segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A filosofia como “ensaio” do pensamento


Na introdução à obra História da Sexualidade II, Do Uso dos Prazeres, temos um texto bastante feliz de Michel Foucault sobre o que vem a ser, de fato, a filosofia. Um texto para ser lido, lido de novo e depois posto à admiração de todos que puderem se abrir ao maravilhoso exercício do pensamento. O que ele diz, do jeito que diz da filosofia é simplesmente novo e contemporâneo. Aliás, Foucault é um desses filósofos, cujo modo de dizer as coisas é praticamente atual, singular e resistente ao tempo. Consegue ser contemporâneo o tempo todo.
Se Foucault fez o seu “ensaio” filosófico como o fez Montaigne, Nietzsche e outros, por que não devamos fazer o mesmo a partir de nós? Vejamos o que é o “ensaio” filosófico de Foucault para aprendermos a lição de pensar o pensamento a partir do contemporâneo.

Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade – em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no máximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia – quero dizer, atividade filosófica – senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico, quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio” - que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma 'ascese', um exercício de si, no pensamento”(In FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II, Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1984, pág. 13).

Compilado por Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A filosofia como “ensaio” do pensamento


Na introdução à obra História da Sexualidade II, Do Uso dos Prazeres, temos um texto bastante feliz de Michel Foucault sobre o que vem a ser, de fato, a filosofia. Um texto para ser lido, lido de novo e depois posto à admiração de todos que puderem se abrir ao maravilhoso exercício do pensamento. O que ele diz, do jeito que diz da filosofia é simplesmente novo e contemporâneo. Aliás, Foucault é um desses filósofos, cujo modo de dizer as coisas é praticamente atual, singular e resistente ao tempo. Consegue ser contemporâneo o tempo todo.
Se Foucault fez o seu “ensaio” filosófico como o fez Montaigne, Nietzsche e outros, por que não devamos fazer o mesmo a partir de nós? Vejamos o que é o “ensaio” filosófico de Foucault para aprendermos a lição de pensar o pensamento a partir do contemporâneo.

Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade – em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no máximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia – quero dizer, atividade filosófica – senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico, quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio” - que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma 'ascese', um exercício de si, no pensamento”(In FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II, Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1984, pág. 13).

Compilado por Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

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