sexta-feira, 27 de julho de 2012

A vida rural refletida na Cerimônia de Abertura dos jogos de Londres


"Não tenhas medo; esta ilha é sempre cheia de sons, ruídos e agradáveis árias, que só deleitam, sem causar-nos dano. Muitas vezes estrondam-me aos ouvidos mil instrumentos de possante bulha; outras vezes são vozes, que me fazem dormir de novo, embora despertado tenha de um longo sono. Então, em sonhos presumo ver as nuvens que se afastam, mostrando seus tesouros, como prestes a sobre mim choverem, de tal modo que, ao acordar, choro porque desejo prosseguir a sonhar"(Shakespeare, cena II de A tempestade, voz de Calibã).

Estas palavras foram o ponto alto da Cerimônia porque ganharam vida pela força da transformação que a Revolução Industrial provocou na sociedade britânica. O diretor e cineasta Danny Boyle, uma das maiores autoridades na dramaturgia de Shakespeare, soube como ninguém encarnar esse texto sobre as origens e potencialidades da Grã-Bretanha, antes uma ilha, mas que se agigantou na literatura, na indústria, na economia, nos esportes, no cinema,  na música, enfim...

"A cerimônia é uma tentativa de capturar a nós mesmos(Reino Unido) como país, de onde viemos e onde queremos estar"(Danny Boyle).

A pira olímpica que finalmente é acesa no centro de Londres, declarando oficialmente a abertura dos jogos.

Olimpíadas e Revolução Industrial

Do cenário campesino, surgem gigantescos chaminés que dão ideia ao público do que realmente foi a Revolução Industrial para esses povos.

Homenagem a Harry Potter


Visão panorâmica dos jogos de Londres 2012


Festa da delegação brasileira em Londres 2012

Na abertura dos jogos olímpicos 2012, a delegação brasileira ajuda a coroar tamanha festa que enche nossos olhos de cultura, história, arte, tecnologia, música e cinema.

Boletim "O dia d" de Florianópolis/SC publica artigo PENSAR PELO ESTÔMAGO

O renomado boletim "O dia d" semanal editado pelo centro de Filosofia Educação para o Pensar de Florianópolis/SC, Ano 5, nº 275, de quinta-feira, dia 26/07/2012, publicou mais um texto do Prof. Jackislandy Meira que discute sobre PENSAR PELO ESTÔMAGO. Veja abaixo o boletim e mais abaixo ainda clique no link do site desta página que, dentre outros artigos, traz sugestões impressionantes de cursos, bem como o convite para a leitura do riquíssimo jornal "Corujinha" com matérias formidáveis de práticas filosóficas nas escolas e em nosso cotidiano.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Comprar o voto é o mesmo que tomar água?


A compra e venda de votos nas eleições tornaram-se tão banais quanto tomar água. Como coibir essa prática?

Geógrafo Júnior Galdino lança CD "Canções da Minha Fé"

O geógrafo Júnior Galdino  está divulgando a capa do seu mais novo trabalho musical, intitulado Canções da Minha Fé. "Este CD é resultado de um árduo trabalho junto com os amigos Wendell Azevêdo e Daniel Medeiros". Falou Júnior.



No Blog Coisas da Florânia, Júnior disse: "Posso sintetizar esse projeto como: Gratidão, Meditação e Oração. A Rádio Comunitária Ibiapina já está tocando as faixas de trabalho: A Ladeira, Hino do Santuário das Graças, O Escudo – A Voz da Verdade e A Traição(Zé Leão)". Concluiu.




Em breve estaremos disponibilizando todas as canções para baixar nas redes sociais, blog’s e sites.
 

Éros e paideia: Alcebíades e Sócrates no Banquete


O Prof. Gabriele Cornelli, com cândida felicidade, nos permite refletir sobre uma personagem riquíssima e emblemática da literatura platônica porque arrebata a todos os convivas do Sympósion(Banquete) com sua famosa declaração de amor a Sócrates. Alcebíades é esta personagem extremamente dramática e arrebatadora, segundo a qual, Cornelli, in Seduzindo Sócrates: retórica de gênero e política da memória no Alcebíades platônico, abre o leque de possibilidades para uma acertada construção dos reais motivos que tenham injustamente levado Sócrates à morte, bem como, a partir do diálogo Banquete, investiga o desenho do tecido dramático e retórico dos discursos entre paideia e éros, de modo especial, como já disse, pinta um belo quadro da relação entre Sócrates e Alcebíades.
Especificamente, na altura do texto sobre a política da memória no Alcebíades, Cornelli aponta, para além dos outros simposiarcas e através dos discursos eróticos, para algo muito preciso: Uma relação significativa entre Sócrates e Alcebíades(Cf. p. 09). Segundo Cornelli, todos os discursos do Banquete ansiavam e sentiam falta da entrada da própria máscara do amante, encarnação de Eros: Alcebíades. No dizer de Cornelli, Platão parece conseguir fazer convergir todos os discursos para o mise-en-scène final da entrada de Alcebíades. Veja que Alcebíades, embriagado, muda o rumo do jogo do diálogo dos erotikoí lógoi, admitindo falar só de Sócrates, isto é, somente da verdade. Há uma mudança na conversa: da teoria para a história, do elogio para a verdade(uma verdade dionisíaca, marcada pela mania e parresía da embriaguez):
“Ouve então, disse Erixímaco. Entre nós, antes de chegares, decidimos que devia cada um à direita proferir em seu turno um discurso sobre o Amor, o mais belo que pudesse, e lhe fazer o elogio. Ora, todos nós já falamos; tu porém como não o fizeste e já bebeste tudo, é justo que fales, e que depois do teu discurso ordenes a Sócrates o que quiseres, e este ao da direita, e assim aos demais.
Mas, Erixímaco! tornou-lhe Alcibíades, é sem dúvida bonito o que dizes, mas um homem embriagado proferir um discurso em confronto com os de quem está com sua razão, é de se esperar que não seja de igual para igual. E ao mesmo tempo, ditoso amigo, convence-te Sócrates em algo do que há pouco disse? Ou sabes que é o contrário de tudo o que afirmou? É ele ao contrário que, se em sua presença eu louvar alguém, ou um deus ou um outro homem fora ele, não tirará suas mãos de mim.
Não vais te calar? disse Sócrates.
Sim, por Posidão, respondeu-lhe Alcibíades; nada digas quanto a isso, que eu nenhum outro mais louvaria em tua presença.
Pois faze isso então, disse-lhe Erixímaco, se te apraz; louva Sócrates.”(PLATÃO. O Banquete ou Do Amor. Trad. J. Cavalcante de Souza. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 181, 214c-d).
O fio condutor de leitura do grande novelo da obra platônica, o Banquete, proposto por Cornelli é um dado bastante inovador, haja vista sua preocupação política, literária e histórica com que delineia toda a investigação, não só teorética, mas profundamente prática, recheada de detalhes. Num destes detalhes, o que me salta aos olhos é o caso da travessura das hermas e suas implicações histórico-políticas para o tempo de Sócrates: “Enquanto Sócrates e outros passam a noite bebendo em casa, e moderadamente, Alcebíades chega de madrugada, bêbado e – é o que sugere o texto – tendo perambulado por Atenas em estado alterado. Não era preciso muita fantasia para um ateniense imaginar Alcebíades e os seus, bêbados, cometendo qualquer tipo de profanação. A insistência de Platão com esta versão deve ser também um dos motivos da narração da segunda interrupção do banquete, no final dele(223b), realizada também por diversos outros jovens bêbados. Isto é, Platão parece querer insistir em representar em seu diálogo noites de baderna na rua, e justamente na época da mutilação das hermas, referendando assim a versão mais light relativa aos motivos que estavam por trás do sacrilégio.(...) Nas fontes da época, de fato, a suspeita pela profanação não recaía tanto sobre jovens bêbados: ao contrário, pensava-se mais facilmente em um complô, urdido de maneira articulada, por grupos que, querendo com isso enfraquecer a confiança de Atenas e sua democracia num momento tão delicado de sua história, pretendiam com isso restaurar a oligarquia ou a tirania”(CORNELLI, Gabriele. Seduzindo Sócrates: retórica de gênero e política da memória no Alcebíades platônico.UnB. p. 11)
Não nos esqueçamos que o ilustre Alcebíades estava em plena prosperidade política à frente do movimento democrático de então. Sob o fascínio daquela beleza interior mencionada no Sympósion, o ambicioso e belo jovem Alcebíades tenta conquistá-la, através do lógos socratikós, na estranha ideia de cumular o acervo de seus dotes e atingir assim a plenitude de poder nos negócios da pólis. Político arrebatador das Assembleias, Alcebíades extravasa na bebida e na declaração de amor a Sócrates, uma vez que o mesmo não corresponde ao afeto que lhe é dedicado.
Todavia, o elogio de Sócrates por Alcebíades, conforme G. Cornelli, pode ser considerado mais uma apologia do primeiro. “Se pense, por exemplo, ao próprio uso das imagens das estátuas dos silênos, que ilustram a necessidade de superar a aparência, a máscara histórica incômoda de Sócrates, para olhar para uma verdade sobre sua vida e seu legado, que ainda permanece escondida para a maioria. Pois afirma Alcebíades 'nenhum de vocês o conhece'(216c-d). Não é difícil pensar que, na voz de Alcebíades, seja o próprio Platão a dizer isso para Atenas”(idem, p. 15).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB em parceria com Archai Unesco.



domingo, 22 de julho de 2012

Filósofo declara que a política precisa se abrir à religião

Michael Sandel

A versão impressa da revista Época desta semana exibiu uma entrevista com o professor de filosofia da universidade de Harvard (considerada a melhor universidade do mundo pelo Institute of Higher Education Shanghai Jiao Tong University), o americano Michael Sandel. Na publicação, ele declara que a política precisa se abrir à religião e acolher as convicções religiosas no debate público.
Sandel afirma que os princípios e a moral são bem-vindos ao debate público – mesmo que tenham origem na fé. “Não acredito que possamos ou devamos insistir numa separação completa entre política e convicções religiosas. Por dois motivos. O primeiro: é verdade que a religião pode trazer para a política intolerância e dogmatismo, mas também é verdade que não apenas as convicções religiosas trazem esses males. Algumas ideologias seculares também geram problemas do mesmo tipo. O que devemos isolar da política, então, é a intolerância e o dogmatismo, seja qual for sua fonte, para que possamos nos respeitar e debater, cultivando uma ética de respeito democrático”.
“Meu segundo motivo para não insistir nessa separação completa entre política e religião é que a política diz respeito às grandes questões e aos valores fundamentais. Então, a política precisa estar aberta às convicções morais dos cidadãos, não importa a origem. Alguns cidadãos extraem convicções morais de sua fé, enquanto outros são inspirados por fontes não religiosas”, disse o filósofo.

Pr. Silas Malafaia comenta:
Há quase 28 anos na televisão, eu venho dando consciência de cidadania ao povo evangélico. Fico rindo quando vejo gente me criticando agora, que talvez nem era nascido ou era muito pequeno, e com o advento da internet passaram a criticar e denegrir qualquer um que confronte suas ideias, estilos de vida ou convicções políticas e teológicas. Também passaram a fazer isso por simples inveja e “dor de cotovelo” do sucesso que alguém conquista no ministério, graças à benção de Deus, sem isso ninguém vai a lugar nenhum, e também muito trabalho e esforço.
Mediante a isto, coloco mais uma vez minhas convicções sobre a questão política e religião, que tem a ver com nosso segmento social que é religioso, pois somos evangélicos.
Vejamos então:
1) Jesus declarou: “Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus”. César representa o poder político e Jesus não o chamou de diabo, como muitos cristãos fazem. Simplesmente mostrou nosso compromisso com a cidadania humana e celestial.
2) O apóstolo Paulo diz em Romanos 13.7: “… a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto…” Ele está reafirmando o compromisso da cidadania. Ser cidadão indica ter direitos e deveres, entre os quais: votar e ser votado.
3) A igreja de Jesus, como corpo místico de Cristo, não precisa de político nenhum. Só depende do Espírito Santo para que ela possa realizar a obra de Deus aqui na Terra. Mas as pessoas que pertencem à igreja, são seres humanos, inseridos no contexto social, a fim de influenciar em todas as áreas da nossa sociedade. Paulo diz: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento…”. Se nos omitirmos, os filhos das trevas vão influenciar e determinar sobre a vida social. E como consequência, seremos atingidos!
4) Existe um jogo pesado e creio que satanás está por trás disto. Todos podem influenciar na política: metalúrgicos, médicos, filósofos, sociólogos etc. Todo tipo de ideologia, inclusive a ideologia humanista/materialista, que nega a existência de Deus, pode influenciar na política. Mas o estilo de vida cristã, não! Isto é um absurdo! O povo de Deus não pode cair neste jogo. As nações mais poderosas e democráticas do mundo foram influenciadas, em todas as suas instâncias, pelo cristianismo.
5) Eu não fui levantado para ser político, mas, sim, para influenciar em todos os campos da vida. Qualquer pastor tem autoridade bíblica para orientar as ovelhas de Jesus em todas as áreas, porque Deus trata o homem como um ser biológico, psicológico, sociológico e espiritual. O que não concordamos é com nenhum tipo de extremismo religioso que queira cercear a liberdade das outras pessoas, mesmo contrárias aos nossos princípios.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A ceia da política brasileira


Nelson Rodrigues inventou o óbvio - Arnaldo Jabor

Os 100 anos de Nelson Rodrigues estão sendo celebrados por muita gente que o criticou em vida e hoje o glorifica. Tanto as depreciações quanto alguns louvores são descabidos - ele não era nem pornográfico nem um escritor aspirando à condição de estátua. Nelson adorava elogios, mas odiava os "medalhões".

NR é importante como inventor de linguagem. A importância de sua obra está onde ela parece 'não ter' importância. Onde ela é menos "profunda" - ali é que se encontra uma qualidade rara. Era fácil (e justo) considerar 'gênios' homens como Guimarães Rosa ou Graciliano, mas Nelson nunca coube nos pressupostos canônicos. Sua obra é um armazém, um botequim geral, uma quitanda de Brasil.

Formado nas delegacias sórdidas, vendo cadáveres de negros 'plásticos e ornamentais', metido no cotidiano marrom do jornal do pai, Nelson flagrou verdades imortais que estavam ali, no meio da rua, na nossa cara, e que ninguém via.

Uma vez ele me disse: "Se Deus perguntar para mim se eu fiz alguma coisa que preste na vida, eu responderei a Deus: 'Sim, Senhor, eu inventei o óbvio!'"

Filho do jornalismo policial, Nelson desconstruía o pedantismo tão comum entre nossos escritores.
Uma vez ele me disse ao telefone que o "problema da literatura nacional é que nenhum escritor sabe bater um escanteio": ensolarada imagem esportiva para definir literatos folgados. Até hoje, muita gente não entendeu que sua grandeza está justamente na observação dos detritos do cotidiano. A faxina que Nelson fez no teatro e depois na prosa é semelhante à que João Cabral fez na poesia. Nelson baniu as metáforas a pontapés "como ratazanas grávidas" e criou antimetáforas feitas de banalidades condensadas. "A poesia está nos fatos", como escreveu Oswald no Pau Brasil. Pois é, Nelson também odiava metáforas gosmentas. Suas imagens não aspiravam ao "sublime". Exemplos: "O torcedor rubro-negro sangra como um César apunhalado", "a mulher dava gargalhadas de bruxa de disco infantil", "seu ódio era tanto que ele dava arrancos de cachorro atropelado", "a bola seguia Didi com a fidelidade de uma cadelinha ao seu dono", "o juiz correu como um cavalinho de carrossel", "o sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura", "somos uns Narcisos às avessas que cuspimos na própria imagem", "vivemos amarrados no pé da mesa bebendo água numa cuia de queijo Palmira", "hoje o brasileiro é inibido até para chupar um Chica Bon".

Visto por ele, tudo boiava no mistério: os ovos coloridos de botequim, as falas dos 'barnabés', as moscas de velório no nariz do morto. Nelson fazia a vida brasileira ficar universal, não por grandes gestos, mas pelo minimalismo suburbano que ele praticava. E o sublime aparecia na empada, na sardinha frita ou no torcedor desdentado.

Sua obra é um desfile de tipinhos anônimos, insignificantes - nisso aparecia sua grandeza desprezada. São prostitutas bondosas, cafajestes poéticos, canalhas reluzentes, vagabundos épicos, sobrenaturais de almeida, adúlteras heroicas e veados enforcados. Ele me dizia: "O que estraga a arte é a unidade..."
Ele dava lições de arte e literatura: "Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. A partir do momento em que deixou de ser tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões, pois a obra-prima no futebol e na arte tem de ser imperfeita." Existe coisa mais 'contemporânea'?
Gilberto Freyre sacou sua "superficialidade profunda", assim como André Maurois entendeu que a genialidade de Proust era "a épica das irrelevâncias..." E isto é muito saudável, num país onde ninguém escreve um bilhete sem buscar a eternidade.

Nunca deixava a literatura prevalecer sobre a magia dos fatos. Sempre um detalhe inesperado caricaturava os dramas. No meio da tragédia, vinha a gíria; no suicídio - o guaraná com formicida; no assassinato - a navalhada no botequim; na viuvez - o egoísmo; nos enterros - a piada.
Uma vez, me contou que viu uma família esperando num hospital a notícia sobre um filho atropelado. Morreu ou não? Afligiam-se todos, vistos pelo Nelson através do vidro do corredor. Viu o médico chegar e dizer que o menino tinha morrido. "Eu vi pelo vidro. Não ouvi um som. A família começou a se contorcer em desespero. Pai, mãe, tios gritavam e, através do vidro, pareciam dançar. Pareciam dançar um mambo. Daí, eu concluí a verdade brutal: a grande dor dança mambo!..."

Nelson recusava teorias. Contou-me um episódio hilário: uma vez o Oduvaldo Viana Filho e Ruy Guerra, grandes artistas, chamaram-no para escrever um roteiro de filme sobre uma mulher adúltera. Nelson foi trabalhar com eles, mas desistiu e me disse: "Parei, porque eles queriam que a adúltera fosse para a cama do amante e traísse o marido movida apenas pelas 'relações de produção'...."

Ele intuiu na época que a vulgata do marxismo era o ópio dos intelectuais. Foi chamado de fascista porque puxava o saco do Médici, para ver se soltava o filho preso havia anos. Eu mesmo sofri por causa dele; em 1973 ousei filmar Toda Nudez Será Castigada e dei uma entrevista na Veja em que disse que "fascismo é amplo: existe fascista de direita e de esquerda também". Pra quê? Mandaram um manifesto à revista onde me esculhambavam indiretamente, dizendo que o sucesso imenso que o filme fazia "não era a missão do cinema novo". Foi das grandes dores que senti, pois até amigos assinaram o maldito texto, que só não foi publicado porque, um dia antes, os generais tiraram o filme de cartaz, com soldados de metralhadora, levando as cópias dos cinemas. Aí, meus amigos comunas tiraram o texto, "para não dar razão ao inimigo principal", que era a ditadura, a censura. (Eu e Nelson éramos inimigos secundários, para usar o termo de Mao Tsé-tung). O filme voltou ao cartaz porque ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim e os generais ficaram com medo da repercussão e liberaram a exibição.

Se fosse vivo, ao ver os escândalos atuais, repetiria a frase eterna: "Consciência social de brasileiro é medo da polícia."
 
E-mail: arnaldo.jabor@estadao.com.br

Estadão
O Globo
22/05/2012 

De LETICIA WIERZCHOWSKI - Sobre Gabo

Gabriel García Márquez já não voltará a escrever. Numa conferência literária em Cartagena das Indias, Jayme, irmão mais novo do escritor, contou à imprensa que García Márquez está bem de saúde, mas, aos 85 anos, perdeu a memória.

Cem Anos de Solidão marcou a minha adolescência e plantou em mim uma semente. Ainda lembro de uma invernal tarde de sábado, e eu, tendo retornado da biblioteca e buscado refúgio num sofá perto da janela, viajava para muito longe daquela nossa casa guiada pela narrativa de García Márquez.

Lá estava eu em Macondo, com Úrsula Buendía e sua fábrica de pirulitos – os galinhos e peixes açucarados que, duas vezes por dia, se espalhavam pela cidade, levando com eles a peste da insônia. As mil possibilidades criativas aninhadas em cada pequeno parágrafo, o modo como García Márquez dobrava e desdobrava a realidade ao seu gosto, fascinaram-me sem volta. Aquilo era o realismo mágico – mas, aos 14 anos, eu não sabia disso nem precisava saber...

O que contava era a viagem, era o autor levando o seu leitor para uma aventura por um mundo novo, um mundo de palavras construído no viés da realidade, uma terra de criaturas extraordinárias, humanas e fantásticas em igual medida. Acho que fiquei grudada naquele sofá até o dia seguinte, quando terminei de ler a saga dos Buendía. Acho que choveu muito naquele final de semana, acho que fazia frio... A memória da vida real apagou-se de mim, ficando apenas o livro de García Márquez tal e qual eu o li pela primeira vez.

E agora Gabo tem demência senil. Assim como o seu famoso patriarca em Cem Anos de Solidão, José Arcadio Buendía, García Márquez vem esquecendo nomes, fatos e lembranças. Não sei se usa do mesmo artifício que o seu varão, que marcou todas as coisas com o seu nome: bigorna, cadeira, copo, relógio, para assim manter a desmemória afastada de Macondo.

De tanto estudar as possibilidades do esquecimento, José Arcadio compreendeu que chegaria um dia em que, mesmo reconhecendo os nomes de cada coisa, eles haveriam de esquecer a sua utilidade. E então escreveu em cada coisa uma espécie de bula, tentando capturar a realidade na rede das palavras: esta é a vaca, tem-se que ordenhá-la todas as manhãs (...).

O inverso disso foi feito por García Márquez enquanto ele escreveu seus livros. Gabo criou as suas próprias, intrincadas e inesquecíveis realidades. As vacas de García Márquez podiam voar ou declamar poemas de Baudelaire, mas tudo o que faziam, inclusive dar leite, faziam-no de modo incrível.

ZERO HORA
19/07/2012 

domingo, 15 de julho de 2012

Do homem trágico, Platão concebe uma nova política


Acredita-se que o envolvimento de Platão no séc. IV a.C. com a tragédia grega não o impediu de criticá-la, sem deixar, de quando em vez, de recorrer a ela para fundar uma nova concepção de pólis, aquela da imitação das leis e dos costumes políades, a única tragédia admitida como verdadeira, ao invés da ética arcaica que exaltava o culto à coragem, à força, à honra, um modelo do cratos(força) e bia(violência) legitimado pelos deuses olímpicos:

Nós mesmos somos poetas de uma tragédia, e, por quanto se possa, da melhor
de todas, da mais bela; a nossa constituição inteira foi organizada como imitação
da vida mais nobre e mais elevada e dizemos que esta é na realidade a tragédia
mais próxima da natureza da verdade. Vocês são poetas, nós também somos
poetas, das mesmas coisas, rivais de vocês na arte e na representação do drama
mais belo que somente a verdadeira lei, por natureza, pode realizar, o que nos
esperamos neste momento. Não pensem, portanto, que com tanta facilidade,
permitiremos a vocês de plantar seus palcos em nossas praças e introduzir neles
atores de bela voz, que gritarão mais do que nos, não pensem que permitiremos a
vocês falar aos jovens, às mulheres e a todo o povo sobre os mesmos costumes
de maneira diferente da nossa.” (Leis VII, 817 b-c)

A única tragédia que Platão aprovará será portanto a tragédia verdadeira, aquela da imitação das leis e dos costumes políades. Seguindo os passos da tragédia, é possível conceber, sim, a alma trágica da cidade. Daí nasce a filosofia socrática, do confronto direto com a pólis e suas estruturas simbólicas e reais de sustentação do poder sobre o indivíduo, incluindo aí a própria filosofia. E nasce da recusa à pólis, uma vez que esta filosofia se define como uma descoberta da alma em composição com a cidade. Uma reflexão da alma para a agorá, como nos sugere Platão em Protágoras 313e.
Tal filosofia, ao dialogar com a sugestão da duplicidade da alma e ao invés de afirmar simplesmente o intelectualismo socrático ou a purificação órfico-pitagórica; a) constrói um novo modelo de alma humana, que, por aceitar sua “tragicidade”, resultará tripartida: Racional(logistikon), Agressiva(thymoeides) e Desejante(epithymetikon); b) reafirma, porém, a necessária composição entre alma e cidade, procurando para ambas, por homologia, a justiça como sua forma ordenada de existir.
Portanto, embora contra a tragédia, Platão acaba por aceitar e incorporar em sua reflexão à alma trágica como dado antropológico a partir do qual procura, via paideia, uma salvação possível que fosse da alma e da cidade ao mesmo tempo. Da alma trágica em tensão com a cidade, Platão concebe uma nova cultura, um novo homem.

Bibliografia: CORNELLI, G. (2010) Platão Aprendiz do Teatro: a Construção Dramática da Filosofia Política de Platão. Revista VIS (UnB), v. 9, p. 69-80.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB em parceria com Archai Unesco.


Muito cuidado na hora de curtir amizades no facebook


CHARGE - Benett

A "ética" dos corruptos - Renato Janine Ribeiro

 É ético um jornalista usar câmaras secretas para comprovar um crime que, depois, ele irá denunciar? Não discuto, aqui, a legalidade de sua ação, porque não tenho a formação jurídica necessária para me pronunciar sobre as leis e jurisprudência cabíveis no caso. Mas a questão adquire relevância diante do fato que movimentou a sociedade brasileira na semana que passou: a revelação, em imagens incontestáveis, de uma rede de corrupção atuando justamente nos hospitais - o que torna particularmente desumano o crime, porque está sendo cometido contra pessoas especialmente vulneráveis. Isso, além de ser uma área em que cronicamente falta dinheiro, até porque os custos com a saúde costumam subir mais que a inflação, em parte devido aos grandes avanços que a medicina tem conhecido.

O que é flagrante é a falta de ética das pessoas que vimos no "Fantástico" e no "Jornal Nacional". Os corruptos (vou chamá-los assim, embora tecnicamente não o sejam, porque não são servidores públicos) não mostraram nenhum pudor. Imaginando-se a salvo, foram francos. Duas afirmações me chocaram em especial. Primeira, quando uma senhora diz que está praticando "a ética do mercado". Mas o que ela faz não é nada ético. A não ser, claro, que use "ética" num sentido apenas descritivo, como quando se diz que a "ética do bandido" é matar quem o alcagueta, ou que a "ética do machista" é assassinar a esposa suspeita de adultério. Contudo, um dos ganhos dos últimos anos tem sido a redução desse emprego da palavra "ética", só descritivo. Cada vez mais, entendemos a ética como prescritiva, normativa, como exigente - não como a mera descrição de condutas praticadas em alguma área da ação humana. Uma expressão de Claudio Abramo, frequentemente citada pelos profissionais da imprensa, é significativa: "A ética do jornalista é a mesma do marceneiro, de qualquer pessoa".

Educando os filhos para também serem corruptos

Na verdade, até esperei, depois dessa frase sobre "a ética do mercado", que "o mercado" reagisse de alguma forma. Se ela dissesse que essa é a ética dos médicos, as associações não iriam protestar? É claro que "o mercado" não é um sujeito. Aliás, sua riqueza e eficácia estão, justamente, em ele não ser um sujeito único, mas uma rede em que se cruzam e medem inúmeros sujeitos. No entanto, aqui se coloca uma questão crucial, sempre presente quando se trata do capitalismo. Brecht tem a frase famosa: "O que é roubar um banco, em comparação com fundar um banco?" O capitalismo sempre esteve assombrado pela diferença entre o lucro obtido legítima e legalmente, e o que é extorsão, usura, roubo. Na Idade Média, a igreja cristã condenava a usura, dificultando as operações de financiamento. Por outro lado, com o capitalismo já consolidado, no final do século XIX um grupo de grandes empresários norte-americanos era chamado de "robber barons", barões ladrões, tal a sua desonestidade. Contudo, o mesmo capitalismo cresce graças a uma ética extremamente forte, que Max Weber, num livro clássico, aproximou do protestantismo. Na verdade, a distinção entre o lucro e a extorsão é crucial para o capitalismo. Um dos desafios para ele funcionar, e em especial para se tornar popular, é convencer a sociedade de que seu compromisso ético - com a construção da riqueza pelo trabalho e o esforço - supera seus deslizes, os quais serão rigorosamente punidos. Ou seja, "o mercado" precisa reagir. O debate sobre esse caso não pode ficar circunscrito à área política. "O mercado" foi injuriado, tem de responder.

O outro ponto assustador foi quando um dos personagens gravados disse que sempre ensinava a seus filhos a virtude da solidariedade. Disse isso com outras palavras, mas ele considerava digno de educar seus filhos na formação de quadrilha. Aqui, estamos diretamente na ética do crime. Mas, se na frase da senhora sobre o mercado podíamos ver alguma ironia ou resignação ("a vida como ela é"), na frase desse senhor se ouvia algo mais grave: a educação dos filhos, a construção do futuro segundo a ótica do criminoso. Uma coisa é resignar-se ao mundo como está e operar dentro dele. Outra, pior, é entender que ele não vai melhorar e, portanto, a melhor educação que se deve dar aos pequenos é ensiná-los a serem bandidos. Aqui, a tarefa afeta, em especial, os educadores profissionais, como os professores, e a multidão de educadores leigos, que são os pais e todos os que cuidam de crianças. Mas, antes mesmo disso, ela passa por uma pergunta cândida: podemos melhorar, em termos de sociedade, no que se refere ao respeito da lei e dos outros? É possível convencermo-nos, e convencermos os outros, de que seguir os preceitos éticos é absolutamente necessário? Ou viveremos nas exceções? E isso diz respeito a todos nós.

Ocorreu-me, uma vez, que no Brasil a lei tem papel mais indicativo do que prescritivo. Explico: todos concordamos que se deve parar no sinal verde - e a grande maioria o faz. Mas a pressa, o fato de não estar vindo um carro pela outra via, a demora no sinal "justificam" eventualmente passar no sinal vermelho. A lei deixa de ser lei para se tornar uma referência, apenas; ou, pior, algo que espero que os outros respeitem absolutamente, mas que infringirei quando me achar "justificado" a fazê-lo. Guiando desse jeito, vários pais mataram os próprios filhos - e isso continua acontecendo. Não precisaremos fortalecer, enquanto sociedade, a convicção de que para um bom convívio é preciso repudiar fortemente essas duas frases que, na sua euforia, os dois personagens pronunciaram sem saberem que estavam sendo gravados? Enquanto isso, obrigado aos repórteres que denunciaram esse crime.


Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Marcelo Gleiser - A ilusão do saber

Tanto Newton quanto Maxwell estavam certos: a luz é tanto uma partícula quanto uma onda



Muitas vezes o familiar oculta os maiores mistérios. Esse é o caso da luz, um fenômeno tão comum que quase ninguém dá muita bola para ele. Acordamos com ela todos os dias, ligamos e desligamos lâmpadas com descaso, raramente refletindo sobre a sua natureza, sobre o que está por trás dessa intensidade visível, porém impalpável, etérea, porém concreta, discreta, porém essencial.

No seu tratado sobre a luz intitulado "Óptica", publicado em 1704, Isaac Newton defende sua crença de que a luz é constituída de pequenas "partes": "Não são os raios de luz corpúsculos diminutos emitidos por corpos brilhantes?", pergunta. Sugere, além disso, que a luz viaja com velocidade finita, fazendo referência aos resultados de Ole Roemer, o qual, em 1676, mediu a velocidade da luz usando o eclipse de Io, uma das luas de Júpiter.

Em 1865, James Clerk Maxwell publicou o tratado "Teoria Dinâmica do Campo Eletromagnético", no qual descreve a luz como ondulações do campo eletromagnético.

A teoria explica conjuntamente a eletricidade e o magnetismo como manifestações do campo eletromagnético: uma carga elétrica produz um campo elétrico à sua volta, como cabelos rodeando uma cabeça. Tal como a gravidade, seu efeito cai com o quadrado da distância. Campos magnéticos são gerados quando cargas elétricas são aceleradas.

Uma rolha oscilando numa piscina cria ondas circulares. Imagine que a rolha é uma carga elétrica; ao oscilar, ondas eletromagnéticas são irradiadas concentricamente. (A carga as emite em três direções, e não duas.) Se a rolha subir e descer rápido, as ondas estarão próximas, terão frequência alta; se lentamente, a frequência será baixa.

Algo assim ocorre com as ondas eletromagnéticas, que podem ter altas e baixas frequências: o que chamamos de luz visível é um tipo de onda com frequências entre 400 e 790 Terahertz (1 Terahertz=1.012 ciclos/segundo). Já os raios X e gama têm frequências bem mais altas, enquanto o infravermelho e as micro-ondas têm frequências mais baixas.

Maxwell imaginou que, tal como ondas na água ou de som, a luz precisasse de um meio para se propagar. Esse era o estranho éter: transparente, imponderável e muito rígido, uma quase impossibilidade. Mas todos acreditavam nele, mesmo após os experimentos de Michelson e Morley não o terem encontrado.

Só em 1905 o jovem Einstein descartou o éter com a sua teoria da relatividade: ao contrário de todas as outras, as ondas eletromagnéticas podem se propagar no vazio. (É possível que ondas gravitacionais também o façam, assunto que fica para outra semana.)

Para complicar, a luz não tem massa. "Como algo que não tem massa pode existir?", perguntaria o leitor. Em física, energia é mais útil que massa. E a luz tem energia, podendo ser descrita como onda ou partícula: Newton e Maxwell estavam corretos. As partículas de luz, os fótons, têm energia proporcional à frequência. (Vê-se logo a estranheza: uma partícula com frequência, que é propriedade de onda!)

Lembro-me das palavras de Daniel Boorstin: "O maior obstáculo à novas descobertas não é a ignorância; é a ilusão do saber". Mesmo que saibamos tanto sobre o mundo, sabemos ainda tão pouco.
 
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI

Folha de S.Paulo
15/07/2012 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pondé e a Paranoia Bullying



Entro em sala de aula várias vezes na semana. Daí vem muito do que penso acerca dos modismos perniciosos que assolam o mundo da educação. E daí também vem o fato de que, apesar de ser pessimista (nada tem de chique no pessimismo, apenas para quem não o conhece por dentro e o confunde com um estilo melancólico de se vestir), não desisto da vida e vou morar no bosque de “Walden” (ou algo semelhante), como fez o filósofo americano Thoreau no século 19.
Hoje vou comentar um caso específico de moda que em breve provavelmente vai destruir qualquer liberdade e espontaneidade na sala de aula: a “paranoia bullying”.
Se atentarmos para o que o Ministério Público prepara como controle da vida escolar “interna”, veremos, mais uma vez, a face do totalitarismo via hiperatividade do poder jurídico. Ao invés de atacar o que deve ser atacado (o lixo que é a escola no Brasil, porque o Estado arrecada impostos como um dragão faminto, mas não dá nada em troca), o Estado e seu braço armado, o governo socialista que temos há décadas, que adora papos-furados como cotas raciais e bijuterias semelhantes, invade o espaço institucional do cotidiano escolar com sua vocação maior e eterna: o controle absoluto da vida nos seus detalhes mais íntimos.
E ninguém parece enxergar isso, muito menos a pedagogia e sua vocação, nos últimos anos, para livros bobos da moda e palestrantes de autoajuda. Quando ouço alguma “autoridade pública em bullying”, sinto que estou diante de um inquisidor, que, como todos, sempre se acha representantes do “bem”.
Seria de bom uso dar aulas de história dos perfis psicológicos dos grandes inquisidores, como Torquemada e Bernard de Gui, para essas “autoridades públicas” em invasão da vida íntima das pessoas e das instituições. Eles descobririam sua ascendência direta do grande inquisidor de Dostoiévski (“Irmãos Karamazov”).
Em breve, a melhor solução para o professor será a indiferenPça preventiva para com os alunos. Melhor uma aula burocrática e avaliações burocráticas do tipo “múltipla escolha” ou “diga se é falso ou verdadeiro”, mesmo nas universidades, porque assim o aluno não poderá acusar o professor de “desumanidade” ao reprová-lo, ou pior, acusá-lo de bullying porque desconsiderou sua “cultura de ignorante”, mas que “merece respeito assim como Shakespeare”.
Os “recursos” contra reprovação logo se transformarão em processos contra “bullying intelectual”. E os fascistas do controle jurídico da vida terão orgasmos.
Atitudes como estas destroem a autoridade da instituição, dos profissionais que nela trabalham e transformam todos em reféns da “máquina jurídica”. O resultado é que família e escola perdem autonomia. O que este novo coronelismo não entende é que existe um risco inerente ao convívio escolar e que as autoridades imediatas, professores e coordenadores é que devem agir, e não polícia ou juízes.
Na minha vida como aluno em universidade tive duas experiências com dois professores que hoje poderiam ser enquadradas facilmente neste papinho de “tratamento desumano”, mas que foram essenciais na minha vida profissional e pessoal. A primeira, quando era um aluno da medicina na Universidade Federal da Bahia, ocorreu no dia em que perguntei a um professor como um paciente terminal via o fato de que ele ia em direção ao nada. Ele disse: “O senhor está na aula errada, deveria estar na aula de filosofia“. Isso, numa faculdade de medicina, significa mais ou menos que você não tem a natureza forte o bastante para encarar a vida como ela é.
A segunda, já na faculdade de filosofia da USP, aconteceu quando um professor me deu zero e disse para procurá-lo. Ao me ver, no meio da secretaria e na frente de vários funcionários e alunos, ele disparou: “Suas ideias são ótimas, seu português é um lixo”.
Em vez de preparar a polícia para prender bandidos que assaltam casas e restaurantes aos montes, o governo prefere brincar com essas bijuterias, fingindo que cumpre sua função de garantir a segurança pública. Será que isso é medo de enfrentar os criminosos de verdade?

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 18.06.2012)  | Fonte original deste artigo: AQUI

domingo, 8 de julho de 2012

Ulisses e sua volta para casa!

    “Avançando com leveza, a nau cortou as ondas do mar,
Transportando um homem cujos conselhos igualavam
Os dos deuses, que já sofrera muitas tristezas no coração,
Que atravessara as guerras dos homens e as ondas dolorosas
Mas que agora dormia em paz, esquecido de tudo quanto sofrera”
                                  (Odisseia, XIII. 86-92).

“Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou”
                                                    (Odisseia. I.1)

A lição de Poseidon: “Que sem os deuses, o homem não é nada!”:
     “Os faécios me levaram para Ítaca. Mas foi Poseidon quem permitiu que eu seguisse minha jornada, para que eu pensasse em suas palavras. E compreendi que eu era apenas um homem no mundo. Nada mais e nada menos”. (Ulisses)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Flip(A feira literária de Parati) começa hoje com homenagem a Drummond

A feira, orçada em R$ 8,4 milhões, é um dos eventos literários mais caros do Brasil e já perdeu seu clima intimista

Rogério Reis/Veja
Escritor Carlos Drummond de Andrade em 1984
O poeta: haverá ainda, entre outras atividades, uma exposição sobre Carlos Drummond de Andrade, o escritor homenageado desta edição da Flip
São Paulo - A Festa Literária Internacional de Paraty de hoje faz lembrar muito pouco o evento que levou 6 mil pessoas e autores do porte de Eric Hobsbawm e Julian Barnes à cidade fluminense em 2003. O número de visitantes saltou para 20 mil e o clima intimista se perdeu. Mas a lista de escritores cultuados e premiados que Liz Calder, a idealizadora, conseguiu trazer nos primeiros anos e que os curadores vêm se esforçando para manter, segue o padrão e é um dos maiores atrativos da festa.

Na edição que começa nesta quarta-feira à noite com uma fala de Luis Fernando Verissimo sobre os 10 anos da festa, conferência dos críticos Silviano Santiago e Antonio Cicero sobre Drummond e show do Lenine e Ciranda de Tarituba, estarão Ian McEwan, Hanif Kureish e Enrique Vila-Matas, que já participaram de outras edições, e ainda Adonis, James Shapiro, Stephen Greenblatt, Jonathan Franzen, Dulce Maria Cardoso, Rubens Figueiredo, Zuenir Ventura, Francisco Dantas e outros.
E isso custa. A Flip, orçada em R$ 8,4 milhões, é um dos eventos literários mais caros do Brasil. Uma pequena parte desse valor, R$ 1,4 milhão, é destinada às ações da Flipinha e da Flipzona, que envolvem crianças e adolescentes de Paraty e região.
É também um dos eventos mais charmosos do país, e serve de inspiração para tantos outros, como a Fliporto, de Olinda. O boom das festas literárias, aliás, será debatido pelo Itaú Cultural no Museu do Forte na tarde desta quarta. E o Itaú Cultural não é a única instituição a organizar eventos paralelos extraoficiais.
A Off-Flip já é tradição e organiza conversas com escritores, exposições e shows. A Casa Sesc receberá os vencedores de seu prêmio literário para conversas com o público. Na Casa do Instituto Moreira Salles, serão gravados programas da Rádio Batuta com os escritores convidados. Há muitas outras casas espalhadas pela cidade, sempre com alguma programação cultural, tentando pegar carona na Flip, recebendo bem seus autores, no caso das editoras, e entretendo o público que não conseguiu ingresso para os debates - a tenda dos autores comporta 800 pessoas.
A Casa de Cultura hospeda a programação paralela oficial. Lá, João Ubaldo Ribeiro e Walcyr Carrasco falam sobre Jorge Amado. Haverá ainda, entre outras atividades, uma exposição sobre Carlos Drummond de Andrade, o escritor homenageado desta edição. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A vida rural refletida na Cerimônia de Abertura dos jogos de Londres


"Não tenhas medo; esta ilha é sempre cheia de sons, ruídos e agradáveis árias, que só deleitam, sem causar-nos dano. Muitas vezes estrondam-me aos ouvidos mil instrumentos de possante bulha; outras vezes são vozes, que me fazem dormir de novo, embora despertado tenha de um longo sono. Então, em sonhos presumo ver as nuvens que se afastam, mostrando seus tesouros, como prestes a sobre mim choverem, de tal modo que, ao acordar, choro porque desejo prosseguir a sonhar"(Shakespeare, cena II de A tempestade, voz de Calibã).

Estas palavras foram o ponto alto da Cerimônia porque ganharam vida pela força da transformação que a Revolução Industrial provocou na sociedade britânica. O diretor e cineasta Danny Boyle, uma das maiores autoridades na dramaturgia de Shakespeare, soube como ninguém encarnar esse texto sobre as origens e potencialidades da Grã-Bretanha, antes uma ilha, mas que se agigantou na literatura, na indústria, na economia, nos esportes, no cinema,  na música, enfim...

"A cerimônia é uma tentativa de capturar a nós mesmos(Reino Unido) como país, de onde viemos e onde queremos estar"(Danny Boyle).

A pira olímpica que finalmente é acesa no centro de Londres, declarando oficialmente a abertura dos jogos.

Olimpíadas e Revolução Industrial

Do cenário campesino, surgem gigantescos chaminés que dão ideia ao público do que realmente foi a Revolução Industrial para esses povos.

Homenagem a Harry Potter


Visão panorâmica dos jogos de Londres 2012


Festa da delegação brasileira em Londres 2012

Na abertura dos jogos olímpicos 2012, a delegação brasileira ajuda a coroar tamanha festa que enche nossos olhos de cultura, história, arte, tecnologia, música e cinema.

Boletim "O dia d" de Florianópolis/SC publica artigo PENSAR PELO ESTÔMAGO

O renomado boletim "O dia d" semanal editado pelo centro de Filosofia Educação para o Pensar de Florianópolis/SC, Ano 5, nº 275, de quinta-feira, dia 26/07/2012, publicou mais um texto do Prof. Jackislandy Meira que discute sobre PENSAR PELO ESTÔMAGO. Veja abaixo o boletim e mais abaixo ainda clique no link do site desta página que, dentre outros artigos, traz sugestões impressionantes de cursos, bem como o convite para a leitura do riquíssimo jornal "Corujinha" com matérias formidáveis de práticas filosóficas nas escolas e em nosso cotidiano.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Comprar o voto é o mesmo que tomar água?


A compra e venda de votos nas eleições tornaram-se tão banais quanto tomar água. Como coibir essa prática?

Geógrafo Júnior Galdino lança CD "Canções da Minha Fé"

O geógrafo Júnior Galdino  está divulgando a capa do seu mais novo trabalho musical, intitulado Canções da Minha Fé. "Este CD é resultado de um árduo trabalho junto com os amigos Wendell Azevêdo e Daniel Medeiros". Falou Júnior.



No Blog Coisas da Florânia, Júnior disse: "Posso sintetizar esse projeto como: Gratidão, Meditação e Oração. A Rádio Comunitária Ibiapina já está tocando as faixas de trabalho: A Ladeira, Hino do Santuário das Graças, O Escudo – A Voz da Verdade e A Traição(Zé Leão)". Concluiu.




Em breve estaremos disponibilizando todas as canções para baixar nas redes sociais, blog’s e sites.
 

Éros e paideia: Alcebíades e Sócrates no Banquete


O Prof. Gabriele Cornelli, com cândida felicidade, nos permite refletir sobre uma personagem riquíssima e emblemática da literatura platônica porque arrebata a todos os convivas do Sympósion(Banquete) com sua famosa declaração de amor a Sócrates. Alcebíades é esta personagem extremamente dramática e arrebatadora, segundo a qual, Cornelli, in Seduzindo Sócrates: retórica de gênero e política da memória no Alcebíades platônico, abre o leque de possibilidades para uma acertada construção dos reais motivos que tenham injustamente levado Sócrates à morte, bem como, a partir do diálogo Banquete, investiga o desenho do tecido dramático e retórico dos discursos entre paideia e éros, de modo especial, como já disse, pinta um belo quadro da relação entre Sócrates e Alcebíades.
Especificamente, na altura do texto sobre a política da memória no Alcebíades, Cornelli aponta, para além dos outros simposiarcas e através dos discursos eróticos, para algo muito preciso: Uma relação significativa entre Sócrates e Alcebíades(Cf. p. 09). Segundo Cornelli, todos os discursos do Banquete ansiavam e sentiam falta da entrada da própria máscara do amante, encarnação de Eros: Alcebíades. No dizer de Cornelli, Platão parece conseguir fazer convergir todos os discursos para o mise-en-scène final da entrada de Alcebíades. Veja que Alcebíades, embriagado, muda o rumo do jogo do diálogo dos erotikoí lógoi, admitindo falar só de Sócrates, isto é, somente da verdade. Há uma mudança na conversa: da teoria para a história, do elogio para a verdade(uma verdade dionisíaca, marcada pela mania e parresía da embriaguez):
“Ouve então, disse Erixímaco. Entre nós, antes de chegares, decidimos que devia cada um à direita proferir em seu turno um discurso sobre o Amor, o mais belo que pudesse, e lhe fazer o elogio. Ora, todos nós já falamos; tu porém como não o fizeste e já bebeste tudo, é justo que fales, e que depois do teu discurso ordenes a Sócrates o que quiseres, e este ao da direita, e assim aos demais.
Mas, Erixímaco! tornou-lhe Alcibíades, é sem dúvida bonito o que dizes, mas um homem embriagado proferir um discurso em confronto com os de quem está com sua razão, é de se esperar que não seja de igual para igual. E ao mesmo tempo, ditoso amigo, convence-te Sócrates em algo do que há pouco disse? Ou sabes que é o contrário de tudo o que afirmou? É ele ao contrário que, se em sua presença eu louvar alguém, ou um deus ou um outro homem fora ele, não tirará suas mãos de mim.
Não vais te calar? disse Sócrates.
Sim, por Posidão, respondeu-lhe Alcibíades; nada digas quanto a isso, que eu nenhum outro mais louvaria em tua presença.
Pois faze isso então, disse-lhe Erixímaco, se te apraz; louva Sócrates.”(PLATÃO. O Banquete ou Do Amor. Trad. J. Cavalcante de Souza. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 181, 214c-d).
O fio condutor de leitura do grande novelo da obra platônica, o Banquete, proposto por Cornelli é um dado bastante inovador, haja vista sua preocupação política, literária e histórica com que delineia toda a investigação, não só teorética, mas profundamente prática, recheada de detalhes. Num destes detalhes, o que me salta aos olhos é o caso da travessura das hermas e suas implicações histórico-políticas para o tempo de Sócrates: “Enquanto Sócrates e outros passam a noite bebendo em casa, e moderadamente, Alcebíades chega de madrugada, bêbado e – é o que sugere o texto – tendo perambulado por Atenas em estado alterado. Não era preciso muita fantasia para um ateniense imaginar Alcebíades e os seus, bêbados, cometendo qualquer tipo de profanação. A insistência de Platão com esta versão deve ser também um dos motivos da narração da segunda interrupção do banquete, no final dele(223b), realizada também por diversos outros jovens bêbados. Isto é, Platão parece querer insistir em representar em seu diálogo noites de baderna na rua, e justamente na época da mutilação das hermas, referendando assim a versão mais light relativa aos motivos que estavam por trás do sacrilégio.(...) Nas fontes da época, de fato, a suspeita pela profanação não recaía tanto sobre jovens bêbados: ao contrário, pensava-se mais facilmente em um complô, urdido de maneira articulada, por grupos que, querendo com isso enfraquecer a confiança de Atenas e sua democracia num momento tão delicado de sua história, pretendiam com isso restaurar a oligarquia ou a tirania”(CORNELLI, Gabriele. Seduzindo Sócrates: retórica de gênero e política da memória no Alcebíades platônico.UnB. p. 11)
Não nos esqueçamos que o ilustre Alcebíades estava em plena prosperidade política à frente do movimento democrático de então. Sob o fascínio daquela beleza interior mencionada no Sympósion, o ambicioso e belo jovem Alcebíades tenta conquistá-la, através do lógos socratikós, na estranha ideia de cumular o acervo de seus dotes e atingir assim a plenitude de poder nos negócios da pólis. Político arrebatador das Assembleias, Alcebíades extravasa na bebida e na declaração de amor a Sócrates, uma vez que o mesmo não corresponde ao afeto que lhe é dedicado.
Todavia, o elogio de Sócrates por Alcebíades, conforme G. Cornelli, pode ser considerado mais uma apologia do primeiro. “Se pense, por exemplo, ao próprio uso das imagens das estátuas dos silênos, que ilustram a necessidade de superar a aparência, a máscara histórica incômoda de Sócrates, para olhar para uma verdade sobre sua vida e seu legado, que ainda permanece escondida para a maioria. Pois afirma Alcebíades 'nenhum de vocês o conhece'(216c-d). Não é difícil pensar que, na voz de Alcebíades, seja o próprio Platão a dizer isso para Atenas”(idem, p. 15).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB em parceria com Archai Unesco.



domingo, 22 de julho de 2012

Filósofo declara que a política precisa se abrir à religião

Michael Sandel

A versão impressa da revista Época desta semana exibiu uma entrevista com o professor de filosofia da universidade de Harvard (considerada a melhor universidade do mundo pelo Institute of Higher Education Shanghai Jiao Tong University), o americano Michael Sandel. Na publicação, ele declara que a política precisa se abrir à religião e acolher as convicções religiosas no debate público.
Sandel afirma que os princípios e a moral são bem-vindos ao debate público – mesmo que tenham origem na fé. “Não acredito que possamos ou devamos insistir numa separação completa entre política e convicções religiosas. Por dois motivos. O primeiro: é verdade que a religião pode trazer para a política intolerância e dogmatismo, mas também é verdade que não apenas as convicções religiosas trazem esses males. Algumas ideologias seculares também geram problemas do mesmo tipo. O que devemos isolar da política, então, é a intolerância e o dogmatismo, seja qual for sua fonte, para que possamos nos respeitar e debater, cultivando uma ética de respeito democrático”.
“Meu segundo motivo para não insistir nessa separação completa entre política e religião é que a política diz respeito às grandes questões e aos valores fundamentais. Então, a política precisa estar aberta às convicções morais dos cidadãos, não importa a origem. Alguns cidadãos extraem convicções morais de sua fé, enquanto outros são inspirados por fontes não religiosas”, disse o filósofo.

Pr. Silas Malafaia comenta:
Há quase 28 anos na televisão, eu venho dando consciência de cidadania ao povo evangélico. Fico rindo quando vejo gente me criticando agora, que talvez nem era nascido ou era muito pequeno, e com o advento da internet passaram a criticar e denegrir qualquer um que confronte suas ideias, estilos de vida ou convicções políticas e teológicas. Também passaram a fazer isso por simples inveja e “dor de cotovelo” do sucesso que alguém conquista no ministério, graças à benção de Deus, sem isso ninguém vai a lugar nenhum, e também muito trabalho e esforço.
Mediante a isto, coloco mais uma vez minhas convicções sobre a questão política e religião, que tem a ver com nosso segmento social que é religioso, pois somos evangélicos.
Vejamos então:
1) Jesus declarou: “Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus”. César representa o poder político e Jesus não o chamou de diabo, como muitos cristãos fazem. Simplesmente mostrou nosso compromisso com a cidadania humana e celestial.
2) O apóstolo Paulo diz em Romanos 13.7: “… a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto…” Ele está reafirmando o compromisso da cidadania. Ser cidadão indica ter direitos e deveres, entre os quais: votar e ser votado.
3) A igreja de Jesus, como corpo místico de Cristo, não precisa de político nenhum. Só depende do Espírito Santo para que ela possa realizar a obra de Deus aqui na Terra. Mas as pessoas que pertencem à igreja, são seres humanos, inseridos no contexto social, a fim de influenciar em todas as áreas da nossa sociedade. Paulo diz: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento…”. Se nos omitirmos, os filhos das trevas vão influenciar e determinar sobre a vida social. E como consequência, seremos atingidos!
4) Existe um jogo pesado e creio que satanás está por trás disto. Todos podem influenciar na política: metalúrgicos, médicos, filósofos, sociólogos etc. Todo tipo de ideologia, inclusive a ideologia humanista/materialista, que nega a existência de Deus, pode influenciar na política. Mas o estilo de vida cristã, não! Isto é um absurdo! O povo de Deus não pode cair neste jogo. As nações mais poderosas e democráticas do mundo foram influenciadas, em todas as suas instâncias, pelo cristianismo.
5) Eu não fui levantado para ser político, mas, sim, para influenciar em todos os campos da vida. Qualquer pastor tem autoridade bíblica para orientar as ovelhas de Jesus em todas as áreas, porque Deus trata o homem como um ser biológico, psicológico, sociológico e espiritual. O que não concordamos é com nenhum tipo de extremismo religioso que queira cercear a liberdade das outras pessoas, mesmo contrárias aos nossos princípios.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A ceia da política brasileira


Nelson Rodrigues inventou o óbvio - Arnaldo Jabor

Os 100 anos de Nelson Rodrigues estão sendo celebrados por muita gente que o criticou em vida e hoje o glorifica. Tanto as depreciações quanto alguns louvores são descabidos - ele não era nem pornográfico nem um escritor aspirando à condição de estátua. Nelson adorava elogios, mas odiava os "medalhões".

NR é importante como inventor de linguagem. A importância de sua obra está onde ela parece 'não ter' importância. Onde ela é menos "profunda" - ali é que se encontra uma qualidade rara. Era fácil (e justo) considerar 'gênios' homens como Guimarães Rosa ou Graciliano, mas Nelson nunca coube nos pressupostos canônicos. Sua obra é um armazém, um botequim geral, uma quitanda de Brasil.

Formado nas delegacias sórdidas, vendo cadáveres de negros 'plásticos e ornamentais', metido no cotidiano marrom do jornal do pai, Nelson flagrou verdades imortais que estavam ali, no meio da rua, na nossa cara, e que ninguém via.

Uma vez ele me disse: "Se Deus perguntar para mim se eu fiz alguma coisa que preste na vida, eu responderei a Deus: 'Sim, Senhor, eu inventei o óbvio!'"

Filho do jornalismo policial, Nelson desconstruía o pedantismo tão comum entre nossos escritores.
Uma vez ele me disse ao telefone que o "problema da literatura nacional é que nenhum escritor sabe bater um escanteio": ensolarada imagem esportiva para definir literatos folgados. Até hoje, muita gente não entendeu que sua grandeza está justamente na observação dos detritos do cotidiano. A faxina que Nelson fez no teatro e depois na prosa é semelhante à que João Cabral fez na poesia. Nelson baniu as metáforas a pontapés "como ratazanas grávidas" e criou antimetáforas feitas de banalidades condensadas. "A poesia está nos fatos", como escreveu Oswald no Pau Brasil. Pois é, Nelson também odiava metáforas gosmentas. Suas imagens não aspiravam ao "sublime". Exemplos: "O torcedor rubro-negro sangra como um César apunhalado", "a mulher dava gargalhadas de bruxa de disco infantil", "seu ódio era tanto que ele dava arrancos de cachorro atropelado", "a bola seguia Didi com a fidelidade de uma cadelinha ao seu dono", "o juiz correu como um cavalinho de carrossel", "o sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura", "somos uns Narcisos às avessas que cuspimos na própria imagem", "vivemos amarrados no pé da mesa bebendo água numa cuia de queijo Palmira", "hoje o brasileiro é inibido até para chupar um Chica Bon".

Visto por ele, tudo boiava no mistério: os ovos coloridos de botequim, as falas dos 'barnabés', as moscas de velório no nariz do morto. Nelson fazia a vida brasileira ficar universal, não por grandes gestos, mas pelo minimalismo suburbano que ele praticava. E o sublime aparecia na empada, na sardinha frita ou no torcedor desdentado.

Sua obra é um desfile de tipinhos anônimos, insignificantes - nisso aparecia sua grandeza desprezada. São prostitutas bondosas, cafajestes poéticos, canalhas reluzentes, vagabundos épicos, sobrenaturais de almeida, adúlteras heroicas e veados enforcados. Ele me dizia: "O que estraga a arte é a unidade..."
Ele dava lições de arte e literatura: "Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. A partir do momento em que deixou de ser tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões, pois a obra-prima no futebol e na arte tem de ser imperfeita." Existe coisa mais 'contemporânea'?
Gilberto Freyre sacou sua "superficialidade profunda", assim como André Maurois entendeu que a genialidade de Proust era "a épica das irrelevâncias..." E isto é muito saudável, num país onde ninguém escreve um bilhete sem buscar a eternidade.

Nunca deixava a literatura prevalecer sobre a magia dos fatos. Sempre um detalhe inesperado caricaturava os dramas. No meio da tragédia, vinha a gíria; no suicídio - o guaraná com formicida; no assassinato - a navalhada no botequim; na viuvez - o egoísmo; nos enterros - a piada.
Uma vez, me contou que viu uma família esperando num hospital a notícia sobre um filho atropelado. Morreu ou não? Afligiam-se todos, vistos pelo Nelson através do vidro do corredor. Viu o médico chegar e dizer que o menino tinha morrido. "Eu vi pelo vidro. Não ouvi um som. A família começou a se contorcer em desespero. Pai, mãe, tios gritavam e, através do vidro, pareciam dançar. Pareciam dançar um mambo. Daí, eu concluí a verdade brutal: a grande dor dança mambo!..."

Nelson recusava teorias. Contou-me um episódio hilário: uma vez o Oduvaldo Viana Filho e Ruy Guerra, grandes artistas, chamaram-no para escrever um roteiro de filme sobre uma mulher adúltera. Nelson foi trabalhar com eles, mas desistiu e me disse: "Parei, porque eles queriam que a adúltera fosse para a cama do amante e traísse o marido movida apenas pelas 'relações de produção'...."

Ele intuiu na época que a vulgata do marxismo era o ópio dos intelectuais. Foi chamado de fascista porque puxava o saco do Médici, para ver se soltava o filho preso havia anos. Eu mesmo sofri por causa dele; em 1973 ousei filmar Toda Nudez Será Castigada e dei uma entrevista na Veja em que disse que "fascismo é amplo: existe fascista de direita e de esquerda também". Pra quê? Mandaram um manifesto à revista onde me esculhambavam indiretamente, dizendo que o sucesso imenso que o filme fazia "não era a missão do cinema novo". Foi das grandes dores que senti, pois até amigos assinaram o maldito texto, que só não foi publicado porque, um dia antes, os generais tiraram o filme de cartaz, com soldados de metralhadora, levando as cópias dos cinemas. Aí, meus amigos comunas tiraram o texto, "para não dar razão ao inimigo principal", que era a ditadura, a censura. (Eu e Nelson éramos inimigos secundários, para usar o termo de Mao Tsé-tung). O filme voltou ao cartaz porque ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim e os generais ficaram com medo da repercussão e liberaram a exibição.

Se fosse vivo, ao ver os escândalos atuais, repetiria a frase eterna: "Consciência social de brasileiro é medo da polícia."
 
E-mail: arnaldo.jabor@estadao.com.br

Estadão
O Globo
22/05/2012 

De LETICIA WIERZCHOWSKI - Sobre Gabo

Gabriel García Márquez já não voltará a escrever. Numa conferência literária em Cartagena das Indias, Jayme, irmão mais novo do escritor, contou à imprensa que García Márquez está bem de saúde, mas, aos 85 anos, perdeu a memória.

Cem Anos de Solidão marcou a minha adolescência e plantou em mim uma semente. Ainda lembro de uma invernal tarde de sábado, e eu, tendo retornado da biblioteca e buscado refúgio num sofá perto da janela, viajava para muito longe daquela nossa casa guiada pela narrativa de García Márquez.

Lá estava eu em Macondo, com Úrsula Buendía e sua fábrica de pirulitos – os galinhos e peixes açucarados que, duas vezes por dia, se espalhavam pela cidade, levando com eles a peste da insônia. As mil possibilidades criativas aninhadas em cada pequeno parágrafo, o modo como García Márquez dobrava e desdobrava a realidade ao seu gosto, fascinaram-me sem volta. Aquilo era o realismo mágico – mas, aos 14 anos, eu não sabia disso nem precisava saber...

O que contava era a viagem, era o autor levando o seu leitor para uma aventura por um mundo novo, um mundo de palavras construído no viés da realidade, uma terra de criaturas extraordinárias, humanas e fantásticas em igual medida. Acho que fiquei grudada naquele sofá até o dia seguinte, quando terminei de ler a saga dos Buendía. Acho que choveu muito naquele final de semana, acho que fazia frio... A memória da vida real apagou-se de mim, ficando apenas o livro de García Márquez tal e qual eu o li pela primeira vez.

E agora Gabo tem demência senil. Assim como o seu famoso patriarca em Cem Anos de Solidão, José Arcadio Buendía, García Márquez vem esquecendo nomes, fatos e lembranças. Não sei se usa do mesmo artifício que o seu varão, que marcou todas as coisas com o seu nome: bigorna, cadeira, copo, relógio, para assim manter a desmemória afastada de Macondo.

De tanto estudar as possibilidades do esquecimento, José Arcadio compreendeu que chegaria um dia em que, mesmo reconhecendo os nomes de cada coisa, eles haveriam de esquecer a sua utilidade. E então escreveu em cada coisa uma espécie de bula, tentando capturar a realidade na rede das palavras: esta é a vaca, tem-se que ordenhá-la todas as manhãs (...).

O inverso disso foi feito por García Márquez enquanto ele escreveu seus livros. Gabo criou as suas próprias, intrincadas e inesquecíveis realidades. As vacas de García Márquez podiam voar ou declamar poemas de Baudelaire, mas tudo o que faziam, inclusive dar leite, faziam-no de modo incrível.

ZERO HORA
19/07/2012 

domingo, 15 de julho de 2012

Do homem trágico, Platão concebe uma nova política


Acredita-se que o envolvimento de Platão no séc. IV a.C. com a tragédia grega não o impediu de criticá-la, sem deixar, de quando em vez, de recorrer a ela para fundar uma nova concepção de pólis, aquela da imitação das leis e dos costumes políades, a única tragédia admitida como verdadeira, ao invés da ética arcaica que exaltava o culto à coragem, à força, à honra, um modelo do cratos(força) e bia(violência) legitimado pelos deuses olímpicos:

Nós mesmos somos poetas de uma tragédia, e, por quanto se possa, da melhor
de todas, da mais bela; a nossa constituição inteira foi organizada como imitação
da vida mais nobre e mais elevada e dizemos que esta é na realidade a tragédia
mais próxima da natureza da verdade. Vocês são poetas, nós também somos
poetas, das mesmas coisas, rivais de vocês na arte e na representação do drama
mais belo que somente a verdadeira lei, por natureza, pode realizar, o que nos
esperamos neste momento. Não pensem, portanto, que com tanta facilidade,
permitiremos a vocês de plantar seus palcos em nossas praças e introduzir neles
atores de bela voz, que gritarão mais do que nos, não pensem que permitiremos a
vocês falar aos jovens, às mulheres e a todo o povo sobre os mesmos costumes
de maneira diferente da nossa.” (Leis VII, 817 b-c)

A única tragédia que Platão aprovará será portanto a tragédia verdadeira, aquela da imitação das leis e dos costumes políades. Seguindo os passos da tragédia, é possível conceber, sim, a alma trágica da cidade. Daí nasce a filosofia socrática, do confronto direto com a pólis e suas estruturas simbólicas e reais de sustentação do poder sobre o indivíduo, incluindo aí a própria filosofia. E nasce da recusa à pólis, uma vez que esta filosofia se define como uma descoberta da alma em composição com a cidade. Uma reflexão da alma para a agorá, como nos sugere Platão em Protágoras 313e.
Tal filosofia, ao dialogar com a sugestão da duplicidade da alma e ao invés de afirmar simplesmente o intelectualismo socrático ou a purificação órfico-pitagórica; a) constrói um novo modelo de alma humana, que, por aceitar sua “tragicidade”, resultará tripartida: Racional(logistikon), Agressiva(thymoeides) e Desejante(epithymetikon); b) reafirma, porém, a necessária composição entre alma e cidade, procurando para ambas, por homologia, a justiça como sua forma ordenada de existir.
Portanto, embora contra a tragédia, Platão acaba por aceitar e incorporar em sua reflexão à alma trágica como dado antropológico a partir do qual procura, via paideia, uma salvação possível que fosse da alma e da cidade ao mesmo tempo. Da alma trágica em tensão com a cidade, Platão concebe uma nova cultura, um novo homem.

Bibliografia: CORNELLI, G. (2010) Platão Aprendiz do Teatro: a Construção Dramática da Filosofia Política de Platão. Revista VIS (UnB), v. 9, p. 69-80.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB em parceria com Archai Unesco.


Muito cuidado na hora de curtir amizades no facebook


CHARGE - Benett

A "ética" dos corruptos - Renato Janine Ribeiro

 É ético um jornalista usar câmaras secretas para comprovar um crime que, depois, ele irá denunciar? Não discuto, aqui, a legalidade de sua ação, porque não tenho a formação jurídica necessária para me pronunciar sobre as leis e jurisprudência cabíveis no caso. Mas a questão adquire relevância diante do fato que movimentou a sociedade brasileira na semana que passou: a revelação, em imagens incontestáveis, de uma rede de corrupção atuando justamente nos hospitais - o que torna particularmente desumano o crime, porque está sendo cometido contra pessoas especialmente vulneráveis. Isso, além de ser uma área em que cronicamente falta dinheiro, até porque os custos com a saúde costumam subir mais que a inflação, em parte devido aos grandes avanços que a medicina tem conhecido.

O que é flagrante é a falta de ética das pessoas que vimos no "Fantástico" e no "Jornal Nacional". Os corruptos (vou chamá-los assim, embora tecnicamente não o sejam, porque não são servidores públicos) não mostraram nenhum pudor. Imaginando-se a salvo, foram francos. Duas afirmações me chocaram em especial. Primeira, quando uma senhora diz que está praticando "a ética do mercado". Mas o que ela faz não é nada ético. A não ser, claro, que use "ética" num sentido apenas descritivo, como quando se diz que a "ética do bandido" é matar quem o alcagueta, ou que a "ética do machista" é assassinar a esposa suspeita de adultério. Contudo, um dos ganhos dos últimos anos tem sido a redução desse emprego da palavra "ética", só descritivo. Cada vez mais, entendemos a ética como prescritiva, normativa, como exigente - não como a mera descrição de condutas praticadas em alguma área da ação humana. Uma expressão de Claudio Abramo, frequentemente citada pelos profissionais da imprensa, é significativa: "A ética do jornalista é a mesma do marceneiro, de qualquer pessoa".

Educando os filhos para também serem corruptos

Na verdade, até esperei, depois dessa frase sobre "a ética do mercado", que "o mercado" reagisse de alguma forma. Se ela dissesse que essa é a ética dos médicos, as associações não iriam protestar? É claro que "o mercado" não é um sujeito. Aliás, sua riqueza e eficácia estão, justamente, em ele não ser um sujeito único, mas uma rede em que se cruzam e medem inúmeros sujeitos. No entanto, aqui se coloca uma questão crucial, sempre presente quando se trata do capitalismo. Brecht tem a frase famosa: "O que é roubar um banco, em comparação com fundar um banco?" O capitalismo sempre esteve assombrado pela diferença entre o lucro obtido legítima e legalmente, e o que é extorsão, usura, roubo. Na Idade Média, a igreja cristã condenava a usura, dificultando as operações de financiamento. Por outro lado, com o capitalismo já consolidado, no final do século XIX um grupo de grandes empresários norte-americanos era chamado de "robber barons", barões ladrões, tal a sua desonestidade. Contudo, o mesmo capitalismo cresce graças a uma ética extremamente forte, que Max Weber, num livro clássico, aproximou do protestantismo. Na verdade, a distinção entre o lucro e a extorsão é crucial para o capitalismo. Um dos desafios para ele funcionar, e em especial para se tornar popular, é convencer a sociedade de que seu compromisso ético - com a construção da riqueza pelo trabalho e o esforço - supera seus deslizes, os quais serão rigorosamente punidos. Ou seja, "o mercado" precisa reagir. O debate sobre esse caso não pode ficar circunscrito à área política. "O mercado" foi injuriado, tem de responder.

O outro ponto assustador foi quando um dos personagens gravados disse que sempre ensinava a seus filhos a virtude da solidariedade. Disse isso com outras palavras, mas ele considerava digno de educar seus filhos na formação de quadrilha. Aqui, estamos diretamente na ética do crime. Mas, se na frase da senhora sobre o mercado podíamos ver alguma ironia ou resignação ("a vida como ela é"), na frase desse senhor se ouvia algo mais grave: a educação dos filhos, a construção do futuro segundo a ótica do criminoso. Uma coisa é resignar-se ao mundo como está e operar dentro dele. Outra, pior, é entender que ele não vai melhorar e, portanto, a melhor educação que se deve dar aos pequenos é ensiná-los a serem bandidos. Aqui, a tarefa afeta, em especial, os educadores profissionais, como os professores, e a multidão de educadores leigos, que são os pais e todos os que cuidam de crianças. Mas, antes mesmo disso, ela passa por uma pergunta cândida: podemos melhorar, em termos de sociedade, no que se refere ao respeito da lei e dos outros? É possível convencermo-nos, e convencermos os outros, de que seguir os preceitos éticos é absolutamente necessário? Ou viveremos nas exceções? E isso diz respeito a todos nós.

Ocorreu-me, uma vez, que no Brasil a lei tem papel mais indicativo do que prescritivo. Explico: todos concordamos que se deve parar no sinal verde - e a grande maioria o faz. Mas a pressa, o fato de não estar vindo um carro pela outra via, a demora no sinal "justificam" eventualmente passar no sinal vermelho. A lei deixa de ser lei para se tornar uma referência, apenas; ou, pior, algo que espero que os outros respeitem absolutamente, mas que infringirei quando me achar "justificado" a fazê-lo. Guiando desse jeito, vários pais mataram os próprios filhos - e isso continua acontecendo. Não precisaremos fortalecer, enquanto sociedade, a convicção de que para um bom convívio é preciso repudiar fortemente essas duas frases que, na sua euforia, os dois personagens pronunciaram sem saberem que estavam sendo gravados? Enquanto isso, obrigado aos repórteres que denunciaram esse crime.


Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Marcelo Gleiser - A ilusão do saber

Tanto Newton quanto Maxwell estavam certos: a luz é tanto uma partícula quanto uma onda



Muitas vezes o familiar oculta os maiores mistérios. Esse é o caso da luz, um fenômeno tão comum que quase ninguém dá muita bola para ele. Acordamos com ela todos os dias, ligamos e desligamos lâmpadas com descaso, raramente refletindo sobre a sua natureza, sobre o que está por trás dessa intensidade visível, porém impalpável, etérea, porém concreta, discreta, porém essencial.

No seu tratado sobre a luz intitulado "Óptica", publicado em 1704, Isaac Newton defende sua crença de que a luz é constituída de pequenas "partes": "Não são os raios de luz corpúsculos diminutos emitidos por corpos brilhantes?", pergunta. Sugere, além disso, que a luz viaja com velocidade finita, fazendo referência aos resultados de Ole Roemer, o qual, em 1676, mediu a velocidade da luz usando o eclipse de Io, uma das luas de Júpiter.

Em 1865, James Clerk Maxwell publicou o tratado "Teoria Dinâmica do Campo Eletromagnético", no qual descreve a luz como ondulações do campo eletromagnético.

A teoria explica conjuntamente a eletricidade e o magnetismo como manifestações do campo eletromagnético: uma carga elétrica produz um campo elétrico à sua volta, como cabelos rodeando uma cabeça. Tal como a gravidade, seu efeito cai com o quadrado da distância. Campos magnéticos são gerados quando cargas elétricas são aceleradas.

Uma rolha oscilando numa piscina cria ondas circulares. Imagine que a rolha é uma carga elétrica; ao oscilar, ondas eletromagnéticas são irradiadas concentricamente. (A carga as emite em três direções, e não duas.) Se a rolha subir e descer rápido, as ondas estarão próximas, terão frequência alta; se lentamente, a frequência será baixa.

Algo assim ocorre com as ondas eletromagnéticas, que podem ter altas e baixas frequências: o que chamamos de luz visível é um tipo de onda com frequências entre 400 e 790 Terahertz (1 Terahertz=1.012 ciclos/segundo). Já os raios X e gama têm frequências bem mais altas, enquanto o infravermelho e as micro-ondas têm frequências mais baixas.

Maxwell imaginou que, tal como ondas na água ou de som, a luz precisasse de um meio para se propagar. Esse era o estranho éter: transparente, imponderável e muito rígido, uma quase impossibilidade. Mas todos acreditavam nele, mesmo após os experimentos de Michelson e Morley não o terem encontrado.

Só em 1905 o jovem Einstein descartou o éter com a sua teoria da relatividade: ao contrário de todas as outras, as ondas eletromagnéticas podem se propagar no vazio. (É possível que ondas gravitacionais também o façam, assunto que fica para outra semana.)

Para complicar, a luz não tem massa. "Como algo que não tem massa pode existir?", perguntaria o leitor. Em física, energia é mais útil que massa. E a luz tem energia, podendo ser descrita como onda ou partícula: Newton e Maxwell estavam corretos. As partículas de luz, os fótons, têm energia proporcional à frequência. (Vê-se logo a estranheza: uma partícula com frequência, que é propriedade de onda!)

Lembro-me das palavras de Daniel Boorstin: "O maior obstáculo à novas descobertas não é a ignorância; é a ilusão do saber". Mesmo que saibamos tanto sobre o mundo, sabemos ainda tão pouco.
 
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI

Folha de S.Paulo
15/07/2012 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pondé e a Paranoia Bullying



Entro em sala de aula várias vezes na semana. Daí vem muito do que penso acerca dos modismos perniciosos que assolam o mundo da educação. E daí também vem o fato de que, apesar de ser pessimista (nada tem de chique no pessimismo, apenas para quem não o conhece por dentro e o confunde com um estilo melancólico de se vestir), não desisto da vida e vou morar no bosque de “Walden” (ou algo semelhante), como fez o filósofo americano Thoreau no século 19.
Hoje vou comentar um caso específico de moda que em breve provavelmente vai destruir qualquer liberdade e espontaneidade na sala de aula: a “paranoia bullying”.
Se atentarmos para o que o Ministério Público prepara como controle da vida escolar “interna”, veremos, mais uma vez, a face do totalitarismo via hiperatividade do poder jurídico. Ao invés de atacar o que deve ser atacado (o lixo que é a escola no Brasil, porque o Estado arrecada impostos como um dragão faminto, mas não dá nada em troca), o Estado e seu braço armado, o governo socialista que temos há décadas, que adora papos-furados como cotas raciais e bijuterias semelhantes, invade o espaço institucional do cotidiano escolar com sua vocação maior e eterna: o controle absoluto da vida nos seus detalhes mais íntimos.
E ninguém parece enxergar isso, muito menos a pedagogia e sua vocação, nos últimos anos, para livros bobos da moda e palestrantes de autoajuda. Quando ouço alguma “autoridade pública em bullying”, sinto que estou diante de um inquisidor, que, como todos, sempre se acha representantes do “bem”.
Seria de bom uso dar aulas de história dos perfis psicológicos dos grandes inquisidores, como Torquemada e Bernard de Gui, para essas “autoridades públicas” em invasão da vida íntima das pessoas e das instituições. Eles descobririam sua ascendência direta do grande inquisidor de Dostoiévski (“Irmãos Karamazov”).
Em breve, a melhor solução para o professor será a indiferenPça preventiva para com os alunos. Melhor uma aula burocrática e avaliações burocráticas do tipo “múltipla escolha” ou “diga se é falso ou verdadeiro”, mesmo nas universidades, porque assim o aluno não poderá acusar o professor de “desumanidade” ao reprová-lo, ou pior, acusá-lo de bullying porque desconsiderou sua “cultura de ignorante”, mas que “merece respeito assim como Shakespeare”.
Os “recursos” contra reprovação logo se transformarão em processos contra “bullying intelectual”. E os fascistas do controle jurídico da vida terão orgasmos.
Atitudes como estas destroem a autoridade da instituição, dos profissionais que nela trabalham e transformam todos em reféns da “máquina jurídica”. O resultado é que família e escola perdem autonomia. O que este novo coronelismo não entende é que existe um risco inerente ao convívio escolar e que as autoridades imediatas, professores e coordenadores é que devem agir, e não polícia ou juízes.
Na minha vida como aluno em universidade tive duas experiências com dois professores que hoje poderiam ser enquadradas facilmente neste papinho de “tratamento desumano”, mas que foram essenciais na minha vida profissional e pessoal. A primeira, quando era um aluno da medicina na Universidade Federal da Bahia, ocorreu no dia em que perguntei a um professor como um paciente terminal via o fato de que ele ia em direção ao nada. Ele disse: “O senhor está na aula errada, deveria estar na aula de filosofia“. Isso, numa faculdade de medicina, significa mais ou menos que você não tem a natureza forte o bastante para encarar a vida como ela é.
A segunda, já na faculdade de filosofia da USP, aconteceu quando um professor me deu zero e disse para procurá-lo. Ao me ver, no meio da secretaria e na frente de vários funcionários e alunos, ele disparou: “Suas ideias são ótimas, seu português é um lixo”.
Em vez de preparar a polícia para prender bandidos que assaltam casas e restaurantes aos montes, o governo prefere brincar com essas bijuterias, fingindo que cumpre sua função de garantir a segurança pública. Será que isso é medo de enfrentar os criminosos de verdade?

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 18.06.2012)  | Fonte original deste artigo: AQUI

domingo, 8 de julho de 2012

Ulisses e sua volta para casa!

    “Avançando com leveza, a nau cortou as ondas do mar,
Transportando um homem cujos conselhos igualavam
Os dos deuses, que já sofrera muitas tristezas no coração,
Que atravessara as guerras dos homens e as ondas dolorosas
Mas que agora dormia em paz, esquecido de tudo quanto sofrera”
                                  (Odisseia, XIII. 86-92).

“Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou”
                                                    (Odisseia. I.1)

A lição de Poseidon: “Que sem os deuses, o homem não é nada!”:
     “Os faécios me levaram para Ítaca. Mas foi Poseidon quem permitiu que eu seguisse minha jornada, para que eu pensasse em suas palavras. E compreendi que eu era apenas um homem no mundo. Nada mais e nada menos”. (Ulisses)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Flip(A feira literária de Parati) começa hoje com homenagem a Drummond

A feira, orçada em R$ 8,4 milhões, é um dos eventos literários mais caros do Brasil e já perdeu seu clima intimista

Rogério Reis/Veja
Escritor Carlos Drummond de Andrade em 1984
O poeta: haverá ainda, entre outras atividades, uma exposição sobre Carlos Drummond de Andrade, o escritor homenageado desta edição da Flip
São Paulo - A Festa Literária Internacional de Paraty de hoje faz lembrar muito pouco o evento que levou 6 mil pessoas e autores do porte de Eric Hobsbawm e Julian Barnes à cidade fluminense em 2003. O número de visitantes saltou para 20 mil e o clima intimista se perdeu. Mas a lista de escritores cultuados e premiados que Liz Calder, a idealizadora, conseguiu trazer nos primeiros anos e que os curadores vêm se esforçando para manter, segue o padrão e é um dos maiores atrativos da festa.

Na edição que começa nesta quarta-feira à noite com uma fala de Luis Fernando Verissimo sobre os 10 anos da festa, conferência dos críticos Silviano Santiago e Antonio Cicero sobre Drummond e show do Lenine e Ciranda de Tarituba, estarão Ian McEwan, Hanif Kureish e Enrique Vila-Matas, que já participaram de outras edições, e ainda Adonis, James Shapiro, Stephen Greenblatt, Jonathan Franzen, Dulce Maria Cardoso, Rubens Figueiredo, Zuenir Ventura, Francisco Dantas e outros.
E isso custa. A Flip, orçada em R$ 8,4 milhões, é um dos eventos literários mais caros do Brasil. Uma pequena parte desse valor, R$ 1,4 milhão, é destinada às ações da Flipinha e da Flipzona, que envolvem crianças e adolescentes de Paraty e região.
É também um dos eventos mais charmosos do país, e serve de inspiração para tantos outros, como a Fliporto, de Olinda. O boom das festas literárias, aliás, será debatido pelo Itaú Cultural no Museu do Forte na tarde desta quarta. E o Itaú Cultural não é a única instituição a organizar eventos paralelos extraoficiais.
A Off-Flip já é tradição e organiza conversas com escritores, exposições e shows. A Casa Sesc receberá os vencedores de seu prêmio literário para conversas com o público. Na Casa do Instituto Moreira Salles, serão gravados programas da Rádio Batuta com os escritores convidados. Há muitas outras casas espalhadas pela cidade, sempre com alguma programação cultural, tentando pegar carona na Flip, recebendo bem seus autores, no caso das editoras, e entretendo o público que não conseguiu ingresso para os debates - a tenda dos autores comporta 800 pessoas.
A Casa de Cultura hospeda a programação paralela oficial. Lá, João Ubaldo Ribeiro e Walcyr Carrasco falam sobre Jorge Amado. Haverá ainda, entre outras atividades, uma exposição sobre Carlos Drummond de Andrade, o escritor homenageado desta edição. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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