sábado, 30 de abril de 2011

Estranhamento e entranhamento, um estranho trocadilho.

(Imagem do filme "Onde vivem os monstros", 2009, EUA, direção de Spike Jonze)

A vida é cheia de reações. Há momentos que nos fazem sentir e outros que nos fazem pensar; ora somos extrovertidos, ora introvertidos; vezes agimos para fora, vezes agimos para dentro. Há momentos em que precisamos ser ativos, outros em que precisamos ser absolutamente passivos. Porém, na maior parte do tempo, somos simultaneamente um e outro, ativos e passivos, como numa sala de aula, como num diálogo, por exemplo, no trabalho, enfim, na vida... Imagino a vida como um grande novelo de linha que se desenrola pouco a pouco nas mãos da vovozinha que incansavelmente faz e refaz suas casas no pano de linho. Ao final, meio que tomada de ímpeto, a vovozinha se depara com uma belíssima imagem, antes não vista, mas imaginada em sua memória. Só que, do início ao fim, o novelo guarda múltiplas experiências até concretizar a tão sonhada imagem. O novelo se desfia para se fiar e se desfiar novamente na existência.
A existência nos prega muitas peças. Umas de estranhamento, outras de entranhamento. O estranhar uma realidade é inquietar-se com ela. Estranhar uma viagem que nos levará para um lugar desconhecido. Estranhar uma escola nova. Estranhar um novo membro da família que chega de imediato. Estranhar uma mudança de domicílio. Estranhar está muito ligado ao “páthos” em Aristóteles, uma espécie de afecção da alma, tem a ver com os sentimentos que nos provocam uma determinada experiência de vida. Ao entrarmos em contato com algo novo, com um fato inusitado, temos a impressão de que alguma coisa estranha mexe conosco. Esta coisa estranha é a reação da nossa mais fina natureza.
O estranhamento está muito presente no exercício do filosofar, tanto em Aristóteles quanto em Platão. “A admiração, o estranhamento é o modo de ver daquele para quem o filosofar é um modo de viver. Os gregos denominaram thaumátzein esta atitude originante do filosofar”(Cf. Aristóteles, Metafísica A,2,17-19. Platão: Teeteto, 155d). Realmente, a gente só pergunta porque estranha!
Se somos acometidos constantemente pela experiência do estranhar, uma vez que alguma mudança está ocorrendo, o que dizer então da experiência do entranhar. Entranhar está para Sócrates como Sócrates está para a Filosofia. Esta palavra me faz lembrar Fenarete, a mãe de Sócrates, parteira ou tratadeira das mulheres gestantes, prontas para dar a luz. Imagino Fenarete saindo pelas ruelas da Grécia antiga, de casa em casa, cuidando de muitas mulheres que engravidavam e ansiosas esperavam seus filhos. Sócrates, certamente muito pequeno a seguia por essas ruas estreitas da Grécia a fim de acompanhar zelosamente o trabalho da mãe. Imaginem o pequenino menino filósofo ali, à sombra da mãe, vendo o ofício das mãos afinadas com a enfermagem. Sem saber ao certo, Sócrates já estava antecipando os traços visíveis de sua mais nobre filosofia, a arte de fazer parto de almas e não de corpos. Com a mãe, parteira de corpos, viu maravilhado, entranhado, a maneira com que ela habilmente ajudava suas pacientes a dar a vida.
Talvez, a partir dessa experiência de Sócrates com sua mãe, o filósofo tenha adquirido os dois principais métodos da sua filosofia, o “elénkos” e a “maiêutica”. O primeiro é pura refutação, o segundo é o nascimento da verdade pelo diálogo. Principalmente, na linha do segundo é que se encontra o entranhamento da Filosofia. Argumento demasiadamente os elementos da justiça que tenho a possibilidade de me tornar justo. Argumento frequentemente as categorias da bondade que me torno bom. Falo por demais sobre Deus que me torno um religioso ou cristão ao falar muito de Cristo. Falo tanto de Filosofia que, com isso, passo a me tornar um filósofo. Entende-se assim a maneira de se entranhar do filósofo Sócrates, de modo que seus pensamentos chegam ao coração, promovendo nos seus interlocutores uma forma de impregnar suas convicções. Os seus ouvintes ficavam tão imbuídos com suas ideias que, de pronto, assumiam suas convicções devido ao poder de suas argumentações. Entranhar é embrenhar-se disso. Estar profundamente penetrado ou impregnado de suas ideias e convicções.
Estou aqui a viajar um pouco em minhas ideias filosóficas para atribuir a Sócrates, talvez, as duas maneiras de se sentir afetado por suas ideias. Quando Sócrates interrompia um juiz e o perguntava sobre justiça é porque aquilo o estava estranhando, perturbando, de alguma maneira. Como é que um homem que se diz juiz não sabe nada de justiça!? Por outra, o entranhamento acontecia quando, o tal indivíduo se convencia da sua ignorância e aceitava aprender para encontrar, de fato, a verdade. Perguntar-se é estranhar. Convencer-se em buscar a verdade é o entranhar. Estar convicto da verdade é, sim, a meu ver, uma espécie de entranhamento.
Acho que nos entranhamos mais do que nos estranhamos. Devia ser o contrário. Somos mais políticos do que filósofos na prática. Políticos gostam mais de acordos, filósofos não. Percebo que o filósofo se lança mais a favor do estranhar. Parece próprio do pensamento estranhar, independentemente das certezas que advenham dele. O pensar é autônomo e não se prende ao entranhar, à verdade. É melhor, a meu ver, desentranhar do que entranhar para o filósofo. Porém, em se tratando de pessoas comuns, as duas formas de atitudes frente à vida são muito pertinentes e merecem toda a nossa atenção. Para alguns, as certezas(entranhamento) trazem paz e tranquilidade à alma. Para outros, as dúvidas(estranhamento) nos lançam em direção à inquietação, o que também alimenta uma alma curiosa, sábia.
Todavia, estranhamento e entranhamento, como em Sócrates, parecem admiravelmente se completarem de modo estranho a favor do filosofar...

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN



sexta-feira, 29 de abril de 2011

PROFESSORES DO ESTADO DO RN ENTRAM EM GREVE PRA VALER

Professores e servidores da rede pública estadual entram em greve por tempo indeterminado na próxima segunda-feira. A decisão tomada em assembleia, ontem, é segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do RN uma resposta ao governo que até agora não atendeu à reivindicação de aplicação da tabela salarial à categoria. Os 19 mil professores ativos questionam que seus salários estão defasados em relação a outras categorias e que o governo não estaria oferecendo o mesmo tratamento.
Presidente do Sinte/RN diz que greve depende de negociaçãoEm entrevista por telefone na manhã desta sexta-feira, a coordenadora do Sinte-RN, professora Fátima Cardoso, afirmou que a governadora chegou a enviar uma carta à instituição. “Mas essa carta é absolutamente evasiva. Ao mesmo tempo que se mostra interessada em resolver, diz que não tem como”. “Queremos o mesmo tratamento que o Governo concede a outras categorias”, afirmou.
De acordo com o Sindicato, o salário de um professor em início de carreira, é de R$ 739,00. O cumprimento da tabela que trata dos vencimentos da categoria elevaria esse piso para R$ 1.759,50 podendo chegar a R$ 3.519,00 de um professor com doutorado, por exemplo.
Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), a responsável pela pasta, Bathania Ramalho, ainda não foi informada oficialmente pelo sindicato sobre a greve, e só se pronunciará quando receber o comunicado.


Fonte: http://tribunadonorte.com.br/noticia/professores-do-estado-entram-em-greve-na-segunda-feira/179861

CALENDÁRIO DA GREVE DOS PROFESSORES DO ESTADO DO RN, VEJA:

A rede Estadual de Ensino está em greve. A mobilização teve início após deliberação da assembleia realizada nesta quinta-feira (28). Entre nessa luta. Para fazer parte dessa ação, veja o calendário de atividades a seguir:


29/04 (Sexta-feira) - Retorno dos professores às escolas, nos três turnos, para comunicar a comunidade escolar sobre a deflagração da Greve.

02/05 (Segunda-feira) - Acampamento em frente à Governadoria a partir das 9h. A atividade será apenas no turno Matutino

03/05 (Terça-feira) - Acampamento o dia todo na Praça Tomás de Araújo, em frente a Assembleia Legislativa

04/05 (Quarta-feira) - Caminhada no Bairro de Felipe Camarão com concentração às 15h em frente a Escola Estadual Maria Queiroz.

05 e 06/05 (Quinta e Sexta-feira) - A diretoria do Sinte fará o mapeamento do movimento no interior e na capital.

09/05 (Segunda-feira) - Plenária de organização da greve, às 9h, na Escola Estadual Winston Churchill. Toda a categoria deve estar presente.

http://www.sintern.org.br/noticias/visualizar/882

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lembrai-vos: “Não está aqui, ressuscitou”(Lc 24.6).


Foto: túmulo vazio, jardim do túmulo em Jerusalém

A cena da última ceia de Jesus foi reveladora. As declarações do Mestre lidas hoje nas Sagradas Escrituras são impactantes, mas ditas por Ele naquela ocasião nem pareceram tão reveladoras. Até que mereciam ser consideradas com mais importância pelos discípulos, mas não foi assim que aconteceu. Ou os discípulos dissimularam tais declarações, ou simplesmente não entenderam nada, como dizem os mais afinados ao assunto. Apavorados com os sussurros que se ouviam a respeito da possível prisão e morte de Jesus, os discípulos assimilaram pouca coisa do que disse o mestre naquele dia.
Como se não bastasse o que Jesus havia sinalizado quando do início dos discursos das dores em Mateus acerca do seu tempo que já está por terminar e de outras fortes palavras do tipo “não ficará pedra sobre pedra”, a última ceia e sua prisão, bem como toda a sua paixão são recheadas de grande simbologia que vale a pena Lembrar. A sutilidade do mestre é encantadora. O roteiro da sua morte e ressurreição parecia está sendo escrito enquanto viviam. Em tudo o que Jesus diz, literalmente ou não, há um fundo de mistério. Os pares claridade e obscuridade, luz e sombra, dia e noite, céus e terra, graça e pecado, vida e morte parecem ser a trama de todo roteiro. Quanto mais se aproxima o tão aguardado acontecimento de sua morte, Jesus, volto a dizer, faz cortantes declarações na sua última ceia. Quem não se lembra do que está escrito nos seus evangelhos(!). Em meio ao ar apreensivo e temeroso dos seus amigos, Jesus, intencionalmente, deixa escapar da sua boca que um deles há de traí-Lo, sem mencionar quem era. Mas, Judas, o Iscariotes, não se deu por satisfeito e assinou sua confissão de culpa: “Acaso sou eu, Mestre?”. Seguidamente, a humanidade de Jesus de Nazaré não conteve o seu eu divino que continuava a falar: “Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, antes que três vezes negues que me conheces”(Lc 22.34). De fato, o teor dessas e de outras declarações que Jesus fez são carregadas de anúncio, porque é muito próprio do anúncio o falar e o acontecer. À medida que Jesus falava, as coisas iam acontecendo simultaneamente. Pouco tempo, muito pouco tempo depois iam se sucedendo os fatos, a traição e a negação. A traição já vinha sendo preparada por Judas, enquanto que a negação veio da insegurança de um “Pedro” pré-pascal ainda medroso. Aí é que está, após a Ressurreição, aos olhos humanos, a cena ganhará vida ou mais vida ainda.
Nestes dias mais fortes em que memorizamos a paixão,“páthos”, de Cristo, não só por que intitularam esta semana como santa, mas pela qual recapitulamos todo o sofrimento sobre-humano apontado para a glória, para a ressurreição. É no hoje de nossa história que temos a graça, a feliz “virtùs”(oportunidade), para reviver e adorar tudo isso numa unidade de sentido, cujo movimento nasce dos acontecimentos pré e pós-pascais. Dizia Jesus que sua glória era esta: Dar a vida pela salvação de muitos. E nós o glorificamos por ter completado a obra que o Pai lhe confiara. Jesus Cristo estava obcecado por uma missão profetizada por Isaías: “O Espírito do Senhor Jeová está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar a liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; a ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê ornamento por cinza, óleo de gozo por tristeza, veste de louvor por espírito angustiado, a fim de que se chamem árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado”(Is 61.1-3). Sem a Ressurreição ou o cumprimento desta vasta missão de Jesus, jamais teríamos acesso à alegria definitiva, eterna, do Reino de Deus. Lembro-me de um estalo do poeta Manoel de Barros que acertadamente falou do presente da Eternidade, “encostada em Deus”.
A profecia, mostrada acima, é um maravilhoso projeto de vida, de Deus para seu único Filho. Um projeto muito definido com suas ações e metas: Ungir; Libertar; Consolar; Ordenar... Projeto este que deixa, simultaneamente, claro e obscuro o seu objetivo. Deus falou também por Isaías sobre o objetivo do Projeto da Salvação. Que objetivo era este? A salvação, que implica a morte e também todo este suplício pelo qual passou Jesus. Não à toa, Deus fala com o seu Profeta que o servo de Javé, isto é, o Filho do Homem não abrirá sequer a boca ao sofrer pela salvação do mundo; nenhum de seus ossos será quebrado, e assim aconteceu; tão desfigurado vai estar que não terá aparência humana, e assim aconteceu. Quanta dor, quanta paixão sofrida pelo mundo, por amor a nós. Amou tanto o mundo que nos deu seu único Filho!(Cf. Jo 3.16)
Todavia, para contrariar ainda mais a natureza humana dos discípulos e dos que acompanhavam o Mestre para cumprir todas as Escrituras, o túmulo, arranjado pelo senador romano José de Arimatéia, zelado com todo carinho e tristeza pelas mulheres da família de Jesus e outras mulheres, permanecia vazio, confirmando a verdade das palavras do Senhor. O que muitos sabiam e poucos não criam, de fato, aconteceu. Jesus Ressuscitou! Aleluia! “E, estando elas muito atemorizadas e abaixando o rosto para o chão, eles lhe disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e, ao terceiro dia, ressuscite”(Lc 24.5-7).
Vejam que só depois que tudo isto aconteceu, para não dizer mais, é que os discípulos, chocados e perplexos, lembraram-se de tudo o que Jesus havia dito acerca destas coisas. Talvez, não soubessem o quanto o Senhor ainda iria se manifestar para mostrar a sua glória, mas o certo é que muitos de nós, mesmo hoje, após séculos e séculos de distância do Jesus histórico, ainda não somos capazes de nos deixar mover pelas lembranças e pelas memórias trazidas pelo poder, agora, do Espírito do Senhor. Não importa o tempo, é preciso lembrar destas coisas, senão faremos o mesmo que seus discípulos, vendo-o passar desapercebidamente.
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista pela UFRN.
Páginas na internet:

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mártir da Independência ou herói revolucionário?



“Brecht cantou: ‘Feliz é o povo
que não tem heróis’. Concordo.
Porém nós não somos um povo
feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes.”
(Augusto Boal, “Quixotes e Heróis”)

Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse sobre camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas…

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.

Demoramos mais de três séculos para nos livrarmos do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.

Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil.

E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.

É verdade que houve fugazes despertares da cidadania:

* em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;

* em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
* em 1992, quando os caras-pintadas foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.

Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.

O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação do artigo que Boal escreveu quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:

“Tiradentes foi revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo.

…No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação

…O mito está mistificado”.

Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações.

Fonte: http://www.consciencia.net/

domingo, 17 de abril de 2011

VIVER COM OU SEM JUSTIÇA?


O anel do ancestral de Giges, invisível, seduz a rainha, mata o rei e assim por diante. Essa história levanta uma indagação ética: algum homem seria capaz de resistir à tentação da injustiça se soubesse que seus atos não seriam testemunhados?

A justiça é uma incógnita no mundo que nos consome. Há muito mais pessoas preocupadas e ocupadas com seu orçamento no final do mês e com outras questões da vida; do que com a justiça. A justiça está ao relento sem cobertor e calor, abandonada e fria. Não somos justos conosco; não somos justos com as escolhas que fazemos. Nem sempre somos coerentes com as atitudes tomadas, o que se abre de imediato, consequente a isso, a porta ao arrependimento e à culpa. Quando não agimos aos apelos da consciência, a frustração acaba tomando lugar em nossas vidas. Diariamente, vidas são soterradas por não haver esta preocupação em agir justamente. A verdade é que falamos muito de justiça e fazemos pouco dela!
Que não me entendam mal. Não se trata de se ajustar a nada, não é justeza ou ajuste de contas, mas uma permissão da consciência para se agir autenticamente. Simplesmente deixar que o agir siga o ser, “agere sequitur esse”. Não por acaso, os gregos antigos diziam: “As coisas belas são difíceis”. Difícil porque as coisas feias como as injustiças estão por toda parte, em todo lugar. Basta darmos uma olhada de relance para nossos trabalhos, nossos salários, os serviços sociais, as políticas públicas, a saúde, a educação, os transportes públicos, as escolas públicas. É engraçado se compararmos o valor do maior salário para o valor do menor salário neste país. A discrepância é alarmante. Isso só pra ficarmos em salário. Imagine se ampliarmos ainda mais as comparações sociais no Brasil, ficaremos assustados com tamanha injustiça. Só pra termos uma ligeira ideia da desigualdade social em nosso país, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem um patrimônio invejável. O diretor de uma empresa numa cidade grande está ganhando o equivalente a R$ 60 mil em média. A Fundação Getúlio Vargas divulgou o ano passado, no mês de fevereiro, que o segmento dos mais ricos no país representam cerca de 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas que concentram em suas mãos 44% da renda nacional. Excessiva riqueza nas mãos de poucos.
Se bem que tem muito político nesse país assaltando os cofres públicos descaradamente, o que também é uma tremenda de uma injustiça social. Como se não bastasse, as mordomias acumuladas em telefones, residências, viagens e gratificações escandalizam bruscamente a população má remunerada que tenta mais em exercer justiça e em se preocupar com ela. Por causa disso, os políticos no mundo inteiro ocuparam o posto de últimos colocados em credibilidade profissional. Segundo pesquisa feita ano passado, a classe política é a menos confiável pela população. Um descrédito por causa da injustiça, diga-se de passagem.
Platão, em sua obra clássica A República, nos mostra que a justiça é um desejo universal, um anseio de todos os seres humanos, em toda parte. Ela não é apenas um conceito no meio de um emaranhado de conceitos, mas uma condição para que a filosofia e o viver sejam aplicados. Não podemos nos esquecer uma questão aqui pertinente, a liberdade. Pois o que dá sentido a nossa liberdade é a justiça. Sem justiça é impossível haver liberdade, intencionalidade, consciência. O ideal perfeito de uma cidade justa proposta por Platão na Politéia, ou República, é a possibilidade de se pensar em meio ao que é real, a injustiça, o que deveria existir e não existe, a justiça, um valor ideal que não se perde de vista. A justiça, por isso, tem um alcance ético: ver não só o que acontece, as injustiças, mas o que deveria acontecer, a justiça. O fato da consciência alimentar a esperança ou desesperança de que é possível a justiça, coloca-nos entre aqueles para quem a vida tem sentido. Apoderados desse anseio, longe de nós qualquer negação aos interesses coletivos daqueles mais necessitados da sociedade, como também da realização plena de seus direitos. Nenhum de nós pode se dar ao luxo de ceifar uma vida digna às gerações presentes e futuras.
Dito isso, imaginem-se agora detentores de um poderosíssimo anel capaz de deixar-lhes invisíveis com a oportunidade de fazer o que bem quiser, certo ou errado, justiças ou injustiças. O que diria para si mesmo? Faria o que deveria ou não? Vejamos o que nos diz Platão sobre a justiça: “Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo tratou de ser um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder”(PLATÃO. A República. Lisboa: Gulbenkian, 4ª ed., 1983, pp. 55-60).


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN

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sábado, 30 de abril de 2011

Estranhamento e entranhamento, um estranho trocadilho.

(Imagem do filme "Onde vivem os monstros", 2009, EUA, direção de Spike Jonze)

A vida é cheia de reações. Há momentos que nos fazem sentir e outros que nos fazem pensar; ora somos extrovertidos, ora introvertidos; vezes agimos para fora, vezes agimos para dentro. Há momentos em que precisamos ser ativos, outros em que precisamos ser absolutamente passivos. Porém, na maior parte do tempo, somos simultaneamente um e outro, ativos e passivos, como numa sala de aula, como num diálogo, por exemplo, no trabalho, enfim, na vida... Imagino a vida como um grande novelo de linha que se desenrola pouco a pouco nas mãos da vovozinha que incansavelmente faz e refaz suas casas no pano de linho. Ao final, meio que tomada de ímpeto, a vovozinha se depara com uma belíssima imagem, antes não vista, mas imaginada em sua memória. Só que, do início ao fim, o novelo guarda múltiplas experiências até concretizar a tão sonhada imagem. O novelo se desfia para se fiar e se desfiar novamente na existência.
A existência nos prega muitas peças. Umas de estranhamento, outras de entranhamento. O estranhar uma realidade é inquietar-se com ela. Estranhar uma viagem que nos levará para um lugar desconhecido. Estranhar uma escola nova. Estranhar um novo membro da família que chega de imediato. Estranhar uma mudança de domicílio. Estranhar está muito ligado ao “páthos” em Aristóteles, uma espécie de afecção da alma, tem a ver com os sentimentos que nos provocam uma determinada experiência de vida. Ao entrarmos em contato com algo novo, com um fato inusitado, temos a impressão de que alguma coisa estranha mexe conosco. Esta coisa estranha é a reação da nossa mais fina natureza.
O estranhamento está muito presente no exercício do filosofar, tanto em Aristóteles quanto em Platão. “A admiração, o estranhamento é o modo de ver daquele para quem o filosofar é um modo de viver. Os gregos denominaram thaumátzein esta atitude originante do filosofar”(Cf. Aristóteles, Metafísica A,2,17-19. Platão: Teeteto, 155d). Realmente, a gente só pergunta porque estranha!
Se somos acometidos constantemente pela experiência do estranhar, uma vez que alguma mudança está ocorrendo, o que dizer então da experiência do entranhar. Entranhar está para Sócrates como Sócrates está para a Filosofia. Esta palavra me faz lembrar Fenarete, a mãe de Sócrates, parteira ou tratadeira das mulheres gestantes, prontas para dar a luz. Imagino Fenarete saindo pelas ruelas da Grécia antiga, de casa em casa, cuidando de muitas mulheres que engravidavam e ansiosas esperavam seus filhos. Sócrates, certamente muito pequeno a seguia por essas ruas estreitas da Grécia a fim de acompanhar zelosamente o trabalho da mãe. Imaginem o pequenino menino filósofo ali, à sombra da mãe, vendo o ofício das mãos afinadas com a enfermagem. Sem saber ao certo, Sócrates já estava antecipando os traços visíveis de sua mais nobre filosofia, a arte de fazer parto de almas e não de corpos. Com a mãe, parteira de corpos, viu maravilhado, entranhado, a maneira com que ela habilmente ajudava suas pacientes a dar a vida.
Talvez, a partir dessa experiência de Sócrates com sua mãe, o filósofo tenha adquirido os dois principais métodos da sua filosofia, o “elénkos” e a “maiêutica”. O primeiro é pura refutação, o segundo é o nascimento da verdade pelo diálogo. Principalmente, na linha do segundo é que se encontra o entranhamento da Filosofia. Argumento demasiadamente os elementos da justiça que tenho a possibilidade de me tornar justo. Argumento frequentemente as categorias da bondade que me torno bom. Falo por demais sobre Deus que me torno um religioso ou cristão ao falar muito de Cristo. Falo tanto de Filosofia que, com isso, passo a me tornar um filósofo. Entende-se assim a maneira de se entranhar do filósofo Sócrates, de modo que seus pensamentos chegam ao coração, promovendo nos seus interlocutores uma forma de impregnar suas convicções. Os seus ouvintes ficavam tão imbuídos com suas ideias que, de pronto, assumiam suas convicções devido ao poder de suas argumentações. Entranhar é embrenhar-se disso. Estar profundamente penetrado ou impregnado de suas ideias e convicções.
Estou aqui a viajar um pouco em minhas ideias filosóficas para atribuir a Sócrates, talvez, as duas maneiras de se sentir afetado por suas ideias. Quando Sócrates interrompia um juiz e o perguntava sobre justiça é porque aquilo o estava estranhando, perturbando, de alguma maneira. Como é que um homem que se diz juiz não sabe nada de justiça!? Por outra, o entranhamento acontecia quando, o tal indivíduo se convencia da sua ignorância e aceitava aprender para encontrar, de fato, a verdade. Perguntar-se é estranhar. Convencer-se em buscar a verdade é o entranhar. Estar convicto da verdade é, sim, a meu ver, uma espécie de entranhamento.
Acho que nos entranhamos mais do que nos estranhamos. Devia ser o contrário. Somos mais políticos do que filósofos na prática. Políticos gostam mais de acordos, filósofos não. Percebo que o filósofo se lança mais a favor do estranhar. Parece próprio do pensamento estranhar, independentemente das certezas que advenham dele. O pensar é autônomo e não se prende ao entranhar, à verdade. É melhor, a meu ver, desentranhar do que entranhar para o filósofo. Porém, em se tratando de pessoas comuns, as duas formas de atitudes frente à vida são muito pertinentes e merecem toda a nossa atenção. Para alguns, as certezas(entranhamento) trazem paz e tranquilidade à alma. Para outros, as dúvidas(estranhamento) nos lançam em direção à inquietação, o que também alimenta uma alma curiosa, sábia.
Todavia, estranhamento e entranhamento, como em Sócrates, parecem admiravelmente se completarem de modo estranho a favor do filosofar...

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN



sexta-feira, 29 de abril de 2011

PROFESSORES DO ESTADO DO RN ENTRAM EM GREVE PRA VALER

Professores e servidores da rede pública estadual entram em greve por tempo indeterminado na próxima segunda-feira. A decisão tomada em assembleia, ontem, é segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do RN uma resposta ao governo que até agora não atendeu à reivindicação de aplicação da tabela salarial à categoria. Os 19 mil professores ativos questionam que seus salários estão defasados em relação a outras categorias e que o governo não estaria oferecendo o mesmo tratamento.
Presidente do Sinte/RN diz que greve depende de negociaçãoEm entrevista por telefone na manhã desta sexta-feira, a coordenadora do Sinte-RN, professora Fátima Cardoso, afirmou que a governadora chegou a enviar uma carta à instituição. “Mas essa carta é absolutamente evasiva. Ao mesmo tempo que se mostra interessada em resolver, diz que não tem como”. “Queremos o mesmo tratamento que o Governo concede a outras categorias”, afirmou.
De acordo com o Sindicato, o salário de um professor em início de carreira, é de R$ 739,00. O cumprimento da tabela que trata dos vencimentos da categoria elevaria esse piso para R$ 1.759,50 podendo chegar a R$ 3.519,00 de um professor com doutorado, por exemplo.
Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), a responsável pela pasta, Bathania Ramalho, ainda não foi informada oficialmente pelo sindicato sobre a greve, e só se pronunciará quando receber o comunicado.


Fonte: http://tribunadonorte.com.br/noticia/professores-do-estado-entram-em-greve-na-segunda-feira/179861

CALENDÁRIO DA GREVE DOS PROFESSORES DO ESTADO DO RN, VEJA:

A rede Estadual de Ensino está em greve. A mobilização teve início após deliberação da assembleia realizada nesta quinta-feira (28). Entre nessa luta. Para fazer parte dessa ação, veja o calendário de atividades a seguir:


29/04 (Sexta-feira) - Retorno dos professores às escolas, nos três turnos, para comunicar a comunidade escolar sobre a deflagração da Greve.

02/05 (Segunda-feira) - Acampamento em frente à Governadoria a partir das 9h. A atividade será apenas no turno Matutino

03/05 (Terça-feira) - Acampamento o dia todo na Praça Tomás de Araújo, em frente a Assembleia Legislativa

04/05 (Quarta-feira) - Caminhada no Bairro de Felipe Camarão com concentração às 15h em frente a Escola Estadual Maria Queiroz.

05 e 06/05 (Quinta e Sexta-feira) - A diretoria do Sinte fará o mapeamento do movimento no interior e na capital.

09/05 (Segunda-feira) - Plenária de organização da greve, às 9h, na Escola Estadual Winston Churchill. Toda a categoria deve estar presente.

http://www.sintern.org.br/noticias/visualizar/882

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lembrai-vos: “Não está aqui, ressuscitou”(Lc 24.6).


Foto: túmulo vazio, jardim do túmulo em Jerusalém

A cena da última ceia de Jesus foi reveladora. As declarações do Mestre lidas hoje nas Sagradas Escrituras são impactantes, mas ditas por Ele naquela ocasião nem pareceram tão reveladoras. Até que mereciam ser consideradas com mais importância pelos discípulos, mas não foi assim que aconteceu. Ou os discípulos dissimularam tais declarações, ou simplesmente não entenderam nada, como dizem os mais afinados ao assunto. Apavorados com os sussurros que se ouviam a respeito da possível prisão e morte de Jesus, os discípulos assimilaram pouca coisa do que disse o mestre naquele dia.
Como se não bastasse o que Jesus havia sinalizado quando do início dos discursos das dores em Mateus acerca do seu tempo que já está por terminar e de outras fortes palavras do tipo “não ficará pedra sobre pedra”, a última ceia e sua prisão, bem como toda a sua paixão são recheadas de grande simbologia que vale a pena Lembrar. A sutilidade do mestre é encantadora. O roteiro da sua morte e ressurreição parecia está sendo escrito enquanto viviam. Em tudo o que Jesus diz, literalmente ou não, há um fundo de mistério. Os pares claridade e obscuridade, luz e sombra, dia e noite, céus e terra, graça e pecado, vida e morte parecem ser a trama de todo roteiro. Quanto mais se aproxima o tão aguardado acontecimento de sua morte, Jesus, volto a dizer, faz cortantes declarações na sua última ceia. Quem não se lembra do que está escrito nos seus evangelhos(!). Em meio ao ar apreensivo e temeroso dos seus amigos, Jesus, intencionalmente, deixa escapar da sua boca que um deles há de traí-Lo, sem mencionar quem era. Mas, Judas, o Iscariotes, não se deu por satisfeito e assinou sua confissão de culpa: “Acaso sou eu, Mestre?”. Seguidamente, a humanidade de Jesus de Nazaré não conteve o seu eu divino que continuava a falar: “Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, antes que três vezes negues que me conheces”(Lc 22.34). De fato, o teor dessas e de outras declarações que Jesus fez são carregadas de anúncio, porque é muito próprio do anúncio o falar e o acontecer. À medida que Jesus falava, as coisas iam acontecendo simultaneamente. Pouco tempo, muito pouco tempo depois iam se sucedendo os fatos, a traição e a negação. A traição já vinha sendo preparada por Judas, enquanto que a negação veio da insegurança de um “Pedro” pré-pascal ainda medroso. Aí é que está, após a Ressurreição, aos olhos humanos, a cena ganhará vida ou mais vida ainda.
Nestes dias mais fortes em que memorizamos a paixão,“páthos”, de Cristo, não só por que intitularam esta semana como santa, mas pela qual recapitulamos todo o sofrimento sobre-humano apontado para a glória, para a ressurreição. É no hoje de nossa história que temos a graça, a feliz “virtùs”(oportunidade), para reviver e adorar tudo isso numa unidade de sentido, cujo movimento nasce dos acontecimentos pré e pós-pascais. Dizia Jesus que sua glória era esta: Dar a vida pela salvação de muitos. E nós o glorificamos por ter completado a obra que o Pai lhe confiara. Jesus Cristo estava obcecado por uma missão profetizada por Isaías: “O Espírito do Senhor Jeová está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar a liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; a ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê ornamento por cinza, óleo de gozo por tristeza, veste de louvor por espírito angustiado, a fim de que se chamem árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado”(Is 61.1-3). Sem a Ressurreição ou o cumprimento desta vasta missão de Jesus, jamais teríamos acesso à alegria definitiva, eterna, do Reino de Deus. Lembro-me de um estalo do poeta Manoel de Barros que acertadamente falou do presente da Eternidade, “encostada em Deus”.
A profecia, mostrada acima, é um maravilhoso projeto de vida, de Deus para seu único Filho. Um projeto muito definido com suas ações e metas: Ungir; Libertar; Consolar; Ordenar... Projeto este que deixa, simultaneamente, claro e obscuro o seu objetivo. Deus falou também por Isaías sobre o objetivo do Projeto da Salvação. Que objetivo era este? A salvação, que implica a morte e também todo este suplício pelo qual passou Jesus. Não à toa, Deus fala com o seu Profeta que o servo de Javé, isto é, o Filho do Homem não abrirá sequer a boca ao sofrer pela salvação do mundo; nenhum de seus ossos será quebrado, e assim aconteceu; tão desfigurado vai estar que não terá aparência humana, e assim aconteceu. Quanta dor, quanta paixão sofrida pelo mundo, por amor a nós. Amou tanto o mundo que nos deu seu único Filho!(Cf. Jo 3.16)
Todavia, para contrariar ainda mais a natureza humana dos discípulos e dos que acompanhavam o Mestre para cumprir todas as Escrituras, o túmulo, arranjado pelo senador romano José de Arimatéia, zelado com todo carinho e tristeza pelas mulheres da família de Jesus e outras mulheres, permanecia vazio, confirmando a verdade das palavras do Senhor. O que muitos sabiam e poucos não criam, de fato, aconteceu. Jesus Ressuscitou! Aleluia! “E, estando elas muito atemorizadas e abaixando o rosto para o chão, eles lhe disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e, ao terceiro dia, ressuscite”(Lc 24.5-7).
Vejam que só depois que tudo isto aconteceu, para não dizer mais, é que os discípulos, chocados e perplexos, lembraram-se de tudo o que Jesus havia dito acerca destas coisas. Talvez, não soubessem o quanto o Senhor ainda iria se manifestar para mostrar a sua glória, mas o certo é que muitos de nós, mesmo hoje, após séculos e séculos de distância do Jesus histórico, ainda não somos capazes de nos deixar mover pelas lembranças e pelas memórias trazidas pelo poder, agora, do Espírito do Senhor. Não importa o tempo, é preciso lembrar destas coisas, senão faremos o mesmo que seus discípulos, vendo-o passar desapercebidamente.
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista pela UFRN.
Páginas na internet:

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mártir da Independência ou herói revolucionário?



“Brecht cantou: ‘Feliz é o povo
que não tem heróis’. Concordo.
Porém nós não somos um povo
feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes.”
(Augusto Boal, “Quixotes e Heróis”)

Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse sobre camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas…

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.

Demoramos mais de três séculos para nos livrarmos do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.

Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil.

E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.

É verdade que houve fugazes despertares da cidadania:

* em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;

* em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
* em 1992, quando os caras-pintadas foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.

Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.

O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação do artigo que Boal escreveu quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:

“Tiradentes foi revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo.

…No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação

…O mito está mistificado”.

Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações.

Fonte: http://www.consciencia.net/

domingo, 17 de abril de 2011

VIVER COM OU SEM JUSTIÇA?


O anel do ancestral de Giges, invisível, seduz a rainha, mata o rei e assim por diante. Essa história levanta uma indagação ética: algum homem seria capaz de resistir à tentação da injustiça se soubesse que seus atos não seriam testemunhados?

A justiça é uma incógnita no mundo que nos consome. Há muito mais pessoas preocupadas e ocupadas com seu orçamento no final do mês e com outras questões da vida; do que com a justiça. A justiça está ao relento sem cobertor e calor, abandonada e fria. Não somos justos conosco; não somos justos com as escolhas que fazemos. Nem sempre somos coerentes com as atitudes tomadas, o que se abre de imediato, consequente a isso, a porta ao arrependimento e à culpa. Quando não agimos aos apelos da consciência, a frustração acaba tomando lugar em nossas vidas. Diariamente, vidas são soterradas por não haver esta preocupação em agir justamente. A verdade é que falamos muito de justiça e fazemos pouco dela!
Que não me entendam mal. Não se trata de se ajustar a nada, não é justeza ou ajuste de contas, mas uma permissão da consciência para se agir autenticamente. Simplesmente deixar que o agir siga o ser, “agere sequitur esse”. Não por acaso, os gregos antigos diziam: “As coisas belas são difíceis”. Difícil porque as coisas feias como as injustiças estão por toda parte, em todo lugar. Basta darmos uma olhada de relance para nossos trabalhos, nossos salários, os serviços sociais, as políticas públicas, a saúde, a educação, os transportes públicos, as escolas públicas. É engraçado se compararmos o valor do maior salário para o valor do menor salário neste país. A discrepância é alarmante. Isso só pra ficarmos em salário. Imagine se ampliarmos ainda mais as comparações sociais no Brasil, ficaremos assustados com tamanha injustiça. Só pra termos uma ligeira ideia da desigualdade social em nosso país, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem um patrimônio invejável. O diretor de uma empresa numa cidade grande está ganhando o equivalente a R$ 60 mil em média. A Fundação Getúlio Vargas divulgou o ano passado, no mês de fevereiro, que o segmento dos mais ricos no país representam cerca de 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas que concentram em suas mãos 44% da renda nacional. Excessiva riqueza nas mãos de poucos.
Se bem que tem muito político nesse país assaltando os cofres públicos descaradamente, o que também é uma tremenda de uma injustiça social. Como se não bastasse, as mordomias acumuladas em telefones, residências, viagens e gratificações escandalizam bruscamente a população má remunerada que tenta mais em exercer justiça e em se preocupar com ela. Por causa disso, os políticos no mundo inteiro ocuparam o posto de últimos colocados em credibilidade profissional. Segundo pesquisa feita ano passado, a classe política é a menos confiável pela população. Um descrédito por causa da injustiça, diga-se de passagem.
Platão, em sua obra clássica A República, nos mostra que a justiça é um desejo universal, um anseio de todos os seres humanos, em toda parte. Ela não é apenas um conceito no meio de um emaranhado de conceitos, mas uma condição para que a filosofia e o viver sejam aplicados. Não podemos nos esquecer uma questão aqui pertinente, a liberdade. Pois o que dá sentido a nossa liberdade é a justiça. Sem justiça é impossível haver liberdade, intencionalidade, consciência. O ideal perfeito de uma cidade justa proposta por Platão na Politéia, ou República, é a possibilidade de se pensar em meio ao que é real, a injustiça, o que deveria existir e não existe, a justiça, um valor ideal que não se perde de vista. A justiça, por isso, tem um alcance ético: ver não só o que acontece, as injustiças, mas o que deveria acontecer, a justiça. O fato da consciência alimentar a esperança ou desesperança de que é possível a justiça, coloca-nos entre aqueles para quem a vida tem sentido. Apoderados desse anseio, longe de nós qualquer negação aos interesses coletivos daqueles mais necessitados da sociedade, como também da realização plena de seus direitos. Nenhum de nós pode se dar ao luxo de ceifar uma vida digna às gerações presentes e futuras.
Dito isso, imaginem-se agora detentores de um poderosíssimo anel capaz de deixar-lhes invisíveis com a oportunidade de fazer o que bem quiser, certo ou errado, justiças ou injustiças. O que diria para si mesmo? Faria o que deveria ou não? Vejamos o que nos diz Platão sobre a justiça: “Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo tratou de ser um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder”(PLATÃO. A República. Lisboa: Gulbenkian, 4ª ed., 1983, pp. 55-60).


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN

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