quinta-feira, 22 de março de 2012

A favor do sabor





Governos que se metem na vida dos outros são governos autoritários. Na história temos dois grandes exemplos: o fascismo e o comunismo.
Em nossa época existe uma outra tentação totalitária, aparentemente mais invisível e, por isso mesmo, talvez, mais perigosa: o “totalitarismo do bem”.
“Mas a saúde é um bem público!”, dirá o clero dos limpinhos. Mas, contra o que pensa o senso comum, em saúde, se você deixar de gastar dinheiro com X, você gastará com Y. Sabe-se que em medicina, fora acidentes de carro e semelhantes, se você não morrer de doenças metabólicas ou cardiovasculares, você morrerá de câncer. Evite a forma de câncer que você quiser, enfim.
A saúde sempre foi um dos substantivos preferidos das almas e dos governos autoritários. Quem estudar os governos autoritários verá que a “vida cientificamente saudável” sempre foi uma das suas maiores paixões.
E, aqui, o advérbio “cientificamente” é quase vago porque o que vem primeiro é mesmo o desejo de higienização de toda forma de vício, sujeira, enfim, de humanidade não correta.
Nosso maior pecado contemporâneo é não reconhecer que a humanidade do humano está além do modo “correto” de viver. E vamos pagar caro por isso porque um mundo só de gente “saudável” é um mundo sem Eros.
O filósofo Nietzsche já dizia que, depois da morte de Deus, o ressentimento dos covardes iria buscar aconchego na ciência — e, por que não, na saúde? O escritor inglês Aldous Huxley, autor da distopia “Admirável Mundo Novo“, via na obsessão totalitária do utilitarismo (escola ética que definia o bem como bem-estar da maioria) a tragédia da liberdade.
Em sua maravilhosa descrição de um futuro maníaco por saúde e felicidade, Huxley diagnostica a grande e insuspeita vítima do novo totalitarismo do bem: a morte da liberdade em nome da felicidade limpinha do mundo.
O governo deveria deixar as pessoas sentirem o gosto que quiserem em suas bocas.

LUIZ FELIPE PONDÉ (jornal FSP – 14.03.2012) 

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quinta-feira, 22 de março de 2012

A favor do sabor





Governos que se metem na vida dos outros são governos autoritários. Na história temos dois grandes exemplos: o fascismo e o comunismo.
Em nossa época existe uma outra tentação totalitária, aparentemente mais invisível e, por isso mesmo, talvez, mais perigosa: o “totalitarismo do bem”.
“Mas a saúde é um bem público!”, dirá o clero dos limpinhos. Mas, contra o que pensa o senso comum, em saúde, se você deixar de gastar dinheiro com X, você gastará com Y. Sabe-se que em medicina, fora acidentes de carro e semelhantes, se você não morrer de doenças metabólicas ou cardiovasculares, você morrerá de câncer. Evite a forma de câncer que você quiser, enfim.
A saúde sempre foi um dos substantivos preferidos das almas e dos governos autoritários. Quem estudar os governos autoritários verá que a “vida cientificamente saudável” sempre foi uma das suas maiores paixões.
E, aqui, o advérbio “cientificamente” é quase vago porque o que vem primeiro é mesmo o desejo de higienização de toda forma de vício, sujeira, enfim, de humanidade não correta.
Nosso maior pecado contemporâneo é não reconhecer que a humanidade do humano está além do modo “correto” de viver. E vamos pagar caro por isso porque um mundo só de gente “saudável” é um mundo sem Eros.
O filósofo Nietzsche já dizia que, depois da morte de Deus, o ressentimento dos covardes iria buscar aconchego na ciência — e, por que não, na saúde? O escritor inglês Aldous Huxley, autor da distopia “Admirável Mundo Novo“, via na obsessão totalitária do utilitarismo (escola ética que definia o bem como bem-estar da maioria) a tragédia da liberdade.
Em sua maravilhosa descrição de um futuro maníaco por saúde e felicidade, Huxley diagnostica a grande e insuspeita vítima do novo totalitarismo do bem: a morte da liberdade em nome da felicidade limpinha do mundo.
O governo deveria deixar as pessoas sentirem o gosto que quiserem em suas bocas.

LUIZ FELIPE PONDÉ (jornal FSP – 14.03.2012) 

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