terça-feira, 4 de novembro de 2014

A caçada do filósofo



O costume de caçar nos acompanha desde que começamos a perceber o quanto precisamos da natureza para sobreviver. Os primeiros homens faziam da caça um meio racional de subsistência. Os índios ainda hoje, pelo que se sabe, retiram apenas o necessário da natureza para se alimentarem e se protegerem.
Com o passar do tempo, alguns povos e grupos cultivaram a caça como uma espécie de “hobby”, de entretenimento e também como exploração predatória à natureza. Além disso, muitos povos se tornavam hábeis caçadores porque ainda precisavam se defender de animais perigosos.
Todo mundo sabe que a caça é uma das principais causas de extinção de animais raros no meio ambiente. De alguns anos para cá, a legislação brasileira vem tomando medidas severas aos que infringem os rigores legais quanto a este tipo de atividade.
Porém, o que nos interessa aqui é a atitude do caçador. O faro aguçado de quem caça é semelhante ao faro do filósofo à procura de novos conceitos; outros problemas que estão ali, mas quase ninguém vê, escondidos.
O filósofo e o caçador têm em comum a gana da busca, da procura. São inúmeros os caçadores de antiguidades, tesouros, cidades perdidas. Arqueólogos e viajantes aventureiros se dedicam a isso. O filósofo, por sua vez, procura pessoas, ideias, definições, conceitos que, ao encontrá-los, não consegue satisfazer a sede de uma busca incessante, uma vez que sua busca continua mais viva e impetuosa do que nunca. O filósofo seria uma espécie de caçador do infinito ou como diria o poeta Milton Nascimento: “Nada a temer senão o correr da luta/ Nada a fazer senão esquecer o medo/ Abrir o peito a força, numa procura/ Fugir às armadilhas da mata escura/

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu,
caçador de mim”
 
Tem um diálogo de Platão, conhecido como Sofista, no qual aparece a figura do sofista, com interesse para ensinar em troca de pagamento, assumindo o papel de caçador de jovens ricos e promissores (Cf. Sofista, 223b). Nele, é possível observar que de caçador, o sofista, passa a ser a presa principal para um outro tipo bem mais "desinteressado" de caçador, o filósofo, treinado na arte de parir ideias e na persuasão, a exemplo de Sócrates, procura o sofista para desembaraçar seus sofismas e destruir suas falsas aparências(Cf. Sofista, 235c).
Nesse contexto, o filósofo como caçador de tipo socrático procura com luta, esforço e coragem algo na realidade que se corresponda ao máximo com o que ele pensa. Seu esforço é procurar a verdade. Uma verdade que seja ética: viver o que pensa e pensar o que vive.
Repare o que diz o estrangeiro de Eléia no diálogo: "Estamos, meu caro amigo (Teeteto), realmente empenhados numa investigação muito difícil, pois a matéria de aparecer e parecer, mas não ser, e de dizer coisas, mas não verdadeiras - tudo isso é agora, como o foi sempre, motivo de muita perplexidade" (Sofista, 236e).

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

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terça-feira, 4 de novembro de 2014

A caçada do filósofo



O costume de caçar nos acompanha desde que começamos a perceber o quanto precisamos da natureza para sobreviver. Os primeiros homens faziam da caça um meio racional de subsistência. Os índios ainda hoje, pelo que se sabe, retiram apenas o necessário da natureza para se alimentarem e se protegerem.
Com o passar do tempo, alguns povos e grupos cultivaram a caça como uma espécie de “hobby”, de entretenimento e também como exploração predatória à natureza. Além disso, muitos povos se tornavam hábeis caçadores porque ainda precisavam se defender de animais perigosos.
Todo mundo sabe que a caça é uma das principais causas de extinção de animais raros no meio ambiente. De alguns anos para cá, a legislação brasileira vem tomando medidas severas aos que infringem os rigores legais quanto a este tipo de atividade.
Porém, o que nos interessa aqui é a atitude do caçador. O faro aguçado de quem caça é semelhante ao faro do filósofo à procura de novos conceitos; outros problemas que estão ali, mas quase ninguém vê, escondidos.
O filósofo e o caçador têm em comum a gana da busca, da procura. São inúmeros os caçadores de antiguidades, tesouros, cidades perdidas. Arqueólogos e viajantes aventureiros se dedicam a isso. O filósofo, por sua vez, procura pessoas, ideias, definições, conceitos que, ao encontrá-los, não consegue satisfazer a sede de uma busca incessante, uma vez que sua busca continua mais viva e impetuosa do que nunca. O filósofo seria uma espécie de caçador do infinito ou como diria o poeta Milton Nascimento: “Nada a temer senão o correr da luta/ Nada a fazer senão esquecer o medo/ Abrir o peito a força, numa procura/ Fugir às armadilhas da mata escura/

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu,
caçador de mim”
 
Tem um diálogo de Platão, conhecido como Sofista, no qual aparece a figura do sofista, com interesse para ensinar em troca de pagamento, assumindo o papel de caçador de jovens ricos e promissores (Cf. Sofista, 223b). Nele, é possível observar que de caçador, o sofista, passa a ser a presa principal para um outro tipo bem mais "desinteressado" de caçador, o filósofo, treinado na arte de parir ideias e na persuasão, a exemplo de Sócrates, procura o sofista para desembaraçar seus sofismas e destruir suas falsas aparências(Cf. Sofista, 235c).
Nesse contexto, o filósofo como caçador de tipo socrático procura com luta, esforço e coragem algo na realidade que se corresponda ao máximo com o que ele pensa. Seu esforço é procurar a verdade. Uma verdade que seja ética: viver o que pensa e pensar o que vive.
Repare o que diz o estrangeiro de Eléia no diálogo: "Estamos, meu caro amigo (Teeteto), realmente empenhados numa investigação muito difícil, pois a matéria de aparecer e parecer, mas não ser, e de dizer coisas, mas não verdadeiras - tudo isso é agora, como o foi sempre, motivo de muita perplexidade" (Sofista, 236e).

Jackislandy Meira de M. Silva, professor e filósofo.

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