segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sócrates, personagem dramática da cidade


Aquilo que a ética homérica, a maneira de se pensar a estruturação social, as relações sociais entre os exércitos fora dos muros de Tróia, esta ética da força e da violência não comporta mais uma exigência necessária para se viver na pólis, como algo necessário à pólis, à cidade.

Contudo, quem vence a guerra não é o herói Aquiles, mas Ulisses, a inteligência em pessoa, a astúcia, a enganação. Como contraponto à selvageria, Ulisses é a personagem conceitual de um salto maior do que Aquiles, do que o cratos(poder) e a bia(violência), sinalizando o que virá a ser a figura do sóphos, um novo homem que não será mais Ulisses, nem Aquiles, tampouco Agamenon, mas um homem mais sábio do que todos estes, um homem mais sábio politicamente, personificado dramaticamente na figura de Sócrates.

Entre o VII e o V séculos a.C., a Grécia está comprometida em elaborar uma solução para esta crise da ética e da cultura arcaicas em que se resume de maneira muito didática, mas com uma certa tentativa de acertar na descrição um pouco global do que está acontecendo de poesia, filosofia, teatro, até medicina, história, nesse período. As soluções apontadas são duas: a solução da Lei e a solução da alma. Pela construção da cidade, se dá a solução da lei. Pela construção de um indivíduo, da alma, se dá a solução da Filosofia.

Sócrates, personagem histórico central da filosofia platônica, de fato, revoluciona o modo de se viver na cidade que agora vem afirmado pela ética e pela obediência às leis. É um movimento simultâneo de transformação que vai do individual para o coletivo, para a cidade. Viver virtuosamente na pólis é isso. À medida que construo a mim mesmo, construo também uma nova cidade, e assim por diante. Esta posição revoluciona o modo de se fazer política e o próprio cuidado de si. “É evidente que, se a essência do homem é a alma, cuidar de si mesmo significa cuidar da própria alma mais do que do corpo. E ensinar os homens a cuidarem da própria alma é a tarefa suprema do educador, precisamente a tarefa que Sócrates considera ter recebido de deus, como se lê na Apologia: 'Que é isto(...) é a ordem de deus. E estou persuadido de que não há para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência a Deus. Na verdade, não é outra coisa o que faço nestas minhas andanças a não ser persuadir a vós, jovens e velhos, de que não deveis cuidar do corpo, nem das riquezas, nem de qualquer outra coisa antes e mais do que a alma, de modo que ela se torne ótima e virtuosíssima, e de que não é das riquezas que nasce a virtude, mas da virtude que nasce a riqueza e todas as outras coisas que são bens para os homens, tanto individualmente para os cidadãos como para o Estado'”(in REALE, Giovanni. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulinas, 1990, p. 88). A partir disso, instaura-se uma nova paideia.

Mostra-se aí também a função do sóphos de que nos falava Platão, pois, encontrando-se com Sócrates, a pessoa encontrava-se com um sábio que nos leva a descobrir o nosso valor interior, o valor da alma. Foi assim com Platão ao encontrá-lo. Ao ver Sócrates pela primeira vez como um dos grandes acontecimentos de sua mocidade, Platão se envolve com seus discursos, presencia sua condenação e morte, marcando-o por toda a vida, de modo a inspirar os seus escritos.

“Enquanto se preparava para participar de um concurso de tragédias, ouviu Sócrates em frente ao teatro de Dionísio, e então jogou os poemas, dizendo: ‘Efesto!, avança assim, Platão precisa de ti!’ Dizem que a partir de então, aos 20 anos, tornou-se discípulo de Sócrates” (D.L. 3.5-6).  

Sócrates se baseia no encontro com as pessoas em Atenas para fluir suas ideias. A função do sábio não é tanto a de ensinar coisas, também claro, como o faz Sócrates publicamente, mas sobretudo de ajudar as pessoas na descoberta da verdade. O encontro com Sócrates tornava-se possível e mais fácil o encontro com a própria verdade presente em nós. A função do sábio, na minha opinião, é a de facilitar a experiência da verdade. Portanto, o valor de Sócrates se manifesta em dois níveis: no nível do conhecimento da verdade e no nível da responsabilidade moral com esta própria verdade. Sua filosofia nos abre a possibilidade de descobrir o sentido da alma e, com isso, pautar uma transformação política da cidade.
 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB em parceria com Archai Unesco.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Novo livro de Diogo Mainardi: uma queda para o alto

VEJA desta semana destaca a publicação de Mainardi, uma comovente narrativa sobre seu filho que nasceu com paralisia cerebral e uma portentosa representação intelectual das emoções

Mario Sabino
TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO - O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual
  
 TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO 

- O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual (Ruyn Teixeira / Divulgação)
Um dos desenhos mais célebres do mundo faz parte do acervo da Accademia de Veneza. Trata-se do Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, em que a única figura humana é retratada em duas posições, como se houvesse fotogramas sobrepostos -- dentro de um círculo (com os braços esticados na altura da cabeça e as pernas afastadas) e dentro de um quadrado (com os braços abertos na altura dos ombros e as pernas juntas), círculo e quadrado porque tidos como as formas geométricas perfeitas. O “Homem Vitruviano” parece fazer um polichinelo, aquele exercício físico banido da ginástica escolar depois de arrebentar os joelhos das gerações com mais de 40 anos. Da Vinci concebeu o desenho em torno de 1490, a partir das considerações do arquiteto romano Vitrúvio. Um milênio e meio antes, em seu tratado De Architectura, Vitrúvio estabelecera quais seriam as proporções exatas do corpo humano, por meio de uma série de correspondências matemáticas entre as suas diversas partes. O desenho de Da Vinci é acompanhado, na parte superior e inferior, de explicações sobre tais correspondências, a demonstrar com mais ênfase a intenção do artista de apresentar o modelo de harmonia que deveria servir de base a pintores, escultores e arquitetos. O Homem Vitruviano é raramente exposto. A última vez foi em 2009. Já sua antítese está em exposição permanente pelas vias e pontes de Veneza: Tito Mainardi, hoje com quase 12 anos, primogênito de Diogo Mainardi. Portador de paralisia cerebral, é como uma espécie de “Menino Antivitruviano” que ele protagoniza A Queda  - As Memórias de um Pai em 424 Passos (Record; 152 páginas; 29,90 reais), de autoria do ex-colunista de VEJA. O livro, que chega às livrarias com uma tiragem inicial de 20.000 exemplares, é comovente pelo tema, extraordinário na forma e esplêndido como reflexão sobre a arrogância humana.
Tito é personagem conhecido dos leitores que acompanhavam semanalmente a coluna de Diogo, a mais lida da revista de 1999 a 2010, quando o escritor e jornalista resolveu encerrar espontaneamente a sua colaboração. Ele começou a pensar em escrever o livro sobre a paralisia cerebral de seu primogênito em 2008, ainda no Rio de Janeiro, para onde se mudara quatro anos antes, a conselho de médicos americanos. O veneziano Tito deveria viver num ambiente quente, onde pudesse exercitar mais as pernas. As areias de Ipanema foram seu primeiro -- e ideal para quedas -- campo de provas, complementadas pelas garagens térreas dos prédios da orla, nas quais o menino se esbaldava com seu andador, observado do carrinho por Nico, seu irmão carioca, hoje com 7 anos. Depois que Tito, em férias na cidade natal, alcançou 359 passos sozinho, Diogo decidiu concretizar seu projeto. Diz ele: “Só consegui, contudo, dedicar-me seriamente ao livro a partir de setembro de 2010, na volta definitiva a Veneza. Tive de renunciar à coluna em VEJA, por causa da minha cabeça limitada: sou incapaz de pensar num José Dirceu e, ao mesmo tempo, num Tintoretto. O José Dirceu emporcalha o Tintoretto”. Uma das glórias de Veneza, o pintor é um dos artistas abordados por Diogo em A Queda.
A paralisia cerebral de Tito foi causada por uma obstetra que apressou o parto de maneira desastrada. O dia em que ele veio à luz -- 30 de setembro de 2000 -- caiu num sábado, e a médica encarregada do procedimento queria terminar seu turno de trabalho mais rápido. Para tanto, decidiu estourar a bolsa com líquido amniótico que protege o bebê. Só que, ao fazê-lo contrariando todos os manuais de obstetrícia, Tito teve o cordão umbilical esmagado e ficou sem oxigênio. A saída, nesse caso, era realizar uma cesárea de urgência. A obstetra outra vez errou ao demorar demais para abrir o ventre de Anna, mulher de Diogo, e Tito permaneceu asfixiado por 45 minutos. O resultado foi uma lesão no cérebro que o impede de falar, andar e pegar objetos com as mãos como se faz normalmente. A lesão é tão pequena que é invisível aos exames de imagem mais modernos. Assim, não comprometeu a capacidade intelectual de Tito, um menino vivaz, bem-humorado e, agora, um pré-adolescente típico -- com disposição infinita para irritar os pais e uma precoce admiração por mulheres altas e esguias.
Outros autores já trataram das deficiências de seus filhos, em livros corajosos como requer a honesta literatura do tipo confessional. Mas Diogo o faz sem resvalar na autocomplacência e também evita circunvoluções biográficas que se afastam longamente do tema central. A Queda é também original na forma. Apresenta o exato número de capítulos de seu subtítulo: 424. Todos eles curtíssimos, alguns com menos de quatro linhas. O número de capítulos espelha o máximo de passos que Tito conseguiu dar sem cair, e sem andador, no momento em que Diogo finalmente deixou de contá-los -- façanha realizada no dia em que o menino foi visitar pela primeira vez o hospital de Veneza onde nascera, instalado no palácio bizantino-renascentista da Scuola Grande di San Marco. Outro aspecto inédito: muitos dos capítulos são entremeados com ilustrações de pinturas venezianas, imagens de família, cenas de filmes e até a de um videogame. Elas remetem ao relato imediatamente anterior e ajudam a montar o quebra-cabeça construído por Diogo para dar um sentido a tudo o que ocorreu após o nascimento de Tito. Em algumas pinturas, ele próprio assume o papel de personagem, assim como o faz com relação a Anna e Tito, por meio de setas que apontam detalhes que os retratariam.
Em torno da paralisia cerebral de seu filho, orbitam duas narrativas que se imbricam uma na outra: a do drama familiar e a da história das ideias e de seu corolário, a arte que se quer expressão da Verdade -- com “v” maiúsculo --, seja filosófica, religiosa ou ideológica. Está-se falando da arte de Bizâncio, do Renascimento e do Barroco, de que Veneza é uma das joias mais ofuscantes, por obra de mestres da arquitetura, da pintura e da escultura que a moldaram alinhados com sua geografia peculiar. No século XVIII, escreveu o comediógrafo Carlo Goldoni, um dos venezianos mais ilustres: “Veneza é uma cidade tão extraordinária que não é possível ter dela uma ideia exata sem a ver; os mapas, as plantas, as maquetes, as descrições não bastam; é preciso vê-la. Todas as cidades do mundo mais ou menos se assemelham; essa não tem semelhança com nenhuma. Toda vez que eu a revi depois de longas ausências, surgiu em mim um novo espanto. À medida que eu crescia, que aumentavam meus conhecimentos, e tinha comparações a fazer, descobria nela novas singularidades, novas belezas”.
Diogo só poderia escrever esse livro em Veneza, ainda que José Dirceu não emporcalhasse Tintoretto. Foi nessa cidade sem paralelo, que coroa a vaidade do pensamento e da arte, que Diogo se refugiou para escrever seus quatro romances. Foi nessa cidade diferente de todas as outras que ele conheceu a sua queda particular -- e, nela, reconheceu as nossas aspirações evanescentes que insistem em sobreviver em quaisquer latitudes. No livro, Veneza continua a ser extraordinária, como na época de Goldoni, mas não como um tributo ao engenho humano, e sim à sua prepotência, da qual Diogo se despiu existencialmente. Diz ele a VEJA: “O nascimento de Tito me fez deixar os romances de lado, porque mudou o narrador. Em meus romances, eu era o narrador onisciente, que comandava o destino de um bando de personagens idiotas. Depois de Tito, eu me tornei o personagem idiota, e meu destino passou a ser narrado por um menininho de pernas tortas que nem sabia falar. Morreu a minha soberba autoral e, sem ela, era impensável continuar a escrever romances. Dito de outra maneira: eu sempre imaginei que saberia manter um razoável controle sobre os fatos de minha vida. Tito me mostrou, porém, que eu nunca controlei porcaria nenhuma, e que a única possibilidade de livre-arbítrio ao meu alcance estava na leitura dos fatos, e não nos fatos em si”.
Nesse exercício de livre-arbítrio, Diogo inicia o livro estabelecendo uma conexão entre a paralisia cerebral de seu primogênito e o que chama de “estetismo abestalhado”. Mesmerizado pela fachada magnífica do hospital de Veneza, arquitetada por Pietro Lombardo em 1489 para a então Scuola Grande di San Marco, ele deixou de lado os desastres médicos que fizeram a fama daquela instituição e disse a Anna, receosa do parto, diante do hospital: “Com esta fachada, aceito até um filho deforme”. A frase não deve ser interpretada literalmente, mas como achincalhe intelectual, de acordo com Diogo. O arquiteto Pietro Lombardo, louvado pelos seus pares e pelos maiores críticos de arte, encarna de tal forma o ideal de beleza artística que o poeta Ezra Pound o colocou em sua obra magna, Os Cantos, como tradução do Bem em contraposição ao Mal, simbolizado pela usura. “Pietro Lombardo não se fez com a usura”, escreveu Pound. Dessa forma, escreve Diogo, “eu só conseguia associar a arte perfeita de Pietro Lombardo a um parto igualmente perfeito. Porque o Bem, representado pela arquitetura de Pietro Lombardo, jamais poderia gerar o Mal, representado por um erro de parto”.
Mais adiante, Diogo conta que nasceu em 22 de setembro de 1962, data em que o arquiteto modernista franco-suíço Le Corbusier foi convidado a projetar uma nova sede para o hospital de Veneza. Teria sido erguido um prédio medonho, com blocos de cimento armado, não houvesse Le Corbusier morrido seis meses depois de apresentar o projeto, afogado no Mediterrâneo. Ou seja, o Mal, personificado pela arquitetura do franco-suíço, teria gerado o Bem, visto que Diogo não escolheria o novo hospital de Veneza para ter seu filho e, certamente, Tito nasceria em perfeitas condições na vizinha Pádua, dotada de um dos melhores hospitais da Europa. O Mal do qual nasce o Bem é o exato oposto do que proclamam Ezra Pound e todos os teóricos, filósofos e artistas que construíram Veneza, o Orgulho da Ciência, o Orgulho do Estado, o Orgulho do Sistema. Enfim, o Orgulho da Razão.
Divulgação
O MAL E O BEM - Le Corbusier (à esq., em frente à Scuola Grande di San Marco) e Ezra Pound, na Fondamenta delle Zattere: personagens da operação literária de Mainardi

O MAL E O BEM - Le Corbusier (à esq., em frente à Scuola Grande di San Marco) e Ezra Pound, na Fondamenta delle Zattere: personagens da operação literária de Mainardi 
    
Por meio desse tipo de operação literária, em que coincidências pessoais e históricas se encaixam umas nas outras de maneira tão admirável quanto arbitrária, por sempre se tratar de uma interpretação dos fatos, lembre-se, Diogo monta seu quebra-cabeça cujas peças unem a Veneza de Pietro Lombardo à de Canaletto, os filmes de Abbott e Costello aos programas de extermínio de Hitler, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, a Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Completado o quebra-cabeça, ele nos mostra a figura de um círculo que abriga não um ser humano de proporções perfeitas, mas o pequeno Tito, o inverso do Homem Vitruviano. Com sua paralisia cerebral que o obriga a pensar em cada gesto a ser feito, a antecipar cada palavra que consegue pronunciar, ele, sim, é o orgulho da razão. Mas da razão possível dentro de uma realidade cósmica que simplesmente nos ignora. Da nossa razão imperfeita que não raro tem diante de si um menino verde.

Dê-se a palavra a Diogo:
 
“Tito nasceu verde.
“Vi-o pela primeira vez em um dos claustros do hospital de Veneza. Eu acabara de conversar com o pediatra que acompanhara seu nascimento. Ele dissera que Tito permanecera sem ar por tempo demais. Ele dissera também que Tito morreria.
“Voltando à maternidade, depois de conversar com o pediatra, cruzei com um menino recém-nascido em uma incubadora. O menino recém-nascido na incubadora estava no corredor de um claustro, estacionado em um canto. Ninguém o atendia. Onde está o médico? Onde está o enfermeiro? Onde está o pai?
“Olhei-o de relance. Olhei-o novamente. Ele estava imóvel, com o corpo mole e um tubo no nariz. Seu rosto era verde. Li seu nome escrito em um esparadrapo colado na tampa da incubadora: ‘Mingardi’.
“Mingardi era igual a mim. Eu era igual a Mingardi. O menino recém-nascido na incubadora era meu filho. Mingardi era Mainardi. Até nisso o hospital de Veneza errou: em seu nome.
“Olhei Tito pela última vez. Seu rosto era igual ao meu -- só que o dele era verde.”


No dia 30 de setembro de 2000, Diogo Mainardi caiu com Tito. E começou a aprender que saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar, como ele próprio diz a certa altura.
A Queda é um livro magnífico em sua humanidade.

Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/uma-queda-para-o-alto

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O tamanho de Ulysses

A convite da Folha, sete autores reduzem "Ulysses" a um tuíte, como sugeriu Paulo Coelho
 
DE SÃO PAULO


Deu no "New York Times". E no "Guardian", na "Economist", no italiano "Corriere Della Sera", no francês "Libération" e, na última quarta, até no "Dalmacia News", diário de maior circulação dos Bálcãs: Paulo Coelho vilipendiou "Ulysses".

A boutade do controverso autor brasileiro, o mais celebrado no exterior (140 milhões de livros em 160 países), alegando em entrevista à Folha no último dia 4, que o clássico de James Joyce é "só estilo" e que, se dissecado, "dá um tuíte", comoveu leitores ao redor do mundo.

"É o maior insulto já sofrido por Joyce", sentenciou Jennifer Schuessler, jornalista do "New York Times", que admitiu nunca ter lido Coelho ("Assim ela me põe em pé de igualdade com o autor. Tomo como elogio", diz o brasileiro).

Ao contrário de Jennifer, Stuart Kelly, crítico de literatura do "Guardian", leu quatro livros do mago e mantém a réplica de pé: "Coelho tem direito à opinião dele e eu tenho à minha, de que a dele é tacanha, fácil e baseada em evidências questionáveis".

Para Kelly, no "processo de 'emburrecimento' do mundo atualmente, vozes precisam se levantar em favor do oblíquo, do experimental e do complexo", como é o catatau irlandês de mais de mil páginas que narra um dia na vida de Leopold Bloom.

A crítica a "Ulysses", partindo de um autor de longo alcance, seria um desserviço à literatura, segundo ele.

Nas redes sociais, em que Paulo Coelho tem cerca de 15 milhões de seguidores, a questão tomou ares de disputa renhida.

De um lado, súbitos leitores de "Ulysses". De outro, partidários de Coelho, segundo ele, "ofendidos nos últimos 25 anos por serem meus leitores". De todos os cantos, insultos voando à toda.

Mas, se há algo a que "Ulysses" está habituado é a ataques. Isso ocorre desde o início de sua publicação em capítulos, a partir de 1918, na revista americana "The Little Review". Ao falar de masturbação, Joyce foi acusado de obscenidade. O livro foi banido dos EUA e da Inglaterra.

Naquele país, só voltou a ser publicado em 1934, sob protestos de puristas. É de se perguntar: 90 anos depois, ainda é preciso quem o defenda? Para Stuart Kelly, sim.

"Livros como esse ajudam a compreender questões mais profundas da nossa existência, ao invés de oferecer paliativos e falsas soluções."

E, afinal, "Ulysses" pode ser resumido em um tuíte? Na opinião de Idelber Avelar, professor de literatura da Universidade de Tulane (EUA), sim. "'Hamlet' e 'Guerra e Paz' também", disse ele, provocando os joyceanos contra o autor de "O Alquimista".

Para efeito de tira-teima, a Folha convidou sete autores -inclusive Coelho- para fazerem o que, há quem diga, é quase um crime: reduzir mais de mil páginas de narrativa "avant-garde" em, no máximo, 140 caracteres.


James Joyce no Twitter 
Um dia na vida de Leopold Bloom em até 140 caracteres
Dois bebuns tocam o puteiro 24h em Dublin. Então sobra pra Molly, a safada, viajar na maionese até o fim
@xicosa

Cansado da patroa que #falamuito, um professor junta uma patota alucinante e apronta a maior confusão. Hoje. Ulysses. Depois do Fantástico.
@rbressane

O inferno dura um dia. Um dia que se repete. O mesmo dia errado. O paraíso dura um dia também. O mesmo dia certo. Ulisses é um dia indeciso
@carpinejar

marido perambula pela cidade, esposa fala sozinha
@felipevalerio

Judeu caminha por Dublin e tenta se lembrar se puxou a descarga. Come fígado. Observa mulheres. Masturba-se. Sua esposa pensa na vida. Sim.
@xerxenesky

Aviso aos leitores de Paulo Coelho: não é a biografia de Ulysses Guimarães
@MarcelinoFreire

16/06: dia interminável, com as conversas de sempre. E de noite - #WTF! - tenho que escutar minha adúltera mulher falando sozinha.
@paulocoelho


Análise 
O livro de Joyce resistiria até hoje construído em torno do vazio?
 
MARCELO TÁPIA
ESPECIAL PARA A FOLHA


Pois é: "Ulysses" está na ordem do dia, novo de novo. O relato sobre o dia 16 de junho de 1904 vivido por Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom reaparece questionado em seu "conteúdo". Numa frase: toda a vida e a vida toda cabem nas horas de "Ulysses".

Noventa anos depois de publicado, o livro resistiria por um fator que lhe fosse externo, algo como um "fetiche do difícil", construído em torno do vazio?

A questão está no que se quer encontrar no romance-marco do século 20. Ele não foi feito para ser entretenimento fácil -embora seja divertido- ou de utilidade relativa a carências do leitor, sejam elas quais forem.

Mas nele se encontram o homem comum, a morte, o amor, o ódio, o sexo, o adultério, a carne, a perda de um filho, a razão, o delírio, a mudança, a culpa, a descoberta, a grande aventura do mundo. É difícil e fácil como o mundo, pois criado à semelhança dele.

"Estilo" e "conteúdo" são indissociáveis no texto de Joyce. Nele, a linguagem também é personagem: para cada capítulo, um narrador, um modo de contar e de criar; para o todo, obras, formas, fatos, pensamentos que se cruzam.

Homero e referências díspares de toda a história literária convivem em "Ulysses".
Num dia em que aparentemente pouco acontece, há a chance de um tempo marcante, eterno, que tudo contém. Nele há espaço para um café da manhã, para um enterro, para um sabonete com aroma de limão siciliano.

Para o "pai de todos", por vezes imponente, por vezes uma lânguida flor flutuante; para todo o corpo da mulher, o topete do amante, os carnívoros palitando a dentuça, a cama, a lembrança, o reencontro, a alma, a transmutação, o pai, o filho e o espírito santo.
Como escalar o cume desse dia? Com coragem e alegria. Há diversos meios de acesso; a jornada desafiadora traz recompensas.

Para enxergar as graças de "Ulysses", não se pode caber em si: é preciso enfrentar o indefinido, às vezes indecidível. E, como que por um buraco de fechadura, um mundo excitante, uma história imensa, até aparece, revelando-nos como pode ser imortal o emaranhado da consciência, o enredo da vida e da escrita.

Para evocar uma opinião célebre, leiam-se versos da "Invocação a Joyce", de Jorge Luis Borges, aqui traduzidos: "Que importa nossa covardia se há na terra/um só homem valente,/[...]que importa minha geração perdida,/esse espelho vago,/se teus livros a justificam.[...] Eu sou todos aqueles que teu obstinado rigor resgatou. Sou os que não conheces e os que salvas".
 
Marcelo Tápia, poeta e tradutor, é doutor em teoria literária pela USP, diretor da Casa Guilherme de Almeida e organizador do Bloomsday em São Paulo.
 
 
FOLHA DE S.PAULO
17/08/2012 

Começa a invasão de privacidade política pela TV e pelo rádio

Como sempre, tem políticos que subestimam mesmo nossa inteligência.

sábado, 11 de agosto de 2012

O vôlei feminino foi esplêndido como o ouro em Londres

A data de 11 de agosto de 2012 para a seleção brasileira feminina de voleibol nos jogos olímpicos de Londres é simplesmente memorável. Esplêndidas a atitude e o espírito olímpico desta seleção que honrou nossa nação. Todas as meninas mereciam, além do ouro de Londres, a medalha de honra ao mérito pelo despojamento em quadra, e mais, pela verdadeira entrega num jogo teoricamente ganho ou perdido. Os dois jogos que elas fizeram, o contra a Rússia e o contra os EUA na final, de fato, passou para os anais da história do esporte e do vôlei feminino.

Parabéns.

Vejam algumas fotos:

No final foi só alegria e deu ouro com 3 sets a 1 em cima das favoritas norte-americanas. Parabéns!

Que desperdício!

Com uma tremenda geração de futebol, a seleção brasileira em Londres desperdiçou de trazer uma inédita medalha de ouro para uma nação que acreditava já está mais madura do que nunca. Além disso, desperdiçamos de quebrar um recorde de medalhas de ouro num só dia. Que desperdício!

Perdemos novamente para o México de 2 a 1, só que desta vez numa final de jogos olímpicos, onde precisávamos mais de gana, atitude e determinação. O time não foi resiliente ao sofrer um gol logo no início. Pra que vai sobrar? Alguém tem que se explicar. Não houve espírito olímpico.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Carlos Heitor Cony - O imenso Jorge

Criou uma obra torrencial, quente de vida e de pecado, numa prosa que parecia desleixada aos críticos

Ele foi o único habitante deste planeta que conseguiu acreditar com a mesma sinceridade em Marx e na Menininha do Gantois. Muitos não admitem essa intimidade de Jorge com o marxismo, ao qual aderiu mais com o coração do que com a cabeça. E sua literatura também foi assim. Nada de papo cabeça.

Papo coração.

Suando baianidade, melado pelo ouro do cacau, ele foi uma mistura de pai de santo e pajé, um pajé que sabia contar histórias bonitas para a imensa taba global onde à noite, se alguém era capaz de duvidar, ele repetia com astúcia: "Meninos, eu vi!".

Se o poeta é o fingidor, o romancista é o mentiroso. No caso da poesia, quanto mais finge, mais o poeta é sincero.

No romance, quanto mais se mente, mais se é verdadeiro. E nada mais verdadeiro do que o universo de saveiros e moleques, de mulatas cadeirudas e operários perseguidos, de xangôs e iemanjás, de cabarés e velórios, de doutores de borla e capelo e capitães de longo curso, de quituteiras e babalaôs que povoaram suas noites enfeitiçadas, seus terreiros de suor e milagres -que a carne sofre inteira e precisa sentir prazer por inteiro, pois ninguém é de ferro.

Jorge Amado conseguiu o absurdo de ser cético e de ser crente. Só na Bahia podia nascer um sujeito assim. Por isso mesmo ele tinha um gosto de azeite e de sono espreguiçado, de cafuné e de mulata tombada nos fundos da cozinha.

Espiou o mundo com o olho treinado nas fechaduras da vida: compreendeu tudo. Leitores que ele teve em todo o mundo não sabem o que perderam: a pessoa humana que só deu a conhecer uma parte de si mesma. Uma parte que constitui um dos maiores todos da literatura moderna.
E este Jorge começou a se mostrar de mansinho, escrevendo "Lenita", uma novela em parceria com Dias da Costa e Edson Carneiro. Tinha 15 anos. O trabalho em equipe geralmente não figura na lista de suas obras, mas não deixou de ser uma ameaça. Ele queria escrever.

O seu aprendizado não seria feito nos laboratórios da gramática ou nos alambiques da linguística. Como a cozinheira se faz no fogão, prevendo e provendo panelas e frigideiras, Jorge se fez na vida, vivendo e escrevendo. Lenita teria sucessoras: Gabriela, Dona Flor, Tereza Batista, Tieta do Agreste.
Criou uma obra torrencial, humana, quente de vida e de pecado, numa prosa que parecia desleixada aos críticos do "ancien régime" literário, mas que o povo ia absorvendo, gostando e consagrando.

Sua obra é inteira, coerente, vívida, caudalosa, formalmente irregular e densamente regular. Não se deve exigir a mediocridade das fórmulas tradicionais de um escritor cuja força humana e literária criou "Jubiabá", "Mar Morto", "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água".

Suas mulheres de ancas cobiçadas, seus turcos fesceninos cheios de truques, seus marinheiros mentirosos, seus santos e suas senhoras afogadas em mantas e colares coloridos são sempre os mesmos, em qualquer língua ou sob qualquer sintaxe.

Jorge faria hoje, 10 de agosto, cem anos. Fez mais do que isso. Para todo o sempre, ele ficou inteiro em sua obra, e para aqueles que o conheceram foi uma figura humana espetacular. Dele guardo duas lembranças pessoais.

À minha revelia, marcou um encontro com a Menininha do Gantois e foi comigo para ver como me sairia. Garantiu-me que a visita "mal não pode fazer". Filho dileto de outra mãe de santo, ele não podia pedir a bênção de uma rival. Mas pediu e foi abençoado. Para todos os efeitos, ele era filho e devoto de todas as mães de santo da Bahia.

Tancredo Neves foi a um almoço na "Manchete". Quando me viu, o já presidente eleito elogiou crônica publicada naquela semana, aludindo a uma suposta "plasticidade" de estilo. Tive meu minuto de glória. Logo chegou Jorge Amado, blusão com todas as cores, boné de operário russo e capanga pendurada em diagonal no seu largo peito. Tancredo correu para abraçá-lo e elogiou seu último livro: "Que plasticidade!".

Murchei. Fui me queixar com o Jorge, muito mais escolado em situações iguais. Ele comentou: "O Doutor Tancredo errou de profissão. Seria melhor e maior romancista do que todos nós, incluindo o velho Machado".

folha de s.paulo 10/08/2012

http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/08/carlos-heitor-cony-o-imenso-jorge.html 

Jorge Amado completaria 100 anos hoje

Escritor Jorge Amado completaria 100 anos hoje
Escritor brasileiro foi o mais adaptado para a TV e cinema. (Acacio Franco - Ag. Lusa)
Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Publicou seu primeiro romance, O país do carnaval, em 1931. Casou-se em 1933, com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila. Nesse ano publicou seu segundo romance, Cacau.
Ele fotografou em suas obras, o povo, as belezas, os costumes e as aventuras. Casou-se com a também escritora Zélia Gattai. Publicou 32 livros que venderam mais de 30 milhões de exemplares no Brasil e que foram traduzidos para 29 idiomas. Morreu em Salvador, aos 89 anos de idade.
A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro.

Veja também o vídeo que conta um pouco a história do escritor em:

É admirável essa gente!


Tirinha da Rosali Alves Colares, como ela mesmo diz: "É um tirinha sobre hipocrisia. As pessoas falam como se deve agir, mas não cuidam oque fazem. Me admira essa gente!"

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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O político e o idiota (polites e idiotes)

(Porto de Pireus - Grécia)
 

Diferentemente da compreensão que temos de cidade hoje em dia, a polis era uma complexa unidade local composta de campos de cultivo, zonas de pastoreio, aspectos urbanos muito peculiares, além de uma estrutura social e política que garantia a autonomia ou a autosustentação dos cidadãos. Estes respeitavam os princípios de isonomia perante as leis; de isegoria ao exprimir suas opiniões em público; e de isocracia ao ascender ao poder. A vida que se depreendia da pólis era aquela que, por natureza, correspondesse melhor a realização da atividade humana, isto é, uma vida em comunidade e em plena ágora(praça) que se permitisse intervir na esfera militar; gerir financeiramente a polis; e envolver-se intensamente com os interesses políticos.
O polites, cidadão em grego, reúne todos esses atributos ao ponto de construir para si um estatuto de cidadania, uma vez que se envolvia tremendamente com os destinos de sua cidade. Este estatuto exige de cada polites um envolvimento direto na condução coletiva dos assuntos do estado. Rezam nesse estatuto os interesses expressos de coletividade, igualdade, participação e democracia.
Infelizmente, o pulsante modelo cívico grego de política com vistas à coletividade teve sua hora para ruir. Se o que vigorou muito bem nos períodos Arcaico e Clássico de sua história, já não mais vigorará nos tempos vindouros. O modelo denso e tradicional do polites nas pólis gregas começa a entrar drasticamente em crise por causa da vasta expansão do Império de Alexandre, o grande, onde não mais se valorizará tanto o local, mas o global, não mais o polites, mas o cosmopolites, em que o mundo de então passa a viver uma fusão étnica e cultural, de unidade e pacificação.
Entra em cena, então, nossa relação entre polites e idiotes. Só para contribuir um pouco nesse espaço de discussão, o livro de Mário Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro, Política: para não ser idiota, nos faz pensar em como era a realidade da pólis grega e em suas atividades ligadas ao polites e ao idiotes, ação e contemplação, intimamente imbricadas e orientadas para o desenvolvimento da democracia que, a meu ver, condiz com a autonomia do cidadão ateniense.
Segundo Cortella, idiotes, em grego, não traduz muito o ranço negativo que a palavra assumiu nos últimos séculos, talvez devido ao crescente individualismo e extrema valorização das liberdades pessoais no mundo moderno, que levaram o indivíduo a se afastar da esfera coletiva e a se apegar muito mais à esfera privada. Para Cortella, idiotes aparece com frequência em comentários indignados no Brasil, como “política é coisa de idiota”. Esta é a noção invertida do conceito, pois antigamente significava aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à política. Sua expressão generalizada é: “Não me meto em política”(Cf. CORTELLA, Mário Sérgio. Política: para não ser idiota. São Paulo, Campinas: Papirus 7 Mares, 2010, p. 7).
Aos que tentam justificar sua “idiotice” afastando-se da vida pública com outro modo de fazer política, defendendo seus interesses de liberdade individual, afirma Cortella: “Vale lembrar que, para a própria sociedade grega – nossa mãe antiga, idosa, agora um pouco desprezada – , não haveria liberdade fora da política. Quer dizer, o idiota não é livre porque toma conta do próprio nariz, pois só é livre aquele que se envolve na vida pública, na vida coletiva”(idem, p. 9).
Atenas era uma cidade próspera economicamente, desenvolvia sobretudo as atividades do artesanato e do comércio. Seu porto, o Pireu, era um porto cosmopolita ao qual chegavam e do qual partiam todos os produtos do mundo conhecido. Toda essa atividade promovia ou facilitava ainda mais o encontro de uns com os outros, o embate do eu com os outros eus, bem como a discussão de problemas relativos à cidade, produzindo, com isso, uma certa autonomia no indivíduo por que participava intensamente dos principais assuntos da pólis.
Na minha opinião, leitores, - e opinião era o que os gregos mais tinham sobre a coisa pública - nenhum texto responde melhor sobre a identidade política do cidadão ateniense quanto este transcrito por Tucídides, de modo a ser revelador para nós o convívio sadio das duas formas reais e necessárias de se viver na cidade: ação e contemplação, polites e idiotes.
Gostaria de destacar dois fragmentos do texto de Tucídides que esboçam a distinção entre polites e idiotes assim:
"Nossa constituição nada tem a invejar dos outros: é modelo e não imita. Chama-se democracia porque age para o maior número e não para uma minoria. Todos participam igualmente das leis concernentes aos assuntos públicos; é apenas a excelência de cada um que institui distinções e as honras são feitas ao mérito e não à riqueza. Nem a pobreza nem a obscuridade impedem um cidadão capaz de servir à cidade. Livres no que respeita à vida pública, livres também o somos nas relações cotidianas. Cada um pode dedicar-se ao que lhe dá prazer sem incorrer em censura, desde que não cause danos. Apesar dessa tolerância na vida privada, nós nos esforçamos para nada fazer contra a lei em nossa vida pública. Permanecemos submetidos aos magistrados e às leis, sobretudo àquelas que protegem contra a injustiça e às que, por não serem escritas, nem por isso trazem menos vergonha aos que transgridem"(Tucídides, II, 37).
"[...] para nós, a palavra não é nociva à ação; o que é nocivo é não informar-se pela palavra antes de se lançar à ação[...] Digo que nossa cidade, no seu todo, é a escola de toda Hélade"(Tucídides, II, 40). Ver CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia. Vol I. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 135).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB em parceria com Archai Unesco.

domingo, 5 de agosto de 2012

Duas lendas em Londres 2012: Bolt e Phelps


Quanto ganham nossos medalhistas olímpicos?

No Brasil, a premiação não é feita pelo governo, e sim por cada confederação. Na natação e nos saltos ornamentais, cada medalha de ouro vale R$ 100 mil. A prata de Thiago Pereira rendeu R$ 50 mil ao nadador. No judô, o ouro vale R$ 50 mil (foi o que venceu Sarah Menezes, na foto). No atletismo, a medalha de ouro vale R$ 30 mil, a prata, R$ 20 mil, e o bronze, R$ 15 mil. 

Foto: AP

Vejam o site abaixo e compare os valores de cada país. É um absurdo o Brasil pagar valor tão irrisório uma vez que se encontra numa situação econômica extremamente confortável em relação às demais nações. Lamentável!

http://br.esportes.yahoo.com 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sócrates, personagem dramática da cidade


Aquilo que a ética homérica, a maneira de se pensar a estruturação social, as relações sociais entre os exércitos fora dos muros de Tróia, esta ética da força e da violência não comporta mais uma exigência necessária para se viver na pólis, como algo necessário à pólis, à cidade.

Contudo, quem vence a guerra não é o herói Aquiles, mas Ulisses, a inteligência em pessoa, a astúcia, a enganação. Como contraponto à selvageria, Ulisses é a personagem conceitual de um salto maior do que Aquiles, do que o cratos(poder) e a bia(violência), sinalizando o que virá a ser a figura do sóphos, um novo homem que não será mais Ulisses, nem Aquiles, tampouco Agamenon, mas um homem mais sábio do que todos estes, um homem mais sábio politicamente, personificado dramaticamente na figura de Sócrates.

Entre o VII e o V séculos a.C., a Grécia está comprometida em elaborar uma solução para esta crise da ética e da cultura arcaicas em que se resume de maneira muito didática, mas com uma certa tentativa de acertar na descrição um pouco global do que está acontecendo de poesia, filosofia, teatro, até medicina, história, nesse período. As soluções apontadas são duas: a solução da Lei e a solução da alma. Pela construção da cidade, se dá a solução da lei. Pela construção de um indivíduo, da alma, se dá a solução da Filosofia.

Sócrates, personagem histórico central da filosofia platônica, de fato, revoluciona o modo de se viver na cidade que agora vem afirmado pela ética e pela obediência às leis. É um movimento simultâneo de transformação que vai do individual para o coletivo, para a cidade. Viver virtuosamente na pólis é isso. À medida que construo a mim mesmo, construo também uma nova cidade, e assim por diante. Esta posição revoluciona o modo de se fazer política e o próprio cuidado de si. “É evidente que, se a essência do homem é a alma, cuidar de si mesmo significa cuidar da própria alma mais do que do corpo. E ensinar os homens a cuidarem da própria alma é a tarefa suprema do educador, precisamente a tarefa que Sócrates considera ter recebido de deus, como se lê na Apologia: 'Que é isto(...) é a ordem de deus. E estou persuadido de que não há para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência a Deus. Na verdade, não é outra coisa o que faço nestas minhas andanças a não ser persuadir a vós, jovens e velhos, de que não deveis cuidar do corpo, nem das riquezas, nem de qualquer outra coisa antes e mais do que a alma, de modo que ela se torne ótima e virtuosíssima, e de que não é das riquezas que nasce a virtude, mas da virtude que nasce a riqueza e todas as outras coisas que são bens para os homens, tanto individualmente para os cidadãos como para o Estado'”(in REALE, Giovanni. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulinas, 1990, p. 88). A partir disso, instaura-se uma nova paideia.

Mostra-se aí também a função do sóphos de que nos falava Platão, pois, encontrando-se com Sócrates, a pessoa encontrava-se com um sábio que nos leva a descobrir o nosso valor interior, o valor da alma. Foi assim com Platão ao encontrá-lo. Ao ver Sócrates pela primeira vez como um dos grandes acontecimentos de sua mocidade, Platão se envolve com seus discursos, presencia sua condenação e morte, marcando-o por toda a vida, de modo a inspirar os seus escritos.

“Enquanto se preparava para participar de um concurso de tragédias, ouviu Sócrates em frente ao teatro de Dionísio, e então jogou os poemas, dizendo: ‘Efesto!, avança assim, Platão precisa de ti!’ Dizem que a partir de então, aos 20 anos, tornou-se discípulo de Sócrates” (D.L. 3.5-6).  

Sócrates se baseia no encontro com as pessoas em Atenas para fluir suas ideias. A função do sábio não é tanto a de ensinar coisas, também claro, como o faz Sócrates publicamente, mas sobretudo de ajudar as pessoas na descoberta da verdade. O encontro com Sócrates tornava-se possível e mais fácil o encontro com a própria verdade presente em nós. A função do sábio, na minha opinião, é a de facilitar a experiência da verdade. Portanto, o valor de Sócrates se manifesta em dois níveis: no nível do conhecimento da verdade e no nível da responsabilidade moral com esta própria verdade. Sua filosofia nos abre a possibilidade de descobrir o sentido da alma e, com isso, pautar uma transformação política da cidade.
 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB em parceria com Archai Unesco.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Novo livro de Diogo Mainardi: uma queda para o alto

VEJA desta semana destaca a publicação de Mainardi, uma comovente narrativa sobre seu filho que nasceu com paralisia cerebral e uma portentosa representação intelectual das emoções

Mario Sabino
TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO - O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual
  
 TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO 

- O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual (Ruyn Teixeira / Divulgação)
Um dos desenhos mais célebres do mundo faz parte do acervo da Accademia de Veneza. Trata-se do Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, em que a única figura humana é retratada em duas posições, como se houvesse fotogramas sobrepostos -- dentro de um círculo (com os braços esticados na altura da cabeça e as pernas afastadas) e dentro de um quadrado (com os braços abertos na altura dos ombros e as pernas juntas), círculo e quadrado porque tidos como as formas geométricas perfeitas. O “Homem Vitruviano” parece fazer um polichinelo, aquele exercício físico banido da ginástica escolar depois de arrebentar os joelhos das gerações com mais de 40 anos. Da Vinci concebeu o desenho em torno de 1490, a partir das considerações do arquiteto romano Vitrúvio. Um milênio e meio antes, em seu tratado De Architectura, Vitrúvio estabelecera quais seriam as proporções exatas do corpo humano, por meio de uma série de correspondências matemáticas entre as suas diversas partes. O desenho de Da Vinci é acompanhado, na parte superior e inferior, de explicações sobre tais correspondências, a demonstrar com mais ênfase a intenção do artista de apresentar o modelo de harmonia que deveria servir de base a pintores, escultores e arquitetos. O Homem Vitruviano é raramente exposto. A última vez foi em 2009. Já sua antítese está em exposição permanente pelas vias e pontes de Veneza: Tito Mainardi, hoje com quase 12 anos, primogênito de Diogo Mainardi. Portador de paralisia cerebral, é como uma espécie de “Menino Antivitruviano” que ele protagoniza A Queda  - As Memórias de um Pai em 424 Passos (Record; 152 páginas; 29,90 reais), de autoria do ex-colunista de VEJA. O livro, que chega às livrarias com uma tiragem inicial de 20.000 exemplares, é comovente pelo tema, extraordinário na forma e esplêndido como reflexão sobre a arrogância humana.
Tito é personagem conhecido dos leitores que acompanhavam semanalmente a coluna de Diogo, a mais lida da revista de 1999 a 2010, quando o escritor e jornalista resolveu encerrar espontaneamente a sua colaboração. Ele começou a pensar em escrever o livro sobre a paralisia cerebral de seu primogênito em 2008, ainda no Rio de Janeiro, para onde se mudara quatro anos antes, a conselho de médicos americanos. O veneziano Tito deveria viver num ambiente quente, onde pudesse exercitar mais as pernas. As areias de Ipanema foram seu primeiro -- e ideal para quedas -- campo de provas, complementadas pelas garagens térreas dos prédios da orla, nas quais o menino se esbaldava com seu andador, observado do carrinho por Nico, seu irmão carioca, hoje com 7 anos. Depois que Tito, em férias na cidade natal, alcançou 359 passos sozinho, Diogo decidiu concretizar seu projeto. Diz ele: “Só consegui, contudo, dedicar-me seriamente ao livro a partir de setembro de 2010, na volta definitiva a Veneza. Tive de renunciar à coluna em VEJA, por causa da minha cabeça limitada: sou incapaz de pensar num José Dirceu e, ao mesmo tempo, num Tintoretto. O José Dirceu emporcalha o Tintoretto”. Uma das glórias de Veneza, o pintor é um dos artistas abordados por Diogo em A Queda.
A paralisia cerebral de Tito foi causada por uma obstetra que apressou o parto de maneira desastrada. O dia em que ele veio à luz -- 30 de setembro de 2000 -- caiu num sábado, e a médica encarregada do procedimento queria terminar seu turno de trabalho mais rápido. Para tanto, decidiu estourar a bolsa com líquido amniótico que protege o bebê. Só que, ao fazê-lo contrariando todos os manuais de obstetrícia, Tito teve o cordão umbilical esmagado e ficou sem oxigênio. A saída, nesse caso, era realizar uma cesárea de urgência. A obstetra outra vez errou ao demorar demais para abrir o ventre de Anna, mulher de Diogo, e Tito permaneceu asfixiado por 45 minutos. O resultado foi uma lesão no cérebro que o impede de falar, andar e pegar objetos com as mãos como se faz normalmente. A lesão é tão pequena que é invisível aos exames de imagem mais modernos. Assim, não comprometeu a capacidade intelectual de Tito, um menino vivaz, bem-humorado e, agora, um pré-adolescente típico -- com disposição infinita para irritar os pais e uma precoce admiração por mulheres altas e esguias.
Outros autores já trataram das deficiências de seus filhos, em livros corajosos como requer a honesta literatura do tipo confessional. Mas Diogo o faz sem resvalar na autocomplacência e também evita circunvoluções biográficas que se afastam longamente do tema central. A Queda é também original na forma. Apresenta o exato número de capítulos de seu subtítulo: 424. Todos eles curtíssimos, alguns com menos de quatro linhas. O número de capítulos espelha o máximo de passos que Tito conseguiu dar sem cair, e sem andador, no momento em que Diogo finalmente deixou de contá-los -- façanha realizada no dia em que o menino foi visitar pela primeira vez o hospital de Veneza onde nascera, instalado no palácio bizantino-renascentista da Scuola Grande di San Marco. Outro aspecto inédito: muitos dos capítulos são entremeados com ilustrações de pinturas venezianas, imagens de família, cenas de filmes e até a de um videogame. Elas remetem ao relato imediatamente anterior e ajudam a montar o quebra-cabeça construído por Diogo para dar um sentido a tudo o que ocorreu após o nascimento de Tito. Em algumas pinturas, ele próprio assume o papel de personagem, assim como o faz com relação a Anna e Tito, por meio de setas que apontam detalhes que os retratariam.
Em torno da paralisia cerebral de seu filho, orbitam duas narrativas que se imbricam uma na outra: a do drama familiar e a da história das ideias e de seu corolário, a arte que se quer expressão da Verdade -- com “v” maiúsculo --, seja filosófica, religiosa ou ideológica. Está-se falando da arte de Bizâncio, do Renascimento e do Barroco, de que Veneza é uma das joias mais ofuscantes, por obra de mestres da arquitetura, da pintura e da escultura que a moldaram alinhados com sua geografia peculiar. No século XVIII, escreveu o comediógrafo Carlo Goldoni, um dos venezianos mais ilustres: “Veneza é uma cidade tão extraordinária que não é possível ter dela uma ideia exata sem a ver; os mapas, as plantas, as maquetes, as descrições não bastam; é preciso vê-la. Todas as cidades do mundo mais ou menos se assemelham; essa não tem semelhança com nenhuma. Toda vez que eu a revi depois de longas ausências, surgiu em mim um novo espanto. À medida que eu crescia, que aumentavam meus conhecimentos, e tinha comparações a fazer, descobria nela novas singularidades, novas belezas”.
Diogo só poderia escrever esse livro em Veneza, ainda que José Dirceu não emporcalhasse Tintoretto. Foi nessa cidade sem paralelo, que coroa a vaidade do pensamento e da arte, que Diogo se refugiou para escrever seus quatro romances. Foi nessa cidade diferente de todas as outras que ele conheceu a sua queda particular -- e, nela, reconheceu as nossas aspirações evanescentes que insistem em sobreviver em quaisquer latitudes. No livro, Veneza continua a ser extraordinária, como na época de Goldoni, mas não como um tributo ao engenho humano, e sim à sua prepotência, da qual Diogo se despiu existencialmente. Diz ele a VEJA: “O nascimento de Tito me fez deixar os romances de lado, porque mudou o narrador. Em meus romances, eu era o narrador onisciente, que comandava o destino de um bando de personagens idiotas. Depois de Tito, eu me tornei o personagem idiota, e meu destino passou a ser narrado por um menininho de pernas tortas que nem sabia falar. Morreu a minha soberba autoral e, sem ela, era impensável continuar a escrever romances. Dito de outra maneira: eu sempre imaginei que saberia manter um razoável controle sobre os fatos de minha vida. Tito me mostrou, porém, que eu nunca controlei porcaria nenhuma, e que a única possibilidade de livre-arbítrio ao meu alcance estava na leitura dos fatos, e não nos fatos em si”.
Nesse exercício de livre-arbítrio, Diogo inicia o livro estabelecendo uma conexão entre a paralisia cerebral de seu primogênito e o que chama de “estetismo abestalhado”. Mesmerizado pela fachada magnífica do hospital de Veneza, arquitetada por Pietro Lombardo em 1489 para a então Scuola Grande di San Marco, ele deixou de lado os desastres médicos que fizeram a fama daquela instituição e disse a Anna, receosa do parto, diante do hospital: “Com esta fachada, aceito até um filho deforme”. A frase não deve ser interpretada literalmente, mas como achincalhe intelectual, de acordo com Diogo. O arquiteto Pietro Lombardo, louvado pelos seus pares e pelos maiores críticos de arte, encarna de tal forma o ideal de beleza artística que o poeta Ezra Pound o colocou em sua obra magna, Os Cantos, como tradução do Bem em contraposição ao Mal, simbolizado pela usura. “Pietro Lombardo não se fez com a usura”, escreveu Pound. Dessa forma, escreve Diogo, “eu só conseguia associar a arte perfeita de Pietro Lombardo a um parto igualmente perfeito. Porque o Bem, representado pela arquitetura de Pietro Lombardo, jamais poderia gerar o Mal, representado por um erro de parto”.
Mais adiante, Diogo conta que nasceu em 22 de setembro de 1962, data em que o arquiteto modernista franco-suíço Le Corbusier foi convidado a projetar uma nova sede para o hospital de Veneza. Teria sido erguido um prédio medonho, com blocos de cimento armado, não houvesse Le Corbusier morrido seis meses depois de apresentar o projeto, afogado no Mediterrâneo. Ou seja, o Mal, personificado pela arquitetura do franco-suíço, teria gerado o Bem, visto que Diogo não escolheria o novo hospital de Veneza para ter seu filho e, certamente, Tito nasceria em perfeitas condições na vizinha Pádua, dotada de um dos melhores hospitais da Europa. O Mal do qual nasce o Bem é o exato oposto do que proclamam Ezra Pound e todos os teóricos, filósofos e artistas que construíram Veneza, o Orgulho da Ciência, o Orgulho do Estado, o Orgulho do Sistema. Enfim, o Orgulho da Razão.
Divulgação
O MAL E O BEM - Le Corbusier (à esq., em frente à Scuola Grande di San Marco) e Ezra Pound, na Fondamenta delle Zattere: personagens da operação literária de Mainardi

O MAL E O BEM - Le Corbusier (à esq., em frente à Scuola Grande di San Marco) e Ezra Pound, na Fondamenta delle Zattere: personagens da operação literária de Mainardi 
    
Por meio desse tipo de operação literária, em que coincidências pessoais e históricas se encaixam umas nas outras de maneira tão admirável quanto arbitrária, por sempre se tratar de uma interpretação dos fatos, lembre-se, Diogo monta seu quebra-cabeça cujas peças unem a Veneza de Pietro Lombardo à de Canaletto, os filmes de Abbott e Costello aos programas de extermínio de Hitler, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, a Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Completado o quebra-cabeça, ele nos mostra a figura de um círculo que abriga não um ser humano de proporções perfeitas, mas o pequeno Tito, o inverso do Homem Vitruviano. Com sua paralisia cerebral que o obriga a pensar em cada gesto a ser feito, a antecipar cada palavra que consegue pronunciar, ele, sim, é o orgulho da razão. Mas da razão possível dentro de uma realidade cósmica que simplesmente nos ignora. Da nossa razão imperfeita que não raro tem diante de si um menino verde.

Dê-se a palavra a Diogo:
 
“Tito nasceu verde.
“Vi-o pela primeira vez em um dos claustros do hospital de Veneza. Eu acabara de conversar com o pediatra que acompanhara seu nascimento. Ele dissera que Tito permanecera sem ar por tempo demais. Ele dissera também que Tito morreria.
“Voltando à maternidade, depois de conversar com o pediatra, cruzei com um menino recém-nascido em uma incubadora. O menino recém-nascido na incubadora estava no corredor de um claustro, estacionado em um canto. Ninguém o atendia. Onde está o médico? Onde está o enfermeiro? Onde está o pai?
“Olhei-o de relance. Olhei-o novamente. Ele estava imóvel, com o corpo mole e um tubo no nariz. Seu rosto era verde. Li seu nome escrito em um esparadrapo colado na tampa da incubadora: ‘Mingardi’.
“Mingardi era igual a mim. Eu era igual a Mingardi. O menino recém-nascido na incubadora era meu filho. Mingardi era Mainardi. Até nisso o hospital de Veneza errou: em seu nome.
“Olhei Tito pela última vez. Seu rosto era igual ao meu -- só que o dele era verde.”


No dia 30 de setembro de 2000, Diogo Mainardi caiu com Tito. E começou a aprender que saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar, como ele próprio diz a certa altura.
A Queda é um livro magnífico em sua humanidade.

Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/uma-queda-para-o-alto

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O tamanho de Ulysses

A convite da Folha, sete autores reduzem "Ulysses" a um tuíte, como sugeriu Paulo Coelho
 
DE SÃO PAULO


Deu no "New York Times". E no "Guardian", na "Economist", no italiano "Corriere Della Sera", no francês "Libération" e, na última quarta, até no "Dalmacia News", diário de maior circulação dos Bálcãs: Paulo Coelho vilipendiou "Ulysses".

A boutade do controverso autor brasileiro, o mais celebrado no exterior (140 milhões de livros em 160 países), alegando em entrevista à Folha no último dia 4, que o clássico de James Joyce é "só estilo" e que, se dissecado, "dá um tuíte", comoveu leitores ao redor do mundo.

"É o maior insulto já sofrido por Joyce", sentenciou Jennifer Schuessler, jornalista do "New York Times", que admitiu nunca ter lido Coelho ("Assim ela me põe em pé de igualdade com o autor. Tomo como elogio", diz o brasileiro).

Ao contrário de Jennifer, Stuart Kelly, crítico de literatura do "Guardian", leu quatro livros do mago e mantém a réplica de pé: "Coelho tem direito à opinião dele e eu tenho à minha, de que a dele é tacanha, fácil e baseada em evidências questionáveis".

Para Kelly, no "processo de 'emburrecimento' do mundo atualmente, vozes precisam se levantar em favor do oblíquo, do experimental e do complexo", como é o catatau irlandês de mais de mil páginas que narra um dia na vida de Leopold Bloom.

A crítica a "Ulysses", partindo de um autor de longo alcance, seria um desserviço à literatura, segundo ele.

Nas redes sociais, em que Paulo Coelho tem cerca de 15 milhões de seguidores, a questão tomou ares de disputa renhida.

De um lado, súbitos leitores de "Ulysses". De outro, partidários de Coelho, segundo ele, "ofendidos nos últimos 25 anos por serem meus leitores". De todos os cantos, insultos voando à toda.

Mas, se há algo a que "Ulysses" está habituado é a ataques. Isso ocorre desde o início de sua publicação em capítulos, a partir de 1918, na revista americana "The Little Review". Ao falar de masturbação, Joyce foi acusado de obscenidade. O livro foi banido dos EUA e da Inglaterra.

Naquele país, só voltou a ser publicado em 1934, sob protestos de puristas. É de se perguntar: 90 anos depois, ainda é preciso quem o defenda? Para Stuart Kelly, sim.

"Livros como esse ajudam a compreender questões mais profundas da nossa existência, ao invés de oferecer paliativos e falsas soluções."

E, afinal, "Ulysses" pode ser resumido em um tuíte? Na opinião de Idelber Avelar, professor de literatura da Universidade de Tulane (EUA), sim. "'Hamlet' e 'Guerra e Paz' também", disse ele, provocando os joyceanos contra o autor de "O Alquimista".

Para efeito de tira-teima, a Folha convidou sete autores -inclusive Coelho- para fazerem o que, há quem diga, é quase um crime: reduzir mais de mil páginas de narrativa "avant-garde" em, no máximo, 140 caracteres.


James Joyce no Twitter 
Um dia na vida de Leopold Bloom em até 140 caracteres
Dois bebuns tocam o puteiro 24h em Dublin. Então sobra pra Molly, a safada, viajar na maionese até o fim
@xicosa

Cansado da patroa que #falamuito, um professor junta uma patota alucinante e apronta a maior confusão. Hoje. Ulysses. Depois do Fantástico.
@rbressane

O inferno dura um dia. Um dia que se repete. O mesmo dia errado. O paraíso dura um dia também. O mesmo dia certo. Ulisses é um dia indeciso
@carpinejar

marido perambula pela cidade, esposa fala sozinha
@felipevalerio

Judeu caminha por Dublin e tenta se lembrar se puxou a descarga. Come fígado. Observa mulheres. Masturba-se. Sua esposa pensa na vida. Sim.
@xerxenesky

Aviso aos leitores de Paulo Coelho: não é a biografia de Ulysses Guimarães
@MarcelinoFreire

16/06: dia interminável, com as conversas de sempre. E de noite - #WTF! - tenho que escutar minha adúltera mulher falando sozinha.
@paulocoelho


Análise 
O livro de Joyce resistiria até hoje construído em torno do vazio?
 
MARCELO TÁPIA
ESPECIAL PARA A FOLHA


Pois é: "Ulysses" está na ordem do dia, novo de novo. O relato sobre o dia 16 de junho de 1904 vivido por Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom reaparece questionado em seu "conteúdo". Numa frase: toda a vida e a vida toda cabem nas horas de "Ulysses".

Noventa anos depois de publicado, o livro resistiria por um fator que lhe fosse externo, algo como um "fetiche do difícil", construído em torno do vazio?

A questão está no que se quer encontrar no romance-marco do século 20. Ele não foi feito para ser entretenimento fácil -embora seja divertido- ou de utilidade relativa a carências do leitor, sejam elas quais forem.

Mas nele se encontram o homem comum, a morte, o amor, o ódio, o sexo, o adultério, a carne, a perda de um filho, a razão, o delírio, a mudança, a culpa, a descoberta, a grande aventura do mundo. É difícil e fácil como o mundo, pois criado à semelhança dele.

"Estilo" e "conteúdo" são indissociáveis no texto de Joyce. Nele, a linguagem também é personagem: para cada capítulo, um narrador, um modo de contar e de criar; para o todo, obras, formas, fatos, pensamentos que se cruzam.

Homero e referências díspares de toda a história literária convivem em "Ulysses".
Num dia em que aparentemente pouco acontece, há a chance de um tempo marcante, eterno, que tudo contém. Nele há espaço para um café da manhã, para um enterro, para um sabonete com aroma de limão siciliano.

Para o "pai de todos", por vezes imponente, por vezes uma lânguida flor flutuante; para todo o corpo da mulher, o topete do amante, os carnívoros palitando a dentuça, a cama, a lembrança, o reencontro, a alma, a transmutação, o pai, o filho e o espírito santo.
Como escalar o cume desse dia? Com coragem e alegria. Há diversos meios de acesso; a jornada desafiadora traz recompensas.

Para enxergar as graças de "Ulysses", não se pode caber em si: é preciso enfrentar o indefinido, às vezes indecidível. E, como que por um buraco de fechadura, um mundo excitante, uma história imensa, até aparece, revelando-nos como pode ser imortal o emaranhado da consciência, o enredo da vida e da escrita.

Para evocar uma opinião célebre, leiam-se versos da "Invocação a Joyce", de Jorge Luis Borges, aqui traduzidos: "Que importa nossa covardia se há na terra/um só homem valente,/[...]que importa minha geração perdida,/esse espelho vago,/se teus livros a justificam.[...] Eu sou todos aqueles que teu obstinado rigor resgatou. Sou os que não conheces e os que salvas".
 
Marcelo Tápia, poeta e tradutor, é doutor em teoria literária pela USP, diretor da Casa Guilherme de Almeida e organizador do Bloomsday em São Paulo.
 
 
FOLHA DE S.PAULO
17/08/2012 

Começa a invasão de privacidade política pela TV e pelo rádio

Como sempre, tem políticos que subestimam mesmo nossa inteligência.

sábado, 11 de agosto de 2012

O vôlei feminino foi esplêndido como o ouro em Londres

A data de 11 de agosto de 2012 para a seleção brasileira feminina de voleibol nos jogos olímpicos de Londres é simplesmente memorável. Esplêndidas a atitude e o espírito olímpico desta seleção que honrou nossa nação. Todas as meninas mereciam, além do ouro de Londres, a medalha de honra ao mérito pelo despojamento em quadra, e mais, pela verdadeira entrega num jogo teoricamente ganho ou perdido. Os dois jogos que elas fizeram, o contra a Rússia e o contra os EUA na final, de fato, passou para os anais da história do esporte e do vôlei feminino.

Parabéns.

Vejam algumas fotos:

No final foi só alegria e deu ouro com 3 sets a 1 em cima das favoritas norte-americanas. Parabéns!

Que desperdício!

Com uma tremenda geração de futebol, a seleção brasileira em Londres desperdiçou de trazer uma inédita medalha de ouro para uma nação que acreditava já está mais madura do que nunca. Além disso, desperdiçamos de quebrar um recorde de medalhas de ouro num só dia. Que desperdício!

Perdemos novamente para o México de 2 a 1, só que desta vez numa final de jogos olímpicos, onde precisávamos mais de gana, atitude e determinação. O time não foi resiliente ao sofrer um gol logo no início. Pra que vai sobrar? Alguém tem que se explicar. Não houve espírito olímpico.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Carlos Heitor Cony - O imenso Jorge

Criou uma obra torrencial, quente de vida e de pecado, numa prosa que parecia desleixada aos críticos

Ele foi o único habitante deste planeta que conseguiu acreditar com a mesma sinceridade em Marx e na Menininha do Gantois. Muitos não admitem essa intimidade de Jorge com o marxismo, ao qual aderiu mais com o coração do que com a cabeça. E sua literatura também foi assim. Nada de papo cabeça.

Papo coração.

Suando baianidade, melado pelo ouro do cacau, ele foi uma mistura de pai de santo e pajé, um pajé que sabia contar histórias bonitas para a imensa taba global onde à noite, se alguém era capaz de duvidar, ele repetia com astúcia: "Meninos, eu vi!".

Se o poeta é o fingidor, o romancista é o mentiroso. No caso da poesia, quanto mais finge, mais o poeta é sincero.

No romance, quanto mais se mente, mais se é verdadeiro. E nada mais verdadeiro do que o universo de saveiros e moleques, de mulatas cadeirudas e operários perseguidos, de xangôs e iemanjás, de cabarés e velórios, de doutores de borla e capelo e capitães de longo curso, de quituteiras e babalaôs que povoaram suas noites enfeitiçadas, seus terreiros de suor e milagres -que a carne sofre inteira e precisa sentir prazer por inteiro, pois ninguém é de ferro.

Jorge Amado conseguiu o absurdo de ser cético e de ser crente. Só na Bahia podia nascer um sujeito assim. Por isso mesmo ele tinha um gosto de azeite e de sono espreguiçado, de cafuné e de mulata tombada nos fundos da cozinha.

Espiou o mundo com o olho treinado nas fechaduras da vida: compreendeu tudo. Leitores que ele teve em todo o mundo não sabem o que perderam: a pessoa humana que só deu a conhecer uma parte de si mesma. Uma parte que constitui um dos maiores todos da literatura moderna.
E este Jorge começou a se mostrar de mansinho, escrevendo "Lenita", uma novela em parceria com Dias da Costa e Edson Carneiro. Tinha 15 anos. O trabalho em equipe geralmente não figura na lista de suas obras, mas não deixou de ser uma ameaça. Ele queria escrever.

O seu aprendizado não seria feito nos laboratórios da gramática ou nos alambiques da linguística. Como a cozinheira se faz no fogão, prevendo e provendo panelas e frigideiras, Jorge se fez na vida, vivendo e escrevendo. Lenita teria sucessoras: Gabriela, Dona Flor, Tereza Batista, Tieta do Agreste.
Criou uma obra torrencial, humana, quente de vida e de pecado, numa prosa que parecia desleixada aos críticos do "ancien régime" literário, mas que o povo ia absorvendo, gostando e consagrando.

Sua obra é inteira, coerente, vívida, caudalosa, formalmente irregular e densamente regular. Não se deve exigir a mediocridade das fórmulas tradicionais de um escritor cuja força humana e literária criou "Jubiabá", "Mar Morto", "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água".

Suas mulheres de ancas cobiçadas, seus turcos fesceninos cheios de truques, seus marinheiros mentirosos, seus santos e suas senhoras afogadas em mantas e colares coloridos são sempre os mesmos, em qualquer língua ou sob qualquer sintaxe.

Jorge faria hoje, 10 de agosto, cem anos. Fez mais do que isso. Para todo o sempre, ele ficou inteiro em sua obra, e para aqueles que o conheceram foi uma figura humana espetacular. Dele guardo duas lembranças pessoais.

À minha revelia, marcou um encontro com a Menininha do Gantois e foi comigo para ver como me sairia. Garantiu-me que a visita "mal não pode fazer". Filho dileto de outra mãe de santo, ele não podia pedir a bênção de uma rival. Mas pediu e foi abençoado. Para todos os efeitos, ele era filho e devoto de todas as mães de santo da Bahia.

Tancredo Neves foi a um almoço na "Manchete". Quando me viu, o já presidente eleito elogiou crônica publicada naquela semana, aludindo a uma suposta "plasticidade" de estilo. Tive meu minuto de glória. Logo chegou Jorge Amado, blusão com todas as cores, boné de operário russo e capanga pendurada em diagonal no seu largo peito. Tancredo correu para abraçá-lo e elogiou seu último livro: "Que plasticidade!".

Murchei. Fui me queixar com o Jorge, muito mais escolado em situações iguais. Ele comentou: "O Doutor Tancredo errou de profissão. Seria melhor e maior romancista do que todos nós, incluindo o velho Machado".

folha de s.paulo 10/08/2012

http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/08/carlos-heitor-cony-o-imenso-jorge.html 

Jorge Amado completaria 100 anos hoje

Escritor Jorge Amado completaria 100 anos hoje
Escritor brasileiro foi o mais adaptado para a TV e cinema. (Acacio Franco - Ag. Lusa)
Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Publicou seu primeiro romance, O país do carnaval, em 1931. Casou-se em 1933, com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila. Nesse ano publicou seu segundo romance, Cacau.
Ele fotografou em suas obras, o povo, as belezas, os costumes e as aventuras. Casou-se com a também escritora Zélia Gattai. Publicou 32 livros que venderam mais de 30 milhões de exemplares no Brasil e que foram traduzidos para 29 idiomas. Morreu em Salvador, aos 89 anos de idade.
A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro.

Veja também o vídeo que conta um pouco a história do escritor em:

É admirável essa gente!


Tirinha da Rosali Alves Colares, como ela mesmo diz: "É um tirinha sobre hipocrisia. As pessoas falam como se deve agir, mas não cuidam oque fazem. Me admira essa gente!"

http://www.filosofia.com.br

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O político e o idiota (polites e idiotes)

(Porto de Pireus - Grécia)
 

Diferentemente da compreensão que temos de cidade hoje em dia, a polis era uma complexa unidade local composta de campos de cultivo, zonas de pastoreio, aspectos urbanos muito peculiares, além de uma estrutura social e política que garantia a autonomia ou a autosustentação dos cidadãos. Estes respeitavam os princípios de isonomia perante as leis; de isegoria ao exprimir suas opiniões em público; e de isocracia ao ascender ao poder. A vida que se depreendia da pólis era aquela que, por natureza, correspondesse melhor a realização da atividade humana, isto é, uma vida em comunidade e em plena ágora(praça) que se permitisse intervir na esfera militar; gerir financeiramente a polis; e envolver-se intensamente com os interesses políticos.
O polites, cidadão em grego, reúne todos esses atributos ao ponto de construir para si um estatuto de cidadania, uma vez que se envolvia tremendamente com os destinos de sua cidade. Este estatuto exige de cada polites um envolvimento direto na condução coletiva dos assuntos do estado. Rezam nesse estatuto os interesses expressos de coletividade, igualdade, participação e democracia.
Infelizmente, o pulsante modelo cívico grego de política com vistas à coletividade teve sua hora para ruir. Se o que vigorou muito bem nos períodos Arcaico e Clássico de sua história, já não mais vigorará nos tempos vindouros. O modelo denso e tradicional do polites nas pólis gregas começa a entrar drasticamente em crise por causa da vasta expansão do Império de Alexandre, o grande, onde não mais se valorizará tanto o local, mas o global, não mais o polites, mas o cosmopolites, em que o mundo de então passa a viver uma fusão étnica e cultural, de unidade e pacificação.
Entra em cena, então, nossa relação entre polites e idiotes. Só para contribuir um pouco nesse espaço de discussão, o livro de Mário Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro, Política: para não ser idiota, nos faz pensar em como era a realidade da pólis grega e em suas atividades ligadas ao polites e ao idiotes, ação e contemplação, intimamente imbricadas e orientadas para o desenvolvimento da democracia que, a meu ver, condiz com a autonomia do cidadão ateniense.
Segundo Cortella, idiotes, em grego, não traduz muito o ranço negativo que a palavra assumiu nos últimos séculos, talvez devido ao crescente individualismo e extrema valorização das liberdades pessoais no mundo moderno, que levaram o indivíduo a se afastar da esfera coletiva e a se apegar muito mais à esfera privada. Para Cortella, idiotes aparece com frequência em comentários indignados no Brasil, como “política é coisa de idiota”. Esta é a noção invertida do conceito, pois antigamente significava aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à política. Sua expressão generalizada é: “Não me meto em política”(Cf. CORTELLA, Mário Sérgio. Política: para não ser idiota. São Paulo, Campinas: Papirus 7 Mares, 2010, p. 7).
Aos que tentam justificar sua “idiotice” afastando-se da vida pública com outro modo de fazer política, defendendo seus interesses de liberdade individual, afirma Cortella: “Vale lembrar que, para a própria sociedade grega – nossa mãe antiga, idosa, agora um pouco desprezada – , não haveria liberdade fora da política. Quer dizer, o idiota não é livre porque toma conta do próprio nariz, pois só é livre aquele que se envolve na vida pública, na vida coletiva”(idem, p. 9).
Atenas era uma cidade próspera economicamente, desenvolvia sobretudo as atividades do artesanato e do comércio. Seu porto, o Pireu, era um porto cosmopolita ao qual chegavam e do qual partiam todos os produtos do mundo conhecido. Toda essa atividade promovia ou facilitava ainda mais o encontro de uns com os outros, o embate do eu com os outros eus, bem como a discussão de problemas relativos à cidade, produzindo, com isso, uma certa autonomia no indivíduo por que participava intensamente dos principais assuntos da pólis.
Na minha opinião, leitores, - e opinião era o que os gregos mais tinham sobre a coisa pública - nenhum texto responde melhor sobre a identidade política do cidadão ateniense quanto este transcrito por Tucídides, de modo a ser revelador para nós o convívio sadio das duas formas reais e necessárias de se viver na cidade: ação e contemplação, polites e idiotes.
Gostaria de destacar dois fragmentos do texto de Tucídides que esboçam a distinção entre polites e idiotes assim:
"Nossa constituição nada tem a invejar dos outros: é modelo e não imita. Chama-se democracia porque age para o maior número e não para uma minoria. Todos participam igualmente das leis concernentes aos assuntos públicos; é apenas a excelência de cada um que institui distinções e as honras são feitas ao mérito e não à riqueza. Nem a pobreza nem a obscuridade impedem um cidadão capaz de servir à cidade. Livres no que respeita à vida pública, livres também o somos nas relações cotidianas. Cada um pode dedicar-se ao que lhe dá prazer sem incorrer em censura, desde que não cause danos. Apesar dessa tolerância na vida privada, nós nos esforçamos para nada fazer contra a lei em nossa vida pública. Permanecemos submetidos aos magistrados e às leis, sobretudo àquelas que protegem contra a injustiça e às que, por não serem escritas, nem por isso trazem menos vergonha aos que transgridem"(Tucídides, II, 37).
"[...] para nós, a palavra não é nociva à ação; o que é nocivo é não informar-se pela palavra antes de se lançar à ação[...] Digo que nossa cidade, no seu todo, é a escola de toda Hélade"(Tucídides, II, 40). Ver CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia. Vol I. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 135).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB em parceria com Archai Unesco.

domingo, 5 de agosto de 2012

Duas lendas em Londres 2012: Bolt e Phelps


Quanto ganham nossos medalhistas olímpicos?

No Brasil, a premiação não é feita pelo governo, e sim por cada confederação. Na natação e nos saltos ornamentais, cada medalha de ouro vale R$ 100 mil. A prata de Thiago Pereira rendeu R$ 50 mil ao nadador. No judô, o ouro vale R$ 50 mil (foi o que venceu Sarah Menezes, na foto). No atletismo, a medalha de ouro vale R$ 30 mil, a prata, R$ 20 mil, e o bronze, R$ 15 mil. 

Foto: AP

Vejam o site abaixo e compare os valores de cada país. É um absurdo o Brasil pagar valor tão irrisório uma vez que se encontra numa situação econômica extremamente confortável em relação às demais nações. Lamentável!

http://br.esportes.yahoo.com 

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