quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

De cara nova para 2012!

O blog, ao mesmo tempo que agradece os inúmeros acessos em 2011, dá também as boas vindas calorosas aos que caminharão conosco nesse novo ano. Com a ajuda preciosa dos serviços de Wendel Designers da cidade de Florânia, o blog umasreflexoes apresenta para 2012 sua mais nova face, a interface das reflexões que irão provocar e instigar os mais fortes instintos do pensamento humano, desde os temas ligados à cidadania até os afinados com a filosofia. Que 2012 nos traga uma explosão de renovação, não só nos pensamentos, mas sobretudo na vida, na política, na nossa cotidianidade.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

GENEROSIDADE


Cá estou eu novamente para grafar os últimos devaneios deste ano. “Um bom ano”. Lembram do filme que traz esse título!? Nele o autor leva o espectador a viajar do ritmo frenético dos negócios a uma pacata cidadezinha da França, cheia de vinhedos, com suas peculiaridades convencionais e muito provinciana. Da cidade à Província. Está aí uma bela passagem. Ou vice-versa. Uma das muitas passagens que podemos fazer: Da agitação à calmaria. O protagonista do filme consegue encontrar o seu destino onde menos esperava. Ao tomar conta dos negócios do vinhedo do tio numa pequena cidade, encontra-se pessoalmente e descobre o amor e a felicidade.
Para sair e fazer a passagem do “grande” ao “pequeno” sujeito, como diria Charles Chaplin, será preciso que a generosidade nos acompanhe em cada gesto. Dar um pouco do que é seu a outro revela uma parte sua antes desconhecida. Dar lugar à generosidade nesse fim de ano parece ser uma boa sugestão para quem, de fato, ainda pretende livrar-se de si mesmo e de suas vicissitudes egoístas e desonestas. A generosidade nos faz mergulhar maravilhosamente na mais pura vida, sem dinheiro e sem politicagem, e ir experimentar o quase nada dos outros. Passar do solitário ao solidário com as mãos e o coração cheios de amor e de atenção para dar.
Já se perguntou o que pode dar? Dar. Dar o quê? Dar algo além de presentes, dinheiro e uma boa mesa. O falso clichê de que “ninguém dá o que não tem” se confronta com a ideia de que algo se pode dar do que se é. Sim, pode-se dar o que se é. Não há nada que não possamos dar de nosso ser, uma vez que é próprio do ser dar, dar sempre mais. Quem nunca ouviu a frase: “Ninguém é tão necessitado que não tenha nada para dar e ninguém é tão suficiente que não tenha nada para receber”. Generoso ao dar, mas generoso também ao receber em todos os sentidos. Por exemplo: Há pessoas que são muito generosas para falar, mas pouco generosas para ouvir.
Não me refiro somente ao nada econômico, o mais desprezível de todos porque é o valor mais focado por todos, mas me refiro ao que quase ninguém liga mais, aos afetos, ao que é interno e que se encontra na linha do amor. Na estreita linha do amor estão os inexplicáveis atos de bondade e de generosidade tão próprios aos seres humanos, a tudo que é humano. É daí que vem, sim, a verdadeira generosidade.
Quantos não fecharam suas mãos, não só as mãos, mas fecharam o coração durante todo este ano! Portanto, é hora de abrir as mãos, o coração, a cabeça, os olhos, a vida para quem não pode abrí-los devido aos inúmeros impedimentos, a saber: fome, miséria, doença, desemprego, violência, corrupção, ganância e egoísmo. Romper a barreira de todos esses impedimentos é a graciosa sugestão da generosidade possível ao homem.
O mais engraçado da generosidade é que sem gratidão dificilmente poderá ser experimentada. A gratidão é a força da generosidade. Sem gratidão, a generosidade se transforma em vaidade. A honra da generosidade é um coração grato. Veja que, só com amor, a generosidade faz sentido. Para conservarmos a dignidade do ato de dar, é necessário reconhecermos nossa consciência, vontade e liberdade ao dar. Ser generoso é, antes de tudo, ser gracioso pelas muitas coisas que chegaram até nós sem esforço algum. Reconhecer que o calor do sol, a luminosidade da lua, a fonte dos rios, o movimento dos mares, a fertilidade da terra, o carinho dos animais, a bondade das pessoas, a beleza das florestas e o presente dos filhos não têm preço, é de graça que recebemos, na verdade, já são um esplendor de generosidade.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Especialista em Metafísica
Páginas na internet:

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A filosofia como “ensaio” do pensamento


Na introdução à obra História da Sexualidade II, Do Uso dos Prazeres, temos um texto bastante feliz de Michel Foucault sobre o que vem a ser, de fato, a filosofia. Um texto para ser lido, lido de novo e depois posto à admiração de todos que puderem se abrir ao maravilhoso exercício do pensamento. O que ele diz, do jeito que diz da filosofia é simplesmente novo e contemporâneo. Aliás, Foucault é um desses filósofos, cujo modo de dizer as coisas é praticamente atual, singular e resistente ao tempo. Consegue ser contemporâneo o tempo todo.
Se Foucault fez o seu “ensaio” filosófico como o fez Montaigne, Nietzsche e outros, por que não devamos fazer o mesmo a partir de nós? Vejamos o que é o “ensaio” filosófico de Foucault para aprendermos a lição de pensar o pensamento a partir do contemporâneo.

Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade – em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no máximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia – quero dizer, atividade filosófica – senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico, quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio” - que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma 'ascese', um exercício de si, no pensamento”(In FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II, Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1984, pág. 13).

Compilado por Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cante o Natal!

Talvez, poeta algum cantou tão bem o Natal quanto Manuel Bandeira! Ele o mostrou da maneira mais simples, cotidiana e humana, repleta de inocência tão próprias ao requinte e ao estilo de Bandeira. Cantemos com ele a pureza do Natal:


Penso no Natal. No teu Natal. Para a Bondade
A minhalma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade... A voz dos sinos... A cadência
Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida...
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal...


Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minhalma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos...
Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana  pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
Que Madalena viu nos olhos de Jesus...

O bobo filósofo de Clarice Lispector

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O pensador na poesia de Pessoa

O poeta Fernando Pessoa ao modo de Alberto Caeiro soube maravilhosamente se expressar como quer um filósofo, com admiração e perplexidade diante da novidade do mundo:
 "O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
      E o que vejo a cada momento
 É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
    E eu sei dar por isso muito bem...
         Sei ter o pasmo essencial
   Que tem uma criança se, ao nascer,
    Reparasse que nascera deveras...
    Sinto-me nascida a cada momento
    Para a eterna novidade do mundo."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O sentido do trabalho


(Arte: Diego Rivera)
Eis um bem necessário: Trabalhar. Não quando se está para entrar em férias, mas quando se está prestes a sair delas. As férias estão às portas, e está aí uma boa hora para se pensar um pouquinho no sentido que damos ao trabalho. Talvez vejamos melhor o trabalho longe dele ou fora dele. Muitos diriam até que é um mal necessário, no entanto, trabalhar acaba sendo um bem necessário, antes de tudo, porque é um valor insubstituível para a saúde de qualquer cidadão, bem como para a sua sustentabilidade.
É óbvio que, como qualquer outra coisa na vida, o trabalho também é uma falta quando da sua ausência circunstancial. Só se valoriza o estudo quando se deixa de estudar. Só se valoriza o amor quando se passa pelo deserto do desamor. Só se percebe a pessoa do lado até o momento em que ela passa a não estar lá. Assim também é com o trabalho. Sua falta é sentida a partir do momento que deixamos, por alguma razão, de trabalhar. Com as férias, ausência de trabalho, vem a monotonia, o tédio, o sedentarismo e todo tipo de males. Por isso, o trabalho acaba sendo uma das boas saídas para uma vida feliz, sobretudo quando o trabalho é a extensão da família que enriquece o convívio social.
As férias não devem ser encaradas como um tempo de morbidez sem fim, uma vez que são um período apenas de descanso e de recomposição das energias gastas num intenso tempo de trabalho. Sendo assim, nada mal que tenhamos um bom tempo livre para fazer muito do que se gosta, como por exemplo; terminar aquela leitura que ficou inacabada; caminhar com mais frequência para exercitar o corpo e manter o equilíbrio emocional; cuidar um pouco mais de si; dialogar com quem não se via há bastante tempo; visitar os amigos; viajar e respirar novos ambientes... Enfim, volta e meia precisamos tirar umas férias, até porque ninguém é de ferro. Sair das rotinas e se desgarrar dos enfados do trabalho maçante e burocrático, de atividades repetitivas por isso estressantes, nos fazem muito bem.
Não há dúvidas de que a nossa natureza humana reclama descanso, paz e um pouco mais de humor, porém há que se ressaltar, nisso tudo, um certo limite de empolgação para com as férias, até porque quanto mais nos acostumamos com elas e com o lazer, mais e mais nos percebemos que somos homens do trabalho, seres que não vivem mais sem trabalho. Essa é uma consequência dos famosos tempos modernos trazidos pela revolução industrial, êxodo rural e inchaço das grandes cidades. Trabalhamos visando à riqueza, ao lucro e ao acúmulo de bens, ao capital. Isso nos levou a não trabalharmos mais, mas a capitalizarmos, perdemos o sentido do trabalho que vinha acompanhado do pensamento e do prazer. Todavia, não só pelo motivo econômico de sobrevivência e subsistência, mas também pela ocupação terapêutica, pela “salvação” mesma que o trabalho nos propõe é que ele é tão indispensável nos dias atuais. Tira-nos da inércia e nos põe em atividade, em movimento.
É desse ponto de vista muito peculiar que o trabalho acaba sendo uma opção de vida continuada até mesmo para quem se aposenta e não quer, de jeito nenhum, cair na invalidez. Aposentar-se hoje aos 60 anos não é mais uma verdade, tampouco um sonho de muitos. Aposentar deixou de ser um ideal a perseguir.
Acostumados com uma pauta exaustiva, extenuante e até certo ponto corriqueira do trabalho não nos habituamos mais a um ritmo de vida estático e cômodo comparado ao das férias. Talvez isso se deva ao frenético ritmo de atividades que uma mesma pessoa pode desenvolver hoje no mundo do trabalho. Desempenhamos as mais variadas atividades, desde aquelas ligadas ao lar até às inúmeras outras ligadas ao comércio, à indústria, ao estudo e etc. É bem verdade que nos adaptamos a tudo, até mesmo ao mais duro dos muitos trabalhos, como é o caso do trabalhador rural e do trabalhador de construção civil; trabalhadores nos canaviais e pedreiros por exemplo. Estes, de sol a sol, o dia inteirinho, não largam seus instrumentos de trabalho porque precisam produzir ou render intensamente no labor que desempenham.
Não importa o trabalho ou as suas diferentes formas, todos eles são necessários para o desenvolvimento humano e cultural de um povo. O que é indispensável fazer, além de fabricar e criar com as mãos e outros membros do corpo, é arte com o trabalho. Trabalhar com arte é permitir-se ao novo, ao desconhecido, ao inusitado. Trabalhar é transcender à sua ordem do dia. Trabalhar é agradecer em meio ao deserto, fruto da irritabilidade, do cansaço e da falta de vocação para tal. Trabalhar é também comer o pão do suor de seu rosto. Trabalhar, tal como se ouve música ou como se faz teatro, encenando, representando, deixa de ser uma tragédia, um incômodo e passa a ser arte, algo muito agradável.
Para terminar, não se deslumbre muito com as férias, pois assim como se cansa do trabalho, cansa-se também das férias!

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva.
Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia e Especialista em Metafísica.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Vira-latas



Por Luiz Felipe Pondé.

O brasileiro tem complexo de vira-lata. Adora bancar o chique falando mal de si mesmo.

Principalmente quando alguém chique (leia-se, europeu) fala mal do Brasil. Um modo específico de nosso complexo de vira-lata é achar a Europa o máximo.

Quem conhece bem a Europa e ultrapassou a caipirice de achar tudo lindo por lá sabe que os europeus são (também) arrogantes, metidos, preconceituosos e exploradores e pensam, ainda hoje, que somos uns "índios" mal alimentados, ignorantes e mal-educados.

Claro que há exceções, portanto, não se faz necessário que europeus me escrevam jurando que são legais, ou que seus avós são legais, ou que seus cachorros são criados com todos os direitos humanos, mesmo porque, apesar de que isso não é sabido, ninguém pode ajuizar sobre sua própria virtude.

Lamento pela gente que se julga "crítica e consciente", mas todo mundo que se acha legal por definição é um mentiroso.

Se você for uma leitora que um dia mochilando pela Europa transou com um europeu (europeus costumam adorar brasileiras, porque acham nossas mulheres fáceis e doces, coisa rara nas mulheres europeias de hoje em dia, que a cada dia se tornam mais chatas, competitivas e estéreis), não confunda o papo que teve com ele antes do coito com o fato de que os europeus nos acham subdesenvolvidos. Inclusive porque para eles você é fácil porque é subdesenvolvida.

Sim, achar a Europa o máximo é coisa de gente caipira e brega. Se você pensa assim, tome um remédio. Ou minta.

Recentemente, um intelectual europeu em visita ao Brasil fez críticas ao país. Nada que não saibamos sobre nós mesmos. Mas, logo, alguns intelectuais e artistas vira-latas tiveram um orgasmo porque o "sinhozinho" falou mal das "zelites".

Sim, a elite brasileira pode ser bem brega na sua condição de elite de colônia. E horrorosa na sua ignorância "luxuosa". Aqui, ostentação é destino. Pessoas educadas sabem que a felicidade (seja lá no que for) deve ser guardada a sete chaves. Só gente brega "mostra" que é feliz. Neste caso, um toque de melancolia é elegância.

Por exemplo, o hábito de cultuar restaurantes pretensiosos como "de Primeiro Mundo" porque são caros é comum entre nós.

Dizer que você esteve em tal restaurante "caríssimo" (sempre pretensioso) é atestado de breguice. Mas julgar alguém "superinteligente" porque vem da Europa também é brega.

É fácil posar de "culto e crítico" e ficar horrorizado com nossas injustiças sociais quando se teve a chance de ganhar muito dinheiro ao longo da história à custa das injustiças sociais dos outros. Europeu que se faz de rogado pela injustiça no mundo só cola em vira-lata.

Por outro lado, se a riqueza cultural europeia é óbvia, e não se trata de negar este fato, ela se deve em grande parte às injustiças sociais europeias do passado e não ao seu "estado de bem-estar social" atual. Este tipo de "estado" produz apenas banalidades e monotonias de classe média.

Uma grande falácia é supor que injustiça social e riqueza cultural sejam excludentes, pelo contrário. Ou que justiça social produza necessariamente originalidade intelectual.

Não sou um "patriota", patriotismo é para canalhas. Calabar -que optou pelos holandeses em detrimento dos portugueses no Pernambuco colonial- pode ter razão. Falo aqui apenas de nosso complexo de vira-lata.

É muito comum que grandes intelectuais estrangeiros venham a nossa terra inculta e falem um "feijão com arroz" básico supondo que somos ignorantes mesmo e por isso não precisam suar a camisa diante de nossas plateias que sacodem seus ouros, exibem seus decotes e orelhas de livros.

Já vi isso acontecer várias vezes. Também no mundo acadêmico isso acontece, não só no mundo da filosofia de luxo.

Um grande professor que tive e que vive na Europa há anos me disse certa feita que até hoje os europeus não acreditam que "na volta das caravelas que colonizaram as Américas" pode haver algum "índio" que seja igual ou melhor do que eles.

A afetação moral em europeus não é muito diferente da afetação intelectual de nossos decotes de marca.

Boletim filosófico "o dia d" do S.E.R.

Como professor de Filosofia da rede pública estadual já há alguns anos, não abro mão das leituras que, com frequência, venho fazendo dos boletins semanais, editados pelo Centro de Filosofia Educação para o Pensar. Àqueles que ainda não conhecem o Boletim, vejam esta nova edição:

http://boletimodiad.blogspot.com/

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

De cara nova para 2012!

O blog, ao mesmo tempo que agradece os inúmeros acessos em 2011, dá também as boas vindas calorosas aos que caminharão conosco nesse novo ano. Com a ajuda preciosa dos serviços de Wendel Designers da cidade de Florânia, o blog umasreflexoes apresenta para 2012 sua mais nova face, a interface das reflexões que irão provocar e instigar os mais fortes instintos do pensamento humano, desde os temas ligados à cidadania até os afinados com a filosofia. Que 2012 nos traga uma explosão de renovação, não só nos pensamentos, mas sobretudo na vida, na política, na nossa cotidianidade.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

GENEROSIDADE


Cá estou eu novamente para grafar os últimos devaneios deste ano. “Um bom ano”. Lembram do filme que traz esse título!? Nele o autor leva o espectador a viajar do ritmo frenético dos negócios a uma pacata cidadezinha da França, cheia de vinhedos, com suas peculiaridades convencionais e muito provinciana. Da cidade à Província. Está aí uma bela passagem. Ou vice-versa. Uma das muitas passagens que podemos fazer: Da agitação à calmaria. O protagonista do filme consegue encontrar o seu destino onde menos esperava. Ao tomar conta dos negócios do vinhedo do tio numa pequena cidade, encontra-se pessoalmente e descobre o amor e a felicidade.
Para sair e fazer a passagem do “grande” ao “pequeno” sujeito, como diria Charles Chaplin, será preciso que a generosidade nos acompanhe em cada gesto. Dar um pouco do que é seu a outro revela uma parte sua antes desconhecida. Dar lugar à generosidade nesse fim de ano parece ser uma boa sugestão para quem, de fato, ainda pretende livrar-se de si mesmo e de suas vicissitudes egoístas e desonestas. A generosidade nos faz mergulhar maravilhosamente na mais pura vida, sem dinheiro e sem politicagem, e ir experimentar o quase nada dos outros. Passar do solitário ao solidário com as mãos e o coração cheios de amor e de atenção para dar.
Já se perguntou o que pode dar? Dar. Dar o quê? Dar algo além de presentes, dinheiro e uma boa mesa. O falso clichê de que “ninguém dá o que não tem” se confronta com a ideia de que algo se pode dar do que se é. Sim, pode-se dar o que se é. Não há nada que não possamos dar de nosso ser, uma vez que é próprio do ser dar, dar sempre mais. Quem nunca ouviu a frase: “Ninguém é tão necessitado que não tenha nada para dar e ninguém é tão suficiente que não tenha nada para receber”. Generoso ao dar, mas generoso também ao receber em todos os sentidos. Por exemplo: Há pessoas que são muito generosas para falar, mas pouco generosas para ouvir.
Não me refiro somente ao nada econômico, o mais desprezível de todos porque é o valor mais focado por todos, mas me refiro ao que quase ninguém liga mais, aos afetos, ao que é interno e que se encontra na linha do amor. Na estreita linha do amor estão os inexplicáveis atos de bondade e de generosidade tão próprios aos seres humanos, a tudo que é humano. É daí que vem, sim, a verdadeira generosidade.
Quantos não fecharam suas mãos, não só as mãos, mas fecharam o coração durante todo este ano! Portanto, é hora de abrir as mãos, o coração, a cabeça, os olhos, a vida para quem não pode abrí-los devido aos inúmeros impedimentos, a saber: fome, miséria, doença, desemprego, violência, corrupção, ganância e egoísmo. Romper a barreira de todos esses impedimentos é a graciosa sugestão da generosidade possível ao homem.
O mais engraçado da generosidade é que sem gratidão dificilmente poderá ser experimentada. A gratidão é a força da generosidade. Sem gratidão, a generosidade se transforma em vaidade. A honra da generosidade é um coração grato. Veja que, só com amor, a generosidade faz sentido. Para conservarmos a dignidade do ato de dar, é necessário reconhecermos nossa consciência, vontade e liberdade ao dar. Ser generoso é, antes de tudo, ser gracioso pelas muitas coisas que chegaram até nós sem esforço algum. Reconhecer que o calor do sol, a luminosidade da lua, a fonte dos rios, o movimento dos mares, a fertilidade da terra, o carinho dos animais, a bondade das pessoas, a beleza das florestas e o presente dos filhos não têm preço, é de graça que recebemos, na verdade, já são um esplendor de generosidade.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Especialista em Metafísica
Páginas na internet:

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A filosofia como “ensaio” do pensamento


Na introdução à obra História da Sexualidade II, Do Uso dos Prazeres, temos um texto bastante feliz de Michel Foucault sobre o que vem a ser, de fato, a filosofia. Um texto para ser lido, lido de novo e depois posto à admiração de todos que puderem se abrir ao maravilhoso exercício do pensamento. O que ele diz, do jeito que diz da filosofia é simplesmente novo e contemporâneo. Aliás, Foucault é um desses filósofos, cujo modo de dizer as coisas é praticamente atual, singular e resistente ao tempo. Consegue ser contemporâneo o tempo todo.
Se Foucault fez o seu “ensaio” filosófico como o fez Montaigne, Nietzsche e outros, por que não devamos fazer o mesmo a partir de nós? Vejamos o que é o “ensaio” filosófico de Foucault para aprendermos a lição de pensar o pensamento a partir do contemporâneo.

Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade – em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no máximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia – quero dizer, atividade filosófica – senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico, quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio” - que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma 'ascese', um exercício de si, no pensamento”(In FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II, Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1984, pág. 13).

Compilado por Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cante o Natal!

Talvez, poeta algum cantou tão bem o Natal quanto Manuel Bandeira! Ele o mostrou da maneira mais simples, cotidiana e humana, repleta de inocência tão próprias ao requinte e ao estilo de Bandeira. Cantemos com ele a pureza do Natal:


Penso no Natal. No teu Natal. Para a Bondade
A minhalma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade... A voz dos sinos... A cadência
Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida...
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal...


Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minhalma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos...
Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana  pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
Que Madalena viu nos olhos de Jesus...

O bobo filósofo de Clarice Lispector

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O pensador na poesia de Pessoa

O poeta Fernando Pessoa ao modo de Alberto Caeiro soube maravilhosamente se expressar como quer um filósofo, com admiração e perplexidade diante da novidade do mundo:
 "O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
      E o que vejo a cada momento
 É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
    E eu sei dar por isso muito bem...
         Sei ter o pasmo essencial
   Que tem uma criança se, ao nascer,
    Reparasse que nascera deveras...
    Sinto-me nascida a cada momento
    Para a eterna novidade do mundo."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O sentido do trabalho


(Arte: Diego Rivera)
Eis um bem necessário: Trabalhar. Não quando se está para entrar em férias, mas quando se está prestes a sair delas. As férias estão às portas, e está aí uma boa hora para se pensar um pouquinho no sentido que damos ao trabalho. Talvez vejamos melhor o trabalho longe dele ou fora dele. Muitos diriam até que é um mal necessário, no entanto, trabalhar acaba sendo um bem necessário, antes de tudo, porque é um valor insubstituível para a saúde de qualquer cidadão, bem como para a sua sustentabilidade.
É óbvio que, como qualquer outra coisa na vida, o trabalho também é uma falta quando da sua ausência circunstancial. Só se valoriza o estudo quando se deixa de estudar. Só se valoriza o amor quando se passa pelo deserto do desamor. Só se percebe a pessoa do lado até o momento em que ela passa a não estar lá. Assim também é com o trabalho. Sua falta é sentida a partir do momento que deixamos, por alguma razão, de trabalhar. Com as férias, ausência de trabalho, vem a monotonia, o tédio, o sedentarismo e todo tipo de males. Por isso, o trabalho acaba sendo uma das boas saídas para uma vida feliz, sobretudo quando o trabalho é a extensão da família que enriquece o convívio social.
As férias não devem ser encaradas como um tempo de morbidez sem fim, uma vez que são um período apenas de descanso e de recomposição das energias gastas num intenso tempo de trabalho. Sendo assim, nada mal que tenhamos um bom tempo livre para fazer muito do que se gosta, como por exemplo; terminar aquela leitura que ficou inacabada; caminhar com mais frequência para exercitar o corpo e manter o equilíbrio emocional; cuidar um pouco mais de si; dialogar com quem não se via há bastante tempo; visitar os amigos; viajar e respirar novos ambientes... Enfim, volta e meia precisamos tirar umas férias, até porque ninguém é de ferro. Sair das rotinas e se desgarrar dos enfados do trabalho maçante e burocrático, de atividades repetitivas por isso estressantes, nos fazem muito bem.
Não há dúvidas de que a nossa natureza humana reclama descanso, paz e um pouco mais de humor, porém há que se ressaltar, nisso tudo, um certo limite de empolgação para com as férias, até porque quanto mais nos acostumamos com elas e com o lazer, mais e mais nos percebemos que somos homens do trabalho, seres que não vivem mais sem trabalho. Essa é uma consequência dos famosos tempos modernos trazidos pela revolução industrial, êxodo rural e inchaço das grandes cidades. Trabalhamos visando à riqueza, ao lucro e ao acúmulo de bens, ao capital. Isso nos levou a não trabalharmos mais, mas a capitalizarmos, perdemos o sentido do trabalho que vinha acompanhado do pensamento e do prazer. Todavia, não só pelo motivo econômico de sobrevivência e subsistência, mas também pela ocupação terapêutica, pela “salvação” mesma que o trabalho nos propõe é que ele é tão indispensável nos dias atuais. Tira-nos da inércia e nos põe em atividade, em movimento.
É desse ponto de vista muito peculiar que o trabalho acaba sendo uma opção de vida continuada até mesmo para quem se aposenta e não quer, de jeito nenhum, cair na invalidez. Aposentar-se hoje aos 60 anos não é mais uma verdade, tampouco um sonho de muitos. Aposentar deixou de ser um ideal a perseguir.
Acostumados com uma pauta exaustiva, extenuante e até certo ponto corriqueira do trabalho não nos habituamos mais a um ritmo de vida estático e cômodo comparado ao das férias. Talvez isso se deva ao frenético ritmo de atividades que uma mesma pessoa pode desenvolver hoje no mundo do trabalho. Desempenhamos as mais variadas atividades, desde aquelas ligadas ao lar até às inúmeras outras ligadas ao comércio, à indústria, ao estudo e etc. É bem verdade que nos adaptamos a tudo, até mesmo ao mais duro dos muitos trabalhos, como é o caso do trabalhador rural e do trabalhador de construção civil; trabalhadores nos canaviais e pedreiros por exemplo. Estes, de sol a sol, o dia inteirinho, não largam seus instrumentos de trabalho porque precisam produzir ou render intensamente no labor que desempenham.
Não importa o trabalho ou as suas diferentes formas, todos eles são necessários para o desenvolvimento humano e cultural de um povo. O que é indispensável fazer, além de fabricar e criar com as mãos e outros membros do corpo, é arte com o trabalho. Trabalhar com arte é permitir-se ao novo, ao desconhecido, ao inusitado. Trabalhar é transcender à sua ordem do dia. Trabalhar é agradecer em meio ao deserto, fruto da irritabilidade, do cansaço e da falta de vocação para tal. Trabalhar é também comer o pão do suor de seu rosto. Trabalhar, tal como se ouve música ou como se faz teatro, encenando, representando, deixa de ser uma tragédia, um incômodo e passa a ser arte, algo muito agradável.
Para terminar, não se deslumbre muito com as férias, pois assim como se cansa do trabalho, cansa-se também das férias!

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva.
Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia e Especialista em Metafísica.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Vira-latas



Por Luiz Felipe Pondé.

O brasileiro tem complexo de vira-lata. Adora bancar o chique falando mal de si mesmo.

Principalmente quando alguém chique (leia-se, europeu) fala mal do Brasil. Um modo específico de nosso complexo de vira-lata é achar a Europa o máximo.

Quem conhece bem a Europa e ultrapassou a caipirice de achar tudo lindo por lá sabe que os europeus são (também) arrogantes, metidos, preconceituosos e exploradores e pensam, ainda hoje, que somos uns "índios" mal alimentados, ignorantes e mal-educados.

Claro que há exceções, portanto, não se faz necessário que europeus me escrevam jurando que são legais, ou que seus avós são legais, ou que seus cachorros são criados com todos os direitos humanos, mesmo porque, apesar de que isso não é sabido, ninguém pode ajuizar sobre sua própria virtude.

Lamento pela gente que se julga "crítica e consciente", mas todo mundo que se acha legal por definição é um mentiroso.

Se você for uma leitora que um dia mochilando pela Europa transou com um europeu (europeus costumam adorar brasileiras, porque acham nossas mulheres fáceis e doces, coisa rara nas mulheres europeias de hoje em dia, que a cada dia se tornam mais chatas, competitivas e estéreis), não confunda o papo que teve com ele antes do coito com o fato de que os europeus nos acham subdesenvolvidos. Inclusive porque para eles você é fácil porque é subdesenvolvida.

Sim, achar a Europa o máximo é coisa de gente caipira e brega. Se você pensa assim, tome um remédio. Ou minta.

Recentemente, um intelectual europeu em visita ao Brasil fez críticas ao país. Nada que não saibamos sobre nós mesmos. Mas, logo, alguns intelectuais e artistas vira-latas tiveram um orgasmo porque o "sinhozinho" falou mal das "zelites".

Sim, a elite brasileira pode ser bem brega na sua condição de elite de colônia. E horrorosa na sua ignorância "luxuosa". Aqui, ostentação é destino. Pessoas educadas sabem que a felicidade (seja lá no que for) deve ser guardada a sete chaves. Só gente brega "mostra" que é feliz. Neste caso, um toque de melancolia é elegância.

Por exemplo, o hábito de cultuar restaurantes pretensiosos como "de Primeiro Mundo" porque são caros é comum entre nós.

Dizer que você esteve em tal restaurante "caríssimo" (sempre pretensioso) é atestado de breguice. Mas julgar alguém "superinteligente" porque vem da Europa também é brega.

É fácil posar de "culto e crítico" e ficar horrorizado com nossas injustiças sociais quando se teve a chance de ganhar muito dinheiro ao longo da história à custa das injustiças sociais dos outros. Europeu que se faz de rogado pela injustiça no mundo só cola em vira-lata.

Por outro lado, se a riqueza cultural europeia é óbvia, e não se trata de negar este fato, ela se deve em grande parte às injustiças sociais europeias do passado e não ao seu "estado de bem-estar social" atual. Este tipo de "estado" produz apenas banalidades e monotonias de classe média.

Uma grande falácia é supor que injustiça social e riqueza cultural sejam excludentes, pelo contrário. Ou que justiça social produza necessariamente originalidade intelectual.

Não sou um "patriota", patriotismo é para canalhas. Calabar -que optou pelos holandeses em detrimento dos portugueses no Pernambuco colonial- pode ter razão. Falo aqui apenas de nosso complexo de vira-lata.

É muito comum que grandes intelectuais estrangeiros venham a nossa terra inculta e falem um "feijão com arroz" básico supondo que somos ignorantes mesmo e por isso não precisam suar a camisa diante de nossas plateias que sacodem seus ouros, exibem seus decotes e orelhas de livros.

Já vi isso acontecer várias vezes. Também no mundo acadêmico isso acontece, não só no mundo da filosofia de luxo.

Um grande professor que tive e que vive na Europa há anos me disse certa feita que até hoje os europeus não acreditam que "na volta das caravelas que colonizaram as Américas" pode haver algum "índio" que seja igual ou melhor do que eles.

A afetação moral em europeus não é muito diferente da afetação intelectual de nossos decotes de marca.

Boletim filosófico "o dia d" do S.E.R.

Como professor de Filosofia da rede pública estadual já há alguns anos, não abro mão das leituras que, com frequência, venho fazendo dos boletins semanais, editados pelo Centro de Filosofia Educação para o Pensar. Àqueles que ainda não conhecem o Boletim, vejam esta nova edição:

http://boletimodiad.blogspot.com/

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