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terça-feira, 28 de abril de 2015
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Jesus, um estrangeiro como caminho...
A passagem de Jesus nesta terra foi extremamente rápida do ponto de
vista histórico, mas seus feitos e seus discursos, sermões, são um
traço contínuo de sua presença eternizada pelos movimentos
posteriores, sobretudo, pelo cristianismo. Certamente, sua pessoa
ainda vive conosco tão forte é o seu legado. Temos a impressão de
que os principais registros da vida de Jesus, os Evangelhos, dão
conta e são fontes seguras do propósito de sua morte tão
repentina.
É interessante notar que Jesus, em meio a uma série de declarações
feitas aos discípulos, expõe os motivos de sua vinda ao mundo.
Diferente de nós, Jesus não busca seu lugar ao sol, não está
atrás de um lugar no mundo, muito menos de se fixar em terra
estrangeira. Ele não dá sequer importância aos atrativos deste
mundo. Naquela época era muito comum desejar ser general de tropas
militares, ansiar a cargos políticos também, ascender ao trono,
lutar por algum lugar na elite da sociedade ou mesmo desejar ser um
soldado romano, ir à guerra e aprender a ser um conquistador.
Antes mesmo de algum desses ideais povoar a mente de Jesus, havia um
plano divino para ele, de modo que bem sabia a razão de estar aqui.
“(...) eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.”(Jo
10.10). Viver para ele implica encarar o cotidiano, os fatos deste
mundo a partir do que lhe fora revelado pelo Pai, o conhecimento de
sua vontade e o cumprimento das Escrituras. “E
eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou
para ti.”(Jo 17.11). Jesus desenvolve um modo de viver no mundo sem
pertencer a este mundo. Como a sua palavra é a verdade que se opõe
ao mundo, este acaba odiando aqueles que a seguem, assim muitos
começam a construir um outro mundo diferente deste porque já não
são do mundo, mas são agora do mesmo mundo de Jesus. Insiste:
“Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do
mundo, assim como eu não sou do mundo.”(Jo 17.14).
Fato é que Jesus não é deste
mundo, o que acarreta para ele uma identidade estrangeira. Passa por
aqui como um estrangeiro em terra estranha, visto ser este mundo
inteiramente contraditório aos seus planos, ao reino de seu Pai,
realmente diferente do que ele diz ser a eternidade: “E a vida
eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus
verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”(Jo 17.3-4).
A sua mensagem, seus ensinamentos,
mostra um homem desprendido deste mundo, desapegado dos valores
terrenos, sem se embaraçar com nada. Sua oração, intimidade com o
Pai, seu jeito seguro e verdadeiro para afirmar a existência de um
outro reino eram convincentes. Com palavras cheias do que deve ser
este mundo, semelhante ao seu reino, Jesus usava de repreensão aos
que queriam menosprezar os pequeninos, habitantes de seu reino.
Utiliza-se de uma criança. A imagem da criança revela a todos um
outro mundo de que falava o mestre. Seu reino. Um mundo que ninguém
podia tomar. Seu povo. Um povo que ninguém podia maltratar e
herdeiro de um outro tipo de vida que não esta, a vida eterna.
Por isso, sua identidade
estrangeira, na medida em que não se deixa dominar, abre passagem
para os que buscam libertação, novo nascimento e salvação. Nem a
morte fora capaz de dominá-lo. Jesus atravessa os limites de sua
nacionalidade; os padrões de sua religiosidade, o judaísmo; desafia
as autoridades políticas de seu tempo; supera as realidades
temporais e espaciais para abrir uma relação definitiva de caminho
para o seu reino. Um reino que não é deste mundo: “O meu reino
não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os
meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o
meu reino não é daqui.”(Jo 18. 36).
Estrangeiro porque não tem onde
reclinar a cabeça, anuncia um reino eterno e fala de outras moradas,
além disso, durante o tempo que passou conosco, se opôs a este
mundo como se não fosse a sua casa, tampouco a nossa. “Na casa de
meu Pai há muitas moradas (...). Vou preparar-vos lugar.”(Jo 14.
2). A propósito do caminho para este lugar, assim responde a Tomé:
“Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão
por mim.”(Jo 14. 6).
Prof.
Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo
sábado, 14 de março de 2015
VERGONHA
Convivemos com tanta
exposição hoje em dia que, ao escolhermos uma vida simples e cada
vez menos exibicionista, a vergonha passa a ser o contraponto
daqueles que agem correntemente de acordo com a “sociedade do
espetáculo”, expressão cunhada por Guy Debord em obra de sua
autoria. Por “sociedade do espetáculo” se entende uma
vida pautada na exterioridade, segundo a qual as máscaras são
colocadas e as cortinas abertas para o encantado show das
pseudoindividualidades ou falsas individualidades nos mais variados
lugares de convivência social; dos jantares de confraternização às
passagens pelo mercado, lojas e shoppings. As ruas também são
espaços onde desfilam as mais diversas formas de vida; daquelas mais
superficiais às mais verdadeiras.
A grande praça a
que somos convidados a frenquentar expõe tipos inusitados de
representações. A impressão que se tem é que a sociedade é um
enorme palco de representações. Por conta disso é que nos
envergonhamos, sobretudo quando confrontamos o exterior com o nosso
interior. Justamente aí nasce a indignação e a sensação de
vergonha. “A vergonha é o sentimento daquele que, inadequado no
cenário do espetáculo, ainda preserva o interior contra a lei da
superfície e do uso da máscara que a todos encanta”(TIBURI,
Márcia. Filosofia Prática: ética, vida cotidiana, vida virtual.
Rio de Janeiro: Record, 2014, p. 146). Passamos a ver o exterior
não mais como ele é, mas como ele poderia não ser. Tal sensação
de estranhamento é a própria vergonha, porque é uma experiência
que se estabelece com a verdade. Quando nos deparamos com a verdade
significa que nos deparamos com a vergonha. Tiramos as máscaras e
desencantamos as falsas individualidades.
Muitos não querem
sentir vergonha. É um “direito”, mesmo preferindo permanecer
oprimido pelo exterior e pela diminuição de liberdade. Um “direito”
de não ter “direito”, na medida em que a vergonha é o efeito ou
a consequência da liberdade. Nesse sentido a vergonha é
praticamente inevitável. Geralmente nos envergonhamos de sentir
vergonha, como se a vergonha não fosse própria da natureza humana.
Assim o é com a angústia, a revolta, a indignação. A capacidade
de se indignar ou de se envergonhar não deve ser uma vanglória da
moral, mas um afeto de alguma coisa inadequada, de que algo realmente
importa.
“O
sentimento de vergonha é sinal de que algo ainda importa.
Importar-se é, a propósito, tantas vezes, o nome próprio da
inadequação. Inadequado é quem, por um motivo ou outro, começou a
pensar. 'Adequado' é, neste sentido, o sem-vergonha. Seria aquele
que se entrega à prática abstratamente, aquela prática sem
pensamento na qual o outro não é considerado”(idem, p. 147).
Dessa
maneira, o fingimento, a mentira pela mentira, a informação pela
informação e a exposição da intimidade em redes sociais são
experiências insuportáveis para o inadequado que, movido pela
vergonha, subverte o status quo
de uma realidade conformada com seus vícios sociais e políticos,
além disso, gera nele mesmo uma indignação muito pessoal e
subjetiva de se perguntar, ressentir, inquietar-se.
Muito
interessante perceber que a
vergonha é um sentimento que acontece quando mais nos envolvemos com
as demandas do mundo, onde quer que estejamos, ou em casa no quarto
sozinho, no trabalho quando
há ausência de profissionalismo
ou nas
ruas
em manifestações ordeiras reclamando direitos sociais, preservação
das instituições e da democracia, pedindo urgentemente reformas de
ordem política e etc.
Às vezes, basta uma notícia
de violência, agressão ou mais uma de escândalos de corrupção
política para nos envergonhar interiormente.
Portanto,
o viés político estimulado pelo sentimento de vergonha é algo que
não podemos perder, justo numa sociedade cada vez mais insensível
aos exercícios de cidadania e participação democrática. Se não
pelo ativismo, pela práxis, ao menos pelo sentimento de vergonha
a política mexa conosco.
Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo
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filosofia,
política,
sociologia
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Locke (1632-1704), Da importância do governo para os indivíduos em sociedade
"Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder? Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a fruição do mesmo é muito incerta e está constantemente exposta à invasão de terceiros porque, sendo todos reis tanto quanto ele, todo homem é igual a ele, e na maior parte pouco observadores da equidade e da justiça, a fruição da propriedade que possui nesse estado é muito insegura, muito arriscada. Estas circunstâncias obrigam-no a abandonar uma condição que, embora livre, está cheia de temores e perigos constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de 'propriedade'."
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. Trad. Anoar Aiex e E. Jacy Monteiro: Abril Cultural, 1978, cap. IX, p. 82 (Coleção "Os Pensadores").
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. Trad. Anoar Aiex e E. Jacy Monteiro: Abril Cultural, 1978, cap. IX, p. 82 (Coleção "Os Pensadores").
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Filmaço: "LEVIATÃ"
Com características inspiradas na criatividade russa, "Leviatã" deve ser
um filme interessante do ponto de vista filosófico porque explora a
condição humana no mundo e lembra basicamente a obra de Thomas Hobbes.
Programação para as férias. "Leviatã", filme inspirado também no livro de Jó. Daí sua relevante ênfase na condição humana. Vale a pena. Muito bom.
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Thomas Hobbes
LAÇOS HUMANOS
Quase sempre somos flagrados de cabeças baixas com os dedos subindo e descendo pela tela de um tablet ou celular. O constrangimento é imediato, até porque devíamos nos cumprimentar ou nos relacionar com pessoas, ao invés de grudar os olhos em nossas máquinas. Lembro-me que uma vez, espantada, uma senhora bastante idosa me perguntou: "Jackis, por que as pessoas estão tão enfiadas com a cara nessas coisas?" Ao que respondi: "Estão conversando com outras pessoas, pesquisando, ouvindo música, assistindo vídeos ou fazendo qualquer outra coisa. Tentei justificar que esses aparelhos oferecem muitas opções". Fingindo ter entendido, a senhora fez um sinal negativo com a cabeça, e mudou de assunto.
Por incrível que pareça, ainda há muita gente que está fora desse processo de inclusão tecnológica, ou por que simplesmente não quer ou não tem oportunidades ou se sente mais feliz sem essas supermáquinas.
Dados do IBGE apontam que 130,8 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade tinham telefone móvel celular para uso pessoal já em 2013.
Só pra termos uma ideia, segundo fonte da http://www1.folha.uol.com.br/…/1476690-numero-de-brasileiro…, o número de brasileiros que acessa a internet por telefone celular atingiu 52,5 milhões em 2013.
O impacto desses números nas relações humanas é muito forte, produzindo assim uma massa bem significativa de gente que está mudando o comportamento em função do virtual.
"Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: 'Sempre se pode apertar a tecla de deletar'" (BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. p. 13.).
Crianças, jovens, adultos e até mesmo idosos ostentam em suas redes sociais uma lista interminável de milhares de amigos, porém, esquecem que são relações virtuais, muito fáceis de entrar e sair, de serem desmanchadas. Num clique podemos bloquear ou desbloquear alguém, ao ponto de manipularmos as relações como se fossem um simples jogo. Quanta fragilidade! Apenas um clique pode nos deixar sem nem um amigo.
Laços humanos, não tão duradouros quanto antes, se desfazem rapidamente na liquidez de nossa modernidade, no dizer do sociólogo alemão Bauman. Para ele, as pessoas se comportam como se estivessem sobre uma fina camada de gelo. Se não passarem velozmente por ela correm o risco de afundarem no lago. Eis a ambivalência: segurança e liberdade.
Bauman afirma que a nova modalidade de amizade proposta pelo Facebook, por exemplo, é atrativa porque oferece para nós uma forma fácil de entrar e sair de uma relação em rede. Diferente da concepção de rede, os laços humanos geram infinitas discussões, sentimentos de culpa, mentiras, consequências traumáticas para serem possivelmente desfeitos.
Conectar e desconectar uma pessoa de sua vida virtual parece ser bem mais fácil, agora fazer e desfazer laços humanos nos moldes da vida real e de suas implicações é muito mais difícil.
O problema é que tem muita gente misturando uma relação em rede (forjando uma outra espécie de amizade) com a concepção de laços humanos, o tradicional modelo de amizade.
Jackislandy Meira de M. Silva. Professor, filósofo e teólogo.
www.umasreflexoes.blogspot.com.br / www.chegadootempo.blogspot.com.br
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Bom humor
De Kundera, mais bom humor.
"Ah, o bom humor! Você nunca leu Hegel? Claro que não. Você nem sabe quem ele é. Mas nosso professor que nos inventou me forçou a estudá-lo noutros tempos. Em sua reflexão sobre o cômico, Hegel disse que o verdadeiro humor é impensável sem o infinito bom humor, ouça bem, é o que ele diz com todas as letras: 'infinito bom humor'. Nada de zombaria, nada de sátira, nada de sarcasmo. Somente das alturas do infinito bom humor é que você pode observar abaixo de si a eterna tolice dos homens e rir dela." (in A festa da insignificância, p. 90).
"Como encontrar o bom humor?" (idem).
"Ah, o bom humor! Você nunca leu Hegel? Claro que não. Você nem sabe quem ele é. Mas nosso professor que nos inventou me forçou a estudá-lo noutros tempos. Em sua reflexão sobre o cômico, Hegel disse que o verdadeiro humor é impensável sem o infinito bom humor, ouça bem, é o que ele diz com todas as letras: 'infinito bom humor'. Nada de zombaria, nada de sátira, nada de sarcasmo. Somente das alturas do infinito bom humor é que você pode observar abaixo de si a eterna tolice dos homens e rir dela." (in A festa da insignificância, p. 90).
"Como encontrar o bom humor?" (idem).
A beleza da insignificância
"(...) Queria lhe falar então Quaquelique. Meu grande amigo. Você não
o conhece. Eu sei. Pois bem. Agora, a insignificância me aparece sob um
ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte,
mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da
existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente
mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas,
nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la
em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata
apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso
aprender a amá-la. Aqui, neste parque, diante de nós, olhe, meu amigo,
ela está presente com toda sua evidência, com toda sua inocência, com
toda sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação
perfeita... e completamente inútil, as crianças rindo... sem saber por
quê, não é lindo? Respire, D'Ardelo, meu amigo, respire essa
insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave
do bom humor..." (KUNDERA, Milan. A festa da insignificância. São
Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 132).
Simplesmente maravilhoso. De uma graça e bom humor impecáveis. Um texto gostoso de ler.
Novo longa do Pequeno Príncipe
Trailer do novo longa de "O pequeno príncipe" é lançado, mas o filme chegará mesmo aos cinemas apenas em outubro de 2015. Segue o Trailer.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Da unidade Os desculpantes...
“Se sentir
ou não se sentir culpado. Acho que tudo depende disso. A vida é uma luta de
todos contra todos. É sabido. Mas como essa luta acontece numa sociedade mais
ou menos civilizada? As pessoas não podem se atirar umas sobre as outras sempre
que se encontram. Em vez disso, tentam jogar no outro o constrangimento da
culpabilidade. Ganhará aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perderá
aquele que reconhecer sua culpa. Você vai pela rua, mergulhado em pensamentos.
Em sua direção vem uma moça, como se estivesse sozinha no mundo, sem olhar nem
para a esquerda nem para a direita, indo direto em frente. Vocês se esbarram. Eis
o momento da verdade. Quem vai insultar o outro, e quem vai se desculpar? É uma
situação-modelo: na realidade, cada um dos dois é ao mesmo tempo o que sofreu o
esbarrão e o que esbarrou. E, no entanto, há os que se consideram,
imediatamente, espontaneamente, os que esbarraram, portanto culpados. E há os
outros, que se veem sempre, imediatamente, espontaneamente, como os que
sofreram o esbarrão, portanto no seu direito de acusar o outro e de fazer com
que este seja punido. Você, numa situação como essa, você se desculparia ou
acusaria?”
(KUNDERA,
Milan. A festa da insignificância. 1ª
ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 54)
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domingo, 7 de dezembro de 2014
Walter Benjamim e a "Angelus Novus" de Klee
De Gershom Scholem,
poema sobre a "Saudação do Angelus", escrito a partir do quadro de
Paul Klee, "Angelus Novus" e que foi enviado para o filósofo Walter
Benjamin no dia de seu aniversário em 15 de julho de 1921.
"Aqui da
parede, nobre, / não pouso o olhar em ninguém, / venho do céu que vos cobre /
sou homem-anjo do Além // No meu reino o homem é bom / mas não é nele seu
aposto / recebo do Alto o dom / e não preciso de rosto // A região de onde vim
/ tem medida e luz sem fundo: / o que me faz ser assim / é prodígio do vosso
mundo // Dentro de mim está a urbe / para onde Deus me mandou / o anjo com este
selo / nunca ela o deslumbrou // Minha asa está pronta para o voo altivo: / se
pudesse, voltaria / pois ainda que ficasse tempo vivo / pouca sorte teria // Os
meus olhos são negros e fundos / e nunca se esvazia o meu olhar / sei muita
coisa deste mundo / sei o que venho anunciar // Não sou simbólico nem trágico
/significo o que sou, é tudo / em vão giras o anel mágico / pois em mim não há
sentido". (in BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Trad. de João Barreto.
2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 14, [N.T.])
sábado, 6 de dezembro de 2014
Casa aberta
Mais do que em todos os dias e em grandes momentos do ano,
as festividades natalinas e as ligadas ao Réveillon
causam em nós uma sensação diferente. E o mais interessante é que não apenas
representamos ou idealizamos estes eventos, mas os concretizamos, fazemos
acontecer momentos de inteira generosidade, gratidão a Deus e às pessoas com as
quais convivemos. Expressões de paz, amor, bondade, alegria e esperança nos
conectam uns aos outros de uma forma tão objetiva que somos movidos para gestos
de exuberância humana: Trocamos presentes; organizamos jantares beneficentes; sorteamos
cestas natalinas; realizamos passeios ou viagens com quem amamos; abrimos a
casa, etc. Sem contar as centenas de beijos e abraços muito comuns desta época
do ano.
Essa sensação extremamente humana nos faz lembrar de como
deve ser um lar. Não, às vezes, de como ele é, sujo, violento, insuportável,
detestável, mas de como deveria ser, limpo, pacífico, agradável, seguro,
acolhedor. A casa da gente precisa ser bem tratada, principalmente em tempos de
festa, quando recebemos pessoas queridas que não víamos há anos. É preciso
olhar mais para casa, onde as distâncias diminuem e tudo fica mais próximo. É
exatamente o que acontece agora, no devido instante em que somos arrancados de
nosso próprio mundo, de um mundo fechado, totalitário, racionalista, egoísta
para nos relacionarmos com o que há para além de nós mesmos, alcançando assim
uma abertura para a alteridade, uma abertura infinita.
Emmanuel Levinas, filósofo, leitor da Bíblia e de
Dostoievski, entendia a casa como um ponto de referência, segundo a qual o eu
vai em direção à exterioridade do mundo. “O
papel privilegiado da casa não consiste em ser o fim da atividade humana, mas
em ser a condição e, nesse sentido, o seu começo” (Totalidade e Infinito, p. 144).
A casa que sou eu e a casa que é o mundo vivem agora uma conexão tão intensa a
ponto de um querer humanizar o outro e vice-versa. “Simultaneamente fora e dentro, vai para fora a partir de uma
intimidade. Por outro lado, a intimidade abre-se dentro de uma casa, que se
situa nesse fora” (idem, p. 145).
A ilustração da casa, sugerida por Levinas, para demonstrar
a pertinência de nossas relações com os excluídos, com as minorias
desfavorecidas, os pobres, a viúva, o órfão e o estrangeiro é cada vez mais
significativa e atual. A recorrente imagem da “casa aberta”, neste período do
ano, tal como deve ser em toda a vida, receptiva ao outro, é muito viva na
música de Arnaldo Antunes, “a casa é sua”:
Não me falta cadeira/ Não me falta sofá /Só falta você/
sentada na sala/
Só falta você estar
Não me falta parede/ E
nela uma porta pra você entrar/ Não me falta tapete/ Só falta o seu pé descalço pra pisar
Não me falta cama/ Só
falta você deitar/ Não me falta o sol da manhã/ Só falta você acordar
Pras janelas se
abrirem pra mim/ E o vento brincar no quintal/ Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal
Balançando as cores no varal
A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Não me falta banheiro,
quarto/ Abajur, sala de jantar/ Não me falta cozinha/ Só falta a campainha
tocar
Não me falta cachorro/
Uivando só porque você não está/ Parece até que está pedindo socorro
Como tudo aqui nesse lugar
Como tudo aqui nesse lugar
Não me falta casa/ Só
falta ela ser um lar/ Não me falta o tempo que passa/ Só não dá mais para tanto
esperar
Para os pássaros
voltarem a cantar/ E a nuvem desenhar um coração flechado/ Para o chão voltar a
se deitar/ E a chuva batucar no telhado
Numa sociedade imensamente carente de referências, a casa
cheia de gente, onde as famílias se encontram e se transformam a cada encontro,
é a realização de qualquer Natal e passagem de ano para alguém, na medida em
que simboliza recomeço, renovo, revitalização. Também é uma oportunidade de
resgate das referências familiares, a partir das quais ressignificamos nosso
mundo, nossa casa, nosso lugar no mundo e passamos a ser mais humanos com
respeito, amor, tolerância, bondade, justiça e paz.
Enquanto escrevia esse texto, duas figuras clássicas da
literatura não me saíam da cabeça, a do filho pródigo usada por Jesus Cristo e a
de Ulisses usada por Homero. As duas falam desse regresso ao lar e,
curiosamente, a casa estava aberta, no sentido de mostrar uma nova maneira de
reaprender a ver o mundo.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor, filósofo e
teólogo.
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terça-feira, 28 de abril de 2015
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Jesus, um estrangeiro como caminho...
A passagem de Jesus nesta terra foi extremamente rápida do ponto de
vista histórico, mas seus feitos e seus discursos, sermões, são um
traço contínuo de sua presença eternizada pelos movimentos
posteriores, sobretudo, pelo cristianismo. Certamente, sua pessoa
ainda vive conosco tão forte é o seu legado. Temos a impressão de
que os principais registros da vida de Jesus, os Evangelhos, dão
conta e são fontes seguras do propósito de sua morte tão
repentina.
É interessante notar que Jesus, em meio a uma série de declarações
feitas aos discípulos, expõe os motivos de sua vinda ao mundo.
Diferente de nós, Jesus não busca seu lugar ao sol, não está
atrás de um lugar no mundo, muito menos de se fixar em terra
estrangeira. Ele não dá sequer importância aos atrativos deste
mundo. Naquela época era muito comum desejar ser general de tropas
militares, ansiar a cargos políticos também, ascender ao trono,
lutar por algum lugar na elite da sociedade ou mesmo desejar ser um
soldado romano, ir à guerra e aprender a ser um conquistador.
Antes mesmo de algum desses ideais povoar a mente de Jesus, havia um
plano divino para ele, de modo que bem sabia a razão de estar aqui.
“(...) eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.”(Jo
10.10). Viver para ele implica encarar o cotidiano, os fatos deste
mundo a partir do que lhe fora revelado pelo Pai, o conhecimento de
sua vontade e o cumprimento das Escrituras. “E
eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou
para ti.”(Jo 17.11). Jesus desenvolve um modo de viver no mundo sem
pertencer a este mundo. Como a sua palavra é a verdade que se opõe
ao mundo, este acaba odiando aqueles que a seguem, assim muitos
começam a construir um outro mundo diferente deste porque já não
são do mundo, mas são agora do mesmo mundo de Jesus. Insiste:
“Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do
mundo, assim como eu não sou do mundo.”(Jo 17.14).
Fato é que Jesus não é deste
mundo, o que acarreta para ele uma identidade estrangeira. Passa por
aqui como um estrangeiro em terra estranha, visto ser este mundo
inteiramente contraditório aos seus planos, ao reino de seu Pai,
realmente diferente do que ele diz ser a eternidade: “E a vida
eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus
verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”(Jo 17.3-4).
A sua mensagem, seus ensinamentos,
mostra um homem desprendido deste mundo, desapegado dos valores
terrenos, sem se embaraçar com nada. Sua oração, intimidade com o
Pai, seu jeito seguro e verdadeiro para afirmar a existência de um
outro reino eram convincentes. Com palavras cheias do que deve ser
este mundo, semelhante ao seu reino, Jesus usava de repreensão aos
que queriam menosprezar os pequeninos, habitantes de seu reino.
Utiliza-se de uma criança. A imagem da criança revela a todos um
outro mundo de que falava o mestre. Seu reino. Um mundo que ninguém
podia tomar. Seu povo. Um povo que ninguém podia maltratar e
herdeiro de um outro tipo de vida que não esta, a vida eterna.
Por isso, sua identidade
estrangeira, na medida em que não se deixa dominar, abre passagem
para os que buscam libertação, novo nascimento e salvação. Nem a
morte fora capaz de dominá-lo. Jesus atravessa os limites de sua
nacionalidade; os padrões de sua religiosidade, o judaísmo; desafia
as autoridades políticas de seu tempo; supera as realidades
temporais e espaciais para abrir uma relação definitiva de caminho
para o seu reino. Um reino que não é deste mundo: “O meu reino
não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os
meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o
meu reino não é daqui.”(Jo 18. 36).
Estrangeiro porque não tem onde
reclinar a cabeça, anuncia um reino eterno e fala de outras moradas,
além disso, durante o tempo que passou conosco, se opôs a este
mundo como se não fosse a sua casa, tampouco a nossa. “Na casa de
meu Pai há muitas moradas (...). Vou preparar-vos lugar.”(Jo 14.
2). A propósito do caminho para este lugar, assim responde a Tomé:
“Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão
por mim.”(Jo 14. 6).
Prof.
Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo
sábado, 14 de março de 2015
VERGONHA
Convivemos com tanta
exposição hoje em dia que, ao escolhermos uma vida simples e cada
vez menos exibicionista, a vergonha passa a ser o contraponto
daqueles que agem correntemente de acordo com a “sociedade do
espetáculo”, expressão cunhada por Guy Debord em obra de sua
autoria. Por “sociedade do espetáculo” se entende uma
vida pautada na exterioridade, segundo a qual as máscaras são
colocadas e as cortinas abertas para o encantado show das
pseudoindividualidades ou falsas individualidades nos mais variados
lugares de convivência social; dos jantares de confraternização às
passagens pelo mercado, lojas e shoppings. As ruas também são
espaços onde desfilam as mais diversas formas de vida; daquelas mais
superficiais às mais verdadeiras.
A grande praça a
que somos convidados a frenquentar expõe tipos inusitados de
representações. A impressão que se tem é que a sociedade é um
enorme palco de representações. Por conta disso é que nos
envergonhamos, sobretudo quando confrontamos o exterior com o nosso
interior. Justamente aí nasce a indignação e a sensação de
vergonha. “A vergonha é o sentimento daquele que, inadequado no
cenário do espetáculo, ainda preserva o interior contra a lei da
superfície e do uso da máscara que a todos encanta”(TIBURI,
Márcia. Filosofia Prática: ética, vida cotidiana, vida virtual.
Rio de Janeiro: Record, 2014, p. 146). Passamos a ver o exterior
não mais como ele é, mas como ele poderia não ser. Tal sensação
de estranhamento é a própria vergonha, porque é uma experiência
que se estabelece com a verdade. Quando nos deparamos com a verdade
significa que nos deparamos com a vergonha. Tiramos as máscaras e
desencantamos as falsas individualidades.
Muitos não querem
sentir vergonha. É um “direito”, mesmo preferindo permanecer
oprimido pelo exterior e pela diminuição de liberdade. Um “direito”
de não ter “direito”, na medida em que a vergonha é o efeito ou
a consequência da liberdade. Nesse sentido a vergonha é
praticamente inevitável. Geralmente nos envergonhamos de sentir
vergonha, como se a vergonha não fosse própria da natureza humana.
Assim o é com a angústia, a revolta, a indignação. A capacidade
de se indignar ou de se envergonhar não deve ser uma vanglória da
moral, mas um afeto de alguma coisa inadequada, de que algo realmente
importa.
“O
sentimento de vergonha é sinal de que algo ainda importa.
Importar-se é, a propósito, tantas vezes, o nome próprio da
inadequação. Inadequado é quem, por um motivo ou outro, começou a
pensar. 'Adequado' é, neste sentido, o sem-vergonha. Seria aquele
que se entrega à prática abstratamente, aquela prática sem
pensamento na qual o outro não é considerado”(idem, p. 147).
Dessa
maneira, o fingimento, a mentira pela mentira, a informação pela
informação e a exposição da intimidade em redes sociais são
experiências insuportáveis para o inadequado que, movido pela
vergonha, subverte o status quo
de uma realidade conformada com seus vícios sociais e políticos,
além disso, gera nele mesmo uma indignação muito pessoal e
subjetiva de se perguntar, ressentir, inquietar-se.
Muito
interessante perceber que a
vergonha é um sentimento que acontece quando mais nos envolvemos com
as demandas do mundo, onde quer que estejamos, ou em casa no quarto
sozinho, no trabalho quando
há ausência de profissionalismo
ou nas
ruas
em manifestações ordeiras reclamando direitos sociais, preservação
das instituições e da democracia, pedindo urgentemente reformas de
ordem política e etc.
Às vezes, basta uma notícia
de violência, agressão ou mais uma de escândalos de corrupção
política para nos envergonhar interiormente.
Portanto,
o viés político estimulado pelo sentimento de vergonha é algo que
não podemos perder, justo numa sociedade cada vez mais insensível
aos exercícios de cidadania e participação democrática. Se não
pelo ativismo, pela práxis, ao menos pelo sentimento de vergonha
a política mexa conosco.
Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Locke (1632-1704), Da importância do governo para os indivíduos em sociedade
"Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder? Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a fruição do mesmo é muito incerta e está constantemente exposta à invasão de terceiros porque, sendo todos reis tanto quanto ele, todo homem é igual a ele, e na maior parte pouco observadores da equidade e da justiça, a fruição da propriedade que possui nesse estado é muito insegura, muito arriscada. Estas circunstâncias obrigam-no a abandonar uma condição que, embora livre, está cheia de temores e perigos constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de 'propriedade'."
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. Trad. Anoar Aiex e E. Jacy Monteiro: Abril Cultural, 1978, cap. IX, p. 82 (Coleção "Os Pensadores").
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. Trad. Anoar Aiex e E. Jacy Monteiro: Abril Cultural, 1978, cap. IX, p. 82 (Coleção "Os Pensadores").
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Filmaço: "LEVIATÃ"
Com características inspiradas na criatividade russa, "Leviatã" deve ser
um filme interessante do ponto de vista filosófico porque explora a
condição humana no mundo e lembra basicamente a obra de Thomas Hobbes.
Programação para as férias. "Leviatã", filme inspirado também no livro de Jó. Daí sua relevante ênfase na condição humana. Vale a pena. Muito bom.
LAÇOS HUMANOS
Quase sempre somos flagrados de cabeças baixas com os dedos subindo e descendo pela tela de um tablet ou celular. O constrangimento é imediato, até porque devíamos nos cumprimentar ou nos relacionar com pessoas, ao invés de grudar os olhos em nossas máquinas. Lembro-me que uma vez, espantada, uma senhora bastante idosa me perguntou: "Jackis, por que as pessoas estão tão enfiadas com a cara nessas coisas?" Ao que respondi: "Estão conversando com outras pessoas, pesquisando, ouvindo música, assistindo vídeos ou fazendo qualquer outra coisa. Tentei justificar que esses aparelhos oferecem muitas opções". Fingindo ter entendido, a senhora fez um sinal negativo com a cabeça, e mudou de assunto.
Por incrível que pareça, ainda há muita gente que está fora desse processo de inclusão tecnológica, ou por que simplesmente não quer ou não tem oportunidades ou se sente mais feliz sem essas supermáquinas.
Dados do IBGE apontam que 130,8 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade tinham telefone móvel celular para uso pessoal já em 2013.
Só pra termos uma ideia, segundo fonte da http://www1.folha.uol.com.br/…/1476690-numero-de-brasileiro…, o número de brasileiros que acessa a internet por telefone celular atingiu 52,5 milhões em 2013.
O impacto desses números nas relações humanas é muito forte, produzindo assim uma massa bem significativa de gente que está mudando o comportamento em função do virtual.
"Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: 'Sempre se pode apertar a tecla de deletar'" (BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. p. 13.).
Crianças, jovens, adultos e até mesmo idosos ostentam em suas redes sociais uma lista interminável de milhares de amigos, porém, esquecem que são relações virtuais, muito fáceis de entrar e sair, de serem desmanchadas. Num clique podemos bloquear ou desbloquear alguém, ao ponto de manipularmos as relações como se fossem um simples jogo. Quanta fragilidade! Apenas um clique pode nos deixar sem nem um amigo.
Laços humanos, não tão duradouros quanto antes, se desfazem rapidamente na liquidez de nossa modernidade, no dizer do sociólogo alemão Bauman. Para ele, as pessoas se comportam como se estivessem sobre uma fina camada de gelo. Se não passarem velozmente por ela correm o risco de afundarem no lago. Eis a ambivalência: segurança e liberdade.
Bauman afirma que a nova modalidade de amizade proposta pelo Facebook, por exemplo, é atrativa porque oferece para nós uma forma fácil de entrar e sair de uma relação em rede. Diferente da concepção de rede, os laços humanos geram infinitas discussões, sentimentos de culpa, mentiras, consequências traumáticas para serem possivelmente desfeitos.
Conectar e desconectar uma pessoa de sua vida virtual parece ser bem mais fácil, agora fazer e desfazer laços humanos nos moldes da vida real e de suas implicações é muito mais difícil.
O problema é que tem muita gente misturando uma relação em rede (forjando uma outra espécie de amizade) com a concepção de laços humanos, o tradicional modelo de amizade.
Jackislandy Meira de M. Silva. Professor, filósofo e teólogo.
www.umasreflexoes.blogspot.com.br / www.chegadootempo.blogspot.com.br
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Bom humor
De Kundera, mais bom humor.
"Ah, o bom humor! Você nunca leu Hegel? Claro que não. Você nem sabe quem ele é. Mas nosso professor que nos inventou me forçou a estudá-lo noutros tempos. Em sua reflexão sobre o cômico, Hegel disse que o verdadeiro humor é impensável sem o infinito bom humor, ouça bem, é o que ele diz com todas as letras: 'infinito bom humor'. Nada de zombaria, nada de sátira, nada de sarcasmo. Somente das alturas do infinito bom humor é que você pode observar abaixo de si a eterna tolice dos homens e rir dela." (in A festa da insignificância, p. 90).
"Como encontrar o bom humor?" (idem).
"Ah, o bom humor! Você nunca leu Hegel? Claro que não. Você nem sabe quem ele é. Mas nosso professor que nos inventou me forçou a estudá-lo noutros tempos. Em sua reflexão sobre o cômico, Hegel disse que o verdadeiro humor é impensável sem o infinito bom humor, ouça bem, é o que ele diz com todas as letras: 'infinito bom humor'. Nada de zombaria, nada de sátira, nada de sarcasmo. Somente das alturas do infinito bom humor é que você pode observar abaixo de si a eterna tolice dos homens e rir dela." (in A festa da insignificância, p. 90).
"Como encontrar o bom humor?" (idem).
A beleza da insignificância
"(...) Queria lhe falar então Quaquelique. Meu grande amigo. Você não
o conhece. Eu sei. Pois bem. Agora, a insignificância me aparece sob um
ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte,
mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da
existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente
mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas,
nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la
em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata
apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso
aprender a amá-la. Aqui, neste parque, diante de nós, olhe, meu amigo,
ela está presente com toda sua evidência, com toda sua inocência, com
toda sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação
perfeita... e completamente inútil, as crianças rindo... sem saber por
quê, não é lindo? Respire, D'Ardelo, meu amigo, respire essa
insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave
do bom humor..." (KUNDERA, Milan. A festa da insignificância. São
Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 132).
Simplesmente maravilhoso. De uma graça e bom humor impecáveis. Um texto gostoso de ler.
Novo longa do Pequeno Príncipe
Trailer do novo longa de "O pequeno príncipe" é lançado, mas o filme chegará mesmo aos cinemas apenas em outubro de 2015. Segue o Trailer.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Da unidade Os desculpantes...
“Se sentir
ou não se sentir culpado. Acho que tudo depende disso. A vida é uma luta de
todos contra todos. É sabido. Mas como essa luta acontece numa sociedade mais
ou menos civilizada? As pessoas não podem se atirar umas sobre as outras sempre
que se encontram. Em vez disso, tentam jogar no outro o constrangimento da
culpabilidade. Ganhará aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perderá
aquele que reconhecer sua culpa. Você vai pela rua, mergulhado em pensamentos.
Em sua direção vem uma moça, como se estivesse sozinha no mundo, sem olhar nem
para a esquerda nem para a direita, indo direto em frente. Vocês se esbarram. Eis
o momento da verdade. Quem vai insultar o outro, e quem vai se desculpar? É uma
situação-modelo: na realidade, cada um dos dois é ao mesmo tempo o que sofreu o
esbarrão e o que esbarrou. E, no entanto, há os que se consideram,
imediatamente, espontaneamente, os que esbarraram, portanto culpados. E há os
outros, que se veem sempre, imediatamente, espontaneamente, como os que
sofreram o esbarrão, portanto no seu direito de acusar o outro e de fazer com
que este seja punido. Você, numa situação como essa, você se desculparia ou
acusaria?”
(KUNDERA,
Milan. A festa da insignificância. 1ª
ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 54)
domingo, 7 de dezembro de 2014
Walter Benjamim e a "Angelus Novus" de Klee
De Gershom Scholem,
poema sobre a "Saudação do Angelus", escrito a partir do quadro de
Paul Klee, "Angelus Novus" e que foi enviado para o filósofo Walter
Benjamin no dia de seu aniversário em 15 de julho de 1921.
"Aqui da
parede, nobre, / não pouso o olhar em ninguém, / venho do céu que vos cobre /
sou homem-anjo do Além // No meu reino o homem é bom / mas não é nele seu
aposto / recebo do Alto o dom / e não preciso de rosto // A região de onde vim
/ tem medida e luz sem fundo: / o que me faz ser assim / é prodígio do vosso
mundo // Dentro de mim está a urbe / para onde Deus me mandou / o anjo com este
selo / nunca ela o deslumbrou // Minha asa está pronta para o voo altivo: / se
pudesse, voltaria / pois ainda que ficasse tempo vivo / pouca sorte teria // Os
meus olhos são negros e fundos / e nunca se esvazia o meu olhar / sei muita
coisa deste mundo / sei o que venho anunciar // Não sou simbólico nem trágico
/significo o que sou, é tudo / em vão giras o anel mágico / pois em mim não há
sentido". (in BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Trad. de João Barreto.
2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 14, [N.T.])
sábado, 6 de dezembro de 2014
Casa aberta
Mais do que em todos os dias e em grandes momentos do ano,
as festividades natalinas e as ligadas ao Réveillon
causam em nós uma sensação diferente. E o mais interessante é que não apenas
representamos ou idealizamos estes eventos, mas os concretizamos, fazemos
acontecer momentos de inteira generosidade, gratidão a Deus e às pessoas com as
quais convivemos. Expressões de paz, amor, bondade, alegria e esperança nos
conectam uns aos outros de uma forma tão objetiva que somos movidos para gestos
de exuberância humana: Trocamos presentes; organizamos jantares beneficentes; sorteamos
cestas natalinas; realizamos passeios ou viagens com quem amamos; abrimos a
casa, etc. Sem contar as centenas de beijos e abraços muito comuns desta época
do ano.
Essa sensação extremamente humana nos faz lembrar de como
deve ser um lar. Não, às vezes, de como ele é, sujo, violento, insuportável,
detestável, mas de como deveria ser, limpo, pacífico, agradável, seguro,
acolhedor. A casa da gente precisa ser bem tratada, principalmente em tempos de
festa, quando recebemos pessoas queridas que não víamos há anos. É preciso
olhar mais para casa, onde as distâncias diminuem e tudo fica mais próximo. É
exatamente o que acontece agora, no devido instante em que somos arrancados de
nosso próprio mundo, de um mundo fechado, totalitário, racionalista, egoísta
para nos relacionarmos com o que há para além de nós mesmos, alcançando assim
uma abertura para a alteridade, uma abertura infinita.
Emmanuel Levinas, filósofo, leitor da Bíblia e de
Dostoievski, entendia a casa como um ponto de referência, segundo a qual o eu
vai em direção à exterioridade do mundo. “O
papel privilegiado da casa não consiste em ser o fim da atividade humana, mas
em ser a condição e, nesse sentido, o seu começo” (Totalidade e Infinito, p. 144).
A casa que sou eu e a casa que é o mundo vivem agora uma conexão tão intensa a
ponto de um querer humanizar o outro e vice-versa. “Simultaneamente fora e dentro, vai para fora a partir de uma
intimidade. Por outro lado, a intimidade abre-se dentro de uma casa, que se
situa nesse fora” (idem, p. 145).
A ilustração da casa, sugerida por Levinas, para demonstrar
a pertinência de nossas relações com os excluídos, com as minorias
desfavorecidas, os pobres, a viúva, o órfão e o estrangeiro é cada vez mais
significativa e atual. A recorrente imagem da “casa aberta”, neste período do
ano, tal como deve ser em toda a vida, receptiva ao outro, é muito viva na
música de Arnaldo Antunes, “a casa é sua”:
Não me falta cadeira/ Não me falta sofá /Só falta você/
sentada na sala/
Só falta você estar
Não me falta parede/ E
nela uma porta pra você entrar/ Não me falta tapete/ Só falta o seu pé descalço pra pisar
Não me falta cama/ Só
falta você deitar/ Não me falta o sol da manhã/ Só falta você acordar
Pras janelas se
abrirem pra mim/ E o vento brincar no quintal/ Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal
Balançando as cores no varal
A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Não me falta banheiro,
quarto/ Abajur, sala de jantar/ Não me falta cozinha/ Só falta a campainha
tocar
Não me falta cachorro/
Uivando só porque você não está/ Parece até que está pedindo socorro
Como tudo aqui nesse lugar
Como tudo aqui nesse lugar
Não me falta casa/ Só
falta ela ser um lar/ Não me falta o tempo que passa/ Só não dá mais para tanto
esperar
Para os pássaros
voltarem a cantar/ E a nuvem desenhar um coração flechado/ Para o chão voltar a
se deitar/ E a chuva batucar no telhado
Numa sociedade imensamente carente de referências, a casa
cheia de gente, onde as famílias se encontram e se transformam a cada encontro,
é a realização de qualquer Natal e passagem de ano para alguém, na medida em
que simboliza recomeço, renovo, revitalização. Também é uma oportunidade de
resgate das referências familiares, a partir das quais ressignificamos nosso
mundo, nossa casa, nosso lugar no mundo e passamos a ser mais humanos com
respeito, amor, tolerância, bondade, justiça e paz.
Enquanto escrevia esse texto, duas figuras clássicas da
literatura não me saíam da cabeça, a do filho pródigo usada por Jesus Cristo e a
de Ulisses usada por Homero. As duas falam desse regresso ao lar e,
curiosamente, a casa estava aberta, no sentido de mostrar uma nova maneira de
reaprender a ver o mundo.
Jackislandy Meira de M. Silva, professor, filósofo e
teólogo.
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