segunda-feira, 22 de abril de 2013

Repensando nossas origens culturais...

Uma história a ser recontada. Por que não?

A filosofia e o clássico em Grande Sertão: veredas


(capa da obra Grande Sertão: veredas)

Considerando a tessitura ou a forma mesma, tal como se apresenta o texto Grande sertão: veredas, como um fator de determinada interpretação filosófica do mundo, concebemos uma fragmentação intensa, muito marcada por tensões, por ambiguidades, por elementos acentuadamente trágicos.
Num gesto de rara ousadia, Guimarães Rosa constrói, no interior de Grande sertão: veredas, aforismas, versos dispersos ao longo de toda a obra, de modo a pausar, a silenciar, a dar um tom de mistério no ritmo do mote do narrador. À medida que o enredo vai se desdobrando, o leitor é tomado pela estranheza: “viver é muito perigoso” (In COSTA, Gilmário Guerreiro da. Parte II – Aforismos e abismos – fragmentação e tragicidade no Grande sertão: veredas, p. 01). Motes como este forçam o leitor a parar diante do texto, não havendo alternativa a não ser pensar para uma tomada de posição.
Ao dialogar conosco, através de uma linguagem fragmentada, não certinha e indiferente de capturar o sofrimento e o trágico, o texto de Guimarães se faz como um ato precisamente filosófico, como um modo filosófico de ver o mundo, em que revisita uma série de temas peculiares à tragédia grega, dos quais pretende sublinhar a esfera trágica de suas questões sobre a condição humana. Uma questão que se levanta é a do julgamento.
A partir de um estudo de Jean-Pierre Vernant, é muito recorrente a menção de um tribunal, onde se julga a vida, a existência, como sentido das tensões e ambiguidades na tragédia grega e em obras desse gênero. Algo semelhante ocorre em Grande sertão: veredas, seguindo a tradição das tragédias, de obras clássicas como Apologia, de Platão, onde o tribunal é marca diferencial. O corte fragmentário e elucidativo a esse particular é o julgamento do jagunço Zé Bebelo, bastante emblemático e profundo. Isso é notório no diálogo entre Joca Ramiro e Zé Bebelo:

– “O senhor pediu julgamento... – ele perguntou, com voz
cheia, em beleza de calma.
Toda hora eu estou em julgamento.
Assim Zé Bebelo respondeu. Aquilo fazia sentido? [ROSA, 1994, p. 168]” (idem, p.12).

Em seguida, compõe-se o tribunal. O tom da narrativa é extremamente tenso e cheio de intervenções recorrentes aos tópoi da antiguidade clássica, dentre estes, as fortes referências à areté da Ilíada de Homero que povoam nosso imaginário com homens semelhantes a Ulisses, a Aquiles, a Heitor, enfim.
Questões como honra, valentia, coragem, sofrimento, justiça, culpa, vingança, traição, morte, vida, acolhidos pela inteligência do autor mineiro, ganham proporções cada vez mais singulares e significativas, típicas do interior do sertão brasileiro. Filosófica e artisticamente, mas com proeza literária, Guimarães Rosa soube trazer à tona, em circunstâncias totalmente adversas do sertão, elementos como silêncio e serenidade, atitudes decorrentes de uma consciência trágica. E, por ser trágica, sua obra é um ato extremamente filosófico.
Portanto, não podemos deixar de destacar a figura de Riobaldo e de Diadorim, cheios de amor um pelo outro; amor também recorrente aos tópoi trágicos, passando por Platão e por Shakespeare; amor instigante e fecundo. No seu nome, Diadorim parece comunicar seu amor, dom e errância, para Riobaldo, que assim a trata: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura[ROSA, 1994, p. 200]” (idem, p.19). O aforisma adiante é surpreendente: “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas[ROSA, 1994, p. 264]” (idem).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Você tem cabeça aberta?

 


Você tem cabeça aberta? Acusar alguém de ter cabeça fechada hoje em dia é uma ofensa pior do que xingar a mãe.
Hoje todos querem ter cabeça aberta. Um tema top para cabeças abertas é preconceito x práticas sexuais, e um lugar certo para deixar claro que você tem cabeça aberta é jantares inteligentes. Se você quer fazer sucesso num jantar desses, chame todo mundo que discorda de você de “ridícula”.
Nesses jantares, as pessoas têm as opiniões certas sobre tudo; por exemplo, ninguém tem preconceito contra nada. Acho muito fofo gente que não tem nenhum preconceito contra nada.
No tema “práticas sexuais”, o que percebemos, se formos um pouquinho além do senso comum, é que o “normal x patológico” ou “moral x imoral” é bastante relativo no tempo e no espaço. Isso significa que o que se acha imoral hoje amanhã pode não ser, e vice-versa. O mesmo para o que se acha patológico.
Quem busca um critério absoluto, sem variação histórica ou geográfica (a tal variação no tempo e no espaço de que falei acima), hoje em dia, se vê em maus lençóis. Além, claro, de dar atestado de ter preconceitos numa época em que ter preconceitos é pior do que matar a mãe.
Aliás, se não disse ainda, digo: acho fofo gente que não tem preconceito contra nada.
Um modo de se posicionar acerca dessa fronteira entre sexo normal x patológico ou moral x imoral é defender a ideia de que entre dois adultos tudo é permitido, se a prática for fruto de livre escolha (eis uma versão para mortais da tal autonomia kantiana). Esse argumento até é válido, já que não sabemos mais nada sobre coisa nenhuma em moral (só mentirosos dizem que têm “princípios éticos”). Mas ele é problemático, já na definição de “adulto”, porque ela também é relativa no tempo e no espaço. Um cara de 40 ficar com uma mina de 14 nem sempre foi visto como crime contra a infância.
Outra coisa problemática é a própria ideia de “livre escolha”. Por exemplo, se você gosta de apanhar, talvez só goste mesmo quando seu parceiro ou parceira vai além do que você “permite”, senão você não goza de verdade. Mas devo confessar que há algo de pueril em achar que “livre escolha” resolva o problema. Acreditar na ideia de “autonomia kantiana” (a tal da “livre escolha”), às vezes, também, é superfofo.
Vamos, porém, deixar de barato esses pequeníssimos detalhes e vamos a algo mais “significativo”. Faço uma proposta para seu próximo jantar inteligente. Claro, se você for um pobre engenheiro, nem pense em querer ir, a menos que sua mulher seja psicóloga –aí os donos da casa inteligente podem aceitá-lo. Se você for um cara e sua “mulher psi” for um cara também, aí a entrada é garantida.
Vamos testar as cabecinhas abertas? Atenção, respire fundo: você já viu o vídeo “2 girls 1 cup“? Mas, antes de descrevê-lo (não em detalhes, porque seria demais para uma segunda-feira), vou dizer uma coisa. Acho que, se você é o tipo de pessoa que quer provar que tem cabeça aberta, você deve discutir apenas o que lhe parece absurdo (ou “nojento”, na linguagem de gente que tem preconceito). Mas não é isso o que acontece normalmente.
A moçadinha que tem cabeça aberta só gosta de discutir coisa que não põe em risco sua imagem de gente bacana. Falar mal de machista, racista, sexista, católico e evangélico é coisa de iniciante no ramo de discussões de verdade.
E o vídeo? Neste, duas mulheres começam com sexo lésbico normal e acabam fazendo sexo a três: elas duas + as fezes de uma delas (se é apenas efeito especial, pouco importa). Isso é chamado no mundo careta de “coprofilia”. Quem gosta de xixi é urofílico.
Então: gente que gosta disso é doente, imoral, ou apenas gente de cabeça aberta explorando seus limites do gozo? Lembre: o que hoje é doença ou imoralidade amanhã pode não ser.
Na verdade, imagino que em breve esses caras terão suas ONGs e defenderão também “safe sex”. Como fazê-lo? Ensinando nas escolas a identificar fezes infectadas pela aparência e cheiro?
O que a gente fofa diria disso? Ainda sem preconceito? Perdeu o apetite? As ciências sexuais têm muito o que aprender.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 25.03.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI



Helena não tem culpa

 
Detalhe de “A Intervenção das Sabinas” (1799)  |  Pintura de Jacques-Louis David


Dias atrás, uma amiga, alta executiva paulista, radicada no Rio, me mandou um e-mail com a cópia de uma resenha sobre um livro (fruto de pesquisa de campo) de um antropólogo, Napoleon Chagnon, que estudou os índios ianomâmis no Brasil e na Venezuela por muitos anos. Suas conclusões não são aquelas que a comunidade acadêmica, ideologicamente orientada na sua quase totalidade, costuma gostar.
Quem sabe, este “desgosto ideológico dos pares” (gente ávida por destruir oponentes teóricos) tenha sido responsável pelos desdobramentos negativos que o antropólogo teve em sua vida profissional por conta desta pesquisa. O livro (“Noble Savages“), que logo comprei, deveria ser lido nas escolas. Um tratado contra a tradição marxista, não só em antropologia, mas em tudo mais. Mas o que especificamente tem esse livro contra esta tradição?
Engana-se quem pensa que a tradição marxista comece com Marx, ela começa com Rousseau e seu bom selvagem. O princípio é que o homem é bom e a sociedade é que o perverte. A perversão do bom selvagem pelo “Das Kapital” é apenas uma decorrência do principio do Rousseau, só que para Marx não partimos do bom selvagem, mas sim chegaremos a ele quando superarmos esta sociedade má.
Uma ideia assim (que somos bons e a sociedade nos corrompe, e aqui você pode colocar no lugar de “sociedade” a família, o patriarcado, a igreja, o capital, os EUA, o patrão, seu pai autoritário) faz almas fracas gozarem de prazer. Porque o que ela diz é que, ao final, não sou responsável por nada que faço. Não fosse pela “sociedade”, eu seria um homem bom. Ao contrário do que parece, essa tradição pegou porque alimenta algo de muito banal: que somos homens bons em nossa natureza essencial. Esta ideia alimenta nossa vaidade e não foi por outro motivo que Burke, filósofo britânico do século 18, chamava Rousseau de “filósofo da vaidade”.
Nossa origem é o bom selvagem? É por isso que australianos que não têm o que fazer se pintam de aborígenes e gritam por aí? Quanta bobagem! Quanto lixo escrito com tinta cara!
Também concordo que devemos olhar para o “passado” para entendermos como somos hoje. A diferença é que minha ideia de “estado natural do homem” é diferente da de Rousseau, o filósofo da vaidade. Partilho da ideia que para nos entendermos devemos olhar para a pré-história de fato, e não a mítica, como a do Rousseau.
Este mito alimenta uma outra bobagem: a ideia de que toda diversidade cultural é linda. “Viva a diferença!”, dizem os festivos por aí. A “humanidade”, na sua capacidade frágil de não ser bicho malvado, foi tirada das pedras, à custa de muito sangue. Sempre bebemos o sangue dos outros no café da manhã.
E aí voltamos ao livro. A conclusão de Chagnon é que os ianomâmis, parentes nossos que vivem muito perto do que seria o neolítico, tribos que permaneceram bastante “puras” enquanto outras já haviam sido “contaminadas pela maldade do homem branco” (risadas?), sempre se mataram por uma razão nada complexa: “mulher, mulher, mulher”. Inclusive, quem tinha mais mulher, tinha mais descendentes.
Qualquer evolucionista gargalharia diante de tamanha obviedade ocultada pelas interpretações ideológicas pueris da falsa história do bom selvagem. Os ianomâmis também têm suas Helenas de Troia. Entre eles, quem matava mais tinha mais mulher. Entre nós, quem é mais “adaptado” tem mais mulher.
Não se trata de culpar as mulheres porque são filhas de Eva. Responsabilizar a mulher pelos males do mundo é coisa de homem brocha que, por não conseguir penetrá-la, recorre à falsa culpa feminina para aplacar sua desgraça.
Reconhecer que os ianomâmis se matam em troca de mulheres (ou se matavam enquanto eram “puros” ou “bons selvagens”) não é uma prova contra as mulheres. É uma prova contra Rousseau e sua tradição do bom selvagem. Eu, pessoalmente, acho até uma boa causa. Quero dizer, nos matarmos por mulheres. Neste caso, o troféu é bem concreto e todo mundo sabe de seu “valor de uso”.
Isto é, não precisamos de provas metafísicas para reconhecer o valor de uma mulher.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 18.03.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Repensando nossas origens culturais...

Uma história a ser recontada. Por que não?

A filosofia e o clássico em Grande Sertão: veredas


(capa da obra Grande Sertão: veredas)

Considerando a tessitura ou a forma mesma, tal como se apresenta o texto Grande sertão: veredas, como um fator de determinada interpretação filosófica do mundo, concebemos uma fragmentação intensa, muito marcada por tensões, por ambiguidades, por elementos acentuadamente trágicos.
Num gesto de rara ousadia, Guimarães Rosa constrói, no interior de Grande sertão: veredas, aforismas, versos dispersos ao longo de toda a obra, de modo a pausar, a silenciar, a dar um tom de mistério no ritmo do mote do narrador. À medida que o enredo vai se desdobrando, o leitor é tomado pela estranheza: “viver é muito perigoso” (In COSTA, Gilmário Guerreiro da. Parte II – Aforismos e abismos – fragmentação e tragicidade no Grande sertão: veredas, p. 01). Motes como este forçam o leitor a parar diante do texto, não havendo alternativa a não ser pensar para uma tomada de posição.
Ao dialogar conosco, através de uma linguagem fragmentada, não certinha e indiferente de capturar o sofrimento e o trágico, o texto de Guimarães se faz como um ato precisamente filosófico, como um modo filosófico de ver o mundo, em que revisita uma série de temas peculiares à tragédia grega, dos quais pretende sublinhar a esfera trágica de suas questões sobre a condição humana. Uma questão que se levanta é a do julgamento.
A partir de um estudo de Jean-Pierre Vernant, é muito recorrente a menção de um tribunal, onde se julga a vida, a existência, como sentido das tensões e ambiguidades na tragédia grega e em obras desse gênero. Algo semelhante ocorre em Grande sertão: veredas, seguindo a tradição das tragédias, de obras clássicas como Apologia, de Platão, onde o tribunal é marca diferencial. O corte fragmentário e elucidativo a esse particular é o julgamento do jagunço Zé Bebelo, bastante emblemático e profundo. Isso é notório no diálogo entre Joca Ramiro e Zé Bebelo:

– “O senhor pediu julgamento... – ele perguntou, com voz
cheia, em beleza de calma.
Toda hora eu estou em julgamento.
Assim Zé Bebelo respondeu. Aquilo fazia sentido? [ROSA, 1994, p. 168]” (idem, p.12).

Em seguida, compõe-se o tribunal. O tom da narrativa é extremamente tenso e cheio de intervenções recorrentes aos tópoi da antiguidade clássica, dentre estes, as fortes referências à areté da Ilíada de Homero que povoam nosso imaginário com homens semelhantes a Ulisses, a Aquiles, a Heitor, enfim.
Questões como honra, valentia, coragem, sofrimento, justiça, culpa, vingança, traição, morte, vida, acolhidos pela inteligência do autor mineiro, ganham proporções cada vez mais singulares e significativas, típicas do interior do sertão brasileiro. Filosófica e artisticamente, mas com proeza literária, Guimarães Rosa soube trazer à tona, em circunstâncias totalmente adversas do sertão, elementos como silêncio e serenidade, atitudes decorrentes de uma consciência trágica. E, por ser trágica, sua obra é um ato extremamente filosófico.
Portanto, não podemos deixar de destacar a figura de Riobaldo e de Diadorim, cheios de amor um pelo outro; amor também recorrente aos tópoi trágicos, passando por Platão e por Shakespeare; amor instigante e fecundo. No seu nome, Diadorim parece comunicar seu amor, dom e errância, para Riobaldo, que assim a trata: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura[ROSA, 1994, p. 200]” (idem, p.19). O aforisma adiante é surpreendente: “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas[ROSA, 1994, p. 264]” (idem).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Você tem cabeça aberta?

 


Você tem cabeça aberta? Acusar alguém de ter cabeça fechada hoje em dia é uma ofensa pior do que xingar a mãe.
Hoje todos querem ter cabeça aberta. Um tema top para cabeças abertas é preconceito x práticas sexuais, e um lugar certo para deixar claro que você tem cabeça aberta é jantares inteligentes. Se você quer fazer sucesso num jantar desses, chame todo mundo que discorda de você de “ridícula”.
Nesses jantares, as pessoas têm as opiniões certas sobre tudo; por exemplo, ninguém tem preconceito contra nada. Acho muito fofo gente que não tem nenhum preconceito contra nada.
No tema “práticas sexuais”, o que percebemos, se formos um pouquinho além do senso comum, é que o “normal x patológico” ou “moral x imoral” é bastante relativo no tempo e no espaço. Isso significa que o que se acha imoral hoje amanhã pode não ser, e vice-versa. O mesmo para o que se acha patológico.
Quem busca um critério absoluto, sem variação histórica ou geográfica (a tal variação no tempo e no espaço de que falei acima), hoje em dia, se vê em maus lençóis. Além, claro, de dar atestado de ter preconceitos numa época em que ter preconceitos é pior do que matar a mãe.
Aliás, se não disse ainda, digo: acho fofo gente que não tem preconceito contra nada.
Um modo de se posicionar acerca dessa fronteira entre sexo normal x patológico ou moral x imoral é defender a ideia de que entre dois adultos tudo é permitido, se a prática for fruto de livre escolha (eis uma versão para mortais da tal autonomia kantiana). Esse argumento até é válido, já que não sabemos mais nada sobre coisa nenhuma em moral (só mentirosos dizem que têm “princípios éticos”). Mas ele é problemático, já na definição de “adulto”, porque ela também é relativa no tempo e no espaço. Um cara de 40 ficar com uma mina de 14 nem sempre foi visto como crime contra a infância.
Outra coisa problemática é a própria ideia de “livre escolha”. Por exemplo, se você gosta de apanhar, talvez só goste mesmo quando seu parceiro ou parceira vai além do que você “permite”, senão você não goza de verdade. Mas devo confessar que há algo de pueril em achar que “livre escolha” resolva o problema. Acreditar na ideia de “autonomia kantiana” (a tal da “livre escolha”), às vezes, também, é superfofo.
Vamos, porém, deixar de barato esses pequeníssimos detalhes e vamos a algo mais “significativo”. Faço uma proposta para seu próximo jantar inteligente. Claro, se você for um pobre engenheiro, nem pense em querer ir, a menos que sua mulher seja psicóloga –aí os donos da casa inteligente podem aceitá-lo. Se você for um cara e sua “mulher psi” for um cara também, aí a entrada é garantida.
Vamos testar as cabecinhas abertas? Atenção, respire fundo: você já viu o vídeo “2 girls 1 cup“? Mas, antes de descrevê-lo (não em detalhes, porque seria demais para uma segunda-feira), vou dizer uma coisa. Acho que, se você é o tipo de pessoa que quer provar que tem cabeça aberta, você deve discutir apenas o que lhe parece absurdo (ou “nojento”, na linguagem de gente que tem preconceito). Mas não é isso o que acontece normalmente.
A moçadinha que tem cabeça aberta só gosta de discutir coisa que não põe em risco sua imagem de gente bacana. Falar mal de machista, racista, sexista, católico e evangélico é coisa de iniciante no ramo de discussões de verdade.
E o vídeo? Neste, duas mulheres começam com sexo lésbico normal e acabam fazendo sexo a três: elas duas + as fezes de uma delas (se é apenas efeito especial, pouco importa). Isso é chamado no mundo careta de “coprofilia”. Quem gosta de xixi é urofílico.
Então: gente que gosta disso é doente, imoral, ou apenas gente de cabeça aberta explorando seus limites do gozo? Lembre: o que hoje é doença ou imoralidade amanhã pode não ser.
Na verdade, imagino que em breve esses caras terão suas ONGs e defenderão também “safe sex”. Como fazê-lo? Ensinando nas escolas a identificar fezes infectadas pela aparência e cheiro?
O que a gente fofa diria disso? Ainda sem preconceito? Perdeu o apetite? As ciências sexuais têm muito o que aprender.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 25.03.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI



Helena não tem culpa

 
Detalhe de “A Intervenção das Sabinas” (1799)  |  Pintura de Jacques-Louis David


Dias atrás, uma amiga, alta executiva paulista, radicada no Rio, me mandou um e-mail com a cópia de uma resenha sobre um livro (fruto de pesquisa de campo) de um antropólogo, Napoleon Chagnon, que estudou os índios ianomâmis no Brasil e na Venezuela por muitos anos. Suas conclusões não são aquelas que a comunidade acadêmica, ideologicamente orientada na sua quase totalidade, costuma gostar.
Quem sabe, este “desgosto ideológico dos pares” (gente ávida por destruir oponentes teóricos) tenha sido responsável pelos desdobramentos negativos que o antropólogo teve em sua vida profissional por conta desta pesquisa. O livro (“Noble Savages“), que logo comprei, deveria ser lido nas escolas. Um tratado contra a tradição marxista, não só em antropologia, mas em tudo mais. Mas o que especificamente tem esse livro contra esta tradição?
Engana-se quem pensa que a tradição marxista comece com Marx, ela começa com Rousseau e seu bom selvagem. O princípio é que o homem é bom e a sociedade é que o perverte. A perversão do bom selvagem pelo “Das Kapital” é apenas uma decorrência do principio do Rousseau, só que para Marx não partimos do bom selvagem, mas sim chegaremos a ele quando superarmos esta sociedade má.
Uma ideia assim (que somos bons e a sociedade nos corrompe, e aqui você pode colocar no lugar de “sociedade” a família, o patriarcado, a igreja, o capital, os EUA, o patrão, seu pai autoritário) faz almas fracas gozarem de prazer. Porque o que ela diz é que, ao final, não sou responsável por nada que faço. Não fosse pela “sociedade”, eu seria um homem bom. Ao contrário do que parece, essa tradição pegou porque alimenta algo de muito banal: que somos homens bons em nossa natureza essencial. Esta ideia alimenta nossa vaidade e não foi por outro motivo que Burke, filósofo britânico do século 18, chamava Rousseau de “filósofo da vaidade”.
Nossa origem é o bom selvagem? É por isso que australianos que não têm o que fazer se pintam de aborígenes e gritam por aí? Quanta bobagem! Quanto lixo escrito com tinta cara!
Também concordo que devemos olhar para o “passado” para entendermos como somos hoje. A diferença é que minha ideia de “estado natural do homem” é diferente da de Rousseau, o filósofo da vaidade. Partilho da ideia que para nos entendermos devemos olhar para a pré-história de fato, e não a mítica, como a do Rousseau.
Este mito alimenta uma outra bobagem: a ideia de que toda diversidade cultural é linda. “Viva a diferença!”, dizem os festivos por aí. A “humanidade”, na sua capacidade frágil de não ser bicho malvado, foi tirada das pedras, à custa de muito sangue. Sempre bebemos o sangue dos outros no café da manhã.
E aí voltamos ao livro. A conclusão de Chagnon é que os ianomâmis, parentes nossos que vivem muito perto do que seria o neolítico, tribos que permaneceram bastante “puras” enquanto outras já haviam sido “contaminadas pela maldade do homem branco” (risadas?), sempre se mataram por uma razão nada complexa: “mulher, mulher, mulher”. Inclusive, quem tinha mais mulher, tinha mais descendentes.
Qualquer evolucionista gargalharia diante de tamanha obviedade ocultada pelas interpretações ideológicas pueris da falsa história do bom selvagem. Os ianomâmis também têm suas Helenas de Troia. Entre eles, quem matava mais tinha mais mulher. Entre nós, quem é mais “adaptado” tem mais mulher.
Não se trata de culpar as mulheres porque são filhas de Eva. Responsabilizar a mulher pelos males do mundo é coisa de homem brocha que, por não conseguir penetrá-la, recorre à falsa culpa feminina para aplacar sua desgraça.
Reconhecer que os ianomâmis se matam em troca de mulheres (ou se matavam enquanto eram “puros” ou “bons selvagens”) não é uma prova contra as mulheres. É uma prova contra Rousseau e sua tradição do bom selvagem. Eu, pessoalmente, acho até uma boa causa. Quero dizer, nos matarmos por mulheres. Neste caso, o troféu é bem concreto e todo mundo sabe de seu “valor de uso”.
Isto é, não precisamos de provas metafísicas para reconhecer o valor de uma mulher.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 18.03.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI

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