscar a verdade é o entranhar. Estar convicto da verdade é, sim, a meu ver, uma espécie de entranhamento.
Acho que nos entranhamos mais do que nos estranhamos. Devia ser o contrário. Somos mais políticos do que filósofos na prática. Políticos gostam mais de acordos, filósofos não. Percebo que o filósofo se lança mais a favor do estranhar. Parece próprio do pensamento estranhar, independentemente das certezas que advenham dele. O pensar é autônomo e não se prende ao entranhar, à verdade. É melhor, a meu ver, desentranhar do que entranhar para o filósofo. Porém, em se tratando de pessoas comuns, as duas formas de atitudes frente à vida são muito pertinentes e merecem toda a nossa atenção. Para alguns, as certezas(entranhamento) trazem paz e tranquilidade à alma. Para outros, as dúvidas(estranhamento) nos lançam em direção à inquietação, o que também alimenta uma alma curiosa, sábia.
Todavia, estranhamento e entranhamento, como em Sócrates, parecem admiravelmente se completarem de modo estranho a favor do filosofar...

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN



sexta-feira, 29 de abril de 2011

PROFESSORES DO ESTADO DO RN ENTRAM EM GREVE PRA VALER

Professores e servidores da rede pública estadual entram em greve por tempo indeterminado na próxima segunda-feira. A decisão tomada em assembleia, ontem, é segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do RN uma resposta ao governo que até agora não atendeu à reivindicação de aplicação da tabela salarial à categoria. Os 19 mil professores ativos questionam que seus salários estão defasados em relação a outras categorias e que o governo não estaria oferecendo o mesmo tratamento.
Presidente do Sinte/RN diz que greve depende de negociaçãoEm entrevista por telefone na manhã desta sexta-feira, a coordenadora do Sinte-RN, professora Fátima Cardoso, afirmou que a governadora chegou a enviar uma carta à instituição. “Mas essa carta é absolutamente evasiva. Ao mesmo tempo que se mostra interessada em resolver, diz que não tem como”. “Queremos o mesmo tratamento que o Governo concede a outras categorias”, afirmou.
De acordo com o Sindicato, o salário de um professor em início de carreira, é de R$ 739,00. O cumprimento da tabela que trata dos vencimentos da categoria elevaria esse piso para R$ 1.759,50 podendo chegar a R$ 3.519,00 de um professor com doutorado, por exemplo.
Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), a responsável pela pasta, Bathania Ramalho, ainda não foi informada oficialmente pelo sindicato sobre a greve, e só se pronunciará quando receber o comunicado.


Fonte: http://tribunadonorte.com.br/noticia/professores-do-estado-entram-em-greve-na-segunda-feira/179861

CALENDÁRIO DA GREVE DOS PROFESSORES DO ESTADO DO RN, VEJA:

A rede Estadual de Ensino está em greve. A mobilização teve início após deliberação da assembleia realizada nesta quinta-feira (28). Entre nessa luta. Para fazer parte dessa ação, veja o calendário de atividades a seguir:


29/04 (Sexta-feira) - Retorno dos professores às escolas, nos três turnos, para comunicar a comunidade escolar sobre a deflagração da Greve.

02/05 (Segunda-feira) - Acampamento em frente à Governadoria a partir das 9h. A atividade será apenas no turno Matutino

03/05 (Terça-feira) - Acampamento o dia todo na Praça Tomás de Araújo, em frente a Assembleia Legislativa

04/05 (Quarta-feira) - Caminhada no Bairro de Felipe Camarão com concentração às 15h em frente a Escola Estadual Maria Queiroz.

05 e 06/05 (Quinta e Sexta-feira) - A diretoria do Sinte fará o mapeamento do movimento no interior e na capital.

09/05 (Segunda-feira) - Plenária de organização da greve, às 9h, na Escola Estadual Winston Churchill. Toda a categoria deve estar presente.

http://www.sintern.org.br/noticias/visualizar/882

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lembrai-vos: “Não está aqui, ressuscitou”(Lc 24.6).


Foto: túmulo vazio, jardim do túmulo em Jerusalém

A cena da última ceia de Jesus foi reveladora. As declarações do Mestre lidas hoje nas Sagradas Escrituras são impactantes, mas ditas por Ele naquela ocasião nem pareceram tão reveladoras. Até que mereciam ser consideradas com mais importância pelos discípulos, mas não foi assim que aconteceu. Ou os discípulos dissimularam tais declarações, ou simplesmente não entenderam nada, como dizem os mais afinados ao assunto. Apavorados com os sussurros que se ouviam a respeito da possível prisão e morte de Jesus, os discípulos assimilaram pouca coisa do que disse o mestre naquele dia.
Como se não bastasse o que Jesus havia sinalizado quando do início dos discursos das dores em Mateus acerca do seu tempo que já está por terminar e de outras fortes palavras do tipo “não ficará pedra sobre pedra”, a última ceia e sua prisão, bem como toda a sua paixão são recheadas de grande simbologia que vale a pena Lembrar. A sutilidade do mestre é encantadora. O roteiro da sua morte e ressurreição parecia está sendo escrito enquanto viviam. Em tudo o que Jesus diz, literalmente ou não, há um fundo de mistério. Os pares claridade e obscuridade, luz e sombra, dia e noite, céus e terra, graça e pecado, vida e morte parecem ser a trama de todo roteiro. Quanto mais se aproxima o tão aguardado acontecimento de sua morte, Jesus, volto a dizer, faz cortantes declarações na sua última ceia. Quem não se lembra do que está escrito nos seus evangelhos(!). Em meio ao ar apreensivo e temeroso dos seus amigos, Jesus, intencionalmente, deixa escapar da sua boca que um deles há de traí-Lo, sem mencionar quem era. Mas, Judas, o Iscariotes, não se deu por satisfeito e assinou sua confissão de culpa: “Acaso sou eu, Mestre?”. Seguidamente, a humanidade de Jesus de Nazaré não conteve o seu eu divino que continuava a falar: “Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, antes que três vezes negues que me conheces”(Lc 22.34). De fato, o teor dessas e de outras declarações que Jesus fez são carregadas de anúncio, porque é muito próprio do anúncio o falar e o acontecer. À medida que Jesus falava, as coisas iam acontecendo simultaneamente. Pouco tempo, muito pouco tempo depois iam se sucedendo os fatos, a traição e a negação. A traição já vinha sendo preparada por Judas, enquanto que a negação veio da insegurança de um “Pedro” pré-pascal ainda medroso. Aí é que está, após a Ressurreição, aos olhos humanos, a cena ganhará vida ou mais vida ainda.
Nestes dias mais fortes em que memorizamos a paixão,“páthos”, de Cristo, não só por que intitularam esta semana como santa, mas pela qual recapitulamos todo o sofrimento sobre-humano apontado para a glória, para a ressurreição. É no hoje de nossa história que temos a graça, a feliz “virtùs”(oportunidade), para reviver e adorar tudo isso numa unidade de sentido, cujo movimento nasce dos acontecimentos pré e pós-pascais. Dizia Jesus que sua glória era esta: Dar a vida pela salvação de muitos. E nós o glorificamos por ter completado a obra que o Pai lhe confiara. Jesus Cristo estava obcecado por uma missão profetizada por Isaías: “O Espírito do Senhor Jeová está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar a liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; a ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê ornamento por cinza, óleo de gozo por tristeza, veste de louvor por espírito angustiado, a fim de que se chamem árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado”(Is 61.1-3). Sem a Ressurreição ou o cumprimento desta vasta missão de Jesus, jamais teríamos acesso à alegria definitiva, eterna, do Reino de Deus. Lembro-me de um estalo do poeta Manoel de Barros que acertadamente falou do presente da Eternidade, “encostada em Deus”.
A profecia, mostrada acima, é um maravilhoso projeto de vida, de Deus para seu único Filho. Um projeto muito definido com suas ações e metas: Ungir; Libertar; Consolar; Ordenar... Projeto este que deixa, simultaneamente, claro e obscuro o seu objetivo. Deus falou também por Isaías sobre o objetivo do Projeto da Salvação. Que objetivo era este? A salvação, que implica a morte e também todo este suplício pelo qual passou Jesus. Não à toa, Deus fala com o seu Profeta que o servo de Javé, isto é, o Filho do Homem não abrirá sequer a boca ao sofrer pela salvação do mundo; nenhum de seus ossos será quebrado, e assim aconteceu; tão desfigurado vai estar que não terá aparência humana, e assim aconteceu. Quanta dor, quanta paixão sofrida pelo mundo, por amor a nós. Amou tanto o mundo que nos deu seu único Filho!(Cf. Jo 3.16)
Todavia, para contrariar ainda mais a natureza humana dos discípulos e dos que acompanhavam o Mestre para cumprir todas as Escrituras, o túmulo, arranjado pelo senador romano José de Arimatéia, zelado com todo carinho e tristeza pelas mulheres da família de Jesus e outras mulheres, permanecia vazio, confirmando a verdade das palavras do Senhor. O que muitos sabiam e poucos não criam, de fato, aconteceu. Jesus Ressuscitou! Aleluia! “E, estando elas muito atemorizadas e abaixando o rosto para o chão, eles lhe disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e, ao terceiro dia, ressuscite”(Lc 24.5-7).
Vejam que só depois que tudo isto aconteceu, para não dizer mais, é que os discípulos, chocados e perplexos, lembraram-se de tudo o que Jesus havia dito acerca destas coisas. Talvez, não soubessem o quanto o Senhor ainda iria se manifestar para mostrar a sua glória, mas o certo é que muitos de nós, mesmo hoje, após séculos e séculos de distância do Jesus histórico, ainda não somos capazes de nos deixar mover pelas lembranças e pelas memórias trazidas pelo poder, agora, do Espírito do Senhor. Não importa o tempo, é preciso lembrar destas coisas, senão faremos o mesmo que seus discípulos, vendo-o passar desapercebidamente.
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista pela UFRN.
Páginas na internet:

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mártir da Independência ou herói revolucionário?



“Brecht cantou: ‘Feliz é o povo
que não tem heróis’. Concordo.
Porém nós não somos um povo
feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes.”
(Augusto Boal, “Quixotes e Heróis”)

Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse sobre camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas…

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.

Demoramos mais de três séculos para nos livrarmos do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.

Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil.

E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.

É verdade que houve fugazes despertares da cidadania:

* em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;

* em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
* em 1992, quando os caras-pintadas foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.

Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.

O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação do artigo que Boal escreveu quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:

“Tiradentes foi revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo.

…No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação

…O mito está mistificado”.

Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações.

Fonte: http://www.consciencia.net/

domingo, 17 de abril de 2011

VIVER COM OU SEM JUSTIÇA?


O anel do ancestral de Giges, invisível, seduz a rainha, mata o rei e assim por diante. Essa história levanta uma indagação ética: algum homem seria capaz de resistir à tentação da injustiça se soubesse que seus atos não seriam testemunhados?

A justiça é uma incógnita no mundo que nos consome. Há muito mais pessoas preocupadas e ocupadas com seu orçamento no final do mês e com outras questões da vida; do que com a justiça. A justiça está ao relento sem cobertor e calor, abandonada e fria. Não somos justos conosco; não somos justos com as escolhas que fazemos. Nem sempre somos coerentes com as atitudes tomadas, o que se abre de imediato, consequente a isso, a porta ao arrependimento e à culpa. Quando não agimos aos apelos da consciência, a frustração acaba tomando lugar em nossas vidas. Diariamente, vidas são soterradas por não haver esta preocupação em agir justamente. A verdade é que falamos muito de justiça e fazemos pouco dela!
Que não me entendam mal. Não se trata de se ajustar a nada, não é justeza ou ajuste de contas, mas uma permissão da consciência para se agir autenticamente. Simplesmente deixar que o agir siga o ser, “agere sequitur esse”. Não por acaso, os gregos antigos diziam: “As coisas belas são difíceis”. Difícil porque as coisas feias como as injustiças estão por toda parte, em todo lugar. Basta darmos uma olhada de relance para nossos trabalhos, nossos salários, os serviços sociais, as políticas públicas, a saúde, a educação, os transportes públicos, as escolas públicas. É engraçado se compararmos o valor do maior salário para o valor do menor salário neste país. A discrepância é alarmante. Isso só pra ficarmos em salário. Imagine se ampliarmos ainda mais as comparações sociais no Brasil, ficaremos assustados com tamanha injustiça. Só pra termos uma ligeira ideia da desigualdade social em nosso país, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem um patrimônio invejável. O diretor de uma empresa numa cidade grande está ganhando o equivalente a R$ 60 mil em média. A Fundação Getúlio Vargas divulgou o ano passado, no mês de fevereiro, que o segmento dos mais ricos no país representam cerca de 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas que concentram em suas mãos 44% da renda nacional. Excessiva riqueza nas mãos de poucos.
Se bem que tem muito político nesse país assaltando os cofres públicos descaradamente, o que também é uma tremenda de uma injustiça social. Como se não bastasse, as mordomias acumuladas em telefones, residências, viagens e gratificações escandalizam bruscamente a população má remunerada que tenta mais em exercer justiça e em se preocupar com ela. Por causa disso, os políticos no mundo inteiro ocuparam o posto de últimos colocados em credibilidade profissional. Segundo pesquisa feita ano passado, a classe política é a menos confiável pela população. Um descrédito por causa da injustiça, diga-se de passagem.
Platão, em sua obra clássica A República, nos mostra que a justiça é um desejo universal, um anseio de todos os seres humanos, em toda parte. Ela não é apenas um conceito no meio de um emaranhado de conceitos, mas uma condição para que a filosofia e o viver sejam aplicados. Não podemos nos esquecer uma questão aqui pertinente, a liberdade. Pois o que dá sentido a nossa liberdade é a justiça. Sem justiça é impossível haver liberdade, intencionalidade, consciência. O ideal perfeito de uma cidade justa proposta por Platão na Politéia, ou República, é a possibilidade de se pensar em meio ao que é real, a injustiça, o que deveria existir e não existe, a justiça, um valor ideal que não se perde de vista. A justiça, por isso, tem um alcance ético: ver não só o que acontece, as injustiças, mas o que deveria acontecer, a justiça. O fato da consciência alimentar a esperança ou desesperança de que é possível a justiça, coloca-nos entre aqueles para quem a vida tem sentido. Apoderados desse anseio, longe de nós qualquer negação aos interesses coletivos daqueles mais necessitados da sociedade, como também da realização plena de seus direitos. Nenhum de nós pode se dar ao luxo de ceifar uma vida digna às gerações presentes e futuras.
Dito isso, imaginem-se agora detentores de um poderosíssimo anel capaz de deixar-lhes invisíveis com a oportunidade de fazer o que bem quiser, certo ou errado, justiças ou injustiças. O que diria para si mesmo? Faria o que deveria ou não? Vejamos o que nos diz Platão sobre a justiça: “Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo tratou de ser um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder”(PLATÃO. A República. Lisboa: Gulbenkian, 4ª ed., 1983, pp. 55-60).


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rafa trotando

Há uma campanha nacional contra o bullying – todos nós sabemos disso. Que se fale qualquer coisa contra os que estão nessa campanha, mas que a idéia básica é correta, disso não tenho dúvida. Não penso que deva existir um lugar na Terra onde o império da humilhação seja louvado. Então, como a escola está no Planeta, por conseguinte não vejo como eu teria de achar graça ou ver normalidade na existência do bullying.
Esse movimento contra o bullying é novo no Brasil. Mas, antes dele, as universidades começaram o movimento contra o trote. As origens do trote são medievais: um cavalo novo, ao ser colocado em serviço, precisa aprender a trotar. Para tal, nada melhor que fazê-lo sentir, logo de cara, o peso dos arreios. O mesmo se faz com o calouro universitário, uma tradição que absorvemos, é claro, de Portugal. Trata-se de um rito de iniciação que, enfim, nunca foi tão saboreado senão dentro dos regimes nazi-fascistas. Como esse tipo de prática levou vários estudantes a se ferirem ou mesmo morrerem, nossas universidades foram, aos poucos, tentando coibir o trote. Algumas universidades inventaram maneiras de canalizar energias dos estudantes para atividades sociais. Outras simplesmente proibiram o trote e colocaram uma faixa na porta da escola: “Aqui o calouro não pode ser humilhado, se você é calouro e sofreu violência física ou moral, denuncie”. Em lugares assim, a porta da civilização casou-se com a porta da universidade. Bem melhor.
Mas, é claro, nas escolas de beira de esquina, em cursos de pouca tradição humanística e de garotos saradões que, não raro, podem à noite vir a atacar homossexuais, há ainda um sorrateiro movimento contra as autoridades universitárias que proíbem o trote. A cultura da humilhação e da covardia dos mais fortes contra os supostos mais fracos tenta entrar pela janela quando expulsa pela porta. Uma faculdade assim, que, não raro, pode ser a do “papai pagou passou”, é o único lugar que o Rafa conseguiu entrar. E toda a Rede Globo está em festa com o menino. Ele e a mãe dele e todo mundo. Enfim, um vestibulando autêntico que vira um “bixo” autêntico. Rafa mostra seu corpo sarado e pintado após o trote. E como é bom o trote, não? Ele esbanja felicidade.
Eu imagino que poucos foram os cavalos que, uma vez colocados para trotar, na Idade Média, na origem do “trote”, tenham pensado em abolir tal prática. Penso que uma parte dos cavalos reclamou, mas, enfim, ao ganhar a armadura e o cavaleiro em cima, tais cavalos ficaram orgulhosos de poderem ser vassalos do homem e ir para as batalhas, tomar esporadas na barriga. Aprender a trotar – eis aí a forma de participar, mesmo sendo cavalo, da marcha da civilização.
Rafa vai por essa via em “Insensato Cérebro”. Ôps, é “Insensato Coração”. Ele está exultante. Temos de torcer para que ele não saia dos barzinhos próximos da universidade. Caso entre na aula, teremos de ver aquelas cenas de “educação moral e cívica”, onde a Rede Globo explica para a população o que faz um professor universitário e como funciona uma sala de aula no Brasil. Desse modo, temos de torcer para que a vida universitária de Rafa não progrida. Que fique no trote! Antes a violência nesse sentido que a violência contra nós, ao sermos obrigados a participar de uma aula na Rede Globo.
Não quero de modo algum abolir o trote em novela de TV. Menos ainda quero ver a novela condenando o trote do Rafa – isso seria até pior do que o próprio trote. O que há, mesmo, de insuportável nesse tipo de peça teatral brasileira, é o amadorismo com que a TV trata o mundo acadêmico.
Toda novela da Globo dá um show quando tem de retratar qualquer ambiente brasileiro que não seja o da escola. A escola ou a universidade, realmente, é um mundo estranho à TV. Quando ela tenta fazer uma cena que tenha a ver com a universidade, ela não consegue escapar da caricatura, do pastiche, do pastelão ou simplesmente do puro despreparo. A Globo, por questões de qualidade interna, deveria se proibir de exibir qualquer cena que pudesse ser escolar. Situações de bullying e trote, então, nem se fale. Aí o amadorismo se torna o berço do cultivo ao mau gosto.


Paulo Ghiraldelli Jr

* Filósofo, escritor e professor da UFRRJ

http://jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2011/04/14/rafa-trotando/

Artigo meu publicado pelo Portal SER - Sistema de Ensino Reflexivo de SC


Pessoal, confira aí a publicação de meu artigo pela Revista Eletrônica de Ensino Reflexivo de Santa Catarina. O artigo foi publicado nesta semana. Clique no link para ler na íntegra o artigo http://boletimodiad.blogspot.com/2011/04/deleuze-e-questao-da-educacao.html

domingo, 10 de abril de 2011

Enchi!




Pensar, pensar...

Junho 18, 2010 por Fundação José Saramago

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.
Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

Como será a Escola do Séc. XXI? É possível uma sociedade sem Escolas?



Você concorda com uma aprendizagem sem escolas? A escola limita o pensamento? A escola é muito burocrática? Sociedade sem escolas é o que pensa o filósofo Illich. O filósofo defende a ideia de redes de aprendizagens que acabaram se tornando uma realidade neste século. Assistam e reflitam!

III Jornada Heidegger - última chamada

Em sua terceira edição, a Jornada Heidegger propõe como tema central de seus trabalhos “Entre Nietzsche e Sartre – Pensar a Liberdade”.

Em memória do trigésimo-quinto aniversário do falecimento de Martin Heidegger, convidamos toda a comunidade acadêmica a participar da III Jornada Heidegger, a ser realizada nos dias 31 de maio, 1 e 2 de junho de 2011, na cidade de Natal. (Local a confirmar)

Conferencistas confirmados:
Prof. Dr. Marco Antônio Casanova (UERJ)
Prof. Dr. Róbson Ramos dos Reis (UFSM)
Prof. Dr. Paulo César Duque-Estrada (PUC-Rio)

Organização:
Prof. Ms. Dax Moraes – Curso de Filosofia do CAS/UERN / NEXT-Núcleo de Estudos sobre Existência (UERN) / Grupo de Estudos em Metafísica e Tradição (UFRN)
Prof. Dr. Oscar Federico Bauchwitz – PPGFIL/UFRN / Grupo de Estudos em Metafísica e Tradição (UFRN)


 Visite: jornadaheidegger.wordpress.com

sábado, 9 de abril de 2011

A Escola não se basta a si mesma.

Acreditar nisso é um dever. Não aceitar é uma tolice. Nem sequer pensar é uma loucura. Dever, tolice, loucura. Em qual das três você se encaixaria? Ah, não importa. O que importa de fato? Bem, “o nada se basta a si mesmo” é uma ideia forte, e se faz pertinente seja lá como for, pois estamos atolados até o pescoço na existência.
Olhem em volta. Olhem para cima. Olhem para baixo. Olhem para dentro. Simplesmente não olhem. Soltem-se e percebam essa estranha sensação, a de que estamos lançados na existência. Não era isso o que dizia Sartre no seu “O existencialismo é um humanismo”?
Quanto mais o tempo passa, mais e mais nos convencemos de que não sabemos tudo de nada. Ninguém, na verdade, se basta a si mesmo. Há coisas que importam e que não importam. Mas, como é fácil confundir as duas. Na vida, estamos sempre na linha do horizonte entre opiniões absolutas e opiniões relativas. Na área da Educação, tem muita gente confundindo as duas coisas, quando nem ainda se tornaram ideias, mas ainda estão no campo das opiniões, do achismo, do empírico. O problema é que somos facilmente levados ou tentados a traduzir estas opiniões, melhor dizendo, por ideias absolutas dentro da Escola, o que não é muito produtivo. Para mim, a palavra Escola, de semântica diferente, tem significado semelhante ao da palavra Universidade, onde reúne uma diversidade de ideias, de opiniões e de conceitos para experimentar o debate. Atitudes extremas, radicais e unilaterais não combinam com um ambiente eminentemente diverso da Escola.
Em se tratando de Educação, há muita gente tomando a parte pelo todo mais do que se imagina, pensando que suas ações são eternas e universais, com forças sobre-humanas até, ignorando muita gente boa que se desdobra por uma educação mais criativa. Mas, tudo muda também na Educação, não nos esqueçamos dessa verdade. A educação de 30 anos não pode ser mais a mesma de hoje. Os conceitos mudaram, o mundo mudou. A história também. As informações estão mais rápidas. As relações estão meio que instantâneas e imediatas, o que prova que não somos mais os mesmos. Como diz acertadamente a música de Lulu Santos, “Como uma onda no mar”, “Nada do que foi será igual ao que já foi um dia, tudo muda o tempo todo no mundo, não adianta fingir, nem mentir para si mesmo agora, há tanta vida lá fora... Num indo e vindo infinito”. Se observarmos com cuidado, todos estão em volta da ideia de mudança, mesmo que isso cause um desgosto danado.
Em média, um aluno passa de 14 a 15 anos mais ou menos na Educação Básica que compreende Educação infantil, Ensino Fundamental e Médio no Brasil, o que chega a ser um tempo bastante considerável em que a Escola poderá ajudá-lo a decidir melhor sobre a carreira ou a profissão almejada. Em relação ao Professor, o aluno fica pouquíssimo tempo na Escola; já o Professor permanece em média de 30 a 40 anos na Escola. Aliás, muito mais tempo que isso, admitindo seus anos de formação, da Educação Básica passando pela Universidade até ao término da pós-graduação. Junte tudo isso e verás que o Professor passa uma vida inteira dentro da Escola.
Por isso e por muito mais, o Professor deveria sim ser muito bem tratado nesse país, na sua cidade, na sua comunidade, e sobretudo, na sua Escola, despertando o apreço e o respeito de seus alunos.
Por entrar numa Escola, ninguém está obrigado a ser médico, professor, engenheiro, cientista, pedagogo, odontólogo, filósofo, físico, químico ou matemático, mas alguns o são, e isso é bom. Da mesma forma que há os que não querem ser nada disso, o que também é um valor, vai ser outra coisa na vida, sem necessariamente ter uma profissão específica, o que também é muito bom. Ou seja, a Escola não vai determinar nada para o aluno; simplesmente, irá apontar caminhos e alternativas, para depois ou durante o processo de aprendizagem, poder escolher conforme queira.
A Escola, como tudo na vida, é uma passagem, um caminho, um percurso, uma etapa importante de nossa breve existência. Ela, por isso, não se basta a si mesma. Ela não é suficiente em tudo. A Escola precisa do apoio e acompanhamento da família, das igrejas, do poder público, das instituições em geral, da sociedade para ampliar mais ainda o conceito de uma Educação que quer ser cidadã. Mas, para isso, é urgente a consciência de que não nos bastamos a nós mesmos, ao invés de nos revoltarmos contra os Profissionais da Educação, levantando possíveis suspeitas quanto à responsabilidade de suas atividades pedagógicas. Será que exigimos de nós mesmos o quanto exigimos dos outros?
Façamos do tempo de Escola, um período propício, oportuno e gracioso de aprendizagem. Aprender, sobretudo, a aceitar o diferente com toda estranheza que há nele, pois a Escola é o lugar por excelência do choque de ideias, onde as opiniões se encontram e se desencontram, onde nascem os novos conceitos, onde as várias cabeças se tocam e se conflitam para colocar em movimento pensamentos frios e envelhecidos postos alguma vez no papel.
A Escola não se basta a si mesma, mas é necessária: Sem as Escolas, como os conceitos iam nascer? Sem as aulas, como os pensamentos iam mudar? Sem os debates, como íamos aprender? Sem estudar, como iríamos saber errar?


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN
Páginas na internet: www.umasreflexoes.blogspot.com
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www.twitter.com/filoflorania



sexta-feira, 8 de abril de 2011

O Existencialismo de Sartre


O quietismo é a atitude das pessoas que dizem: os outros podem fazer aquilo eu não posso fazer.A doutrina que vos apresento é justamente a oposta ao quietismo visto que ela declara: só hárealidade na ação; e vai aliás mais longe, visto que acrescenta: o homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se é portanto nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida.
De acordo com isto podemos compreender por que a nossa doutrina causa horror a um certo número de pessoas. Porque muitas vezes não têm senão uma única de suportar a sua miséria, isto é, pensar as circunstâncias foram contra mim, eu muito mais do que aquilo que fui; é certo que não tive um grande amor, ou uma grande amizade, mas foi porque não encontrei um homem ou uma mulher que fossem dignos disso, não escrevi livros muito bons, mas foi porque não tive tempo livre para o fazer; não tive filhos a quem me dedicasse, mas foi porque não encontrei o homem com quem pudesse realizar a minha vida. Permaneceram, portanto, em mim e inteiramente viáveis, inúmeras disposições, inclinações, possibilidades que me dão um valor que da simples série dos meus atos se não pode deduzir. Ora, na realidade, para o existencialista não há amor diferente daquele que se constrói; não hápossibilidade de amor senão a que se manifesta no amor, não há gênio senão o que se exprime nas obras de arte; o gênio de Proust é a totalidade das obras de Proust; o gênio de Racine é a série das suas tragédias, e fora disso não há nada; por que atribuir a Racine a possibilidade de escrever uma nova tragédia, já que precisamente ele a não escreveu? Um homem embrenha-se na sua vida, desenha o seu retrato, e para lá desse retrato não há nada. Que significa aqui o fato de a existência preceder a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo, e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não só como ele se concebe, mas como ele quer ser; como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência, o homem não é mais do que o que ele faz de si mesmo. Tal é o primeiro princípio do existencialismo. É também a isto que chamamos subjetividade e pelo que somos censurados sob o mesmo nome. Mas que queremos dizer com isso, senão que o homem tem uma dignidade maior do que uma pedra ou uma mesa? Pois o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem, antes de mais nada, se lança para um futuro, e que é consciente de se projetar no futuro. O homem é, antes de mais nada, um projeto vivido subjetivamente, ao invés de ser um creme, qualquer coisa podre, ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projeto; nada há no céu inteligível, e o homem será antes de tudo o que ele houver projetado ser. Não o que ele quiser ser. Pois o que vulgarmente entendemos por querer é uma decisão consciente que, para a maior parte de nós, é posterior ao que alguém fez de si mesmo. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me; tudo isso não é mais do que a manifestação duma escolha mais original, mais espontânea daquilo que se chama vontade. Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do  existencialismo é o de pôr todo homem de posse do que ele é e atribuir-lhe a responsabilidade total por sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável por sua estrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens. Há dois sentidos para a palavra subjetivismo, e é com isso que jogam nossos adversários. Subjetivismo quer dizer, de um lado, escolha do sujeito individual por si próprio; e, por outro, impossibilidade do homem em superar a subjetividade humana. O segundo é que é o sentido profundo do existencialismo. Quando dizemos que o homem se escolhe, queremos dizer que cada um de nós se escolhe; mas, com isso, também queremos dizer que, ao se escolher, ele escolhe todos os homens. Com efeito, não existe um ato nosso que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, pois nunca podemos escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Se a existência, por outro lado, precede a essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo em que construímos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve a humanidade.

O existencialismo é um Humanismo. Lisboa, Presença, s/d/, p. 241

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ex-aluno da Escola Estadual Teônia Amaral, Joelson Silva de Araújo, tem texto publicado em renomada Revista de SC.


O aluno do curso de Filosofia da UERN de Caicó, RN, Joelson Silva de Araújo tem texto publicado na renomada Revista SER - Sistema de Ensino Reflexivo - do Estado de Santa Catarina. Joelson é ex-aluno da Escola Estadual Teônia Amaral e está concluindo o Curso de Licenciatura Plena em Filosofia pela UERN.
Artigo: Diálogo o início do educar: Paulo Freire

Para ler seu texto na íntegra é só acessar: http://boletimodiad.blogspot.com/2011/04/dialogo-o-inicio-do-educar-paulo-freire.html

terça-feira, 5 de abril de 2011

Nascido para saborear uvas...


O homem já nasce com uma necessidade de vencer, conquistar.
A escravidão não é natural. Nossa mente funciona a partir do ponto de vista do caçador, e não da presa. Fomos feitos para dominar sobre as obras das mãos de Deus. Por isso, o leão e o elefante são subjugados pelo homem.

“E Deus os abençoou e Deus lhes disse:
Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a
terra, e sujeitai-a; dominai sobre os peixes
do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre
todo o animal que se move sobre a terra.”
(Gênesis 1.28)

O homem anseia por grandeza. Temos obsessão por expandir, crescer e melhorar. Nascemos para o lugar alto. Nós instintivamente nos movemos em direção ao crescimento: espiritual, mental e financeiro.
A semente da necessidade foi plantada pelo Criador em nós. Deus fez de si mesmo uma necessidade para a felicidade humana. Tal como a peça faltante do quebra-cabeça, o retrato da vida não faz sentido até que o Criador seja incluído nele.
“Um verdadeiro vencedor jamais anuncia ou amplia suas fraquezas.”
Você foi feito para relacionar-se. Os ouvidos demandam sons, os olhos exigem o que ver, a mente requer imaginação, o coração procura companheirismo. Ter ou não um relacionamento com Deus é o que determina o fracasso ou o sucesso de alguém.
Lembre-se: popularidade não é sucesso; é ter pessoas gostando de você. Felicidade é você gostar de si mesmo. Sucesso implica felicidade. Felicidade é sentir-se bem a respeito de si mesmo. Não é necessariamente ter fama, dinheiro ou boa posição social. Implica o conhecimento e a consciência de seu valor aos olhos de Deus.
Você está aqui na terra para um propósito. Foi concebido e equipado para uma missão específica, e precisa discernir e desenvolver as habilidades que recebeu de Deus. Ele investiu em seu nascimento. E só quando esses dons forem utilizados corretamente você sentirá e saberá o quanto Deus valoriza você.
Pense nisso.
Moisés, o grande líder, foi um vencedor. Ele nos deixou dois versículos fascinantes em Deuteronômio 32.13,14, quando descreveu grandiosas bênçãos de Deus para seu povo:
“Ele o fez cavalgar sobre as alturas da terra
e comer as novidades do campo; e o fez
chupar mel da rocha e azeite
da dura pederneira, manteiga de vacas
e leite do rebanho, com gordura dos
cordeiros e dos carneiros que pastam em
Basã e dos bodes, com a gordura da flor do
trigo; e bebeste o sangue
das uvas, o vinho puro.”

Tenha esta imagem presente em sua mente: o sumo das uvas. Você nasceu para saborear as uvas da bênção. Enquanto alguns gastam o seu tempo discutindo o tamanho dos gigantes e dos seus problemas, os vencedores se atrevem a alcançar as uvas das bênçãos prometidas por Deus.

Texto de Mike Murdock, in Sabedoria para Vencer: sua sabedoria determina sua força; sua força determina sua resistência; sua resistência determina seu sucesso. Rio de Janeiro, Central Gospel. 2010. p. 65-68.

sábado, 2 de abril de 2011

Qual a sua opinião?...



Nesses dias dei-me conta de que estava a pensar sobre o quanto é importante uma boa formação de opiniões, até mesmo para convivermos melhor em sociedade, expressar com mais objetividade nossas ideias, ajudar outros a formarem as suas, dirimir equívocos, afastar incoerências. Paira sobre nós um certo relaxamento em relação a isso. A nossa malemolência em lidar com o assunto é absurda.
Vejam que alguns de nós passam anos a fio dentro de uma Universidade ou de uma Escola tentando construir algo, uma carreira talvez, um arcabouço de informações, uma base a mais para crescer na vida, enfim, mas quando somos consultados simplesmente não temos o que dizer. No entanto, quer entremos ou não numa Universidade, o certo é que muitos de nós, senão todos, passamos a vida toda e não conseguimos sequer formar, tampouco viver de nossas opiniões, o que mostra o quanto não somos senhores de nós mesmos. Num ponto, Heidegger estava certo: “A maioria dos homens não pensa por si mesmo; não julga com a própria cabeça; não decide por conta própria: pensa, julga, decide conforme ou vem dizer dos outros”. Creio que está na hora de aprender a pensar com a própria cabeça. Ser cabeça bem feita e não cabeça cheia, no dizer de Montaigne, uma recorrente no pensamento de Edgar Morin.
Absortos a uma cultura capitalista democrática de interesses meramente econômicos que, de quando em quando, abandona seus ideais democráticos e dá lugar as ditaduras mais toscas e aberrantes como aquelas vistas recentemente em cadeia internacional com proporções violentas na Tunísia, no Egito e agora, no Iêmen, tal como na Líbia, nos sentimos seriamente vulneráveis quanto à solidez de algumas opiniões enraizadas na ética, na tolerância e no amor. A ditadura é a prova cabal de que “o controle da expressão leva à morte da expressão”(Márcia Tiburi). Se com expressão a democracia é o que é, o que dizer então sem ela!
Tão logo nascemos, de imediato nossos pais descarregam sobre nós os mais belos pensamentos, os mais velhos conselhos de respeito e de bons costumes, fruto de uma tradição herdada por nossos avós ou pela família inteirinha. O certo é que nem sempre se percebe a tradução de velhos ensinamentos em vida. Refiro-me a velhos não por serem menos ou mais importantes do que os novos, mas porque afirmam uma tradição distante de nós. Não é por serem velhos ou antigos que não prestam, mas por não virem acompanhados de ação, de vida, de autenticidade. É aquela história, dar conselhos é razoavelmente maravilhoso, mas vivê-los, aí são outros quinhentos. Não é em vão que o corriqueiro ditado popular teima em vigorar: “As palavras passam, mas os exemplos arrastam”. Quantas vezes não ouvimos de nossos pais: “Meu filho, cuidado com as companhias, com a bebida, com as drogas, ….” No entanto, quantos pais ou familiares não têm os mesmos cuidados, o mesmo zelo, acabando por errar muito mais.
Para a maior parte de nós, pouco importa o que acontece embaixo de nossos narizes ou em volta de nós. Na verdade, damos mais interesse para o que há dentro de nós, da subjetividade, do nosso eu arranhado, nossos recalques, culpas e ressentimentos. A atmosfera que nos arrebata não é a que está fora, mas a que está dentro de nós. Respondemos muito, mas muito mais aos estímulos da nossa subjetividade e nos distraímos, voluntariamente ou não, para o que responde o outro, para o que pensa o outro, para o que precisa o outro, para o que sente o outro... Vamos destruindo aos poucos toda uma construção ou desconstrução de valores dada às formas da nossa mais inata causalidade. Segundo Kant, há, em nós, uma intuição inata de ver ou perceber as coisas. É, portanto, esta dimensão que a Escola, a Universidade, os pais, os amigos e familiares, a sociedade e mesmo nós, cada um de nós, deve dinamizar para melhor formar opiniões que visem ao diálogo e à desconstrução de preconceitos. Resgatando, assim, a luminosidade de novas pessoas, o fulgor de novos sujeitos que deem também importância ao que está fora, perto e longe, a alteridade, o altruísmo, a caridade, o apreço pelo diferente.
Na minha opinião, a sociedade não pode ficar órfã de homens e mulheres adeptos de uma boa leitura; afeitos à música; dedicados à família; focados no trabalho; zelosos à cidadania; fiéis ao cristianismo; compromissados com a verdade; fazedores da justiça; eleitores da honestidade e não da força econômica; sabedores e cumpridores da ética; protagonistas do amanhã; formadores de si mesmos. Qual a sua opinião? Por que não tenta começar a expressá-la agora mesmo?

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN

sexta-feira, 1 de abril de 2011

HAVERÁ JUSTIÇA NA TERRA DOS POLÍTICOS?

SEM AMOR, EU NADA SERIA

 

Monte Castelo

Renato Russo

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.


É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.


O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.


Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.


É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.


É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.


Estou acordado e todos dormem todos dormem
todos dormem.
Agora vejo em parte. 

Mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.


Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

sábado, 30 de abril de 2011

Estranhamento e entranhamento, um estranho trocadilho.

(Imagem do filme "Onde vivem os monstros", 2009, EUA, direção de Spike Jonze)

A vida é cheia de reações. Há momentos que nos fazem sentir e outros que nos fazem pensar; ora somos extrovertidos, ora introvertidos; vezes agimos para fora, vezes agimos para dentro. Há momentos em que precisamos ser ativos, outros em que precisamos ser absolutamente passivos. Porém, na maior parte do tempo, somos simultaneamente um e outro, ativos e passivos, como numa sala de aula, como num diálogo, por exemplo, no trabalho, enfim, na vida... Imagino a vida como um grande novelo de linha que se desenrola pouco a pouco nas mãos da vovozinha que incansavelmente faz e refaz suas casas no pano de linho. Ao final, meio que tomada de ímpeto, a vovozinha se depara com uma belíssima imagem, antes não vista, mas imaginada em sua memória. Só que, do início ao fim, o novelo guarda múltiplas experiências até concretizar a tão sonhada imagem. O novelo se desfia para se fiar e se desfiar novamente na existência.
A existência nos prega muitas peças. Umas de estranhamento, outras de entranhamento. O estranhar uma realidade é inquietar-se com ela. Estranhar uma viagem que nos levará para um lugar desconhecido. Estranhar uma escola nova. Estranhar um novo membro da família que chega de imediato. Estranhar uma mudança de domicílio. Estranhar está muito ligado ao “páthos” em Aristóteles, uma espécie de afecção da alma, tem a ver com os sentimentos que nos provocam uma determinada experiência de vida. Ao entrarmos em contato com algo novo, com um fato inusitado, temos a impressão de que alguma coisa estranha mexe conosco. Esta coisa estranha é a reação da nossa mais fina natureza.
O estranhamento está muito presente no exercício do filosofar, tanto em Aristóteles quanto em Platão. “A admiração, o estranhamento é o modo de ver daquele para quem o filosofar é um modo de viver. Os gregos denominaram thaumátzein esta atitude originante do filosofar”(Cf. Aristóteles, Metafísica A,2,17-19. Platão: Teeteto, 155d). Realmente, a gente só pergunta porque estranha!
Se somos acometidos constantemente pela experiência do estranhar, uma vez que alguma mudança está ocorrendo, o que dizer então da experiência do entranhar. Entranhar está para Sócrates como Sócrates está para a Filosofia. Esta palavra me faz lembrar Fenarete, a mãe de Sócrates, parteira ou tratadeira das mulheres gestantes, prontas para dar a luz. Imagino Fenarete saindo pelas ruelas da Grécia antiga, de casa em casa, cuidando de muitas mulheres que engravidavam e ansiosas esperavam seus filhos. Sócrates, certamente muito pequeno a seguia por essas ruas estreitas da Grécia a fim de acompanhar zelosamente o trabalho da mãe. Imaginem o pequenino menino filósofo ali, à sombra da mãe, vendo o ofício das mãos afinadas com a enfermagem. Sem saber ao certo, Sócrates já estava antecipando os traços visíveis de sua mais nobre filosofia, a arte de fazer parto de almas e não de corpos. Com a mãe, parteira de corpos, viu maravilhado, entranhado, a maneira com que ela habilmente ajudava suas pacientes a dar a vida.
Talvez, a partir dessa experiência de Sócrates com sua mãe, o filósofo tenha adquirido os dois principais métodos da sua filosofia, o “elénkos” e a “maiêutica”. O primeiro é pura refutação, o segundo é o nascimento da verdade pelo diálogo. Principalmente, na linha do segundo é que se encontra o entranhamento da Filosofia. Argumento demasiadamente os elementos da justiça que tenho a possibilidade de me tornar justo. Argumento frequentemente as categorias da bondade que me torno bom. Falo por demais sobre Deus que me torno um religioso ou cristão ao falar muito de Cristo. Falo tanto de Filosofia que, com isso, passo a me tornar um filósofo. Entende-se assim a maneira de se entranhar do filósofo Sócrates, de modo que seus pensamentos chegam ao coração, promovendo nos seus interlocutores uma forma de impregnar suas convicções. Os seus ouvintes ficavam tão imbuídos com suas ideias que, de pronto, assumiam suas convicções devido ao poder de suas argumentações. Entranhar é embrenhar-se disso. Estar profundamente penetrado ou impregnado de suas ideias e convicções.
Estou aqui a viajar um pouco em minhas ideias filosóficas para atribuir a Sócrates, talvez, as duas maneiras de se sentir afetado por suas ideias. Quando Sócrates interrompia um juiz e o perguntava sobre justiça é porque aquilo o estava estranhando, perturbando, de alguma maneira. Como é que um homem que se diz juiz não sabe nada de justiça!? Por outra, o entranhamento acontecia quando, o tal indivíduo se convencia da sua ignorância e aceitava aprender para encontrar, de fato, a verdade. Perguntar-se é estranhar. Convencer-se em buscar a verdade é o entranhar. Estar convicto da verdade é, sim, a meu ver, uma espécie de entranhamento.
Acho que nos entranhamos mais do que nos estranhamos. Devia ser o contrário. Somos mais políticos do que filósofos na prática. Políticos gostam mais de acordos, filósofos não. Percebo que o filósofo se lança mais a favor do estranhar. Parece próprio do pensamento estranhar, independentemente das certezas que advenham dele. O pensar é autônomo e não se prende ao entranhar, à verdade. É melhor, a meu ver, desentranhar do que entranhar para o filósofo. Porém, em se tratando de pessoas comuns, as duas formas de atitudes frente à vida são muito pertinentes e merecem toda a nossa atenção. Para alguns, as certezas(entranhamento) trazem paz e tranquilidade à alma. Para outros, as dúvidas(estranhamento) nos lançam em direção à inquietação, o que também alimenta uma alma curiosa, sábia.
Todavia, estranhamento e entranhamento, como em Sócrates, parecem admiravelmente se completarem de modo estranho a favor do filosofar...

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN



sexta-feira, 29 de abril de 2011

PROFESSORES DO ESTADO DO RN ENTRAM EM GREVE PRA VALER

Professores e servidores da rede pública estadual entram em greve por tempo indeterminado na próxima segunda-feira. A decisão tomada em assembleia, ontem, é segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do RN uma resposta ao governo que até agora não atendeu à reivindicação de aplicação da tabela salarial à categoria. Os 19 mil professores ativos questionam que seus salários estão defasados em relação a outras categorias e que o governo não estaria oferecendo o mesmo tratamento.
Presidente do Sinte/RN diz que greve depende de negociaçãoEm entrevista por telefone na manhã desta sexta-feira, a coordenadora do Sinte-RN, professora Fátima Cardoso, afirmou que a governadora chegou a enviar uma carta à instituição. “Mas essa carta é absolutamente evasiva. Ao mesmo tempo que se mostra interessada em resolver, diz que não tem como”. “Queremos o mesmo tratamento que o Governo concede a outras categorias”, afirmou.
De acordo com o Sindicato, o salário de um professor em início de carreira, é de R$ 739,00. O cumprimento da tabela que trata dos vencimentos da categoria elevaria esse piso para R$ 1.759,50 podendo chegar a R$ 3.519,00 de um professor com doutorado, por exemplo.
Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), a responsável pela pasta, Bathania Ramalho, ainda não foi informada oficialmente pelo sindicato sobre a greve, e só se pronunciará quando receber o comunicado.


Fonte: http://tribunadonorte.com.br/noticia/professores-do-estado-entram-em-greve-na-segunda-feira/179861

CALENDÁRIO DA GREVE DOS PROFESSORES DO ESTADO DO RN, VEJA:

A rede Estadual de Ensino está em greve. A mobilização teve início após deliberação da assembleia realizada nesta quinta-feira (28). Entre nessa luta. Para fazer parte dessa ação, veja o calendário de atividades a seguir:


29/04 (Sexta-feira) - Retorno dos professores às escolas, nos três turnos, para comunicar a comunidade escolar sobre a deflagração da Greve.

02/05 (Segunda-feira) - Acampamento em frente à Governadoria a partir das 9h. A atividade será apenas no turno Matutino

03/05 (Terça-feira) - Acampamento o dia todo na Praça Tomás de Araújo, em frente a Assembleia Legislativa

04/05 (Quarta-feira) - Caminhada no Bairro de Felipe Camarão com concentração às 15h em frente a Escola Estadual Maria Queiroz.

05 e 06/05 (Quinta e Sexta-feira) - A diretoria do Sinte fará o mapeamento do movimento no interior e na capital.

09/05 (Segunda-feira) - Plenária de organização da greve, às 9h, na Escola Estadual Winston Churchill. Toda a categoria deve estar presente.

http://www.sintern.org.br/noticias/visualizar/882

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lembrai-vos: “Não está aqui, ressuscitou”(Lc 24.6).


Foto: túmulo vazio, jardim do túmulo em Jerusalém

A cena da última ceia de Jesus foi reveladora. As declarações do Mestre lidas hoje nas Sagradas Escrituras são impactantes, mas ditas por Ele naquela ocasião nem pareceram tão reveladoras. Até que mereciam ser consideradas com mais importância pelos discípulos, mas não foi assim que aconteceu. Ou os discípulos dissimularam tais declarações, ou simplesmente não entenderam nada, como dizem os mais afinados ao assunto. Apavorados com os sussurros que se ouviam a respeito da possível prisão e morte de Jesus, os discípulos assimilaram pouca coisa do que disse o mestre naquele dia.
Como se não bastasse o que Jesus havia sinalizado quando do início dos discursos das dores em Mateus acerca do seu tempo que já está por terminar e de outras fortes palavras do tipo “não ficará pedra sobre pedra”, a última ceia e sua prisão, bem como toda a sua paixão são recheadas de grande simbologia que vale a pena Lembrar. A sutilidade do mestre é encantadora. O roteiro da sua morte e ressurreição parecia está sendo escrito enquanto viviam. Em tudo o que Jesus diz, literalmente ou não, há um fundo de mistério. Os pares claridade e obscuridade, luz e sombra, dia e noite, céus e terra, graça e pecado, vida e morte parecem ser a trama de todo roteiro. Quanto mais se aproxima o tão aguardado acontecimento de sua morte, Jesus, volto a dizer, faz cortantes declarações na sua última ceia. Quem não se lembra do que está escrito nos seus evangelhos(!). Em meio ao ar apreensivo e temeroso dos seus amigos, Jesus, intencionalmente, deixa escapar da sua boca que um deles há de traí-Lo, sem mencionar quem era. Mas, Judas, o Iscariotes, não se deu por satisfeito e assinou sua confissão de culpa: “Acaso sou eu, Mestre?”. Seguidamente, a humanidade de Jesus de Nazaré não conteve o seu eu divino que continuava a falar: “Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, antes que três vezes negues que me conheces”(Lc 22.34). De fato, o teor dessas e de outras declarações que Jesus fez são carregadas de anúncio, porque é muito próprio do anúncio o falar e o acontecer. À medida que Jesus falava, as coisas iam acontecendo simultaneamente. Pouco tempo, muito pouco tempo depois iam se sucedendo os fatos, a traição e a negação. A traição já vinha sendo preparada por Judas, enquanto que a negação veio da insegurança de um “Pedro” pré-pascal ainda medroso. Aí é que está, após a Ressurreição, aos olhos humanos, a cena ganhará vida ou mais vida ainda.
Nestes dias mais fortes em que memorizamos a paixão,“páthos”, de Cristo, não só por que intitularam esta semana como santa, mas pela qual recapitulamos todo o sofrimento sobre-humano apontado para a glória, para a ressurreição. É no hoje de nossa história que temos a graça, a feliz “virtùs”(oportunidade), para reviver e adorar tudo isso numa unidade de sentido, cujo movimento nasce dos acontecimentos pré e pós-pascais. Dizia Jesus que sua glória era esta: Dar a vida pela salvação de muitos. E nós o glorificamos por ter completado a obra que o Pai lhe confiara. Jesus Cristo estava obcecado por uma missão profetizada por Isaías: “O Espírito do Senhor Jeová está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar a liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; a ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê ornamento por cinza, óleo de gozo por tristeza, veste de louvor por espírito angustiado, a fim de que se chamem árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado”(Is 61.1-3). Sem a Ressurreição ou o cumprimento desta vasta missão de Jesus, jamais teríamos acesso à alegria definitiva, eterna, do Reino de Deus. Lembro-me de um estalo do poeta Manoel de Barros que acertadamente falou do presente da Eternidade, “encostada em Deus”.
A profecia, mostrada acima, é um maravilhoso projeto de vida, de Deus para seu único Filho. Um projeto muito definido com suas ações e metas: Ungir; Libertar; Consolar; Ordenar... Projeto este que deixa, simultaneamente, claro e obscuro o seu objetivo. Deus falou também por Isaías sobre o objetivo do Projeto da Salvação. Que objetivo era este? A salvação, que implica a morte e também todo este suplício pelo qual passou Jesus. Não à toa, Deus fala com o seu Profeta que o servo de Javé, isto é, o Filho do Homem não abrirá sequer a boca ao sofrer pela salvação do mundo; nenhum de seus ossos será quebrado, e assim aconteceu; tão desfigurado vai estar que não terá aparência humana, e assim aconteceu. Quanta dor, quanta paixão sofrida pelo mundo, por amor a nós. Amou tanto o mundo que nos deu seu único Filho!(Cf. Jo 3.16)
Todavia, para contrariar ainda mais a natureza humana dos discípulos e dos que acompanhavam o Mestre para cumprir todas as Escrituras, o túmulo, arranjado pelo senador romano José de Arimatéia, zelado com todo carinho e tristeza pelas mulheres da família de Jesus e outras mulheres, permanecia vazio, confirmando a verdade das palavras do Senhor. O que muitos sabiam e poucos não criam, de fato, aconteceu. Jesus Ressuscitou! Aleluia! “E, estando elas muito atemorizadas e abaixando o rosto para o chão, eles lhe disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e, ao terceiro dia, ressuscite”(Lc 24.5-7).
Vejam que só depois que tudo isto aconteceu, para não dizer mais, é que os discípulos, chocados e perplexos, lembraram-se de tudo o que Jesus havia dito acerca destas coisas. Talvez, não soubessem o quanto o Senhor ainda iria se manifestar para mostrar a sua glória, mas o certo é que muitos de nós, mesmo hoje, após séculos e séculos de distância do Jesus histórico, ainda não somos capazes de nos deixar mover pelas lembranças e pelas memórias trazidas pelo poder, agora, do Espírito do Senhor. Não importa o tempo, é preciso lembrar destas coisas, senão faremos o mesmo que seus discípulos, vendo-o passar desapercebidamente.
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista pela UFRN.
Páginas na internet:

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mártir da Independência ou herói revolucionário?



“Brecht cantou: ‘Feliz é o povo
que não tem heróis’. Concordo.
Porém nós não somos um povo
feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes.”
(Augusto Boal, “Quixotes e Heróis”)

Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse sobre camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas…

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.

Demoramos mais de três séculos para nos livrarmos do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.

Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil.

E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.

É verdade que houve fugazes despertares da cidadania:

* em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;

* em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
* em 1992, quando os caras-pintadas foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.

Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.

O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação do artigo que Boal escreveu quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:

“Tiradentes foi revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo.

…No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação

…O mito está mistificado”.

Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações.

Fonte: http://www.consciencia.net/

domingo, 17 de abril de 2011

VIVER COM OU SEM JUSTIÇA?


O anel do ancestral de Giges, invisível, seduz a rainha, mata o rei e assim por diante. Essa história levanta uma indagação ética: algum homem seria capaz de resistir à tentação da injustiça se soubesse que seus atos não seriam testemunhados?

A justiça é uma incógnita no mundo que nos consome. Há muito mais pessoas preocupadas e ocupadas com seu orçamento no final do mês e com outras questões da vida; do que com a justiça. A justiça está ao relento sem cobertor e calor, abandonada e fria. Não somos justos conosco; não somos justos com as escolhas que fazemos. Nem sempre somos coerentes com as atitudes tomadas, o que se abre de imediato, consequente a isso, a porta ao arrependimento e à culpa. Quando não agimos aos apelos da consciência, a frustração acaba tomando lugar em nossas vidas. Diariamente, vidas são soterradas por não haver esta preocupação em agir justamente. A verdade é que falamos muito de justiça e fazemos pouco dela!
Que não me entendam mal. Não se trata de se ajustar a nada, não é justeza ou ajuste de contas, mas uma permissão da consciência para se agir autenticamente. Simplesmente deixar que o agir siga o ser, “agere sequitur esse”. Não por acaso, os gregos antigos diziam: “As coisas belas são difíceis”. Difícil porque as coisas feias como as injustiças estão por toda parte, em todo lugar. Basta darmos uma olhada de relance para nossos trabalhos, nossos salários, os serviços sociais, as políticas públicas, a saúde, a educação, os transportes públicos, as escolas públicas. É engraçado se compararmos o valor do maior salário para o valor do menor salário neste país. A discrepância é alarmante. Isso só pra ficarmos em salário. Imagine se ampliarmos ainda mais as comparações sociais no Brasil, ficaremos assustados com tamanha injustiça. Só pra termos uma ligeira ideia da desigualdade social em nosso país, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem um patrimônio invejável. O diretor de uma empresa numa cidade grande está ganhando o equivalente a R$ 60 mil em média. A Fundação Getúlio Vargas divulgou o ano passado, no mês de fevereiro, que o segmento dos mais ricos no país representam cerca de 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas que concentram em suas mãos 44% da renda nacional. Excessiva riqueza nas mãos de poucos.
Se bem que tem muito político nesse país assaltando os cofres públicos descaradamente, o que também é uma tremenda de uma injustiça social. Como se não bastasse, as mordomias acumuladas em telefones, residências, viagens e gratificações escandalizam bruscamente a população má remunerada que tenta mais em exercer justiça e em se preocupar com ela. Por causa disso, os políticos no mundo inteiro ocuparam o posto de últimos colocados em credibilidade profissional. Segundo pesquisa feita ano passado, a classe política é a menos confiável pela população. Um descrédito por causa da injustiça, diga-se de passagem.
Platão, em sua obra clássica A República, nos mostra que a justiça é um desejo universal, um anseio de todos os seres humanos, em toda parte. Ela não é apenas um conceito no meio de um emaranhado de conceitos, mas uma condição para que a filosofia e o viver sejam aplicados. Não podemos nos esquecer uma questão aqui pertinente, a liberdade. Pois o que dá sentido a nossa liberdade é a justiça. Sem justiça é impossível haver liberdade, intencionalidade, consciência. O ideal perfeito de uma cidade justa proposta por Platão na Politéia, ou República, é a possibilidade de se pensar em meio ao que é real, a injustiça, o que deveria existir e não existe, a justiça, um valor ideal que não se perde de vista. A justiça, por isso, tem um alcance ético: ver não só o que acontece, as injustiças, mas o que deveria acontecer, a justiça. O fato da consciência alimentar a esperança ou desesperança de que é possível a justiça, coloca-nos entre aqueles para quem a vida tem sentido. Apoderados desse anseio, longe de nós qualquer negação aos interesses coletivos daqueles mais necessitados da sociedade, como também da realização plena de seus direitos. Nenhum de nós pode se dar ao luxo de ceifar uma vida digna às gerações presentes e futuras.
Dito isso, imaginem-se agora detentores de um poderosíssimo anel capaz de deixar-lhes invisíveis com a oportunidade de fazer o que bem quiser, certo ou errado, justiças ou injustiças. O que diria para si mesmo? Faria o que deveria ou não? Vejamos o que nos diz Platão sobre a justiça: “Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo tratou de ser um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder”(PLATÃO. A República. Lisboa: Gulbenkian, 4ª ed., 1983, pp. 55-60).


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rafa trotando

Há uma campanha nacional contra o bullying – todos nós sabemos disso. Que se fale qualquer coisa contra os que estão nessa campanha, mas que a idéia básica é correta, disso não tenho dúvida. Não penso que deva existir um lugar na Terra onde o império da humilhação seja louvado. Então, como a escola está no Planeta, por conseguinte não vejo como eu teria de achar graça ou ver normalidade na existência do bullying.
Esse movimento contra o bullying é novo no Brasil. Mas, antes dele, as universidades começaram o movimento contra o trote. As origens do trote são medievais: um cavalo novo, ao ser colocado em serviço, precisa aprender a trotar. Para tal, nada melhor que fazê-lo sentir, logo de cara, o peso dos arreios. O mesmo se faz com o calouro universitário, uma tradição que absorvemos, é claro, de Portugal. Trata-se de um rito de iniciação que, enfim, nunca foi tão saboreado senão dentro dos regimes nazi-fascistas. Como esse tipo de prática levou vários estudantes a se ferirem ou mesmo morrerem, nossas universidades foram, aos poucos, tentando coibir o trote. Algumas universidades inventaram maneiras de canalizar energias dos estudantes para atividades sociais. Outras simplesmente proibiram o trote e colocaram uma faixa na porta da escola: “Aqui o calouro não pode ser humilhado, se você é calouro e sofreu violência física ou moral, denuncie”. Em lugares assim, a porta da civilização casou-se com a porta da universidade. Bem melhor.
Mas, é claro, nas escolas de beira de esquina, em cursos de pouca tradição humanística e de garotos saradões que, não raro, podem à noite vir a atacar homossexuais, há ainda um sorrateiro movimento contra as autoridades universitárias que proíbem o trote. A cultura da humilhação e da covardia dos mais fortes contra os supostos mais fracos tenta entrar pela janela quando expulsa pela porta. Uma faculdade assim, que, não raro, pode ser a do “papai pagou passou”, é o único lugar que o Rafa conseguiu entrar. E toda a Rede Globo está em festa com o menino. Ele e a mãe dele e todo mundo. Enfim, um vestibulando autêntico que vira um “bixo” autêntico. Rafa mostra seu corpo sarado e pintado após o trote. E como é bom o trote, não? Ele esbanja felicidade.
Eu imagino que poucos foram os cavalos que, uma vez colocados para trotar, na Idade Média, na origem do “trote”, tenham pensado em abolir tal prática. Penso que uma parte dos cavalos reclamou, mas, enfim, ao ganhar a armadura e o cavaleiro em cima, tais cavalos ficaram orgulhosos de poderem ser vassalos do homem e ir para as batalhas, tomar esporadas na barriga. Aprender a trotar – eis aí a forma de participar, mesmo sendo cavalo, da marcha da civilização.
Rafa vai por essa via em “Insensato Cérebro”. Ôps, é “Insensato Coração”. Ele está exultante. Temos de torcer para que ele não saia dos barzinhos próximos da universidade. Caso entre na aula, teremos de ver aquelas cenas de “educação moral e cívica”, onde a Rede Globo explica para a população o que faz um professor universitário e como funciona uma sala de aula no Brasil. Desse modo, temos de torcer para que a vida universitária de Rafa não progrida. Que fique no trote! Antes a violência nesse sentido que a violência contra nós, ao sermos obrigados a participar de uma aula na Rede Globo.
Não quero de modo algum abolir o trote em novela de TV. Menos ainda quero ver a novela condenando o trote do Rafa – isso seria até pior do que o próprio trote. O que há, mesmo, de insuportável nesse tipo de peça teatral brasileira, é o amadorismo com que a TV trata o mundo acadêmico.
Toda novela da Globo dá um show quando tem de retratar qualquer ambiente brasileiro que não seja o da escola. A escola ou a universidade, realmente, é um mundo estranho à TV. Quando ela tenta fazer uma cena que tenha a ver com a universidade, ela não consegue escapar da caricatura, do pastiche, do pastelão ou simplesmente do puro despreparo. A Globo, por questões de qualidade interna, deveria se proibir de exibir qualquer cena que pudesse ser escolar. Situações de bullying e trote, então, nem se fale. Aí o amadorismo se torna o berço do cultivo ao mau gosto.


Paulo Ghiraldelli Jr

* Filósofo, escritor e professor da UFRRJ

http://jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2011/04/14/rafa-trotando/

Artigo meu publicado pelo Portal SER - Sistema de Ensino Reflexivo de SC


Pessoal, confira aí a publicação de meu artigo pela Revista Eletrônica de Ensino Reflexivo de Santa Catarina. O artigo foi publicado nesta semana. Clique no link para ler na íntegra o artigo http://boletimodiad.blogspot.com/2011/04/deleuze-e-questao-da-educacao.html

domingo, 10 de abril de 2011

Enchi!




Pensar, pensar...

Junho 18, 2010 por Fundação José Saramago

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.
Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

Como será a Escola do Séc. XXI? É possível uma sociedade sem Escolas?



Você concorda com uma aprendizagem sem escolas? A escola limita o pensamento? A escola é muito burocrática? Sociedade sem escolas é o que pensa o filósofo Illich. O filósofo defende a ideia de redes de aprendizagens que acabaram se tornando uma realidade neste século. Assistam e reflitam!

III Jornada Heidegger - última chamada

Em sua terceira edição, a Jornada Heidegger propõe como tema central de seus trabalhos “Entre Nietzsche e Sartre – Pensar a Liberdade”.

Em memória do trigésimo-quinto aniversário do falecimento de Martin Heidegger, convidamos toda a comunidade acadêmica a participar da III Jornada Heidegger, a ser realizada nos dias 31 de maio, 1 e 2 de junho de 2011, na cidade de Natal. (Local a confirmar)

Conferencistas confirmados:
Prof. Dr. Marco Antônio Casanova (UERJ)
Prof. Dr. Róbson Ramos dos Reis (UFSM)
Prof. Dr. Paulo César Duque-Estrada (PUC-Rio)

Organização:
Prof. Ms. Dax Moraes – Curso de Filosofia do CAS/UERN / NEXT-Núcleo de Estudos sobre Existência (UERN) / Grupo de Estudos em Metafísica e Tradição (UFRN)
Prof. Dr. Oscar Federico Bauchwitz – PPGFIL/UFRN / Grupo de Estudos em Metafísica e Tradição (UFRN)


 Visite: jornadaheidegger.wordpress.com

sábado, 9 de abril de 2011

A Escola não se basta a si mesma.

Acreditar nisso é um dever. Não aceitar é uma tolice. Nem sequer pensar é uma loucura. Dever, tolice, loucura. Em qual das três você se encaixaria? Ah, não importa. O que importa de fato? Bem, “o nada se basta a si mesmo” é uma ideia forte, e se faz pertinente seja lá como for, pois estamos atolados até o pescoço na existência.
Olhem em volta. Olhem para cima. Olhem para baixo. Olhem para dentro. Simplesmente não olhem. Soltem-se e percebam essa estranha sensação, a de que estamos lançados na existência. Não era isso o que dizia Sartre no seu “O existencialismo é um humanismo”?
Quanto mais o tempo passa, mais e mais nos convencemos de que não sabemos tudo de nada. Ninguém, na verdade, se basta a si mesmo. Há coisas que importam e que não importam. Mas, como é fácil confundir as duas. Na vida, estamos sempre na linha do horizonte entre opiniões absolutas e opiniões relativas. Na área da Educação, tem muita gente confundindo as duas coisas, quando nem ainda se tornaram ideias, mas ainda estão no campo das opiniões, do achismo, do empírico. O problema é que somos facilmente levados ou tentados a traduzir estas opiniões, melhor dizendo, por ideias absolutas dentro da Escola, o que não é muito produtivo. Para mim, a palavra Escola, de semântica diferente, tem significado semelhante ao da palavra Universidade, onde reúne uma diversidade de ideias, de opiniões e de conceitos para experimentar o debate. Atitudes extremas, radicais e unilaterais não combinam com um ambiente eminentemente diverso da Escola.
Em se tratando de Educação, há muita gente tomando a parte pelo todo mais do que se imagina, pensando que suas ações são eternas e universais, com forças sobre-humanas até, ignorando muita gente boa que se desdobra por uma educação mais criativa. Mas, tudo muda também na Educação, não nos esqueçamos dessa verdade. A educação de 30 anos não pode ser mais a mesma de hoje. Os conceitos mudaram, o mundo mudou. A história também. As informações estão mais rápidas. As relações estão meio que instantâneas e imediatas, o que prova que não somos mais os mesmos. Como diz acertadamente a música de Lulu Santos, “Como uma onda no mar”, “Nada do que foi será igual ao que já foi um dia, tudo muda o tempo todo no mundo, não adianta fingir, nem mentir para si mesmo agora, há tanta vida lá fora... Num indo e vindo infinito”. Se observarmos com cuidado, todos estão em volta da ideia de mudança, mesmo que isso cause um desgosto danado.
Em média, um aluno passa de 14 a 15 anos mais ou menos na Educação Básica que compreende Educação infantil, Ensino Fundamental e Médio no Brasil, o que chega a ser um tempo bastante considerável em que a Escola poderá ajudá-lo a decidir melhor sobre a carreira ou a profissão almejada. Em relação ao Professor, o aluno fica pouquíssimo tempo na Escola; já o Professor permanece em média de 30 a 40 anos na Escola. Aliás, muito mais tempo que isso, admitindo seus anos de formação, da Educação Básica passando pela Universidade até ao término da pós-graduação. Junte tudo isso e verás que o Professor passa uma vida inteira dentro da Escola.
Por isso e por muito mais, o Professor deveria sim ser muito bem tratado nesse país, na sua cidade, na sua comunidade, e sobretudo, na sua Escola, despertando o apreço e o respeito de seus alunos.
Por entrar numa Escola, ninguém está obrigado a ser médico, professor, engenheiro, cientista, pedagogo, odontólogo, filósofo, físico, químico ou matemático, mas alguns o são, e isso é bom. Da mesma forma que há os que não querem ser nada disso, o que também é um valor, vai ser outra coisa na vida, sem necessariamente ter uma profissão específica, o que também é muito bom. Ou seja, a Escola não vai determinar nada para o aluno; simplesmente, irá apontar caminhos e alternativas, para depois ou durante o processo de aprendizagem, poder escolher conforme queira.
A Escola, como tudo na vida, é uma passagem, um caminho, um percurso, uma etapa importante de nossa breve existência. Ela, por isso, não se basta a si mesma. Ela não é suficiente em tudo. A Escola precisa do apoio e acompanhamento da família, das igrejas, do poder público, das instituições em geral, da sociedade para ampliar mais ainda o conceito de uma Educação que quer ser cidadã. Mas, para isso, é urgente a consciência de que não nos bastamos a nós mesmos, ao invés de nos revoltarmos contra os Profissionais da Educação, levantando possíveis suspeitas quanto à responsabilidade de suas atividades pedagógicas. Será que exigimos de nós mesmos o quanto exigimos dos outros?
Façamos do tempo de Escola, um período propício, oportuno e gracioso de aprendizagem. Aprender, sobretudo, a aceitar o diferente com toda estranheza que há nele, pois a Escola é o lugar por excelência do choque de ideias, onde as opiniões se encontram e se desencontram, onde nascem os novos conceitos, onde as várias cabeças se tocam e se conflitam para colocar em movimento pensamentos frios e envelhecidos postos alguma vez no papel.
A Escola não se basta a si mesma, mas é necessária: Sem as Escolas, como os conceitos iam nascer? Sem as aulas, como os pensamentos iam mudar? Sem os debates, como íamos aprender? Sem estudar, como iríamos saber errar?


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN
Páginas na internet: www.umasreflexoes.blogspot.com
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

O Existencialismo de Sartre


O quietismo é a atitude das pessoas que dizem: os outros podem fazer aquilo eu não posso fazer.A doutrina que vos apresento é justamente a oposta ao quietismo visto que ela declara: só hárealidade na ação; e vai aliás mais longe, visto que acrescenta: o homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se é portanto nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida.
De acordo com isto podemos compreender por que a nossa doutrina causa horror a um certo número de pessoas. Porque muitas vezes não têm senão uma única de suportar a sua miséria, isto é, pensar as circunstâncias foram contra mim, eu muito mais do que aquilo que fui; é certo que não tive um grande amor, ou uma grande amizade, mas foi porque não encontrei um homem ou uma mulher que fossem dignos disso, não escrevi livros muito bons, mas foi porque não tive tempo livre para o fazer; não tive filhos a quem me dedicasse, mas foi porque não encontrei o homem com quem pudesse realizar a minha vida. Permaneceram, portanto, em mim e inteiramente viáveis, inúmeras disposições, inclinações, possibilidades que me dão um valor que da simples série dos meus atos se não pode deduzir. Ora, na realidade, para o existencialista não há amor diferente daquele que se constrói; não hápossibilidade de amor senão a que se manifesta no amor, não há gênio senão o que se exprime nas obras de arte; o gênio de Proust é a totalidade das obras de Proust; o gênio de Racine é a série das suas tragédias, e fora disso não há nada; por que atribuir a Racine a possibilidade de escrever uma nova tragédia, já que precisamente ele a não escreveu? Um homem embrenha-se na sua vida, desenha o seu retrato, e para lá desse retrato não há nada. Que significa aqui o fato de a existência preceder a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo, e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não só como ele se concebe, mas como ele quer ser; como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência, o homem não é mais do que o que ele faz de si mesmo. Tal é o primeiro princípio do existencialismo. É também a isto que chamamos subjetividade e pelo que somos censurados sob o mesmo nome. Mas que queremos dizer com isso, senão que o homem tem uma dignidade maior do que uma pedra ou uma mesa? Pois o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem, antes de mais nada, se lança para um futuro, e que é consciente de se projetar no futuro. O homem é, antes de mais nada, um projeto vivido subjetivamente, ao invés de ser um creme, qualquer coisa podre, ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projeto; nada há no céu inteligível, e o homem será antes de tudo o que ele houver projetado ser. Não o que ele quiser ser. Pois o que vulgarmente entendemos por querer é uma decisão consciente que, para a maior parte de nós, é posterior ao que alguém fez de si mesmo. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me; tudo isso não é mais do que a manifestação duma escolha mais original, mais espontânea daquilo que se chama vontade. Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do  existencialismo é o de pôr todo homem de posse do que ele é e atribuir-lhe a responsabilidade total por sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável por sua estrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens. Há dois sentidos para a palavra subjetivismo, e é com isso que jogam nossos adversários. Subjetivismo quer dizer, de um lado, escolha do sujeito individual por si próprio; e, por outro, impossibilidade do homem em superar a subjetividade humana. O segundo é que é o sentido profundo do existencialismo. Quando dizemos que o homem se escolhe, queremos dizer que cada um de nós se escolhe; mas, com isso, também queremos dizer que, ao se escolher, ele escolhe todos os homens. Com efeito, não existe um ato nosso que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, pois nunca podemos escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Se a existência, por outro lado, precede a essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo em que construímos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve a humanidade.

O existencialismo é um Humanismo. Lisboa, Presença, s/d/, p. 241

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ex-aluno da Escola Estadual Teônia Amaral, Joelson Silva de Araújo, tem texto publicado em renomada Revista de SC.


O aluno do curso de Filosofia da UERN de Caicó, RN, Joelson Silva de Araújo tem texto publicado na renomada Revista SER - Sistema de Ensino Reflexivo - do Estado de Santa Catarina. Joelson é ex-aluno da Escola Estadual Teônia Amaral e está concluindo o Curso de Licenciatura Plena em Filosofia pela UERN.
Artigo: Diálogo o início do educar: Paulo Freire

Para ler seu texto na íntegra é só acessar: http://boletimodiad.blogspot.com/2011/04/dialogo-o-inicio-do-educar-paulo-freire.html

terça-feira, 5 de abril de 2011

Nascido para saborear uvas...


O homem já nasce com uma necessidade de vencer, conquistar.
A escravidão não é natural. Nossa mente funciona a partir do ponto de vista do caçador, e não da presa. Fomos feitos para dominar sobre as obras das mãos de Deus. Por isso, o leão e o elefante são subjugados pelo homem.

“E Deus os abençoou e Deus lhes disse:
Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a
terra, e sujeitai-a; dominai sobre os peixes
do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre
todo o animal que se move sobre a terra.”
(Gênesis 1.28)

O homem anseia por grandeza. Temos obsessão por expandir, crescer e melhorar. Nascemos para o lugar alto. Nós instintivamente nos movemos em direção ao crescimento: espiritual, mental e financeiro.
A semente da necessidade foi plantada pelo Criador em nós. Deus fez de si mesmo uma necessidade para a felicidade humana. Tal como a peça faltante do quebra-cabeça, o retrato da vida não faz sentido até que o Criador seja incluído nele.
“Um verdadeiro vencedor jamais anuncia ou amplia suas fraquezas.”
Você foi feito para relacionar-se. Os ouvidos demandam sons, os olhos exigem o que ver, a mente requer imaginação, o coração procura companheirismo. Ter ou não um relacionamento com Deus é o que determina o fracasso ou o sucesso de alguém.
Lembre-se: popularidade não é sucesso; é ter pessoas gostando de você. Felicidade é você gostar de si mesmo. Sucesso implica felicidade. Felicidade é sentir-se bem a respeito de si mesmo. Não é necessariamente ter fama, dinheiro ou boa posição social. Implica o conhecimento e a consciência de seu valor aos olhos de Deus.
Você está aqui na terra para um propósito. Foi concebido e equipado para uma missão específica, e precisa discernir e desenvolver as habilidades que recebeu de Deus. Ele investiu em seu nascimento. E só quando esses dons forem utilizados corretamente você sentirá e saberá o quanto Deus valoriza você.
Pense nisso.
Moisés, o grande líder, foi um vencedor. Ele nos deixou dois versículos fascinantes em Deuteronômio 32.13,14, quando descreveu grandiosas bênçãos de Deus para seu povo:
“Ele o fez cavalgar sobre as alturas da terra
e comer as novidades do campo; e o fez
chupar mel da rocha e azeite
da dura pederneira, manteiga de vacas
e leite do rebanho, com gordura dos
cordeiros e dos carneiros que pastam em
Basã e dos bodes, com a gordura da flor do
trigo; e bebeste o sangue
das uvas, o vinho puro.”

Tenha esta imagem presente em sua mente: o sumo das uvas. Você nasceu para saborear as uvas da bênção. Enquanto alguns gastam o seu tempo discutindo o tamanho dos gigantes e dos seus problemas, os vencedores se atrevem a alcançar as uvas das bênçãos prometidas por Deus.

Texto de Mike Murdock, in Sabedoria para Vencer: sua sabedoria determina sua força; sua força determina sua resistência; sua resistência determina seu sucesso. Rio de Janeiro, Central Gospel. 2010. p. 65-68.

sábado, 2 de abril de 2011

Qual a sua opinião?...



Nesses dias dei-me conta de que estava a pensar sobre o quanto é importante uma boa formação de opiniões, até mesmo para convivermos melhor em sociedade, expressar com mais objetividade nossas ideias, ajudar outros a formarem as suas, dirimir equívocos, afastar incoerências. Paira sobre nós um certo relaxamento em relação a isso. A nossa malemolência em lidar com o assunto é absurda.
Vejam que alguns de nós passam anos a fio dentro de uma Universidade ou de uma Escola tentando construir algo, uma carreira talvez, um arcabouço de informações, uma base a mais para crescer na vida, enfim, mas quando somos consultados simplesmente não temos o que dizer. No entanto, quer entremos ou não numa Universidade, o certo é que muitos de nós, senão todos, passamos a vida toda e não conseguimos sequer formar, tampouco viver de nossas opiniões, o que mostra o quanto não somos senhores de nós mesmos. Num ponto, Heidegger estava certo: “A maioria dos homens não pensa por si mesmo; não julga com a própria cabeça; não decide por conta própria: pensa, julga, decide conforme ou vem dizer dos outros”. Creio que está na hora de aprender a pensar com a própria cabeça. Ser cabeça bem feita e não cabeça cheia, no dizer de Montaigne, uma recorrente no pensamento de Edgar Morin.
Absortos a uma cultura capitalista democrática de interesses meramente econômicos que, de quando em quando, abandona seus ideais democráticos e dá lugar as ditaduras mais toscas e aberrantes como aquelas vistas recentemente em cadeia internacional com proporções violentas na Tunísia, no Egito e agora, no Iêmen, tal como na Líbia, nos sentimos seriamente vulneráveis quanto à solidez de algumas opiniões enraizadas na ética, na tolerância e no amor. A ditadura é a prova cabal de que “o controle da expressão leva à morte da expressão”(Márcia Tiburi). Se com expressão a democracia é o que é, o que dizer então sem ela!
Tão logo nascemos, de imediato nossos pais descarregam sobre nós os mais belos pensamentos, os mais velhos conselhos de respeito e de bons costumes, fruto de uma tradição herdada por nossos avós ou pela família inteirinha. O certo é que nem sempre se percebe a tradução de velhos ensinamentos em vida. Refiro-me a velhos não por serem menos ou mais importantes do que os novos, mas porque afirmam uma tradição distante de nós. Não é por serem velhos ou antigos que não prestam, mas por não virem acompanhados de ação, de vida, de autenticidade. É aquela história, dar conselhos é razoavelmente maravilhoso, mas vivê-los, aí são outros quinhentos. Não é em vão que o corriqueiro ditado popular teima em vigorar: “As palavras passam, mas os exemplos arrastam”. Quantas vezes não ouvimos de nossos pais: “Meu filho, cuidado com as companhias, com a bebida, com as drogas, ….” No entanto, quantos pais ou familiares não têm os mesmos cuidados, o mesmo zelo, acabando por errar muito mais.
Para a maior parte de nós, pouco importa o que acontece embaixo de nossos narizes ou em volta de nós. Na verdade, damos mais interesse para o que há dentro de nós, da subjetividade, do nosso eu arranhado, nossos recalques, culpas e ressentimentos. A atmosfera que nos arrebata não é a que está fora, mas a que está dentro de nós. Respondemos muito, mas muito mais aos estímulos da nossa subjetividade e nos distraímos, voluntariamente ou não, para o que responde o outro, para o que pensa o outro, para o que precisa o outro, para o que sente o outro... Vamos destruindo aos poucos toda uma construção ou desconstrução de valores dada às formas da nossa mais inata causalidade. Segundo Kant, há, em nós, uma intuição inata de ver ou perceber as coisas. É, portanto, esta dimensão que a Escola, a Universidade, os pais, os amigos e familiares, a sociedade e mesmo nós, cada um de nós, deve dinamizar para melhor formar opiniões que visem ao diálogo e à desconstrução de preconceitos. Resgatando, assim, a luminosidade de novas pessoas, o fulgor de novos sujeitos que deem também importância ao que está fora, perto e longe, a alteridade, o altruísmo, a caridade, o apreço pelo diferente.
Na minha opinião, a sociedade não pode ficar órfã de homens e mulheres adeptos de uma boa leitura; afeitos à música; dedicados à família; focados no trabalho; zelosos à cidadania; fiéis ao cristianismo; compromissados com a verdade; fazedores da justiça; eleitores da honestidade e não da força econômica; sabedores e cumpridores da ética; protagonistas do amanhã; formadores de si mesmos. Qual a sua opinião? Por que não tenta começar a expressá-la agora mesmo?

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN

sexta-feira, 1 de abril de 2011

HAVERÁ JUSTIÇA NA TERRA DOS POLÍTICOS?

SEM AMOR, EU NADA SERIA

 

Monte Castelo

Renato Russo

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.


É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.


O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.


Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.


É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.


É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.


Estou acordado e todos dormem todos dormem
todos dormem.
Agora vejo em parte. 

Mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.


Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

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