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terça-feira, 13 de maio de 2014

Sobre a amizade de Michel de Montaigne

... o que nós chamamos ordinariamente amigos e amizades, não são acomodações e familiaridades nascidas de uma ocasião qualquer ou da comodidade com a qual se entretêm nossas almas. Na amizade de que falo, as almas misturam-se e confundem-se uma na outra, de tão universal mistura, que apagam e já não encontram a costura que as juntou. Se me pressionassem para dizer porque o amaria, sinto que isso não se pode exprimir senão respondendo: "Porque estou nele; porque ele está em mim."

Há, por detrás do meu discurso e do que particularmente posso dizer, não sei que força inexplicável e fatal, mediatriz desta união. Não procuramos senão antes de nós, ser vós, e pelas relações que temos um ao outro, que faz na nossa afecção mais força do que a razão das relações, creio que por causa de qualquer ordem divina; nós abraçamo-nos pelos nomes. E no nosso primeiro encontro, que aconteceu, por acaso numa grande festa na comunidade da vila, encontramo-nos tão próximos, tão reconhecíveis, tão comprometidos entre nós, que nada nos é doravante, tão próximo um ao outro.




Montaigne, Essais, Livre I, Garnier-Flammarion, Paris, 1969

Tradução do Francês antigo de Helena Serrão

Fonte:  http://filosofialogos.blogspot.com.br/search/label/Montaigne

quarta-feira, 8 de maio de 2013

"Platões" de um mesmo Platão



Pelas evidências da vasta produção literária sobre o assunto, pude perceber que Platão ainda continua mexendo conosco, o caráter poliédrico ou polivalente de sua filosofia, segundo Reale(1990: 133) fora capaz de incomodar muita gente, inclusive o próprio Popper. Se Popper provocou todo esse rebuliço na dimensão política de Platão, é porque algo mexeu com ele, alguma coisa que veio de Platão o instigou.
O texto “Defender Platão de Popper (ou de si mesmo?)” de Vegetti(2010: 193-230) é muito sugestivo para nos ajudar a tirar Platão do estado de crisálida e alçar voo em sua dimensão política, tão mal compreendida por Popper. Quero dizer que para defender Platão até de si mesmo quanto mais de Popper exige-se despertar os estudiosos do século XX para uma análise do Platão clássico, historiográfico e autêntico, ligado às suas fontes literárias.
Certamente, as provocações de Popper serviram até certo ponto para nos tirar de uma posição confortável quanto a um Platão de absoluta autoridade com que a tradição cristã e boa parte da histórica do Ocidente o haviam considerado. Platão não é dogmático e nunca poderá se esquivar de qualquer contrassenso. Platão responde a si mesmo em suas obras.
Ao sugerir pelo silogismo: “que o pensamento liberal-democrata fosse o único modo aceitável de conceber a política”(Vegetti, 2010: 193), Popper não só abre um forte precedente para tirar Platão do pedestal teórico/doutrinário em que o haviam colocado, como também é possível admitir que motivava estudiosos, filólogos, filósofos e hermeneutas a desconfiar que “Platão estava errado”.
Parece, e aqui estou conjecturando, que Platão começa a ser amplamente revisado. O mais ousado de Popper é que, na posição de filósofo, em pleno séc XX, sua tentativa de atacar o criador da Academia provoca um efeito contrário ao esperado por ele. Suas críticas efusivas ao aspecto político liberal-democrata de Platão não apenas põem em evidência o pensamento clássico do contexto histórico ao qual vivia Platão, como também são responsáveis pelas abundantes produções no tocante à “coisa política” do “multifacetado”(Reale, 1990: 133) pensamento do filósofo, conhecido por sua alegoria da caverna e por sua temática política, ou melhor, ético-político-educativa(Reale, 1990: 133).
Dessas produções que nos fazem olhar para o Platão político, Vegetti é certeiro: Primeiro, “Platão era verdadeiramente, de alguma forma, um pensador político liberal-democrata”(2010: 194); Segundo, contrário a uma tradição milenar de Aristóteles a Popper, “Platão verdadeiramente não defendia que as posições expressadas nos seus diálogos políticos fossem, na realidade, desejáveis e de certa forma realizáveis”(Vegetti, 2010: 194), uma vez que “a) seus textos são do gênero literário da utopia e não apresentam nenhum aspecto projetual” e “b) seus diálogos políticos têm uma intenção irônica, que consiste em defender o contrário do que aparece à superfície do texto”(Vegetti, 2010: 194); Terceiro, “não obstante as aparências e o consenso quase unânime da tradição exegética, os ditos diálogos políticos de Platão não pertencem absolutamente ao âmbito da filosofia política, pois visam exclusivamente os problemas da moral individual(a polis é, quando muito uma metáfora da alma)”(Vegetti, 2010: 194).
Decorre daí, então, que o silogismo ou estratagema lógico de Popper não resistiu à panóplia de argumentos emanados dos textos políticos de Platão, sobretudo em larga escala a partir da segunda metade do séc. XX em diante, mostrando claramente que Popper, e não Platão, estava errado.
Curioso, pois “de Platão disse Montaigne: 'Queiram sacudir e agitar Platão: cada qual, orgulhando-se de apossar-se dele, coloca-o do lado que quer'”(Reale, 1990: 124). Muito feliz essa expressiva citação de Montaigne feita por Reale em sua clássica obra que revigora os nervos da filosofia antiga de Platão em constante diálogo com o presente.
Na esteira do texto de Vegetti, é possível discutir ainda mais o Platão da “coisa política” em três dimensões importantíssimas: Platão liberal-democrata; Platão Utópico; e Platão irônico.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

Bibliografia:
REALE, Giovanni.(1990).História da filosofia: Antiguidade e Idade Média/Giovanni Reale, Dario Antiseri. São Paulo: Paulinas.
VEGETTI, Mário.(2010). Um paradigma no céu. Platão político de Aristóteles ao século xx. São Paulo: Annablume, p. 193-230.


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terça-feira, 13 de maio de 2014

Sobre a amizade de Michel de Montaigne

... o que nós chamamos ordinariamente amigos e amizades, não são acomodações e familiaridades nascidas de uma ocasião qualquer ou da comodidade com a qual se entretêm nossas almas. Na amizade de que falo, as almas misturam-se e confundem-se uma na outra, de tão universal mistura, que apagam e já não encontram a costura que as juntou. Se me pressionassem para dizer porque o amaria, sinto que isso não se pode exprimir senão respondendo: "Porque estou nele; porque ele está em mim."

Há, por detrás do meu discurso e do que particularmente posso dizer, não sei que força inexplicável e fatal, mediatriz desta união. Não procuramos senão antes de nós, ser vós, e pelas relações que temos um ao outro, que faz na nossa afecção mais força do que a razão das relações, creio que por causa de qualquer ordem divina; nós abraçamo-nos pelos nomes. E no nosso primeiro encontro, que aconteceu, por acaso numa grande festa na comunidade da vila, encontramo-nos tão próximos, tão reconhecíveis, tão comprometidos entre nós, que nada nos é doravante, tão próximo um ao outro.




Montaigne, Essais, Livre I, Garnier-Flammarion, Paris, 1969

Tradução do Francês antigo de Helena Serrão

Fonte:  http://filosofialogos.blogspot.com.br/search/label/Montaigne

quarta-feira, 8 de maio de 2013

"Platões" de um mesmo Platão



Pelas evidências da vasta produção literária sobre o assunto, pude perceber que Platão ainda continua mexendo conosco, o caráter poliédrico ou polivalente de sua filosofia, segundo Reale(1990: 133) fora capaz de incomodar muita gente, inclusive o próprio Popper. Se Popper provocou todo esse rebuliço na dimensão política de Platão, é porque algo mexeu com ele, alguma coisa que veio de Platão o instigou.
O texto “Defender Platão de Popper (ou de si mesmo?)” de Vegetti(2010: 193-230) é muito sugestivo para nos ajudar a tirar Platão do estado de crisálida e alçar voo em sua dimensão política, tão mal compreendida por Popper. Quero dizer que para defender Platão até de si mesmo quanto mais de Popper exige-se despertar os estudiosos do século XX para uma análise do Platão clássico, historiográfico e autêntico, ligado às suas fontes literárias.
Certamente, as provocações de Popper serviram até certo ponto para nos tirar de uma posição confortável quanto a um Platão de absoluta autoridade com que a tradição cristã e boa parte da histórica do Ocidente o haviam considerado. Platão não é dogmático e nunca poderá se esquivar de qualquer contrassenso. Platão responde a si mesmo em suas obras.
Ao sugerir pelo silogismo: “que o pensamento liberal-democrata fosse o único modo aceitável de conceber a política”(Vegetti, 2010: 193), Popper não só abre um forte precedente para tirar Platão do pedestal teórico/doutrinário em que o haviam colocado, como também é possível admitir que motivava estudiosos, filólogos, filósofos e hermeneutas a desconfiar que “Platão estava errado”.
Parece, e aqui estou conjecturando, que Platão começa a ser amplamente revisado. O mais ousado de Popper é que, na posição de filósofo, em pleno séc XX, sua tentativa de atacar o criador da Academia provoca um efeito contrário ao esperado por ele. Suas críticas efusivas ao aspecto político liberal-democrata de Platão não apenas põem em evidência o pensamento clássico do contexto histórico ao qual vivia Platão, como também são responsáveis pelas abundantes produções no tocante à “coisa política” do “multifacetado”(Reale, 1990: 133) pensamento do filósofo, conhecido por sua alegoria da caverna e por sua temática política, ou melhor, ético-político-educativa(Reale, 1990: 133).
Dessas produções que nos fazem olhar para o Platão político, Vegetti é certeiro: Primeiro, “Platão era verdadeiramente, de alguma forma, um pensador político liberal-democrata”(2010: 194); Segundo, contrário a uma tradição milenar de Aristóteles a Popper, “Platão verdadeiramente não defendia que as posições expressadas nos seus diálogos políticos fossem, na realidade, desejáveis e de certa forma realizáveis”(Vegetti, 2010: 194), uma vez que “a) seus textos são do gênero literário da utopia e não apresentam nenhum aspecto projetual” e “b) seus diálogos políticos têm uma intenção irônica, que consiste em defender o contrário do que aparece à superfície do texto”(Vegetti, 2010: 194); Terceiro, “não obstante as aparências e o consenso quase unânime da tradição exegética, os ditos diálogos políticos de Platão não pertencem absolutamente ao âmbito da filosofia política, pois visam exclusivamente os problemas da moral individual(a polis é, quando muito uma metáfora da alma)”(Vegetti, 2010: 194).
Decorre daí, então, que o silogismo ou estratagema lógico de Popper não resistiu à panóplia de argumentos emanados dos textos políticos de Platão, sobretudo em larga escala a partir da segunda metade do séc. XX em diante, mostrando claramente que Popper, e não Platão, estava errado.
Curioso, pois “de Platão disse Montaigne: 'Queiram sacudir e agitar Platão: cada qual, orgulhando-se de apossar-se dele, coloca-o do lado que quer'”(Reale, 1990: 124). Muito feliz essa expressiva citação de Montaigne feita por Reale em sua clássica obra que revigora os nervos da filosofia antiga de Platão em constante diálogo com o presente.
Na esteira do texto de Vegetti, é possível discutir ainda mais o Platão da “coisa política” em três dimensões importantíssimas: Platão liberal-democrata; Platão Utópico; e Platão irônico.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

Bibliografia:
REALE, Giovanni.(1990).História da filosofia: Antiguidade e Idade Média/Giovanni Reale, Dario Antiseri. São Paulo: Paulinas.
VEGETTI, Mário.(2010). Um paradigma no céu. Platão político de Aristóteles ao século xx. São Paulo: Annablume, p. 193-230.


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